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Batata Séries – Jornada Nas Estrelas Discovery (Temporada 1, Episódio 15) Você Pegará A Minha Mão? Desfecho Melancólico.

                              Deixa a Burnham para lá…

E finalmente a primeira temporada de “Jornada nas Estrelas Discovery” terminou. Infelizmente, isso ocorreu de uma forma simplesmente lamentável. Poucas vezes me senti tão desrespeitado como espectador. Não sei se quem escreveu esse episódio (os produtores que eu prefiro nem citar aqui) o fez por preguiça ou por fazer pouco caso da inteligência do público mesmo. Nunca tinha visto um final de temporada tão mal elaborado, com uma solução de guerra tão rápida e falsa. Fico imaginando a pessoa que gostava dos roteiros mais consistentes das séries de Jornada nas Estrelas do passado que teve que assinar o CBS All Acess nos Estados Unidos somente para ver a série. Dinheiro jogado fora? Talvez. Esperança de que a série vá melhorar a partir da segunda temporada como já aconteceu com outras séries de Jornada nas Estrelas? Talvez. Mas a sensação que essa primeira temporada nos dá é de derrota, de terra arrasada, com alguns lampejos de coisas boas.

Qual foi o problema do último episódio afinal? Ele até começou bem, com alguns arranca-rabos entre a Imperatriz, Saru e Burnham, mas o duelo de retórica parou ali no início. O diálogo em que Saru, com sarcasmo, se declarava “intragável” para a Imperatriz poderia ter sido mais bem explorado e desenvolvido. Agora, colocar o interior de Qo’nos como uma região de baixo meretrício para escravas (e escravos) de Órion foi um dos fan services mais tortos que vi na vida. Uma coisa totalmente fora de propósito, sem qualquer significado. Ou somente um pretexto para botar umas bundas verdes na tela? E o tão sonhado momento da batalha final entre Federação e klingons? Negativo, caro leitor. Nem uma mísera navezinha atirando em outra. A solução (para uma série mal escrita em formato de quinze episódios) foi… simplesmente usar uma bomba armada pela Imperatriz que destruiria todo o planeta, que a correta e valente Burnham não aceitou usar, pois não eram esses “os princípios da Federação”, ao que a Imperatriz respondeu “tá legal, toma o detonador aqui” e saiu pela porta dos fundos. Aí, dá-se o tal detonador para L’Rell e, sob a ameaça de destruir o planeta, ela consegue unificar todas as vinte e quatro casas, dominar o Império klingon e acabar com a guerra (ninguém pode tirar esse detonador da mão dela não???)… Pois é, se isso não estivesse registrado lá no streaming, o leitor poderia dizer que eu estava tirando uma com a cara dele. Mas essa foi a solução de uma guerra onde a Federação estava praticamente derrotada. A coisa beira ao deprimente e ridículo. E digo isso respeitando um padrão Discovery de qualidade, o que já não é lá grande coisa. Mas aqui o nível ficou mais abaixo ainda do que isso. A partir daí, o episódio ficou recheado dos monólogos de Burnham sobre o que é a Federação e seu espírito, algo que foi desrespeitado em toda a temporada, com influência de Lorca ou não. A tripulação da Discovery recebendo medalhinhas, que também deviam ser dadas ao público, que aguentou vários episódios mal escritos. A coisa já caminhava para o final com uma tremenda cara de anticlímax, quando alguém teve a brilhante ideia de fazer um fan service e colocar a Enterprise do capitão Pike somente para despistar as pessoas da droga do roteiro que foi escrito de forma lamentável. Ou seja, uma Entreprise CGI usada como um tremendo engana trouxa. Confesso que chega a ser ofensiva a forma como o espectador, trekker ou não, está sendo tratado aqui.

                                                Saru será capitão???

Ah sim, não podemos nos esquecer de Tyler, que se curou de sua dor de cotovelo rapidinho com relação à Burnham quando se animou a jogar umas partidinhas de cassino com os poucos klingons que habitam Qo’nos (uns três, ao todo). Logo, logo, Voq baixou nele e Burnham ficou com aquela cara de pastel da namorada que é trocada por uma partidinha de futebol com os amigos aos domingos. E depois, nosso Tyler ainda vai ajudar L’Rell a governar o Império klingon, sendo uma heroica ponte entre os klingons e a Federação… Tudo muito rapidinho, sem conflitos, resolvido em pouquíssimos diálogos e sem qualquer arrependimento por parte de Tyler, num contraste total com o que a gente viu no episódio anterior. Ou seja, Discovery não apresenta consistência nem entre seus próprios episódios. Uma tristeza.

Por incrível que pareça, uma das poucas coisas que funcionaram bem nesse último episódio foi justamente a Tilly, onde assumiu-se a personagem totalmente como alívio cômico, sendo esse talvez o melhor caminho para a personagem, ao invés de colocá-la para fazer aquelas falas constrangedoras sem qualquer sentido. Mas isso é muito pouco para compensar o desastre geral desse episódio.

Com o fim da temporada, fica a dúvida: tudo isso foi escrito previamente ou, com a gravação dos episódios, as histórias foram tomando rumos diferentes? Alguns produtores (como Ted Sullivan) juram de pés juntos que várias coisas foram pré-concebidas. Mas a gente também tem informações na internet de que as histórias sofreram alguns ajustes, à medida que a temporada ia sendo gravada. Bom, a gente chega à conclusão de que, se tudo foi escrito previamente, foi o clássico caso do “Pau que nasce torto, morre torto”. E, pelo contrário, se as histórias foram sofrendo ajustes, parece que a coisa foi feita tão nas coxas que perdeu-se meio que a mão. Definitivamente, o melhor arco foi o do Universo Espelho. Mas creio que esse formato de temporada mais curta e rápida não pode ser tão fragmentado em sub-arcos, o que provoca uma dispersão de todo o contexto. Que se houvesse sido feito um arco de quinze episódios, tipo novelão mesmo, somente sobre a guerra com os klingons, ou somente com o Universo Espelho, Mudd, tardígrado ou outro qualquer assunto.

                                                  CGI engana trouxa…

Pelo menos, muitas pontas ficaram soltas (aposta de que já haveria uma segunda temporada? Aposta muito arriscada, a meu ver). O que acontecerá com os malditos esporos? Lorca Prime aparecerá? Saru deixará de ser apenas o capitão interino e assumirá o comando da Discovery de vez? Burnham será menos chata e trouxa, tendo um protagonismo, digamos, um pouco mais digno? A Federação se comportará como Federação? Os personagens da ponte terão maior participação? A tripulação será menos neurótica? Stamets vai ter um novo namorado? Os klingons farão cirurgia plástica e sessões de fonoaudiologia? E, principalmente, qual será o arco principal da série? Exploração espacial? Guerra de novo? Só torço para o seguinte: que os roteiristas analisem o que produziram, vejam seus erros e acertos, e aprendam também com os erros e acertos de séries passadas. Deep Space Nine, por exemplo, por seu teor altamente distópico, era visto como inicialmente um tanto violador do cânone, teve as temporadas iniciais um tanto fracas, mas depois virou um sucesso, pois os roteiristas se empenharam em fazer uma história – a Guerra do Dominium – bem escrita e acabada. A primeira temporada de Nova Geração foi um saco, com um Capitão Picard rabugento toda a vida, mas depois a coisa melhorou. Enterprise foi cancelada, mas foi bem no arco Xindi (confesso que gosto) e melhor ainda na quarta e última temporada. Só a Voyager que eu considero mais fraquinha, mas mesmo assim não tinha histórias tão fracas quanto as que vimos em Discovery. A gente espera que a nova temporada se inspire nesses exemplos. Pois o verdadeiro trekker não quer ver Discovery naufragar, pelo contrário, pois seu sucesso garante a manutenção da franquia ao longo do tempo. Entretanto, a coisa tem que ter um mínimo de qualidade, pois caso contrário, não vale a pena ter uma série com o nome de Jornada nas Estrelas somente pelo seu nome. Que se use outro título então e se decrete que aquele espírito de séries passadas de Jornada nas Estrelas não é mais possível para o público de hoje.

Bom, é isso. Fica agora a esperança de que a segunda temporada seja feita por mentes, digamos, mais iluminadas. Vida longa e próspera a todos!!!

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Batata Movies (Especial Oscar 2018) – Eu, Tonya. A Vida Que Imita O Surreal.

                              Cartaz do Filme

Em mais um dos filmes que estão indicados ao Oscar, falemos hoje de “Eu, Tonya”, que concorre a três estatuetas (Melhor Atriz para Margot Robbie, Melhor Atriz Coadjuvante para Allison Janney e Melhor Montagem). Esse filme fala da vida da patinadora no gelo Tonya Harding, que ficou marcada por ter sido acusada de mandar agredir sua adversária, Nancy Kerrigan, com um golpe de barra de ferro no joelho, com o objetivo de tirá-la do caminho numa competição olímpica. O caso ganhou muita repercussão na época (o ano era 1994) e todo o mundo ficou com os olhos grudados na TV durante a competição de patinação dos jogos olímpicos de inverno daquele ano. Ao fim das contas, nenhuma das duas ganhou a medalha de ouro.

Tonya Harding. Vida marcada pelo tragicômico…

Mas, e o filme? Bom, ao contar a vida de Tonya Harding, se escolheu a forma de mostrar isso em entrevistas. É dito no início do filme que ele se baseou em entrevistas e a gente via todo o desenrolar da história alternado com trechos em que os atores, travestidos de seus personagens, davam depoimentos diante das câmaras como se estivessem sendo entrevistados. Assim, tivemos aqui uma coisa muito curiosa: pudemos ver as versões de cada um sobre fatos ocorridos, onde isso foi mais explorado com Tonya Harding (magistralmente interpretada por Margot Robbie, nossa amada Arlequina do Esquadrão Suicida) e seu ex-marido, Jeff Gillooly (interpretado por Sebastian Stan, nosso Soldado Invernal; Marvel e DC em harmonia por aqui?). Cada um dava a sua versão sobre as muitas agressões físicas mútuas que aconteciam entre os dois, deixando o espectador um pouco confuso sobre o que acontecia (é, pelo visto a Marvel e a DC não estavam tão em harmonia, afinal). Parece que o filme quer que o espectador tire suas próprias conclusões sobre a vida extremamente turbulenta dos dois. Falando nisso, temos aqui uma história de vida cheia de percalços, com pessoas padecendo de violentos problemas emocionais e de relacionamento, com o filme querendo dar um tom de comédia em vidas, digamos, tão trágicas. Confesso que a comédia funciona em alguns momentos, mas em outros a gente tem uma situação completamente sem graça. O relacionamento entre Tonya e sua mãe, LaVona (interpretada de forma simplesmente sensacional por Allison Janney) era algo triste de se ver e não foi à toa que a moça ficou com aquele comportamento, digamos, um tanto agressivo. Eu devo dizer que não consigo ver muita graça nisso. De qualquer forma, alguns momentos de comédia vêm na chamada quebra da quarta parede, quando o personagem se dirige ao público da sala, às vezes de forma agressiva até. Isso acontece muito nas entrevistas, mas também no desenrolar da história em si. Esse é um filme que tem o claro objetivo de provocar o espectador.

                             Allison Janney em atuação magistral…

Se a história de vida da protagonista é encarada pela película como uma espécie de tragicomédia, podemos dizer também que essa história de vida tem lances para lá de surreais, sobretudo no caso da agressão a Nancy Kerrigan, onde optou-se por ouvir as versões de Tonya e de seu marido, e jogou-se a responsabilidade nos amigos para lá de idiotas do casal. Seria essa a versão verdadeira dos fatos? Bom, o filme teve que optar por uma versão. E aí…

Um casal altamente turbulento, cada um com sua versão dos fatos…

Esse é um filme que justifica em toda a sua plenitude as indicações às quais recebeu. A montagem do filme esteve espetacular, sobretudo nas sequências das competições de patinação de Tonya, onde era explicado, meio que de forma didática para os leigos, a importância de todas aquelas piruetas que ela dava. Mas esse é um filme de atuações. Margot Robbie fez jus à indicação de melhor atriz, pois conseguiu humanizar um personagem real que foi demonizado por todos, além de mostrar o seu lado badass. Agora, será uma injustiça tremenda se Allison Janney não ganhar a estatueta de atriz coadjuvante (e eu falo isso ainda sem ter visto o trabalho das demais candidatas). Sua atuação engoliu todas as demais do filme, e isso com uma personagem de uma característica só, extremamente odiosa, mas beirando o cômico em algumas ocasiões.  Sebastian Stan também esteve bem, mas a anos-luz de Robbie e Janney.

                      Boa caracterização da personagem principal…

Outra virtude do filme foi mostrar cenas reais de arquivo dos personagens principais nos créditos finais. Sempre acho isso muito legal em filmes baseados em histórias reais, principalmente nesse, que brinca com essa expressão em alguns momentos.

Reconstituindo o problema na apresentação de Tonya nos jogos olímpicos de 1994…

Assim, “Eu, Tonya” é mais um filmaço que está em circuito e que concorre ao Oscar este ano. Vale muito pelas atuações de suas atrizes e de como o real pode ser muito surreal às vezes. Programa imperdível.

Batata Movies (Especial Oscar 2018) – Victoria E Abdul, O Confidente Da Rainha. Estranhando O Colonizador.

                             Cartaz do Filme

Mais um bom filme passou em nossas telonas. “Victoria e Abdul, O Confidente da Rainha”, que foi nomeado para um Globo de Ouro (melhor atriz de comédia ou musical para Judi Dench), e foi indicado a dois Oscars esse ano (maquiagem e figurino). Ele vai abordar (parcialmente, como é dito no início do filme) uma relação que foi descoberta somente em 2010 entre a Rainha Vitória da Inglaterra e Abdul Karim, um indiano que, pelos caminhos da vida, ficou muito próximo da rainha, o que provocou um tremendo mal-estar entre os que a cortejavam. À medida em que Victoria e Abdul se aproximavam, a rainha ficava cada vez mais interessada pela cultura local indiana, o que provocava a fúria dos ingleses que achavam tudo aquilo um tanto primitivo.

                                             Uma grande amizade…

Entretanto, o filme não se reduz à um estranhamento do colonizador sobre o colonizado. O inverso também ocorre, e Abdul questiona a forma de vida inglesa e europeia, sendo que ele tem um amigo, Mohammed, que vê com total repúdio o colonizador inglês e tudo o que ele quer é voltar para a sua terra natal, algo que fica cada vez mais difícil, à medida que Victoria e Abdul se aproximam mais e mais.

      … que incomodava os petulantes ingleses…

Não é preciso dizer como a diva Judi Dench deu um show de interpretação. Ela é uma atriz simplesmente sensacional, sendo forte como uma rainha já muito idosa, sensível como uma senhora desiludida com a sua família, e muito terna com o seu confidente, sempre nos momentos certos. Ali Fazal foi uma gratíssima surpresa. Sua beleza não lhe deu uma pecha de arrogância, muito pelo contrário, pois vimos uma interpretação muito carismática e simpática, digna de contracenar com Dench.

                                     Os verdadeiros Victoria e Abdul…

O filme ainda se caracteriza por lançar mão de belas locações e figurinos, sendo a indicação ao Oscar nesse quesito mais do que justa e uma atração à parte na película.

Assim, “Victoria e Abdul” é mais um daqueles filmes que se amparam totalmente na interpretação de seus atores, aqui principalmente no casal protagonista. Suas virtudes estão na revelação de uma história até pouco tempo desconhecida, na química entre Dench e Fazal e nas belas locações e figurinos. Vale a pena dar uma conferida em DVD.

Batata Movies – Sem Fôlego. Cumprindo O Que Promete.

Cartaz do Filme

Mais um bom filme esse ano. “Sem Fôlego”, dirigido por Todd Haynes (de “Carol”) é uma daquelas películas que tocam no fundo do coração da gente e que trabalha, de forma muito eficiente, uma boa combinação de ideias. Tudo isso com um roteiro bem elaborado e uma soberba montagem. Confesso que não tinha muitas informações sobre esse filme (não li qualquer sinopse ou crítica) e o trailer não dava muitas pistas do que ia acontecer. Talvez por isso o filme tenha superado qualquer expectativa da minha parte.

Duas crianças numa mesma viagem, separadas por cinquenta anos…

O filme se desenrola em duas histórias paralelas. Uma se passa no ano de 1927 e a outra se passa no ano de 1977. Ambas as histórias são protagonizadas por duas crianças que sofrem de surdez. E, em ambas as histórias, as crianças fogem de sua realidade em busca de algo. Em 1927, temos uma menina, Rose (interpretada pela fofíssima Millicent Simmonds) que é surda, mora numa rica casa protegida por uma redoma em função de seu problema físico, e quer ver a mãe, uma famosa atriz de cinema mudo, Lilian Mayhew (interpretada por Julianne Moore); Mayhew não é o nome do ator que interpreta Chewbacca? Bom, continuando a história, nossa pequenina Rose vai escapar da gaiola de ouro que é a sua casa para descobrir a vida em Nova York. O mesmo vai acontecer cinquenta anos depois com Ben (interpretado por Oakes Fingley), um menino que nunca soube o paradeiro do pai e que perdeu a mãe num acidente. Ele acaba ficando surdo depois que tomou uma descarga elétrica no ouvido ao falar no telefone durante uma tempestade. Ele também foge (nesse caso, do hospital) e vai parar em Nova York, mais especificamente no Queens, onde vai procurar o pai. Essas duas histórias, que têm um intervalo de tempo de cinquenta anos, vão se interligar numa hora, tendo como ponto nodal o Museu de História Natural de Nova York.

Chegando à Nova York…

A grande sacação do filme aqui foi transformar a película em alguns momentos num filme mudo, até porque os atores mirins protagonistas eram surdos. Assim, a história de Rose em 1927, rodada em preto e branco, era um autêntico filme mudo, com todas as características que esse tipo de película tem: a interpretação fortemente baseada no gestual (a verdadeira linguagem cinematográfica está, acima de tudo, nas imagens), o uso de um efeito sonoro de uma música executada paralelamente à ação, etc. O fato de Moore ser uma atriz de cinema mudo no filme acabou mostrando que essa foi uma boa escolha, pois como ela tem olhos grandes, seu rosto cumpria bem os requisitos da proporção dois para um entre olhos e boca. Talvez Moore seja hoje em dia a pessoa mais adequada para um papel de atriz de cinema mudo. Mas a história de Ben também teve seus lances silenciosos embora tenha sido mais aplicada a linguagem do cinema falado aqui.

Procurando o pai…

Confesso que essa homenagem ao cinema mudo foi o grande ponto positivo do filme, até porque sou suspeito para falar, já que sou um amante inveterado das películas silenciosas. De qualquer forma, outro grande mérito do filme é a genial reconstituição de época, tanto para 1927 quanto para 1977, organizada por Haynes, algo realmente de se tirar o fôlego. Ainda, devemos dar um destaque todo especial à parte musical, com direito a uma versão em coro infantil de “Space Oddity”, de David Bowie, e a versão do músico brasileiro Eumir Deodato para “Assim Falou Zarathustra”, de Richard. Strauss.

Conhecendo novas pessoas…

Assim, “Sem Fôlego” é um filme todo especial, com um quê todo lúdico, sendo uma bela homenagem ao cinema mudo. Vale muito a pena assistir a essa película e é muito lamentável que ela não tenha recebido qualquer indicação ao Oscar, sendo muito digna de ser prestigiada.

 

Batata Antiqualhas – Spock e Leonard. Dualidade que se Completa (Parte 14)

Kruge, magistralmente interpretado por Christopher Lloyd…

Mesmo com os protestos dos fãs por causa da morte de Spock, “A Ira de Khan” teve a maior arrecadação de bilheteria num fim de semana em sua época. Semanas depois do fim das filmagens, Nimoy assistiu ao filme na cabine de projeção de um cinema, uma experiência muito ruim, pois o ator se sentiu parcialmente culpado pela morte do personagem. Ele até pensou em sair da cabine antes do fim da exibição, mas ficou com medo de ser mal interpretado por público e imprensa, de pensarem que ele não gostou do filme. Ele estava com lágrimas nos olhos. Entretanto, a cena final, com o torpedo contendo o corpo de Spock na superfície do planeta Gênese fez Nimoy ter a certeza de que seria chamado pela Paramount para mais uma continuação, já que “A Ira de Khan” deixou elementos para isso. Essa sequência final do planeta Gênese não constava do roteiro original, mas foi acrescentada, pois nas exibições-teste do filme, a reação do público foi muito sombria ao final original. Com a sequência final de Gênese adicionada, o final seria um pouco mais esperançoso.

Edward James Olmos foi o primeiro nome cogitado para Kruge

Apesar da esperança de voltar a atuar em “Jornada nas Estrelas”, Nimoy não sabia ao certo se queria fazer isso novamente. Dinheiro para ele já não era mais problema. Veio então a ideia de dirigir o filme, algo que Nimoy e Shatner já haviam tentado fazer na segunda temporada da série clássica, só que foi prontamente negado a eles. Ao se reunir com Gary Nardino, da Paramount, Nimoy sugeriu pegar a direção já que conhecia a fundo “Jornada nas Estrelas”. Para sua surpresa, Nardino aceitou sem titubear. Nimoy saiu da reunião surpreso, achando que tudo fora muito fácil. Harve Bennett já havia oferecido a Nimoy a direção de uma série de tv chamada “The Powers of Matthew Starr”, quase na mesma época de “A Ira de Khan”, o que lhe deu experiência e segurança suficientes para atuar na direção em “Jornada nas Estrelas 3”.

                        Robin Curtis como Saavik

Duas semanas depois, Nimoy voltou a sugerir pegar a direção do filme a um alto executivo da Paramount, Michael Eisner. Nardino nada havia dito a esse grande executivo sobre a direção, deixando a batata quente para Nimoy, pois Nardino não queria se indispor com Eisner, seu chefe, se ele não concordasse com a direção a Nimoy. Nosso ator fez a sugestão a Eisner e, para a sua surpresa, também recebeu uma resposta afirmativa. Nimoy estava nas alturas. Mas era bom demais para ser verdade. Várias semanas se passaram e Eisner não retomou os contatos com Nimoy. Nosso ator então fez uma ligação para Eisner e escutou do executivo que não poderia lhe dar a direção do filme, já que Nimoy odiava Spock e “Jornada nas Estrelas”. Segundo o executivo, Nimoy teria colocado no seu contrato de “A Ira de Khan” que Spock deveria  morrer. Era o fantasma de “Eu não sou Spock” retornando com força total. Nimoy imediatamente desfez o mal-entendido dizendo que essa exigência de matar Spock não constava de seu contrato, além de ter contado também sobre toda a má impressão causada por “Eu não sou Spock”. Foi assim que Nimoy conseguiu a direção do filme.

Ao começar a discutir o roteiro, Nimoy e Bennett decidiram inicialmente que a “ressurreição” de Spock ocorreria próxima ao fim do filme para manter um suspense contínuo. Obviamente, o “lembre-se” do elo mental de Spock a McCoy também seria usado. Mais tarde, surgiram outras ideias: a rápida evolução de Gênese e a proibição do acesso ao planeta, a presença do “katra” de Spock em McCoy, os klingons querendo o torpedo Gênese. Originalmente, os romulanos seriam os vilões da história, segundo as pretensões de Bennett. Mas Nimoy sempre teve muita curiosidade e interesse sobre os klingons, sugerindo a troca, no que foi prontamente aceito. A indignação de Sarek por Kirk não ter levado o katra de Spock a Vulcano foi mais um elemento adicionado ao roteiro, que ganhava cada vez mais forma. Assim, Kirk deveria levar o corpo de Spock e McCoy para Vulcano a fim de fazer a ressurreição. Mas a proibição de ir a Gênese imposta pela Federação e os klingons seriam os obstáculos a serem superados. Nimoy também pensou num tema chave para o filme. Em “A Ira de Khan”, o tema era “As necessidades de muitos superam as de poucos ou a de apenas um”.  Agora, seria justamente o contrário. A lealdade e amizade por um amigo levariam muitos ao sacrifício, como em “Henrique V”, de Shakespeare, nas palavras de Nimoy. Assim, cada membro da tripulação teria uma tarefa específica na missão de trazer Spock de volta. Aqui, Nimoy acha que foi influenciado por “Missão Impossível”, onde os personagens tinham missões específicas em cada episódio para chegar ao objetivo da missão maior. O detalhe mais interessante é que isso não aconteceu especificamente com Chekov. Mas isso seria compensado em “Jornada nas Estrelas 4”.

Dame Judith Anderson foi escolhida para a sacerdotisa que traz o katra de Spock de volta ao seu corpo

Houve um problema para a escolha do elenco. Kirstie Alley quis um salário maior, pois havia sido mal paga em “A Ira de Khan”. Mas o valor do salário que ela queria era maior que o de De Forest Kelley, o que foi impossível. Assim, Robin Curtis foi escolhida para o papel de Saavik. Para o comandante klingon, Nimoy achou que Edward James Olmos, que trabalhou em “Blade Runner”, “Miami Vice” (o inesquecível tenente Castillo) e na nova versão de “Galáctica” (general Adama) era perfeito para o papel. Mas Bennett discordou. Até que Christopher Lloyd manifestou o desejo de fazer o papel. Alguns executivos do estúdio temeram por isso, já que Lloyd era conhecido por fazer comédias. Mas tanto Nimoy quanto Bennett tinham certeza de que o doutor Emmett Brown de “De Volta Para o Futuro” era um excelente ator e um camaleão, sendo perfeito para o papel do comandante Kruge. Para a sacerdotisa T’Lar, Spock tinha a lembrança de Celia Lovsky em “Tempo de Loucura”, na série clássica. Mas Lovsky já havia morrido e então Nimoy descobriu uma atriz de 85 anos interpretando “Medeia”, que muito o impressionou: Dame Judith Anderson. Ela não conhecia “Jornada nas Estrelas”, mas seu neto era um fã devotado. Além disso, a atriz e Nimoy se entenderam muito bem e ela adorou o roteiro.

No próximo artigo, vamos falar das filmagens de “A Procura de Spock”. Até lá!

    Nimoy na direção de Jornada nas Estrelas III, À Procura de Spock

Batata Movies (Especial Oscar 2018) – Visages Villages. Memória E Identidade.

               Cartaz do Filme

Dando sequência às nossas análises sobre filmes indicados ao Oscar 2018, vamos falar hoje do excelente documentário “Visages Villages”, de Agnes Varda e do artista (muralista e fotógrafo) JR, que justamente concorre à estatueta de melhor documentário. A grande dama da nouvelle vague e esse jovem artista francês irão viajar pela França em busca de pequenas localidades e povoados, munidos de um caminhão que é uma espécie de câmara fotográfica gigante. Existe nele uma cabine onde as pessoas posam para fotos que são tiradas e que, segundos depois, são impressas em tamanho gigante em papel. Essas fotos são usadas depois para serem feitos enormes murais em prédios e habitações dos povoados que eles visitam.

                                   Varda e JR

Essa brilhante ideia, do ponto de vista artístico, também é sensacional do ponto de vista da preservação da memória e identidade locais, trabalhando a autoestima da população.

          Uma moradora em heroica resistência…

É comovente ver pessoas simples, anônimas, retratadas em tamanho gigante nas paredes das casas e pequenos prédios. Tivemos casos muito legais, como o da vila de mineiros que está praticamente abandonada e que tem ainda uma moradora. Lá, fotos antigas dos mineiros foram reproduzidas nas fachadas das casas, assim como da última moradora que ainda resiste, o que levou esta às lágrimas.

                  Uma garçonete na fachada…

O mesmo foi feito com trabalhadores de uma indústria química, uma moça que trabalhava como garçonete num vilarejo, um fazendeiro com sua imagem registrada no seu celeiro e até o próprio carteiro de Varda, ornando a fachada de um prédio. Varda e JR também não escaparam de serem retratados e pudemos ver, por exemplo, os dedos do pé e os olhos da diretora ornando vagões de trem. Aliás, um outro momento divertido do filme foi a relação entre Varda e JR, onde a diferença de idade ditou as regras. Havia momentos muito ternos entre os dois, mas também havia momentos um tanto tensos. Foi hilário ver Varda pedindo a JR que tirasse seus óculos escuros que ele usava permanentemente, algo que o artista se negava terminantemente, da mesma forma que Godard o fizera para Varda décadas antes. Godard não é somente citado nessa parte do filme e uma referência a ele surgirá mais ao final. Mas, chega de spoilers!

              Abbey Road com olhão ao fundo…

Assim, “Visages Villages” é mais um bom filme indicado ao Oscar que está em circuito para o querido leitor desfrutar. A grande diva do cinema francês Agnes Varda junta suas forças com um renomado artista visual e passeia pela França captando histórias de vida, monumentalizando-as, dando enormes contribuições para a memória e identidade locais. Um trabalho de autoestima. Um trabalho humanista. Um trabalho do coração. Um filme imperdível!!!

Batata Movies – Jumanji, Bem Vindo À Selva. Cinema Como Videogame.

                                             Cartaz do Filme

Quando a gente fala de nomes como Dwayne Johnson e Jack Black, qual é a primeira coisa que vem às nossas cabeças? Atores de filmes blockbusters menores, coisinhas bobas, etc.? Pode até ser. Mas, cá para nós, que mal faz a gente de vez em quando ver algo mais para entretenimento e descontração? E, ainda, será que atores que somente fazem filmes para entretenimento são pouco talentosos? Essa visão não recai num rótulo ou estereótipo? É o que podemos questionar quando vemos “Jumanji, Bem Vindo à Selva”. Um filme que tem uma tremenda carinha de videogame sendo, por isso mesmo, muito hilário em alguns momentos.

                                                     Vamos jogar???

O filme fala de dois garotos e duas garotas que são, justamente, figuras vistas de forma muito estereotipada: o nerd, o atleta, a patricinha e a outsider que não se enquadra em lugar nenhum. Por todas as dificuldades de adaptação pelas quais eles passam, os quatro acabaram juntos de castigo na escola onde estudam e foram obrigados a arrumar uma sala cheia de tralhas. No meio de todas as coisas perdidas por lá, eles encontraram um antigo videogame com um joguinho chamado Jumanji, com personagens avatares que podiam ser escolhidos. Só que esse videogame tinha a propriedade mágica de sugar os jogadores do mundo real e inseri-los em seu mundo virtual na forma dos avatares que eles escolheram. Assim, o nerd magricelo virou o Dwayne Johnson, a patricinha virou o Jack Black, o atleta virou um cientista com metade de seu tamanho e a outsider virou uma gatinha altamente violenta e descolada. Cada avatar tinha poderes e fraquezas e apenas três vidas, morrendo definitivamente se gastasse todas elas. A missão era colocar uma joia num monte em forma de jaguar, exatamente no lugar do olho. Mas eles teriam que enfrentar o maligno vilão Van Pelt, que queria a joia para controlar toda Jumanji.

          Johnson. Bom ator apesar de preconceitos em contrário…

Pois é. Um enredo bem simples, bobinho até. Mas o que tornou o filme interessante foi, além das corriqueiras cenas de ação regadas a muitos CGIs, a situação hilária dos personagens que se viram em corpos muito diferentes dos seus, onde eles experimentavam todas as suas habilidades e fraquezas. O mais interessante é a mensagem que o filme passa. Para que o objetivo de se colocar a pedra no olho do jaguar seja alcançado, todos os quatro avatares terão que trabalhar em equipe, pois a habilidade de cada um é requerida em cada fase do jogo. Fica aqui a mensagem de que, se cada um deles era visto com preconceito no mundo real, no mundo virtual eles unidos têm muita importância, o que significa que eles podem se ver com mais valor quando retornarem ao mundo real e que essa história de ver os outros de forma estereotipada e com preconceito não tá com nada.

                                       Van Pelt, o vilão esquisitão…

Um destaque todo especial deve ser dado aos dois atores mais conhecidos do filme. Jack Black, que já tem um bom histórico de humor, foi muito bem interpretando a patricinha no corpo de um homem obeso de meia idade. Mesmo que ele tenha tido uma atuação demasiado afetada em alguns momentos, ele foi muito engraçado ao dar uns toques de feminilidade para a colega outsider, que também ficou muito engraçada ao tentar seguir as dicas sem muito jeito (a atriz era a bela Karen Gillan). Agora, o que mais surpreendeu mesmo foi Dwayne Johnson. Ele foi muito bem interpretando o nerd magricelo que ganhou toda uma montanha de músculos. Sua atuação fazia a gente acreditar que ele se via como um molecote magricelo, fora o grande carisma de Johnson (o cara tem tino para ator, ao contrário de outros fortões que a gente vê por aí que só estão mesmo no cinema pela sua forma física).

Assim, “Jumanji” é um filme apenas para entretenimento, mas não é algo tão bobinho em virtude da construção dos personagens e das boas atuações de Johnson, Black e Gillan. Vale a pena se divertir com essa película.