Batata Movies – Resident Evil 6: O Capítulo Final. Game Over?

Cartaz do Filme

Mais um filme inspirado em jogos de vídeo game chegou às nossas telonas. “Resident Evil 6: O Capítulo Final”, vem para, aparentemente pôr fim à saga de seis filmes dessa franquia. Confesso que esse foi o meu primeiro “Resident Evil” e nada sei dos cinco outros filmes. De qualquer forma, vou fazer um esforço aqui para analisar esta película em particular.

Alice vai botar para quebrar uma última (?) vez

Vemos aqui a história de Alice (interpretada pela bela Mila Jovovich), uma mulher que vem matando zumbis há muito tempo (exatamente cinco filmes). Tudo começou com uma espécie de vírus que foi lançado no planeta Terra por um empresário totalmente pirado na batatinha, que responde pela alcunha de Dr. Isaacs (interpretado por Iain Glen). Sua ideia é destruir a raça humana e começá-la de acordo com seus parâmetros e os da empresa que dirige, a Umbrella (Guarda-Chuva?!?!). Mas nossa Alice, que é um clone da empresa, quer evitar isso a todo custo, e proteger os poucos humanos que restam de uma horda de zumbis e monstros assassinos forjados geneticamente. Para isso, ela precisa ir à sede da tal empresa pegar um antivírus e espalhá-lo por aí para acabar com os zumbis. Mas essa não será uma tarefa fácil, já que vários clones do Dr. Isaacs a perseguem dentro de carros blindados seguidos por exércitos zumbis inteiros. Para cumprir essa escabrosa tarefa, Alice vai contar com a ajuda de seus amigos que já estiveram com ela nos outros longas. E tome muita porrada, bomba e tiro, com doses extremas de violência.

Descontração nas filmagens

É o tipo do filme em que a gente só vê uma violência extrema quase o tempo todo, chegando a ficar muito maçante e enjoativo. Se os outros cinco filmes foram dessa forma, não me admira a sala do Cinemark Botafogo 6 ter ficado tão vazia durante a exibição da película. Ou seja, pelo visto, ninguém aguenta mais ver esse filme com essa temática e essa forma de violência repetitiva e cansativa. Nem a bela presença de Mila Jovovich ajuda muito, pois ela só mata, mata, mata o tempo todo, além de correr, correr e correr. E sempre ela é perseguida pelos monstrengos mais feios do mundo. O filme até fica um pouco mais atraente quando descobrimos a origem da personagem protagonista, mas é muito pouco para dizermos que esse filme é bom. Ou seja, não dá para dizer muitas coisas boas dessa película, que definitivamente é um saco. Nem os zumbis foram bem abordados no filme, sendo mais um pano de fundo que a mocinha devia suplantar para ir atrás dos verdadeiros vilões, todos humanos. E o pior de tudo: no desfecho do filme, ficou uma insinuação de continuação no ar. Será que ainda dá caldo? Sempre há fãs para tudo.

Um guarda-chuva (???) como vilão

Dessa forma, acho que nem os fãs de zumbis vão gostar muito desse “Resident Evil 6”, que engrossa a lista de decepções de filmes baseados em videogames (“Assassins’ Creed” também não ajudou muito). Esse filme é indicado apenas a fãs inveterados de “Resident Evil”.

Batata Movies – Beleza Oculta. Rede De Solidariedade.

Cartaz do Filme

Caro leitor, responda-me francamente: você acha que Will Smith já merece um Oscar de melhor ator há muito tempo? Bom, se você acompanha os filmes da carreira desse grande ator, provavelmente vai responder que sim. E digo mais: já está dando nos olhos tamanha injustiça da Academia contra ele. O homem tem se esforçado muito para conseguir bons papéis dramáticos, realizar bons filmes e… sequer há uma indicação de melhor ator para ele no Oscar. E mais uma vez pudemos atestar isso nesse ano em “Beleza Oculta”. Se Smith aparece menos nesse filme, pois ele divide a película com um baita de um elenco, ainda assim o cara arrasou nos momentos em que apareceu. E também é uma tremenda injustiça que esse filme não apareça na lista do Oscar. Poucos filmes conseguiram despertar tanta emoção quanto esse aqui, que foi dirigido por David Frankel (“O Diabo Veste Prada”) e cujo roteiro foi escrito por Allan Loeb.

Howard. Um homem atormentado por uma tragédia

Vemos aqui a história de Howard (interpretado por Smith), um promissor diretor de uma empresa que vislumbrava um grande futuro à sua frente. Mas a morte da filha colocou Howard numa depressão profunda e ele simplesmente parou de trabalhar, sendo acionista majoritário e que tinha que tomar decisões muito pontuais e importantes. Sua letargia poderia colocar a empresa à pique. Assim, seus amigos Whit (interpretado por Edward Norton), Claire (interpretada por Kate Winslet) e Simon (interpretado por Michael Peña) tiveram uma ideia que seria algo muito doloroso: encontrar alguma prova de que Howard estava mentalmente incapacitado para dirigir a empresa. Eles colocaram uma investigadora particular em seu encalço e descobriram que ele escrevia cartas e as enviava pelo correio. Os destinatários? O amor, o tempo e a morte. Buscando tirar Howard da letargia, os três amigos lançaram mão de atores que fariam os papéis de amor, morte e tempo para o procurarem. O que veremos a seguir é uma interação de todas essas pessoas se ajudando numa espécie de grande rede de solidariedade, onde reside a tal da beleza oculta.

Seus amigos não sabem mais o que fazer

O primeiro fator que chama a atenção nesse filme é o elenco. Will Smith, Edward Norton, Kate Winslet, acompanhados ainda de Keira Knightley, Helen Mirren e Naomi Harris. Poucas vezes pudemos presenciar um baita elenco com tantos atores conhecidos num filme. Isso faz com que a gente possa desfrutar do talento de tantos artistas de que gostamos. Esse é o filme por excelência dentre aqueles que a gente vai para ver o ator que admiramos. E, para usar um elenco tão querido, a história precisa ser boa. E muito boa, sendo que foi exatamente isso o que aconteceu. Toda a questão envolvendo Howard fez com que as pessoas pudessem compartilhar seus problemas e ajudarem-se umas às outras.

Conversando com a morte…

Foi também uma película de muita discussão filosófica, onde tivemos a oportunidade de presenciar o tempo, o amor e a morte como personagens, como esses três personagens podem influenciar nossas vidas e como lidamos com isso. Mas, acima de tudo, esse é um filme que fala de perdão. Às vezes, é mais fácil culpar e descarregar toda a sua mágoa e revolta contra aqueles que, numa atitude desesperada e impensada, te prejudicam. Mas, muito mais difícil é passar por cima de tudo isso e perdoar, com o objetivo de se fazer um recomeço. Com o objetivo de se deixar toda uma destruição para trás e dar um novo rumo à sua vida depois do abalo de uma tragédia.

… ou com o amor…

Enfim, “Beleza Oculta” consegue mexer muito com a gente. Um filme que fala de solidariedade e perdão. Um filme que deixa notório que no fim das contas, os humanos tem apenas a si mesmos e está na essência da humanidade a capacidade de você ajudar seu próximo. Um filme fundamental, para ver, ter e guardar.

Batata Comics – Jornada Nas Estrelas, Nos Domínios Da Escuridão. Um Roteiro Melhor Que “Sem Fronteiras”.

Capa dos Quadrinhos

A editora Mythos Books lançou uma edição em quadrinhos, capa dura, do que poderia ser considerada a sequência do filme “Jornada nas Estrelas, Além da Escuridão”. E aliás, essa sequência filmada, e com as devidas edições, seria muito melhor do que o filme “Jornada nas Estrelas, Sem Fronteiras”. Ambientada com o novo elenco dos longas de “Jornada nas Estrelas” da fase J. J. Abrams, “Nos Domínios da Escuridão” tem a feliz ideia de ainda aproveitar a Seção 31, a Divisão de Operações Secretas da Frota Estelar, que somente consegue enxergar segurança para a Federação se colocar seus dois inimigos – os klingons e os romulanos – em pé de guerra. O problema é que a tripulação da Enterprise se vê no meio desse turbilhão, mesmo que esteja em sua missão de cinco anos para explorar novos mundos. É uma senhora história de muita ação e trama política que daria um excelente filme, muito melhor do (na minha modesta opinião) fiasco que foi “Sem Fronteiras”.
Mas, no que consiste a história? Enquanto a Seção 31 organiza uma aliança secreta com os romulanos para que os alienígenas se voltem contra o Império Klingon em troca de tecnologia de armamentos da Federação, Spock sofre o Pon Farr e precisa ir a Vulcano para se acasalar. Mas nesta realidade alternativa Vulcano foi destruído e Spock não conseguiu aguentar a forte pressão emocional, tornando-se extremamente agressivo, assim como outros de sua espécie. Para salvar Spock da loucura e fúria certas, Kirk e sua tripulação precisarão encontrar uma cura para O Pon Farr. Essa história serviria como um ótimo enredo paralelo para um longa e seria uma referência e tanto à série clássica. Há uma segunda história envolvendo a espécie gorn, também proveniente da série clássica, mas ela poderia ser descartada por não ter muito a ver com a trama principal (embora a história de Spock e seu Pon Farr também não esteja muito ligada à trama principal, ainda assim seria interessante usá-la, pois foi colocada a questão de como ficaria o ritual agora que Vulcano não existe mais). A parte final dos quadrinhos seria o esqueleto principal da história, pois desenvolve mais a aliança entre a Seção 31 e os romulanos, o ataque dessa aliança ao Império Klingon e o que a destemida tripulação da Enterprise vai fazer para evitar um conflito de proporções galácticas.

Um Spock enlouquecido

Essa é uma história muito instigante que cairia como uma luva para um filme. Além de fazer referência à série clássica, vemos aqui também referências a coisas que apareceram nos longas anteriores. Por exemplo, a matéria vermelha que destruiu Vulcano está nas mãos dos romulanos, os klingons conseguiram a tecnologia da nave romulana de Nero, do primeiro filme, e implantaram-na nas aves de rapina, a Seção 31 não desapareceu com a morte do Almirante Marcus, etc. Assim, trata-se de uma história muito mais criativa que trabalha com elementos do Universo que os dois primeiros longas já criaram, e não é algo totalmente destacado dos outros filmes como foi “Jornada nas Estrelas, Sem Fronteiras”, declaradamente o filme mais fraco da Enterprise da era pós J. J. Abrams. Só é de se lamentar que essa história tenha dado mais espaço a personagens novos e menos espaço a personagens já consagrados. Vemos muito pouco McCoy, Scott, Chekov e Uhura, por exemplo. Mas isso poderia ser compensado reescrevendo o roteiro para o longa e fazendo uma substituição simples dos personagens novos pelos mais antigos.
Assim, “Jornada nas Estrelas, Nos Domínios da Escuridão”, é uma outra aposta certa da Mythos Books para conquistar o trekker de plantão (a primeira é o lançamento em quadrinhos do roteiro original de “Cidade à Beira da Eternidade”), pois dá uma história instigante e digna para a nova versão de “Jornada nas Estrelas”, que será vista pelos fãs com outros olhos. Uma obra que vale o dinheiro investido.

Personagens originais, como Uhura, apareceram pouco

Batata Movies (Especial Oscar 2017)- Jackie. Funeral, Pompa E Poder.

Cartaz do Filme

E chegou o tão esperado “Jackie”, mais um dos filmes que concorrem ao Oscar esse ano. Dirigido pelo chileno Pablo Larraín, o mesmo que produziu o bom filme “No”, a película “Jackie” está indicada a três estatuetas: melhor atriz, para Natalie Portman; melhor figurino; e melhor trilha sonora. Esse é um filme que vai se centrar na trajetória da primeira-dama Jaqueline Kennedy (interpretada por Natalie Portman) nos dias do assassinato de seu marido, o presidente John Kenedy. E de como ela vai lidar com o violento trauma, perder seu status de primeira-dama e, ainda por cima, preparar todos os detalhes do funeral e resguardar a integridade de seus filhos, num momento em que todo o país está profundamente abalado.

Uma mulher que experimentará uma violenta turbulência

A história terá como fio condutor principal uma entrevista que “Jackie” (como ela era chamada) dá para um repórter em sua casa, depois de passado todo o episódio do atentado. O clima da entrevista não é exatamente algo muito amistoso, pois Jackie está enfurecida com o que alguns jornalistas escreveram sobre seu marido. Então ela assume uma postura muito firme perante seu entrevistador, partindo para o ataque em qualquer deslize ou frase infeliz que o jornalista diga.

Com o sangue do marido no vestido

Ainda, ela deixou claro que editaria toda a entrevista da forma que quisesse antes que chegasse aos jornais. A partir desse fio condutor, nos remetemos a tudo o que aconteceu com ela, não seguindo propriamente uma ordem cronológica, com várias idas e vindas, por exemplo, de um filme que ela fez na Casa Branca, onde falava das alterações que fazia no espaço para tornar a residência oficial cultural e historicamente mais detalhada, onde houve todo um cuidado especial no quarto de Abraham Lincoln.

Preocupada com a integridade dos filhos

O assassinato do presidente também foi meio que distribuído ao longo do filme, mais exatamente em dois momentos. Agora, o que mais tomou tempo na película foi o preparativo do funeral, onde Jackie entrou em atritos com muitas pessoas, desde Robert Kennedy (interpretado magistralmente por Peter Sarsgaard) até os assessores de Lyndon Johnson, onde ela batia o pé em alguns momentos, desafiando todas as normas de segurança para dar um enterro digno ao marido.

Grande interpretação de Peter Sarsgaard

A velocidade dos acontecimentos e todo o trauma provocado pela morte de Kennedy também fizeram com que ela trocasse rapidamente de opinião, levando todos à loucura. Um momento muito bonito do filme foi quando Jackie conversava com um padre no cemitério de Arlington sobre as questões envolvendo a fé e a desesperança. Esse momento do filme ficou muito bom em virtude do padre ter sido interpretado pelo inesquecível John Hurt, que nos deixou recentemente e deu a nós esse pequeno presente antes de partir.

Posse de Lyndon Johnson no filme…

Na interpretação dos atores, três merecem destaque. Em primeiro lugar, obviamente Natalie Portman. Ainda não tive a oportunidade de ver as outras indicadas a melhor atriz. Mas podemos dizer aqui que Portman fez um bom trabalho de caracterização. Seu rosto estava envelhecido e muito magro, o que mostrou que a atriz se preocupou em passar uma imagem diferente daquela que ela tem de garotinha. A sua atuação transitava entre uma mulher aparentemente fútil, passando pela postura firme de uma primeira-dama, chegando até a uma mulher atormentada por todo o ocorrido.

.. e na vida real. Preocupação da película com os detalhes

Assim, havia violentas oscilações de emoção na sua interpretação e não deve ter sido fácil lidar com tudo aquilo. E ela ainda tinha que se preocupar com a parte icônica de sua personagem, fazendo caras e bocas que nos lembrassem de Jackie. Então podemos dizer que foi um trabalho realmente bom. Agora, se digno de Oscar, somente vendo as outras indicadas. Um ator que merecia pelo menos a indicação de coadjuvante é Peter Sarsgaard. O homem foi muito bem como Robert Kennedy, com uma atuação muito contida e enfrentando com muita dignidade todas as explosões emocionais de Jackie. Houve um momento no filme em que ele teve uma pequena explosão emocional, para logo depois voltar para sua serenidade perante toda a tragédia novamente. Depois de Portman, Sarsgaard foi o que mais chamou a atenção. Não podemos nos esquecer de falar também do ator John Carroll Lynch, que interpretou Lyndon Johnson e, apesar de aparecer muito pouco, chamou demais a atenção por seu semblante fechadíssimo, beirando até o soturno, e com um olhar muito penetrante, principalmente num momento em que ele entra em atrito com Jackie.

Excelente caracterização

Assim, “Jackie” é mais um daqueles filmes imperdíveis que estão na lista do Oscar, que mostram todo o comportamento da primeira-dama perante a morte traumática do marido, tendo violentas oscilações. Esse foi um filme também muito pautado nas interpretações dos atores e numa boa montagem, já que a ordem cronológica não foi respeitada. Vale a pena a experiência.

https://youtu.be/vYAfwkwNpwI

Batata Movies (Especial Oscar 2017) – À Qualquer Custo. Texas Way Of Life!

Cartaz do Filme

Dando sequência aos filmes indicados ao Oscar aqui na Batata Espacial, vamos falar de “À Qualquer Custo” (“Hell or High Water”). Essa película concorre a quatro estatuetas: melhor filme; ator coadjuvante para Jeff Bridges; roteiro original; e montagem. Esse é um daqueles filmes que despertou muita simpatia da plateia e que vai ter uma boa torcida na noite da premiação. Se nós podemos classificar essa película mais como um drama, existem elementos de outros gêneros que deram todo um sabor especial que tornou o filme muito gostoso de se ver.

Dois irmãos buscando salvar seu rancho

No que consiste a história? Vemos aqui dois irmãos, Toby (interpretado pelo “Capitão Kirk” Chris Pine) e Tanner (interpretado por Ben Foster, que teve uma pequena participação em “Inferno” no ano passado), que praticavam pequenos assaltos a banco em cidadezinhas do interior do oeste do Texas. O alvo deles era quase sempre o Texas Midland Bank, que estava prestes a tomar o rancho da família, depois que a mãe fez uma hipoteca. As condições injustas de quitar o empréstimo fizeram com que os dois irmãos praticassem esses pequenos assaltos, geralmente pela manhã, o que era uma garantia de que ninguém ia sair machucado, até que eles levantassem o dinheiro para pagar o empréstimo. Enquanto que Toby não tinha qualquer experiência com armas ou com o crime, seu irmão já tinha estado preso e tinha um passado bem mais violento. Eles passaram a ser perseguidos por um policial texano casca grossíssima, Marcus Hamilton (magistralmente interpretado por Jeff Bridges) e seu parceiro Alberto (interpretado por Gil Birmingham), de origem indígena. A partir daí, o filme vira um jogo de gato e rato permeado pelo estilo texano de vida e piadas politicamente muito incorretas.

Dois policiais tipicamente texanos

Dizemos acima que o filme tem tons de drama, pois vemos os irmãos praticando assaltos para não perder o rancho e Toby dar algo de herança para os filhos. Mas outros gêneros aparecem aqui. É óbvio que um filme com cenas de assalto e de violência pode ser classificado também como um filme de ação, além de um “road movie”, com cenas de viagem de carro pela estrada em vários trechos da película. Agora, o filme também se torna uma inteligente comédia. E por que isso? O grande problema de se fazer comédia hoje em dia é o limite do que é ou não politicamente correto. Para se resolver esse problema e usar o politicamente incorreto impunemente, o filme foi ambientado no estado talvez mais radical dos Estados Unidos em suas formas de pensamento, que é o Texas. Assim, as piadas de cunho racista eram livremente usadas sem qualquer dó, já que o filme retratava uma sociedade extremamente preconceituosa, belicista e racista como a texana (ou, pelo menos, essa era a ideia que o filme queria passar, se por um acaso um texano que saiba português ler essas linhas). E o personagem de Jeff Bridges era o ícone desse politicamente incorreto, provocando sempre seu parceiro de origem indígena com as piadas mais preconceituosas possíveis. O homem estava tão afiado que nem os evangélicos escaparam, e os momentos em que Bridges aparecia no filme eram muito engraçados, sendo que sua indicação a ator coadjuvante é altamente merecida e talvez uma das favoritas (a gente só pode ter uma percepção melhor depois de ver todos os trabalhos dos demais indicados). O estilo de vida texano pareceu também um personagem à parte e o víamos não somente materializado no personagem de Bridges, mas também em outros personagens menores da película, como a velhinha que “escolhia” de forma extremamente rude a comida dos clientes do restaurantezinho da cidadezinha de interior, provocando estranheza até nos tarimbados policiais do filme, ou o fato de vários habitantes de uma cidade um pouco maior estarem armados e reagirem ao assalto que os dois irmãos praticavam num banco. Dá para perceber que o filme conseguiu provocar boas risadas com o politicamente incorreto, mas também com uma certa dose de humor negro. Já Chris Pine e Ben Foster estiveram relativamente bem como os dois irmãos que, volta e meia não se entendiam, em virtude da porralouquice do mais violento perante o irmão mais “certinho”, o que também despertou algumas risadas.

Na première

Assim, “À Qualquer Custo” é mais um bom filme que concorre ao Oscar e que está em nossas telonas. Um filme que vale a pena por Jeff Bridges. Um filme que inteligentemente driblou o patrulhamento do politicamente correto. Um bom filme de ação com elementos de “road movie”. Vale a pena dar uma conferida.

https://youtu.be/bFNcVACX7kM

 

Batata Movies (Especial Oscar 2017) – Estrelas Além do Tempo. Tecnologias E Ignorâncias.

Cartaz do Filme

Mais um candidato ao Oscar estreou em nossas telonas, concorrendo a três estatuetas: melhor filme; melhor atriz coadjuvante, para Octavia Spencer; e melhor roteiro adaptado. “Estrelas Além do Tempo” (“Hidden Figures”) é mais um daqueles filmes baseados numa história real. E que história! Vamos ver aqui como mulheres negras (ou afro-americanas) ajudaram a NASA e o programa espacial americano, em plena década de 60, nos momentos mais críticos da Guerra Fria e no auge das lutas pelos direitos civis, quando os negros americanos sofriam todo o tipo possível e imaginável de discriminação.

Três amigas em busca de afirmação

A história vai focar em Katherine Johnson (interpretada por Taraji Henson), uma menina prodígio em matemática que, na idade adulta fazia parte da equipe de “computadores” da NASA, um grupo de mulheres negras que realizava cálculos matemáticos para as primeiras missões espaciais, numa época em que os computadores tal como conhecemos hoje ainda engatinhavam. Katherine tinha duas amigas: Dorothy Vaughan (interpretada por Octavia Spencer), a supervisora da equipe, embora não tivesse esse cargo registrado oficialmente por ser negra; e Mary Jackson (interpretada por Janelle Monáe), formada em física e matemática, e que queria trabalhar na equipe de engenheiros da NASA. Um belo dia, a equipe que estava diretamente envolvida na missão, liderada por Al Harrison (interpretado por um Kevin Costner em grande forma), precisou de um “computador” para conferir os cálculos, ao que Katherine foi chamada e, de repente, ela se viu no meio de uma equipe de homens brancos que a discriminavam racialmente e por gênero também.

Um chefe sisudão

Nem é preciso dizer que Katherine teve que travar uma luta sem igual para se afirmar naquela equipe e, ainda mais, satisfazer seu sisudo e exigente chefe. Mas essa não foi uma luta só de Katherine. Dorothy também buscava seu cargo de supervisora com afinco, assim como Mary teve que pagar um dobrado para alcançar o posto de engenheira.

O astronauta John Glenn encontra sua equipe

Esse foi um filme que provou cabalmente como o racismo, em toda a sua ignorância, afetou diretamente o andamento do projeto espacial americano e ajudou os Estados Unidos a comerem poeira da União Soviética nos primeiros anos da corrida espacial. A mentalidade escravocrata em pleno seio da NASA era algo destoante com qualquer atividade de ordem lógica, principalmente no meio científico, onde pessoas altamente qualificadas não eram aproveitadas em virtude da diferença da cor da pele. Katherine, por exemplo, era obrigada a se ausentar todos os dias do prédio onde trabalhava, pois lá não havia banheiro para mulheres negras, e ela tinha que se deslocar para outro prédio a muitos metros de distância, o que atrasava o desenvolvimento de seus cálculos.

As verdadeiras estrelas e suas atrizes

As atrizes estiveram muito bem. Taraji Henson conseguia ser firme e delicada nos momentos certos. Saber conciliar comportamentos tão díspares na atuação tornou sua personagem altamente cativante. Já Janelle Monáe pegou a personagem de temperamento mais forte e descolado, o que não a obrigou a fazer grandes voos na sua atuação. Octavia Spencer (sempre ela!) com sua fofura angelical, merece a indicação para atriz coadjuvante, sendo uma verdadeira voz da razão no trio, não sem se indignar em situações onde era discriminada. Kevin Costner, por sua vez, apareceu muito bem com um personagem altamente carismático e muito presente no filme, sendo essa película a que maior deu destaque a ele desde que passamos a revê-lo em filmes mais recentes. O filme ainda teve uma participação de Kirsten Dunst, que chamou a atenção. A doce Mary Jane do Homem-Aranha de Tobey Maguire se transfigurou numa branca-azeda racista que transpirava ódio com o sucesso de nossas protagonistas. E despertava muita antipatia na gente. Prova de que ela fez um bom trabalho.

Na Première

Assim, “Estrelas Além do Tempo” é um daqueles filmes imperdíveis dessa temporada ao Oscar. Creio que ele merecia mais indicações (atriz para Taraji Henson, ator coadjuvante para Costner e efeitos visuais, pois as cenas dos lançamentos dos foguetes estavam muito boas). De qualquer forma, vai concorrer na noite da premiação. Não deixe de ver essa película, pois vale muito a pena.

Batata Movies (Especial Oscar 2017) – Moana, Um Mar De Aventuras. Uma Princesa Destemida.

Cartaz do Filme

E a Disney apresenta mais uma de suas boas animações. “Moana, Um Mar de Aventuras”, e concorre ao Oscar de Melhor Animação e repete a fórmula das últimas animações de apresentar culturas de povos muitos diferentes dos WASPs, sendo esse um bom serviço feito na direção da tolerância e do respeito às diferenças, cada vez mais em falta no mundo, e que devem ser ensinados desde sempre às crianças.

Desde pequena, Moana se interessava pelas histórias da avó

A história se passa na Polinésia e é baseada na cosmogonia de tribos locais. A deusa Te Whiti, que é visualizada pelos nativos como as encostas de sua ilha, teve o seu coração roubado por Maui, uma espécie de semideus. Mas, ao lutar contra um monstro que expelia lava (alegoria dos vulcões da região), ele perdeu o coração e um anzol mágico que o fazia se transformar. Isso deixaria o povo da Polinésia à mercê das forças do mal. Essa história era contada por uma anciã às crianças de sua tribo que choravam muito quando escutavam isso, exceto uma: Moana, que era a filha do líder da tribo e herdeira de seu poder. O sonho de Moana era pegar um barco e desbravar o oceano, para o desespero do pai, que queria manter toda a sua tribo segura na ilha. Mas os pescadores percebiam que os peixes diminuíam cada vez mais, indício da maldição que pairava sobre a ilha. Incentivada pela avó e a contragosto do pai, Moana parte para o Oceano, de posse do coração de Te Whiti, que fora achado pela anciã, para procurar por Maui, que precisa entregar o coração para a deusa e restabelecer o bem.

Quando cresceu, se tornou uma princesa destemida

A animação é muito legal em vários sentidos. O principal deles é o de deixar as crianças ocidentais a par da cultura local dos povos da Polinésia, algo muito importante para ensinar as crianças o respeito pelas diferenças. Aliás, devemos mencionar que esse filme foi até um pouco além nesse quesito, pois dentre os vários números musicais presentes na animação, pudemos presenciar alguns em língua nativa local e sem legendas, algo que não se vê todo dia nas animações da Disney. Ainda, devemos chamar a atenção que os povos da Polinésia têm uma cultura que relativamente se assemelha em alguns momentos à cultura indígena brasileira, principalmente quando vemos toda uma visão de mundo onde as forças da natureza têm um papel fundamental. Essa interação do ser humano com o meio ambiente, expressa de forma profunda em culturas consideradas “primitivas” pelo homem branco ocidental “civilizado”, é uma tremenda lição para as futuras gerações, já que nosso planeta se vê cada vez mais ameaçado pelos violentos golpes que o ser humano desfere contra a natureza, que também reage a altura. Devemos sempre nos lembrar que precisamos do planeta e sua natureza para viver, mas o planeta e a natureza não precisam da gente para continuarem a existir. E a animação mostra como a interação harmoniosa do ser humano com o meio ambiente pode ser algo totalmente possível, expresso metaforicamente na relação de Moana com o oceano.

Com Maui, ela irá salvar sua tribo do desastre certo

Os roteiristas da animação também foram muito felizes em explorar uma característica dos povos da Polinésia que inicialmente poderia causar uma certa estranheza, que é a prática de cobrir os corpos inteiros com tatuagens. Se aqui no Brasil, mais precisamente no Rio de Janeiro, a tatuagem é até uma coisa corriqueira, nem sempre isso é verdade em outros recantos considerados “brancos e civilizados” do mundo. Optou-se por fazer as tatuagens de Maui vivas, o que levou a vários momentos engraçados na animação. O bom relacionamento entre Maui e Moana também chamou a atenção, pois não houve qualquer insinuação de caso amoroso entre os dois em qualquer momento, numa situação relativamente espinhosa para uma animação infantil (uma adolescente e um homem adulto presos num barco em pleno oceano). Percebeu-se como houve um cuidado em mostrar que a relação entre os dois chegava, no máximo, a uma ideia de afeto platônico. Ou seja, por mais que a Disney esteja trabalhando temas de outras culturas no filme, o moralismo WASP não foi de todo esquecido e se infiltrou na cultura polinésica local.

Mas nem sempre os dois se entendem…

Assim, “Moana, Um Mar de Aventuras”, é mais uma boa animação que a Disney coloca nas telonas. Mais uma animação que busca mostrar uma cultura local, com o objetivo de familiarizar o branco, anglo-saxão e protestante com o outro. E uma animação que busca exibir que uma interação harmoniosa do ser humano com o meio ambiente é possível, sendo que isso é ensinado por uma cultura considerada “primitiva” aos olhos de brancos com doses intoleráveis de etnocentrismo. Programa imperdível para crianças e adultos.

https://youtu.be/yvaCwzVOjlA

Batata Movies (Especial Oscar 2017) – Até O Último Homem. Pacifismo Hard Core.

 

Cartaz do Filme

E a temporada de estreias de filmes indicados ao Oscar continua. Hoje vamos falar da película dirigida por Mel Gibson, “Até o Último Homem” (“Hacksaw Ridge”), que concorre a seis estatuetas (melhor filme; melhor ator para Andrew Garfield; melhor direção; melhor montagem; melhor edição de som; melhor mixagem de som). Esse é mais um filme sobre o inesgotável tema da Segunda Guerra Mundial para o cinema. E, mais uma vez, esse tema proporcionou uma excelente película, que é baseada numa história real.

Doss vai para a guerra sem armas!!!

Vemos aqui a trajetória de Desmond Doss (interpretado por Andew Garfield), um rapaz do interior que tem um pai que lutou na Primeira Guerra Mundial (interpretado por Hugo Weaving, o vilão de “Matrix” e o Caveira Vermelha do Capitão América) e é muito atormentado por esse passado, sendo extremamente violento com a mulher e os filhos. Essa violência se refletia na família e Desmond brigava com seu irmão constantemente. Ao atingir seu irmão com um tijolo na cabeça e depois de tirar a arma das mãos do pai durante uma discussão com a mãe e quase matá-lo, Desmond, que era muito religioso, prometeu não pegar mais numa arma. Ao se alistar no exército como voluntário para a já Segunda Guerra Mundial, Desmond arrumou problemas com seus superiores ao se recusar a fazer treinos com armas, e com seus colegas que o acusavam de covardia e chegaram até a espancá-lo por isso. Ele queria mesmo era ir para a guerra como médico, com o objetivo de salvar vidas ao invés de tirá-las. Tal atitude foi vista como desrespeito aos seus superiores e lhe rendeu uma corte marcial que por muito pouco não o levou à prisão. Ganha a sua causa, Desmond irá com o seu pelotão para Okinawa, totalmente desarmado, para a linha de frente.

Visto como covarde pelos colegas

O leitor pode pensar: mesmo que você não queira matar ninguém, você precisa se defender. Todas essas questões foram discutidas no filme, mas Desmond jamais aliviou nas suas convicções, mesmo estando sob fogo cruzado. É um filme que realmente fala, acima de tudo, de convicções e valores, e de como você consegue conquistar o respeito de todos sem abrir mão delas. É um belo exemplo de vida.

Pai ajuda filho na corte marcial

Agora, como o filme abordou as cenas de guerra? Elas foram de um realismo extremo, sendo que a última vez em que vimos algo semelhante foi em “O Resgate do Soldado Ryan”. É claro que nem sempre o realismo deu o ar de sua graça, sobretudo na batalha final, mas ainda assim as cenas foram angustiantes o suficiente para testemunharmos  um pouquinho as sensações de se estar num campo de batalha. Já a forma como o inimigo japonês foi retratado não fugiu muito dos estereótipos convencionais: são animais desalmados que não têm o menor respeito ou apreço pela vida, seja do inimigo, seja deles mesmos. O único momento muito rápido em que aparece um pouco mais da cultura japonesa está justamente na sequência da batalha final, onde paradoxalmente as coisas eram um pouco mais inusitadas. É óbvio que numa película dessas, que busca retratar o heroísmo de um soldado americano, as atenções estarão mais voltadas para o exército americano e seus “mocinhos”.

Salvando sempre mais um, até o limite da exaustão

Assim, “Até o Último Homem” é mais um concorrente de peso para o Oscar. A indicação de Andrew Garfield foi merecida, embora eu ainda aposte mais minhas fichas em Casey Affleck, por “Manchester à Beira Mar”. De qualquer forma, esse filme serviu para que fique claro que Garfield não é somente o Homem-Aranha. No mais, um bom filme de guerra, que não evitou certos estereótipos, mas teve bons momentos de realismo embora eles falhassem mais ao final da película. Apesar dos pesares, um excelente filme de guerra que merece alguma premiação.