Batata Movies (Especial Oscar 2019) – A Favorita. Briga De Gato E Rato Na Corte.

Cartaz do Filme

Mais um filme concorrente ao Oscar. “A Favorita” concorre a dez estatuetas (Melhor Filme, Melhor Roteiro Original, Melhor Design de Produção, Melhor Figurino, Melhor Direção para Yorgos Lanthimos, Melhor Atriz para Olivia Colman, Melhor Atriz Coadjuvante para Rachel Weisz e Emma Stone, Melhor Fotografia e Melhor Montagem) e venceu o Globo de Ouro para Melhor Atriz de Musical ou Comédia para Olivia Colman. Ou seja, um forte concorrente este ano. Para analisarmos a película, “spoilers” são necessários.

Uma rainha totalmente zureta…

Qual é o plot? Na Inglaterra do século XVIII, a rainha Anne (interpretada por Colman) é uma mulher insegura e despreparada para reinar. Ela tem uma tremenda batata quente nas mãos, pois precisa empreender uma guerra contra a França e busca aumentar os impostos, o que desperta a ira de Harley (interpretado pelo “Fera” Nicholas Hoult). Para ajudar a segurar todos esses problemas, a rainha conta com a ajuda de Lady Sarah (interpretada por Weisz), que praticamente governa o país, além de ser a amante da rainha. Só que esse equilíbrio será fortemente abalado com a chegada de Abigail (interpretada por Stone), uma dama que perdeu toda a sua honra e prestígio para salvar a pele do pai. Tentando retomar seu status social, Abigail vai lançar mão de todos os expedientes, sórdidos ou não, para atingir seus objetivos, embora encontre forte oposição de Lady Sarah. Nesse jogo de gato e rato, essas duas mulheres disputarão com unhas e dentes a atenção e afeição da rainha para almejar mais e mais prestígio na corte.

Uma amante com trejeitos de chefe de estado…

Esse é um filme que tem um certo humor ácido dentro de uma lógica de Antigo Regime. É uma verdadeira aula do que é cortejar e puxar o saco para obter favores da rainha. Mas é também um filme que tem a sua dose de perversidade nas disputas viscerais entre Lady Sarah e Abigail, essa última muito mais sórdida e traiçoeira que sua oponente. Uma sordidez que podia ser engraçada em alguns momentos, mas extremamente nociva em todos. Ainda, o filme espelha muito claramente a máxima de que “Um dia é da caça e o outro do caçador”, onde os papéis de gato e rato se invertem. De qualquer forma, uma vencedora sai na contenda, mas no final das contas, ainda é tratada como uma lacaia pela rainha, numa mostra de que toda a sua estratégia foi por água abaixo. Coisas de Antigo Regime, onde quem dá a palavra final ainda é o monarca, por mais incapacitado que ele esteja.

Uma ambiciosa ex-nobre…

E o elenco? Olivia Colman esteve muito bem como a rainha, engraçada na sua histeria, mas também muito sôfrega com suas doenças e altamente insegura. Ela convenceu em todos esses momentos. Se ela é digna de um Oscar de Melhor Atriz? Pode até ser, mas ainda aposto minhas fichas em Glenn Close.

Fera??? Quem te viu, que te vê (no centro)

Já Rachel Weisz e Emma Stone estão mais cotadas para a estatueta de atriz coadjuvante a meu ver, com uma vantagem de Stone sobre Weisz. A lourinha de cara inocente convenceu muito na sordidez de sua personagem e teve uma atuação simplesmente impecável. A gente ria dela e a odiava ao mesmo tempo, além de temê-la bastante.

Tudo para cair nas graças da rainha…

Dessa forma, “A Favorita” é um bom filme, onde a trama de gato e rato é a atração principal. As atrizes concorrentes a estatueta foram muito bem e o filme também prima por um ótimo figurino, ao qual também está indicado. Confesso que preferi outros filmes ao invés deste, mas é uma película boa e pode abiscoitar alguns Oscars na noite da premiação. Vale a pena a conferida.

Batata Movies (Especial Oscar 2019) – Cafarnaum. Uma Senhora Porrada No Estômago.

Cartaz do Filme

Uma produção libanesa que entra como uma lâmina em nossos corpos. “Cafarnaum” é, até agora e sem a menor sombra de dúvida, o melhor filme desse ano e que concorre ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. É uma película de forte denúncia social que não deixa o espectador indiferente. A miséria e crueldade presentes na película estão lá com a nítida intenção de nos agredir e de nos tirar da indiferença das desigualdades do mundo. Pontaço para a diretora Nadine Labaki, que também co-assina o roteiro. Vamos lançar mão dos spoilers aqui.

Zain, de dar pena e espanto…

O plot gira em torno da trajetória de Zain (interpretado por Zain Al Rafeea), um menino de cerca de doze anos (ele não teve sua certidão de nascimento registrada), que vive numa enorme favela em Beirute com os pais e uma grande quantidade de irmãos. A família vive numa pobreza absoluta e todos precisam trabalhar, até os filhos menorzinhos. Maltratado constantemente pelos pais, Zain tem uma índole violenta e vê sua irmã vendida para o filho do senhorio do apartamento que alugam na primeira menstruação da menina.

A irmã de Zain, com o irmãozinho no colo, será vendida na primeira menstruação…

Revoltado, o menino foge de casa e encontra uma imigrante ilegal que o acolhe. Essa imigrante acaba tem um filho pequeno, Yonas, que Zain passa a cuidar, pois ela precisa trabalhar. Mas a moça acaba presa por ter um visto vencido, deixando Zain e Yonas sozinhos no mundo. Zain então precisa se virar para cuidar de Yonas, precisando sobreviver nas ruas de Beirute. Como se não bastasse todas essas dificuldades, Zain ainda será preso por tentativa de assassinato (os menores vão para a prisão) e, então, ele vai entrar com um processo contra os pais para que eles não tenham mais filhos, já que vivem em miséria absoluta, além do fato de Zain achar que eles não tem qualquer responsabilidade para criar filhos.

Zain e Yonas. Largados no mundo…

Ao buscar agredir o espectador com a crueza da miséria e dos problemas sociais, Labaki uma fórmula que alguns dirão que é um tanto manjada, que é a de usar crianças para comover a plateia. Pode até ser, mas Labaki consegue obter esse resultado sem qualquer clichê ou pieguice. Se ficamos com pena de Zain em alguns momentos, também nos assustamos com toda a revolta do menino. A pena total fica por conta de Yonas, que é uma criança tão pequena que ainda mama no peito e não fala, estando totalmente vulnerável às agruras de um mundo tão cruel.

Os pais de Zain. Também vítimas…

Outro detalhe em que Labaki acertou em cheio é o fato de que ela faz uma história em que não há mocinhos ou bandidos. Mesmo que as atitudes dos pais de Zain sejam odiosas, nós também percebemos que seus atos ocorrem em função dos severos problemas sociais que passam (o que, em absoluto, serve de justificativa para a forma como tratavam os filhos). Houve, apenas, dois “vilões”: os senhorios da família e um camelô que vendia vistos falsos e que queria vender Yonas para uma família. Mas o filme mais relativizou um maniqueísmo do que fez uso dele.

Uma imigrante ilegal…

Um aparente problema é o seu desfecho, onde optou-se por um happy end, o que destoaria de uma película que abraça francamente o choque de realidade. Mas pode-se dizer que essa opção é até compreensível, pois o espectador é tão agredido com desesperança ao longo de toda a película que esse final feliz seria o mínimo que se poderia dar ao espectador, como uma espécie de “prêmio” para o testemunho de tantas mazelas. Mesmo assim, tal happy end se deu nos momentos finais do filme, como se diz no popular “no apagar das luzes” ou “aos 48 minutos do segundo tempo”.

Nadine Labaki em ação. Diretora fenomenal!!!

Dessa forma, “Cafarnaum” (uma palavra que pode ser traduzida como “caos”) é um programa obrigatório e um grande nome para ganhar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro esse ano. A diretora Nadine Labaki consegue agredir o espectador com toda a miséria e problemas sociais usando as crianças para isso sem pieguice. É o típico filme que cumpre sua função social de denúncia. Imperdível.

Batata Movies – Creed II. Avassalador.

Cartaz do Filme

E temos “Creed II”. A tão esperada continuação da saga do filho de Apolo, o Doutrinador, treinado por Rocky Balboa, busca dar sequência, cerca de trinta anos depois, aos eventos de “Rocky IV”, quando Ivan Drago matou Apolo e Rocky o venceu na então União Soviética. Agora, Ivan Drago busca a revanche com Creed tendo como instrumento seu filho, Viktor Drago (interpretado por Florian Munteanu).

Dois amigos num antigo desafio

Os dois filmes “Creed” podem ser entendidos como uma sequência séria e respeitosa de “Rocky”. Mesmo que “Rocky” tenha sido um grande sucesso de bilheteria, é impossível não perceber que havia um tom de galhofa e exagero mais em alguns filmes e menos em outros. O próprio “Rocky IV” às vezes tinha um tom de vergonha alheia. Nos dois “Creed” não vemos nada disso e os filmes funcionam muito bem, o que acaba sendo um deleite para os olhos.

Família Drago

Como é o plot? Preparem-se que vai haver spoilers. O filme começa com Ivan Drago e seu filho Viktor indo para uma luta onde saem vencedores. Enquanto isso, Creed consegue conquistar o título de campeão mundial dos pesados. Mas, com a ajuda de um empresário americano, a família Drago desafia Creed. Mesmo sob os insistentes pedidos de Rocky para não aceitar o que considera uma provocação, Creed aceita o desafio sem a ajuda de Balboa. É claro que ele vai entrar na porrada, mas não perde o título, pois Drago é desclassificado porque atingiu Creed enquanto ele estava no chão. Depois de ruminar muita raiva na sua recuperação, Creed esquece um pouco do boxe, pois sua filha nasce. Mas Viktor Drago seguidamente o desafia e Creed pode perder o título caso protele demais a defesa do mesmo. Aí, vai ter uma segunda luta, agora na Rússia e com Rocky treinando o pugilista.

Que medo!!!

Por que “Creed II” foi tão bom? Em primeiro lugar, e até mais do que a questão das cenas de lutas de boxe, esse é um filme de núcleos familiares muito bem explorados. Temos a questão de Rocky, que não conhece o neto pois não fala com o filho, temos a família de Creed, que vive sob a sombra das ameaças de feridas do passado abertas, onde Creed se vê na obrigação de lutar por ter tido seu pai assassinado no ringue, mas que depois descobre que ele precisa lutar não por seu pai, mas por si mesmo, e temos a questão da família Drago (a melhor a meu ver) onde o pai exigia demais do filho por ter sido abandonado por tudo e por todos depois da derrota com Rocky, só que (alerta de spoiler) ele reconhece na última hora que, ao tentar recuperar a honra da família, ele dava atenção demais a pessoas que só queriam se aproveitar da fama de pai e filho ao invés de se preocupar com o próprio filho (dentre essas pessoas está a própria personagem interpretada por Brigitte Nielsen, que era a esposa de Ivan em “Rocky IV” e que o abandonou depois da derrota). Ou seja, há uma grande preocupação com a construção dos personagens nesse filme, ao contrário do que víamos, por exemplo, no núcleo soviético de “Rocky IV” em Ivan Drago, por exemplo, que mais parecia um robô do que qualquer outra coisa. Mais do que o Boxe em si, “Creed II” é uma boa história de personagens muito bem pensados.

Referências a “Rocky IV”

Obviamente, o Boxe é a outra vedete. E aí, “Creed II” também acerta, sobretudo nas referências a “Rocky IV”. Tivemos a derrota nos Estados Unidos e a revanche na Rússia, a música antológica dos filmes antigos na luta final, passando pelo treinamento de Creed num ambiente e condições totalmente rústicas (no meio de um deserto bem quente), lembrando muito o treinamento de Rocky no interior da Rússia em “Rocky IV”, também em condições adversas, só que no meio da neve. As cenas das lutas de Boxe, apesar de um pouco exageradas, eram mais realistas do que víamos no “Rocky” original e havia algumas referências, como os socos na cara que Creed e Apolo, o Doutrinador, recebiam com a câmara em slow motion. Mas as esquivas de Creed eram bem mais palatáveis do que as que víamos em “Rocky III”, por exemplo. E a esposa de Creed cantando na entrada do marido na luta na Rússia era uma alusão direta a James Brown em “Rocky IV”. Tudo isso tornava o filme saboroso, pois nos ligava de forma positiva ao “Rocky IV” do passado.

Assim, “Creed II” é um grande prêmio para os fãs de “Rocky”, pois faz muitas referências a “Rocky IV” e respeita demais os filmes antigos, mais até do que eles mesmos. Ainda, e principalmente, é um filme sobre personagens muito bem construídos e núcleos familiares que resolvem suas diferenças ao longo do tempo, não sendo uma película totalmente maniqueísta na questão de “mocinhos e bandidos”. A gente também torce para que a família Drago supere suas frustrações, mesmo tomados por tanto ódio. Quando o filme atinge esse tipo de sentimento, temos uma história nobre que atinge nossos corações e mentes de uma forma avassaladora. Filme obrigatório para ver, ter e guardar.

Batata Movies – Green Book, O Guia. Busca Por Identidade E Dignidade.

Cartaz do Filme

Um filme que disputa o Oscar. “Green Book, O Guia” concorre a cinco estatuetas (Melhor Filme, Melhor Ator para Viggo Mortensen, Melhor Ator Coadjuvante para Mahersala Ali, Melhor Roteiro Original e Melhor Montagem). Temos aqui uma ótima história baseada em eventos reais que aborda mais uma vez a questão do racismo nos Estados Unidos. Vamos precisar lançar mão dos spoilers aqui.

Um pianista garboso…

O plot gira em torno de Tony Lip (interpretado por Mortensen), um leão de chácara ítalo-americano, que resolve seus problemas no trabalho na base da porrada no Night Club Copacabana, local em que trabalha em Nova York. O problema é que um chefão mafioso local ficou chateado pois seu chapéu sumiu no Night Club e ele o “fechou para obras” alguns meses. Assim, Lip precisou encontrar um emprego temporário e ele o obteve com o Dr. Don Shirley (interpretado por Ali), um pianista muito rico e muito refinado que o contrata para ser seu motorista e segurança numa turnê pelo sul dos Estados Unidos, lembrando que Shirley é negro e estamos nos Estados Unidos muito racista da década de 60. Assim, a película mostra como foi essa viagem, a aproximação entre Lip e Shirley e quais foram as situações de racismo que os dois foram encontrando ao longo da viagem.

Esse pianista vai viajar com um ítalo-americano racista

Esse é um filme sobre identidade e dignidade. Temos aqui um branco ítalo-americano vaca brava que é racista e descobre com Shirley o que é viver sob o estigma do preconceito. Lip também vai descobrir outras coisas com Shirley: o autocontrole, ter mais tato, educação, buscar objetivos construtivos em sua vida, ser politicamente correto e escrever cartas bonitas. Já Shirley aprende com Lip hábitos mais “mundanos” como comer frango frito ou uma forma mais descolada e sincera de ver a vida. No tocante à identidade, o personagem Shirley é o mais interessante, pois ele é negro e não vive como os “seus”, que são de um estrato social mais pobre. Mas mesmo assim é rechaçado pelos brancos. Então ele não é negro nem branco. E Lip é branco mas também é visto com preconceito pelos WASPs por ser de descendência de imigrante italiano. Essa interação entre os dois personagens teve uma química muito boa e justifica inteiramente as indicações a melhor ator e ator coadjuvante, assim como a de melhor filme e roteiro original.

Os dois aprendem um com o outro

A questão do racismo no sul dos Estados Unidos na década de 60 foi um personagem à parte. O próprio título do filme, “Green Book” se refere a uma espécie de guia turístico para negros em viagem ao sul do país onde são indicados os hotéis e atrações turísticas exclusivas para negros. Chegava a ser surreal as elites sulistas recebendo Shirley com toda a pompa de uma celebridade e lhe reservando os piores lugares como camarim e banheiro na parte de fora (a popular “casinha”), isso sem falar do fato dele ser proibido de jantar nos próprios lugares em que ele tocava.

A viagem tem momentos difíceis…

E aí, todo esse racismo ajudou a cimentar a afinidade entre os personagens protagonistas do filme, servindo de ponte entre eles. Lip deixava de ser racista ao se identificar cada vez mais com Shirley e Shirley se encontrava em sua identidade ao se aproximar de Lip. E o filme cumpria sua função social de denúncia ao chamar a atenção mais uma vez para uma mazela que insiste em perdurar até os dias de hoje.

… mas também momentos divertidos…

Dessa forma, “Green Book, O Guia” faz jus a todas as indicações ao Oscar que recebeu, traz uma história real muito instigante, personagens e atores fenomenais e mais uma vez denuncia os problemas do racismo. Mais uma película para ver, ter e guardar.

Batata Movies – A Esposa. Colette 2, A Missão.

Cartaz do Filme

Um filme muito esperado. “A Esposa” traz Glenn Close em grande forma, tanto que ela conseguiu ganhar o Globo de Ouro de Melhor Atriz Dramática com esse filme e provavelmente receberá uma indicação ao Oscar vindo muito forte para a premiação. Mais uma película que tem abordado a questão da mulher e da busca por seu espaço numa sociedade ainda muito machista tanto aqui quanto lá fora. Vamos precisar de alguns spoilers aqui.

Um casal aparentemente em harmonia

O plot fala do casal Joe Castleman (interpretado por Jonathan Pryce) e Joan Castleman (interpretada por Glenn Close). O marido é um grande escritor que recebe o Prêmio Nobel, com a esposa assumindo o passivo papel de fiel escudeira do cônjuge. Mas há algo de estranho no ar. Eles têm um filho, David (interpretado por Max Irons), que também investe na carreira de escritor, sendo visto com um certo desdém pelo seu pai que só se preocupa em ostentar seus sucessos. Obviamente isso produzirá um clima muito pesado na família, que irá explodir justamente na ocasião da premiação. Para piorar a situação, a família é perseguida por Nathaniel Bone (interpretado por Christian Slater), um escritor que quer produzir uma biografia não autorizada sobre Joe e que desconfia de algo nebuloso no passado do casal. Essa coisa nebulosa (alerta de spoiler!!!) é simplesmente o fato de que Joan é a verdadeira autora dos livros atribuídos ao marido e não aguenta mais ficar naquela situação humilhante.

Mas a esposa não aguenta mais uma situação

Esse plot é muito semelhante à “Colette”, já resenhado aqui. Entretanto, há duas diferenças básicas. Enquanto que “Colette” é baseado numa história real, “A Esposa” é baseada no romance de Meg Wolitzer. Talvez por isso mesmo, “A Esposa”, por ser uma ficção, é bem mais forte e ácido, onde vemos sérios conflitos entre esposa e marido e entre marido e filho. Já “Colette”, por sua vez, é bem mais leve, até pelo espírito transgressor da escritora, que viveu num momento tão conservador que era a virada do século XIX para o XX, onde ela teve uma certa liberdade, dada pelo marido, que se preocupava mais com seu empreendimento literário do que colocar grilhões na esposa. Já em “A Esposa”, o casamento era muito mais tradicional, onde Joan se sentia completamente aprisionada e humilhada, com o detalhe de que via seu filho também sofrendo com toda a farsa.

Logo o conflito aparece…

Agora, o que falar do elenco? Glenn Close, obviamente, estava maravilhosa. Seu olhar distante e penetrante quando ela via o marido ser laureado dói até agora. Mas seu grande momento foi o olhar de raiva, ódio mesmo, quando ela era agraciada pelo marido no discurso de agradecimento. Dava medo, mas doía demais também, atingindo o espectador em cheio. O Globo de Ouro foi um prêmio mais que merecido e não seria nenhum exagero ela ser premiada também com o Oscar, embora a gente ainda precise ver quais serão as outras candidatas. A atuação de Jonathan Pryce também foi primorosa. Ele fez um perfeito babaca que dava muita raiva na gente, embora fosse carinhoso com a esposa em alguns momentos, despertando sentimentos contraditórios típicos numa relação mais longeva. Max Irons teve um personagem um tanto fraco, pois só demonstrava mágoa com o passado e com o pai e mais nada. Plano demais, podendo ser um pouco mais complexo para que o ator tivesse mais oportunidades. Já Slater consegue convencer como um oportunista cafajeste e poderia ter sido mais bem aproveitado.

Um escritor atiçando uma situação…

Assim, podemos falar que “A Esposa”, fora um problema ou outro (um desfecho talvez exagerado) é um grande filme que prima por trazer mais uma vez a reflexão da situação da mulher na atualidade, chancelado pela grande presença de Glenn Close. Uma história forte, ácida e conflituosa que dá um forte grito contra o machismo. Mais um filme essencial que merece ser prestigiado, assim como “Colette”.

Batata Movies – O Beijo No Asfalto. Assustadoramente Atual.

Cartaz do Filme

É impressionante a recursividade de Nelson Rodrigues na cultura brasileira, um indício de que sua obra é atemporal. E ele está de volta mais uma vez, agora sob a tutela de Murilo Benício, que escreve e dirige uma nova versão para “O Beijo no Asfalto”. E o que essa nova tentativa de descortinar Rodrigues nos traz? Ela tem o grande mérito de ser uma espécie de “história comentada” pelos próprios atores que interpretam a peça.

Estudando uma peça…

O plot é perturbador e tem tudo que identificamos em Rodrigues. Um atropelamento,uma vítima masculina moribunda (ou já morta?), um homem que beija essa vítima,num ato de compaixão, nada mais. O problema é que isso é visto por seu sogro e por um repórter sensacionalista que pretende transformar essa história num grande escândalo para salvar a pele de um amigo policial que estava mal na fita e que vai conduzir as fantasiosas investigações. A partir daí, o homem que beijou o atropelado tem sua vida devassada pelos jornais em virtude do conservadorismo da época, sendo até incriminado por um possível assassinato. Isto provoca um efeito dominó que detona várias subtramas que vão do amor físico de um pai para com sua filha até a paixão entre cunhado e cunhada (mais rodriguiano impossível), levando a um desfecho trágico.

Grande participação de Fernanda Montenegro…

Como o filme é uma espécie de “história comentada”? Vemos isso logo em seu início,quando temos uma mesa com vários atores debatendo sobre a peça e lendo seus papéis. Dentre eles estão figuras muito conhecidas como Lázaro Ramos, Otávio Müller, Débora Falabella, Stênio Garcia e Fernanda Montenegro. É delicioso ver tantos atores conceituados analisando os próprios personagens, assim como o contexto histórico e social onde a peça foi forjada. Isso difere em muito da minha visão dos filmes de Nelson Rodrigues lá da década de 70 dirigidos por figuras como Neville D’Almeida, onde havia uma pegada mais direcionada ao erotismo e à sensualidade (embora uma neurose dos personagens já estivesse marcada). Mas o filme não ficava preso somente a essa análise. Logo, os personagens estariam em estúdio e locações contando a história da peça, embora isso fosse feito de uma forma sempre mesclada com o making of. Assim, poderíamos, numa cena, ver os atores atuando para, instantes depois a gente ve ra filmagem por outro ângulo de câmara, onde aparecia Walter Carvalho filmando os atores, ou uma casa abandonada se transformar num palco com uma plateia assistindo. Isso sem falar que a película é em preto e branco, que sempre favorece mais os contrastes da imagem do que o colorido e é bem mais artístico e estético. Nesses pontos, o filme foi bem interessante e original. Só não é totalmente inovador, pois a gente já viu uma produção nesse estilo em outros carnavais.

Um homem perseguido…

O filme ainda suscita mais questões. Ele é assustadoramente atual no que tange à crítica de Rodrigues ao conservadorismo da sociedade. A homofobia enorme que aparece na película, ao ponto de criminalizar uma atitude solidária, ainda se faz bem presente na nossa sociedade de hoje, sessenta anos depois. Isso é notado pelos atores que interpretam o filme. Montenegro inclusive aponta para o fato de que a sociedade que protagoniza a história é do subúrbio (e não da Zona Sul) de sessenta anos atrás e que terá esses traços mais conservadores e tradicionais. Fico eu me perguntando aqui se esse conservadorismo é uma característica mais inerente a sociedade de subúrbio ou ela também se manifestaria na sociedade de Zona Sul da época.

Filme tem curiosas locações…

Outra coisa que chama a atenção é a crítica ao jornal “Última Hora”, que publicava as reportagens que defenestravam o beijo. Fala-se por aí de que Nelson Rodrigues,mesmo sendo um crítico ácido da sociedade tradicional, era um homem de direita e que seu filho, que participava da guerrilha contra a ditadura e estava preso, só teria sobrevivido por um pedido de Rodrigues a Médici, seu amigo. Confesso que não chequei essas informações mas essa história já foi contada por aí. Assim, se ela for verídica, é sintomático perceber a crítica ao jornal “Última Hora”, do Samuel Wainer, considerado um jornal getulista e de esquerda, em oposição à “Tribuna da Imprensa”, de Carlos Lacerda, um jornal notoriamente de direita e de oposição ferrenha a Vargas.

Murilo Benício estreia na direção…

Assim,“O Beijo no Asfalto” é mais um bom filme brasileiro que merece a atenção do público, onde Murilo Benício fez um ótimo trabalho, escrevendo e dirigindo uma obra que pretende ser, simultaneamente, artística e didática, dando um grande resultado. Um programa obrigatório para os cinéfilos e amantes da obra de Nelson Rodrigues. Para ver, ter e guardar.  

Batata Movies – Colette. Anos Luz À Frente De Seu Tempo.

Cartaz do Filme

Um filme notável. “Colette” traz de volta todo o talento e a beleza de Keira Knightley e a saga de Colette, que viria a se tornar a mais renomada escritora da França, tendo atitudes demasiadamente ousadas e avançadas para seu tempo (a virada do século XIX para o século XX).  Podemos dizer que essa película é extremamente apaixonante.

Uma moça inocente e seu namorado mais velho…

O plot é o seguinte. Colette (interpretada por Knightley) é uma moça do interior que se apaixona por um homem da cidade grande mais velho que ela, Willy (interpretado por Dominic West). Willy trabalha para o mercado editorial e publica livros cuja autoria é atribuída a ele, mas, na verdade, ele tem escritores sob seu contrato para exercer o ofício de ghost writer. Como Willy tem uma vida altamente fútil, onde ele gasta seu dinheiro com noitadas, apostas e mulheres, o casal sempre está afogado numa tremenda pindaíba financeira.

Vida mais moderna na cidade grande…

Até que, um belo dia, Willy descobre que Colette gosta de escrever e põe a moça para fazê-lo, publicando o livro dela com a sua autoria. Colette cria uma personagem autobiográfica, Claudine, que se torna uma verdadeira sensação em Paris, o que faz com que Willy a obrigue a escrever continuações da vida de Claudine, sempre sob a autoria dele. Colette, então, vai dando sequência à sua obra, onde Claudine terá comportamentos ousados como a bissexualidade, assim como Colette os tinha. Essa forma ousada e transgressora de Claudine conquistará os franceses de vez, influenciando as formas de ser, a moda e outros setores, constituindo-se num verdadeiro espetáculo midiático. Entretanto, Colette não tinha autonomia sobre sua criação, sempre sob a propriedade de Willy. É claro que, pelo espírito de Colette, essa situação não poderia continuar assim.

Companhias femininas e masculinas…

A história, em si só, é altamente instigante, pois na nossa mente do século XXI, que testemunha um avanço enorme do conservadorismo, torna-se praticamente impossível conceber um espírito tão transgressor na virada do século XIX para o XX. Temas como o relacionamento aberto, o bissexualismo e o amor livre pareciam impensáveis para a época. E realmente o eram para algumas cabeças daqueles dias, como o filme nos mostra. Mesmo assim, havia pessoas com a mente mais aberta para esses pontos de vista e o estrondoso sucesso da personagem Claudine pareceu uma espécie de reação da sociedade à toda a repressão e costumes daqueles anos.

Um espírito transgressor…

O mais interessante no filme é a protagonista em si. Enquanto que Colette buscava o reconhecimento da personagem Claudine como sua, ela avançou por outras frentes. Além do já citado amor livre e bissexual, a moça também fez incursões pela carreira de atriz no teatro. Ou seja, Colette é uma personagem (real) muito fascinante, o que provocava uma empatia imediata com o espectador. O mais curioso é que ela vinha de um meio altamente conservador que era a zona rural. Mas isso não a impediu de se adaptar rapidamente ao mundo urbano e suas ideias e tendências mais modernas. Assim, Colette funciona como uma espécie de transição entre a tradição e a modernidade, sendo a última vista aqui como virtuosa.

Uma mulher muito observadora

E Keira Knightley? Caramba, como ela estava espetacular! Sua atuação foi muito firme e carismática, na medida do exigia sua personagem. E também pareceu que a moça rejuvenesceu, de tanta jovialidade que ela transpirava. Como a gente sabe que a atriz já tem um tempinho de carreira, era de se esperar que os primeiros sinais da idade já estivessem aparecendo. Ledo engano. Ela pareceu ainda mais jovem do que quando fez o primeiro “Piratas do Caribe”, sendo um deleite para os olhos.

A verdadeira Collete…

Dessa forma, “Colette” é um programa imperdível, pois aborda um caso real de empoderamento feminino do início do século passado, onde uma grande escritora enfrentou todos os tabus de seu tempo, se tornando uma espécie de celebridade midiática, mesmo que a autoria da personagem Claudine não fosse atribuída a Colette num primeiro momento. Ainda, ver Knightley em sua beleza e sua força de atuação foi um espetáculo à parte que já valia o preço do ingresso. Mais um filme que vale a pena a conferida do cinéfilo mais exigente, pois ele também primou pela reconstituição de época, seja nas locações, seja nos figurinos. Não deixe de ver.

Batata Movies – Utoya, 22 De Julho. Tragédia Como Prelúdio Para O Apocalipse.

Cartaz do Filme

Um filme extremamente perturbador. “Utoya, 22 de Julho” tenta reproduzir o horror dos ataques terroristas de 22 de julho de 2011 na Noruega, quando houve um atentado a bomba à sede do governo norueguês e um acampamento de férias de adolescentes na Ilha de Utoya foi alvejado por uma série de tiros por 72 minutos, provocando muitas mortes, ferimentos graves e sérios traumas psicológicos. Os ataques foram empreendidos por um grupo de ultradireita com conotações religiosas. E o autor dos atentados nunca se arrependeu de ter matado as pessoas que alvejou. Esse evento chocou o mundo, pois aconteceu num país que sempre teve a fama de ser muito correto e justo em virtude da política do “Welfare State”.

Kaja, sob fogo cruzado…


Como é o plot do filme? Inicialmente, vemos cenas reais de circuito de tv da explosão na sede do governo. Posteriormente, o filme foca no acampamento de Utoya em si e em torno da personagem fictícia Kaja (interpretada por Andrea Berntzen). No momento em que começam os tiros, Kaja se esconde numa casa com outros jovens e perde contato com sua irmã, que estava na barraca das duas. A partir daí, o filme é uma longa e angustiante jornada pelas barracas, pela floresta e pela beira do mar, onde sempre fica a questão: o que é mais seguro? Se esconder na floresta? Correr para o mar e fugir nadando? Ficar escondido nas escarpas à beira mar? Em qualquer dessas alternativas, o atirador pode te achar e te matar. Qual é a menos arriscada?
O filme é montado como se fosse um único plano-sequência (muito provalmente emendado aqui e ali), onde a câmara atua como uma personagem que sempre está próxima de Kaja. Como a moça se aproxima e se afasta dos grupos, estando sozinha em alguns momentos, em virtude de sua busca pela sua irmã, é como se estivéssemos junto da personagem o tempo todo, o que cria uma espécie de empatia (talvez até cumplicidade) com a personagem. Não vemos o atirador (exceto em esporádicos e rápidos vultos), apenas escutando os tiros (que ficam mais altos e mais baixos, indício de que o atirador pode estar mais perto ou mais longe) e pessoas correndo pela floresta, que é o terreno onde a película passa sua maior parte. Essa opção da câmara em plano-sequência como personagem é profundamente angustiante e deixa o espectador totalmente inserido na história.

Um acampamento arrasado…


O filme também cumpre a função social de denúncia do cinema, alertando para os perigos dos movimentos de extrema-direita e seu crescimento no mundo atual, constituindo-se numa verdadeira ameaça. Dessa forma, o filme usa a tragédia de Utoya como uma espécie de prelúdio para um futuro altamente apocalíptico. Depois não digam que não foram avisados.

Sem saber para onde ir…


Assim, “Utoya, 22 de Julho” é um filme essencial, que denuncia o perigo do radicalismo dos grupos extremistas, fazendo isso de uma forma muito perturbadora, pesada e angustiante. Um filme que deve ser mais e mais exibido por aí, não ficando apenas restrito a um único horário numa única e pequena sala. Imperdível. Para ver, ter e guardar.