Batata Movies – Rasga Coração. Uma Obra Prima.

Cartaz do Filme

O cinema brasileiro conseguiu no fim do ano passado gestar uma grande obra. Uma verdadeira obra prima. Também pudera. “Rasga Coração” é baseado em obra homônima de Oduvaldo Vianna Filho, dirigido e adaptado por Jorge Furtado. Um filme que fala de conflito entre gerações, mas também um filme que mostra como em nosso país passado e presente podem ter a mesma cara.

Um casal tradicional…

O plot se volta em torno de Manguari (interpretado na sua maturidade por Marco Ricca), um funcionário público que faz relatórios para a Secretaria de Educação sobre as escolas públicas. Ele tem um casamento tradicional com Nena (interpretada por Drica Moraes) e tem um filho adolescente, Luca (interpretado por Chay Suede). Essa é uma típica família da Zona Sul carioca, com uma vida razoavelmente estável, mas com apertos financeiros aqui e ali. Manguari tem um passado de militância no movimento estudantil nos anos mais pesados da ditadura militar (nesse momento, Manguari será interpretado por João Pedro Zappa). E até hoje tem uma mentalidade na busca por justiça social. Entretanto, as necessidades da vida acabaram mergulhando Manguari num modo de ser mais comedido e burguês. Já o filho Luca, inspirado pela educação do pai, até se engaja politicamente (a sua escola tradicional proibiu algumas peças de vestuário, levando a questão de gênero de uma forma preconceituosa como parâmetro), mas tem outras visões de mundo que causam estranheza ao pai mais liberal e à mãe mais conservadora. Esse vai ser o ponto de partida para uma relação entre pai e filho com idas e vindas, calmarias e turbulências.

Pai e filho…

O que faz esse filme ser grandioso? Em primeiro lugar, o personagem protagonista, Manguari é focado em dois momentos no tempo: em sua fase madura, onde ele é um austero pai de família, mas ainda com as convicções do passado, e nos seus tempos de adolescência e movimento estudantil, onde ele terá sérios conflitos com o pai, que tem uma cabeça muito conservadora. O filme faz um jogo com esses dois recortes cronológicos, provocando um verdadeiro diálogo entre eles e buscando rupturas e permanências, sendo que isso foi feito de forma orgânica e magistral, sinal de que tivemos uma excelente montagem. A coisa é colocada no ponto de vista bem pictórico, principalmente quando o diretor quer marcar as permanências do passado no presente, colocando coladas as imagens dos tempos pretéritos com as dos tempos atuais para atestar a continuidade do racismo ou do comportamento do pai que expulsa o filho de casa tanto no passado quanto no presente. Mas o filme busca também por rupturas. Se o pai, por exemplo, tinha outras visões de mundo na luta pela justiça social, onde ele quer que as pessoas que pensam diferente de você tenham acesso à tua voz para estabelecer um diálogo e não ficar todo mundo isolado em suas bolhas (nada mais atual), o filho, por sua vez, não concorda com essa forma mais “diplomática” e prefere a ação direta. O filme também mostra as contradições dos indivíduos: o pai quer justiça social mas está num confortável modo de vida burguês; o filho critica o conformismo do pai, mas também fica largadão em seu quarto, tendo tudo na mão, também com um modo de vida burguês. A mãe, de pensamento conservador, acha que o pai tem um comportamento demasiadamente liberal com o filho e quer que uma atitude seja tomada. E aí, quando a atitude é tomada pelo pai e o circo pega fogo, a mãe quer colocar panos quentes. Ou seja. nenhum personagem é totalmente plano, aparecendo contradições que fazem parte da vida de qualquer ser humano.

Mais uma coisa chama a atenção: esse filme poderia cair facilmente no estereótipo de uma relação totalmente conflituosa entre pai e filho. É isso que o trailer aparenta. Entretanto, o roteiro do filme escapa disso e vemos momentos de bom entendimento e até de ternura e harmonia entre pai e filho, seja no passado, seja no presente. Isso tornou o filme muito mais delicioso, produzindo meandros que tornaram a história bem mais interessante.

Amigos lutando contra a ditadura militar

Com tantas qualidades, a gente precisa falar do elenco. Essa também é aquela película que nos leva ao cinema para ver os atores. E como esse elenco estava bom! Marco Ricca estava simplesmente impecável, transitando com eficiência entre o inconformismo e o conformismo, entre o liberalismo e o conservadorismo, entre a agressividade e a ternura. Drica Moraes teve um papel um pouco mais plano, com raros momentos de complexidade e contradição, mas ela imprimia um carisma a sua personagem tão notável que conseguia roubar a ação. Chay Suede, ao interpretar um adolescente (que já é visto como “chato” pela sociedade), não deixou seu papel cair num lugar comum e marcou pela boa alternância entre a rebeldia e a ternura para com o seu pai. Agora, um ator que muito surpreendeu foi o jovem George Sauma, que interpretou Bundinha, um amigo de adolescência de Manguari, que era um porra louca total e fazia todas as suas loucuras, sendo o alívio cômico do filme. O detalhe é que Sauma não ficou apenas nisso e teve ótimos momentos dramáticos com Zappa, o que mostrou toda a versatilidade do ator que a gente está acostumado a fazer papéis mais humorísticos no “Zorra” na TV. Essa película foi uma excelente oportunidade para ele destilar mais seu talento para o público. E Sauma a agarrou com unhas e dentes.

O diretor Jorge Furtado (de barba) com o elenco

Dessa forma, “Rasga Coração” é um filme simplesmente imperdível. Uma joia de nosso cinema. Um filme que poderia cair em estereótipos e clichês, mas conseguiu driblar tudo isso com bastante maestria. Um filme que pode ser pessoal, mas que também pode dizer um pouco mais das rupturas e permanências em nossa sociedade. Ou seja, um filme fundamental. Um filme essencial. Para ver, ter e guardar.

Batata Movies – Diamantino. Uma Inusitada Colcha De Retalhos Sobre A Realidade.

Cartaz do Filme

Uma curiosa co-produção Portugal/França/Brasil. “Diamantino” é uma comédia cheia de lances inusitados e, por que não dizer, até surreais. O detalhe é que ele pega vários elementos da sociedade atual, sendo uma espécie de colcha de retalhos do que há por aí, o que deixa a história um tanto familiar para nós. O inusitado reside justamente no fato de como essas peças de realidade são coladas. Para a gente explicar melhor isso, precisamos de alguns spoilers.

Diamantino, meio bobão e perdido…

Vamos dar o plot. Temos aqui a trajetória de Diamantino (interpretado por Carloto Cotta) é um grande ídolo do futebol português, mais parecendo um Cristiano Ronaldo genérico (é impressionante como o ator foi posto parecido com o verdadeiro craque do futebol no filme). O problema é que Diamantino perdeu o pênalti na final da Copa do Mundo, o que fez com que Portugal perdesse o título e todo o país culpasse o jogador por causa disso, como sempre acontece. O resultado é que Diamantino mergulhou num estado depressivo e tomou como meta de vida adotar um refugiado. Ele acabará fazendo isso e adotará um adolescente de origem muçulmana. Mal sabe ele que o adolescente é, na verdade, uma mulher disfarçada, Aisha (interpretada por Cléo Tavares), uma agente do governo que investiga crimes de corrupção e sonegação de impostos. Aisha tem sua cabeça mergulhada no senso comum com relação aos jogadores de futebol: ela acha que todos não prestam e que a adoção é uma espécie da autopromoção para se esquecer do fiasco da Copa. Mas, com o tempo, Aisha descobre que Diamantino tem um coração puro e infantil, e que o problema está nas irmãs gêmeas que gerenciam a carreira do jogador, querendo usá-lo para fazer muito dinheiro. Elas usam o jogador num programa do governo que clonará onze Diamantinos para fazer o time de futebol perfeito e tornar a seleção de Portugal uma grande campeã. Usando o futebol como “ópio do povo”, o governo então vai alavancar uma campanha xenófoba de votação pela saída da União Europeia. O problema é que a clonagem põe a vida de Diamantino em risco.

Irmãs muito cruéis…

Ufa, que plot louco, não? Mas há elementos muito próximos de nossa realidade. O jogador de futebol megastar, o linchamento moral ao qual ele é submetido quando perde um gol decisivo, a questão dos refugiados que chegam à Europa sem eira nem beira, o sensacionalismo dos programas de TV, a onda de extrema-direita e de xenofobia na Europa. Esses são temas que não suscitam qualquer graça. A única forma de inseri-los numa comédia foi amalgamá-los com fortes doses de surreal e inusitado, sendo o personagem Diamantino o norte desse surreal. E aí, a gente precisa tirar o chapéu para Cotta, que consegue fazer um Diamantino muito caricato mas também extremamente simpático em sua ingenuidade e, por que não, jeito abobalhado. O fato do filme ser narrado por ele em primeira pessoa ajuda em muito nessa empatia entre o espectador e o personagem. Mas o roteiro também ajuda, pois o mais lúdico do filme está nos cachorrinhos gigantes que acompanham o jogador nos gramados dos estádios, sendo esse o mundo idílico particular de Diamantino. Entretanto, o inusitado não está apenas nos cachorrinhos. A tal experiência genética e os efeitos no corpo de Diamantino, dando seios femininos ao jogador, aliada ao relacionamento homoafetivo entre Aisha e sua colega de trabalho, que se disfarça de religiosa, mostra não somente algo um tanto surreal, mas até transgressor, com a intenção de agredir mentes mais conservadoras mesmo. Aqui a mensagem de romper com os padrões convencionais, moralistas e tradicionais da sociedade ficou muito nítida e clara.

Aisha dará um novo rumo à vida de Diamantino…

Dessa forma, “Diamantino” é um filme que chama muito a atenção por trazer um humor inusitado, surreal e transgressor, trabalhando com temas cotidianos altamente polêmicos e sérios. É um filme que te tira de sua zona de conforto. E, além do humor ao qual se propõe, faz também pensar, o que sempre é muito bom.

Batata Movies – Aquaman. Melhor Filme De Personagem Secundário?

Cartaz do Filme. Ele também fala com os peixinhos…

E finalmente estreou “Aquaman”. Os rumores que estavam por aí diziam que o filme é muito bom, sendo uma grande película para um personagem secundário. E aí  a gente se pergunta: Aquaman é mesmo um personagem secundário? Pela forma que ele foi apresentado na “Liga da Justiça”, meio que um pau d’água (me desculpem o trocadilho infame), parecia secundário mesmo. Mas o presente filme resgata o herói que deve agora ser visto com outros olhos nas próximas películas do casamento Warner-DC. Nada como um bom filme solo para recuperar a autoestima.

Um Aquaman um tanto troglodita…

Como é o plot (vou lançar mão de alguns spoilers aqui, atenção por favor)? Tudo começa num farol, onde o faroleiro Tom Curry (interpretado pelo “Jango Fett” Temuera Morrison) encontra nas rochas a Rainha de Atlântida, Atlanna (interpretada por Nicole Kidman). Depois de Atlanna destruir a casa e comer o peixe do aquário, Tom se apaixona perdidamente (também pudera, é a Nicole Kidman) e eles têm um filho, Arthur. Mas ela precisa retornar a Atlântida, já que o povo dessa civilização a procurava insistentemente, pois ela era acusada de traição (não vou explicar aqui, veja o filme) e a rainha vai embora, deixando Tom e Arthur desolados.

Aquaman terá a companhia da bela Mera, que não vai muito com a cara dele…

Os anos se passam e Arthur se torna aquela figura cabeluda, barbuda, musculosa e um tanto troglodita que, na nossa cabeça parece mais o Rei Netuno que o Aquaman (embora Netuno não seja troglodita assim) que, volta e meia, faz uns lances em prol dos fracos e oprimidos, como salvar um submarino russo (não  tão fraco assim) de uns piratas com quê terrorista. Depois de uma noitada no bar,uma bela ruiva vestida de verde chamada Mera (interpretada por Amber Heard), alerta Arthur para a ambição de seu meio irmão Rei Orm (interpretado por Patrick Wilson, muito mais parecido com o Aquaman que nós conhecemos dos quadrinhos e dos desenhos dos Superamigos). Revoltado com os povos da superfície, que enchem o mar de lixo e poluentes, Orm vai empreender uma guerra, fazendo alianças forçadas com os outros reinos do mar. O único que pode impedir isso é Arthur,que também tem sangue real, mas que é um homem da superfície. E aí são as porradas, bombas e tiros de sempre. 

Dolph Lundgren aparece no elenco…

A primeira pergunta é aquela questão desesperadora: o filme da DC é bom? Chegou aos pés da Marvel? Vou me inclinar a dizer aqui que esse foi o melhor filme da DC feito até agora. Melhor que o da Mulher Maravilha? Eu creio que sim, pois o da Mulher Maravilha, apesar do bom roteiro, teve alguns problemas, como usar um personagem histórico real (o General Ludendorff) de forma estereotipada como vilão (embora isso não seja tão grave) e pelo fato de a história, em sua primeira metade, ter sido um tanto arrastada (esse sim um problema maior).

Willem Dafoe, uma bela aquisição ao elenco…

O que segurava o filme era realmente Gal Gadot e toda a celebração em volta do empoderamento feminino que a película gerou. “Aquaman”, por sua vez, teve uma história mais instigante e efeitos especiais mais bem realizados (as más línguas diriam que se colocou o colorido da Marvel e tirou-se o obscuro da DC, mas creio que isso é implicância pura e simples). Foi muito legal se levantar a questão da poluição do mar no filme. Eu já revelei aqui a minha atração pelos blockbusters feitos exclusivamente para entretenimento onde aparecem algumas questões contemporâneas mais ligadas ao nosso mundo real que merecem reflexão. Já tínhamos visto isso em “O Último Jedi”,com as denúncias dos senhores da guerra. Agora, a poluição do mar e a matança das baleias denunciadas em “Aquaman” colocam aquela pulga atrás da orelha do espectador que fica falando em nossos ouvidos que o Rei Orm, o grande vilão,tem lá a sua razão em promover a guerra que tanto quer. Outra virtude do filme foi a variedade de locações (mesmo que algumas em CGI), o que enriqueceram a história. As sequências no Saara e na Sicília foram muito boas e ajudaram, junto com a ação, a dar um viés mais humorístico para a história (nova influência da Marvel? Sem maldade, por favor).

Lembram-se dele nos Superamigos???

E os atores? Essa foi uma grande virtude da película. Se tivemos a boa presença da já citada Nicole Kidman, que não foi apenas uma coadjuvante de luxo e teve um papel importante na história, temos também Willem Dafoe na pele de Vulko, que treinou Arthur nos ofícios das profundezas, mas que também é conselheiro de Orm, o que coloca seu personagem numa tremenda saia justa. Amber Heard não foi somente uma cara bonitinha e fez uma personagem que, embora não fosse muito com a cara do protagonista, sabia que precisava ajudá-lo em nome de um bem maior. Além disso, as piadas entre os dois convenciam, o que mostra que rolou uma boa química entre os personagens. Já o Aquaman propriamente dito a princípio incomoda, pois o Aquaman que está na nossa cabeça é um sujeito muito mais zen, louro de olhos azuis, de calça verde, cueca preta (por cima da calça, é claro!) e camisa laranja que fala com os peixinhos. E aí aparece no filme aquela figura com tatuagens de povos da Oceania e que gosta de encher a cara nas biroscas, olhos de sith, sendo meio troglodita, meio burro… muito uga buga para a minha cabeça.Um Aquaman totalmente novo e reconstruído. Acho que até pela candura do mar, o Aquaman mais tradicional seria mais adequado, tendo mais a cara de seu irmão Orm, que parece fisicamente muito mais parecido com o Aquaman que estamos acostumados. Mas, já que é para inovar, a gente tem que dar o braço a torcer para Jason Momoa, que faz um excelente trabalho. Creio que ele deve ter ficado um tanto preocupado em ter a responsabilidade de apresentar um Aquaman totalmente repaginado. Mas ele não deixou a peteca cair e deu muito carisma ao personagem, que poderia facilmente cair no estereótipo.

Mais outra mãezona. Pelo menos, ela não se chama Marta dessa vez…

Uma última coisa. O desfecho não foi tão óbvio e deu uma boa margem para continuação do filme solo. É muito bom ver tal opção de desfecho do que ver o lugar comum dos filmes de mocinho e de bandido, onde o antagonismo é excessivamente aflorado, só para dar uma dica do que estou falando sem lançar mão de spoilers.

Rei Orm ´é mais parecido com o Aquaman que conhecemos…

Dessa forma, podemos sim dizer que “Aquaman” foi um grande filme, motivado por um bom roteiro, por uma boa interpretação dos atores e por uma boa produção, tirando o herói de qualquer posição periférica em “Ligas da Justiça” futuras. A Warner e a DC parece que finalmente estão acertando a mão e oferecem produtos com cada vez mais qualidade. Vamos aguardar as próximas películas.

Batata Movies – Gauguin, Viagem Ao Taiti. Lançando-se De Cabeça A Um Novo Mundo.

Cartaz do Filme

Um filmaço francês. “Gauguin, Viagem ao Taiti”, não podia ter um título mais explicativo e sucinto. Quem tem um conhecimento mínimo em História da Arte sabe da saga do pintor Paul Gauguin em desbravar um Novo Mundo para encontrar inspiração para suas telas, que se tornaram ícones da Arte Universal e do Impressionismo. Pela força e pelo colorido de suas pinturas, sempre me pareceu que o pintor levava uma vida idílica e paradisíaca, cercado de belas mulheres, que alternavam com ele as telas de dia e a cama de noite. Só que o filme nos mostra que não foi bem assim.

Um pintor em desespero no paraíso

Em primeiro lugar, Vincent Cassel foi escolhido para o papel principal. Não podia ter essa sido escolha mais feliz. O ator conseguiu imprimir toda uma intensidade e desespero ao personagem, que fugia da França, pois não conseguia encontrar mais nada que fosse digno de se retratar e rumou em direção à Polinésia Francesa. A despedida não foi sem dor. Em dificuldades financeiras, o artista deixou para trás mulher e filhos completamente desguarnecidos. As telas que ele enviava não eram vendidas e logo a separação veio. O pintor também passava por dificuldades financeiras no Taiti, mas mesmo assim se casou com uma moça local, Tehura (interpretada pela bela Tuheï Adams), que serviu em toda a sua beleza para inspiração de seus quadros. O problema é que a “cabeça de artista” de Gauguin não se adequava às necessidades materiais e à estrutura do capitalismo, fazend0 com que nosso protagonista passasse junto com sua amada muitas dificuldades. Problemas graves de saúde com o coração e a diabetes, mais algumas aventuras extraconjugais de Tehura somente pioraram o quadro do artista.

Tehura, uma tentação em forma de mulher…

Na verdade, esse é um filme que desperta um duplo sentimento na gente. Em primeiro lugar, ficamos maravilhados com a força criativa do artista, que conseguia produzir lindas telas e esculturas. Mas, ao mesmo tempo, nos compadecemos muito das dificuldades pelas quais nosso protagonista passava, que vivia praticamente na mendicância, andando sempre mal vestido, sempre lutando com seus problemas de saúde, sempre se revirando contra a dor do adultério.

Uma relação conflituosa…

Tanta dor e sofrimento o levaram a tomar atitudes que podemos dizer que não eram muito éticas. Mas ficou a impressão que seus dias no Taiti foram mais de provação do que de alegria, onde essa última também aparece na película, mas em pouquíssimos momentos. Digamos, é um pouco trágico demais tudo aquilo que vemos. E Cassel consegue fazer com que a gente se identifique muito com o personagem, pois compartilhamos toda a dor e angústia de Gauguin, como se ela chicoteasse nossa própria pele.

O verdadeiro Gauguin

De qualquer forma, mesmo que esse filme nos desperte alguma dor e compadecimento, ainda assim é uma excelente película, pois dá a nós uma noção de como essas obras da Arte Universal foram forjadas e à qual cota de sacrifício do artista, o que nos deixa ainda mais admirado delas e que ainda nos faz lamentar mais que o reconhecimento dessas obras só venha depois da morte daqueles que a produziram. Como se a vida de provações fosse pré-requisito para que hoje elas tenham seu valor reconhecido em tão altas cifras. E, somente para concluir, sempre é bom ver Vincent Cassel em ação, um artista que melhora mais e mais a cada dia. Vale muito a pena dar uma conferida.

Batata Movies – Você Nunca Esteve Realmente Aqui. A Violenta Trajetória De Um Homem Atormentado.

Cartaz do Filme

Um filme perturbador premiado em Cannes pelo roteiro e pela atuação de Joaquin Phoenix. “Você Nunca Esteve Aqui” traz uma mescla confusa de flash-backs e alucinações, regadas a muito sangue e violência. Um filme que faz de tudo para que o espectador sempre saia de sua zona de conforto, se é que há alguma.

Um homem perturbado…

Vemos aqui a trajetória de Joe (magistralmente interpretado por Phoenix), um veterano da Guerra do Golfo de mente totalmente perturbada. Seus traumas vêm em lembranças que não são somente inspirados nas situações que ele passou na guerra, mas também com uma infância traumática onde supostamente seu pai é o resultado de seus terrores. Tudo isso faz com que Joe seja instável emocionalmente, com explosões de violência repentinas. E como o nosso tresloucado protagonista ganha a vida? Ele é um assassino de aluguel especialista em caçar pedófilos e criminosos que exploram sexualmente as crianças, sempre agindo com um… martelo (!!!), golpeando violentamente a cabeça de quem ele precisa matar por contrato. Somente esses pequenos detalhes já são suficientes para tornar o filme altamente perturbador. Mas, como dizia aquele lendário anúncio de TV, “e não é só isso!”. Joe é contratado por um senador que tem a sua filha sendo explorada sexualmente. Ele faz o serviço, mata todo mundo e resgata a menina. O problema é que o senador se suicida e Joe fica sem saber o que fazer, ao mesmo tempo em que todos aqueles que ele conhece ou ama são assassinados. Dois homens conseguem sequestrar a menina novamente. E Joe precisa entender o que aconteceu para resgatar a garota novamente e se vingar.

Alucinações…

Como essa é uma película onde o protagonista tem uma mente altamente perturbada, a gente não sabe o que é real, o que é alucinação, o que é onírico. Volta e meia, a narrativa fica altamente fragmentada e a gente precisa se dar ao trabalho de juntar as peças, pois o filme não se preocupa muito em explicar as coisas, sobretudo da vida pregressa de Joe, e a gente precisa deduzir muita coisa a partir dos cacos de sequência que aparecem soltos ao longo da exibição. Do jeito que é exposto aqui, parece ser essa uma tarefa muito difícil, mas até que não é tanto; dá para percebermos muitas coisas.

Vivendo com uma mãe doente…

Outra coisa que chama muito a atenção e que está intimamente ligada a esse clima ilusório do filme é que ele foge um pouco do desfecho tradicional dos filmes violentos de vingança. E aí não sabemos realmente como o antagonista teve o seu destino selado ou até se não tivemos mais uma alucinação de Joe em curso. Mais uma vez o espectador tem que colocar sua cabeça para funcionar e ele mesmo criar seu próprio desfecho, fazendo a sua leitura do filme. Por ter a narrativa muito fragmentada e cheia de alucinações e ambientes oníricos, podemos dizer que a película tem a capacidade de assumir múltiplas interpretações, sendo diferente na cabeça de cada espectador.

Seu trabalho é um pouco difícil…

E o que podemos falar de Joaquin Phoenix? Sua atuação foi simplesmente fantástica, mesmo que o personagem tenha a característica um tanto quanto plana de ser constantemente atormentado. O detalhe aqui é que Phoenix conseguiu dar nuances para isso, indo desde momentos de uma letárgica lucidez, chegando a paroxismos de tormento. Ou seja, ele conseguiu expressar com perfeição todas as matizes de seu personagem.

O que é real? O que é alucinação? O que é onírico???

Assim, “Você Nunca Realmente Esteve Aqui” (cujo título é a tradução literal do original, algo meio raro por aqui) já canta a pedra em seu título. Será que o que vemos é realidade ou uma leitura da realidade de uma mente perturbada? Fica a dúvida e a leitura de cada espectador. De sólido mesmo, somente a atuação de Joaquin Phoenix, que arrasa quarteirões. Vale a pena você se angustiar com essa película.

Batata Movies – Infiltrado Na Klan. Uma Louca História Real.

Cartaz do Filme

Spike Lee está de volta num filme que chama muito a atenção. “Infiltrado na Klan” é o típico caso de vida imitando a arte, pois é baseado numa história real no mínimo inusitada. Coisas impressionantes que aconteceram e que tinham uma chance enorme de dar errado e que, no fim das contas deram certo.

Um policial em busca de afirmação

O plot é o seguinte. Ron Stallworth (interpretado por John David Washington) é um afro americano que quer entrar para a polícia do Colorado, sendo o primeiro policial negro da instituição, em plena década de 70, quando as lutas pelos direitos civis estão acirradíssimas. Depois de passar pelo crivo pesado do chefe de polícia e de um policial negro mais experiente, ele acaba conquistando a vaga, sendo enviado para o arquivo, onde é tripudiado pelos policiais brancos com bastante racismo. Cansado daquela situação, ele pede um posto para ir às ruas.

Uma equipe vai embarcar numa investigação insólita…

É designado, então, para a inteligência, tendo como primeira missão espionar um encontro de ativistas negros. Lá, ele descobre duas coisas: a presidente do grêmio estudantil negro, Patrice (interpretada por Laura Harrier), pela qual se apaixona, e se inteira mais da luta pelos direitos civis ao assistir uma palestra de uma liderança. De volta à polícia, ele lê um jornal e vê uma propaganda da Ku Klux Klan, assim como um telefone para contato. É aí que ele terá a genial ideia de ligar para a Klan e se passar por um branco racista. Feito o contato, ele consegue marcar um encontro pessoal com a “organização”. Só que, por motivos óbvios, ele não pode ir. Assim, um de seus colegas da polícia, Flip Zimmerman (interpretado pelo “Kylo Ren” Adam Driver), de origem judia, fará o papel do Stallworth “branco”, enquanto que o verdadeiro Stallworth continua a manter o contato por telefone com os membros da organização. Nem é preciso dizer que, à medida que os policiais mais e mais penetram nas entranhas do grupo, essa relação ficará mais e mais perigosa.

Entrando para uma causa…

O filme tem a mensagem óbvia de denunciar o racismo nos Estados Unidos. Mesmo a gente já estando careca de saber disso antes mesmo de entrar na sala de projeção, a gente ainda se surpreende com algumas coisas, como o casal racista que troca juras de amor na cama, regado a muitos termos e ideias altamente racistas.

Descobrindo uma paixão…

O filme, entretanto, tem seus momentos engraçados, principalmente quando vemos Stallworth (alerta de spoiler) conversando por telefone com um dos membros da Klan rodeado por policiais que riem demais da conversa, ao melhor estilo de um trote telefônico.

Contando um antigo caso de racismo e homicídio…

Mas Lee consegue também ser esteticamente muito eficiente, com destaque em dois momentos: no discurso do líder negro que um Stallworth infiltrado presencia, muitas faces negras com um fundo escuro escutavam atentamente o palestrante, onde ficava claro em seus semblantes que uma espécie de consciência de classe se desenvolvia ali; e no momento onde um antigo líder negro falava de um enforcamento para uma plateia comovida enquanto que, simultaneamente, os membros da klan faziam todos os seus rituais com uma espécie de fundo religioso macabro. Lee conseguiu alternar esses dois momentos de forma magistral, não dando destaque maior nem para um nem para outro.

Rituais religiosos macabros…

Agora, o que mais choca em todo o filme é o seu desfecho. Lee nos acorda, pois ele traz para o presente algo que em nossas cabeças estaria adormecido lá no passado, nos tempos de Stallworth. Com um choque de realidade de imagens absolutamente contemporâneas (2017), Lee mostra que o ódio da Klan está mais vivo que nunca, e se sentindo encorajado com os desmandos do atual presidente Donald Trump. Dessa forma, o filme, que teve seus atrativos de inusitado e de humor, termina com um militante grito de denúncia, que nos faz sair da sala de projeção muito preocupados com a onda reacionária que assola o mundo hoje.

Spike Lee dirigindo Adam Driver

Assim, “Infiltrado na Klan” é um programa imperdível para quem gosta do bom cinema, magistralmente dirigido por Lee, e para quem se orgulha da arte cinematográfica como aquela que cumpre sua função social de denúncia. É mais um daqueles filmes para ver, ter e guardar.

Batata Movies (Especial Festival Do Rio 2018) – Carvana. A Trajetória De Um Grande Talento Brasileiro.

Cartaz do Filme

Dando continuidade às nossas análises de filmes do Festival do Rio 2018, falemos hoje do bom documentário brasileiro “Carvana”, sobre o ícone Hugo Carvana. Embora eu não tenha assistido esse filme durante o Festival, ele lá esteve e considerei a pré-estreia que assisti uma espécie de “Última Chance” do Festival. Exibida no Odeon, a pré-estreia de “Carvana” contou com muitas personalidades, dentre elas Othon Bastos, Betty Faria e Antônio Pedro. Os familiares de Carvana e a diretora Lulu Corrêa também se faziam presentes. Todos receberam bigodes postiços (uma marca registrada do ator homenageado) e os usaram durante a exibição. A sala de espera tinha cerveja e sacanagem (um salgadinho com presunto, queijo, tomate, azeitona, etc., espetados em palitos de dente). A equipe de produção esteve à frente da plateia antes da exibição do filme e Lulu Corrêa fez um pequeno discurso comemorando a ocasião. Uma homenagem para lá de justa.

Hugo Carvana. Uma homenagem muito justa.

E o documentário em si? Ele trouxe a fala de Carvana em várias etapas de sua vida, onde a gente podia ver o ator dialogando com ele mesmo ao longo do tempo. Pudemos ver Carvana no começo, fazendo pontas em chanchadas, depois sua participação no Cinema Novo (e suas ligações marcantes com Glauber Rocha), as participações na TV (lembram de Valdomiro Pena e “Plantão de Polícia”?) e, principalmente, sua prolífica produção cinematográfica, onde ele criou todo um estilo próprio de se contar histórias, sem querer inovar mas com muito humor, com falas totalmente descoladas e situações non sense que assaltavam o fio narrativo da história que era contada. É claro que seu grande sucesso (na opinião deste humilde articulista), “Bar Esperança”, também estava lá (esse merece uma resenha por aqui).

“Bar Esperança”, um de seus maiores filmes…

São preciosas as cenas de making of de suas produções cinematográficas mais recentes, onde Carvana se pronuncia para a equipe de filmagem, trazendo suas impressões sobre a vida, a arte a que se propõe fazer, a importância dos amigos (para Carvana, todo o trabalho era uma oportunidade para rever as pessoas e estreitar os laços de amizade). Mas Carvana também atenta para momentos difíceis, como os calotes que toma ao produzir filmes.

O non sense era presença marcante em suas películas…

Uma vez, ele ficou num beco sem saída, com 67 credores batendo à sua porta ao mesmo tempo! Ou então, nos períodos mais complicados da Ditadura Militar, onde o exílio o obrigava a viver longe de seu país, algo de que ele sentia muita falta, sem qualquer previsão de quando (e se) poderia retornar.

Com os amigos Othon Bastos e Andréa Beltrão…

É um documentário feito com extremo carinho e se mostra de forma muito otimista. Principalmente porque há uma preocupação de se dar voz ao próprio Carvana, o melhor narrador de si mesmo e de sua vida. E como o homem era um otimista e amante da vida, fica muito fácil o documentário enveredar por esse quê mais otimista.

Um amante do cinema, acima de tudo…

Dessa forma, “Carvana” é um documentário fundamental para quem gosta de cinema e quer ter uma boa noção da História Cultural recente do país, onde essa figura ímpar que foi Hugo Carvana teve uma participação bem prolífica. Um programa imperdível.

Batata Movies (Especial Festival Do Rio 2018) – Terra Firme. Uma Criança No Meio De Uma Relação.

Cartaz do Filme

Mais um filme que passou no Festival do Rio 2018 a ser analisado aqui. “Terra Firme” é dirigido por Carlos-Marques Marcét e tem a nobre presença de duas atrizes da linhagem de Charlie Chaplin: sua neta Oona e filha, Geraldine Chaplin (que é mãe de Oona). O simples fato de ver as duas contracenando juntas já é motivo de sobra para meter a mão no bolso e pagar o ingresso para ver esse filme. Mas existem mais outros atrativos nessa película: a história que é contada aqui.

Três amigos, uma família…

Temos um casal, Eva (interpretada por Oona Chaplin) e Kat (interpretada por Natalia Tena). As duas moram num barco que fica circulando pelos canais de Londres. Um belo dia, elas recebem a visita de Roger (interpretado por David Verdaguer), um espanhol descoladaço e muito louco, que vai chegar numa hora, digamos, inusitada: é que Eva quer ter um bebê, e Kat torce o nariz para essa ideia. Entretanto, as duas acabam concordando na vinda de um pimpolho e será Roger que doará o “peixe”.

A vida num barco…

Na primeira tentativa (onde Kat insemina Eva), o bebê não aparece. Mas aparece na segunda tentativa de inseminação. O problema é que Kat não faz muita questão de acompanhar todo o processo, ao contrário de Roger, que está animado com a ideia de ser “pai”, já que a família será Kat, Eva e a futura criança, com Roger tendo direito a visitas. Mesmo assim, Roger está muito animado com a gravidez e acaba ficando mais presente que Kat, que se afasta desse estranho triângulo amoroso, com direito a uma afeição filial.

Uma mãe que não entende os novos tempos…

Esse é o tipo de filme que mostra como os relacionamentos humanos estão sofrendo transformações e novas questões e situações de ordem afetiva têm surgido. Um casal homoafetivo que tem um filho, cujo doador de esperma não é um anônimo e sim um amigo da família. Isso trará algumas neuras, embora uma questão ancestral (o fato de um dos parceiros da relação não querer o filho) é o que mais dita as regras aqui. É claro que o desfecho para isso não vai ser fácil, embora ele tenha sido concebido em aberto e trazendo alguma esperança, depois de pesadas turbulências.

Eva. Frágil, mas sabe muito bem o que quer…

E os atores? Eles tiveram um certo trabalho, já que os personagens que interpretavam tinham um comportamento um tanto paradoxal. Oona Chaplin foi muito bem e impressiona com sua Eva altamente sensível mas que sabe muito bem o que quer, enquanto que Tena faz o lado mais “masculino” da relação e fica, entretanto, altamente vulnerável quando sente que pode perder sua amada, chegando a se humilhar perante Eva. Duas figuras humanas com as fragilidades expostas à flor da pele e comportamentos um tanto ambíguos. Essa ambiguidade também é vista em Verdaguer, que convence como o porra-louca inconsequente e, também numa virada paradoxal, assume uma profunda responsabilidade referente à paternidade. De qualquer forma, os três protagonistas mostram perfis da fragilidade humana e é impossível o espectador não nutrir uma empatia por eles. Já Geraldine Chaplin aparece pouco com sua personagem Germaine, mas mergulha também nesse comportamento mais paradoxal. Ao mesmo tempo que é uma budista e tinha uma mentalidade progressista no passado, ela não consegue se adaptar muito bem às vertentes frenéticas em que sua filha se envolve, achando que um relacionamento à dois já é muito complicado, imagine um relacionamento a três? E, por mais que ela tenha sido chamada de conservadora por Kat, ao fim das contas, tudo que Germaine temia acaba acontecendo.

O elenco com o diretor Carlos-Marques Marcét

Assim, “Terra Firme” é um filme de relacionamentos humanos, personagens paradoxais, duas atrizes da linhagem de Chaplin e, principalmente uma história em que como pode ser difícil um relacionamento, quando os pares (ou trios) não querem exatamente a mesma coisa. Vale a pena procurar, pois é mais um convite à reflexão.