Batata Movies (Especial Festival Do Rio 2018) – Três Faces. A Luta Pela Arte.

Cartaz do Filme

Ainda dentro das análises dos filmes do Festival do Rio 2018, falemos hoje de uma grande joia. Tanto que ela ganhou o prêmio de melhor roteiro em Cannes este ano. “Três Faces” é do meu diretor de cinema predileto, Jafar Panahi. Peço ao leitor mais um pouco de paciência com meus relatos pessoais. Sempre fui um amante do cinema iraniano, desde que vi “O Balão Branco”, do mesmo Panahi. As semelhanças com o neorrealismo italiano, onde gente do povo era utilizada como elenco numa Itália arrasada pelo pós-Segunda Guerra Mundial sempre chamaram muito a minha atenção.

Uma atriz e um diretor numa busca…

E ai, teve uma época em que muitos filmes iranianos passavam por aqui. Entretanto, algumas pessoas começaram a cornetar contra esse tipo de cinema, dizendo que era chato, sem graça, etc. E aí, os filmes iranianos saíram de nossas telonas. Mas continuaram ganhando muitos prêmios por aí, inclusive o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Mesmo assim, os filmes continuaram a não ser exibidos por aqui. E agora, que mais um filme iraniano volta aos holofotes por ganhar um prêmio na Europa, temos a oportunidade de assistir a uma película persa novamente.

Uma atriz em busca da liberdade…

O plot do filme é simples, tornando-se complexo gradativamente. Panahi e uma conceituada atriz iraniana, Behnaz Jafari (eles interpretam a si mesmos) fazem uma viagem para a região das montanhas, pois uma moça, Marziyeh (interpretando ela mesma) mandou um vídeo para o celular da atriz onde ela está desesperada, pois a família não quer que ela vá para Teerã estudar no Conservatório de Arte Dramática para se tornar atriz. A menina termina o vídeo colocando uma corda no pescoço e a imagem tremendo, como se ela tivesse se suicidado. Behnaz ficou desesperada e foi com Panahi para as montanhas, largando as gravações de seu programa na TV. A partir daí, o diretor e a atriz irão fazer uma busca pelo paradeiro de Marziyeh, interagindo com os habitantes das montanhas e com a cultura local, altamente tradicional e com toda uma peculiaridade própria, altamente conservadora.

A atriz é o ícone aceito da modernidade

Como a legendagem do filme estava na própria película, existe uma chance do filme entrar em circuito por aqui (até pelo seu prêmio de roteiro em Cannes) e não darei maiores spoilers. Mas dá para falar de algumas coisas. Esse é mais um filme de diálogo ora maniqueísta, ora culturalista, entre tradição e modernidade, onde a primeira faz as vezes de vilã. Se bem que a película consegue, volta e meia, relativizar um pouco as coisas de forma muito sutil. Os povos das montanhas, vilas e vales são de outra etnia, a ponto de falar turco ao invés de persa. Marziyeh é mal vista pela população local, assim como uma antiga atriz que foi banida daquela sociedade e vive isolada. Embora numa primeira impressão fique parecendo algo bem retrógrado e machista (não dá para pensar diferente) perseguir a moça por querer seguir a carreira artística, o diretor também tenta analisar a cosmogonia local ao dar fala a um habitante idoso da região onde ele diz que Marziyeh não se enquadra à realidade local, pois não cumpre uma função específica em seu povoado. Todos têm uma função específica (plantar, cuidar de animais, etc.), o que é de importância vital para a própria sobrevivência do povoado, mas Marziyeh não quer se enquadrar nisso. Ela quer atuar e estudar, algo que não tem objetivo prático naquela sociedade mais tradicional. Mesmo com essa relativização sutil, ficou bem clara a leitura de Panahi: as pessoas da cidade grande, dentro do arcabouço da modernidade, teriam uma mente mais “aberta” com relação à questão da liberdade para a mulher atuar no campo artístico, onde, por outro lado, no campo isso seria impossível, com outra etnia mais conservadora e até um tanto estrangeira. Mesmo assim, a modernidade invade a tradição, pois o programa de tv de Behnaz é apreciado pelos moradores locais e eles até a perguntam o que acontecerá nos próximos capítulos da novela.

Interagindo com a comunidade local…

No mais, é tudo aquilo que vemos no bom filme iraniano. Um ritmo lento, lindas paisagens, diálogos entre grupos culturais diferentes que levam a interessantes reflexões e, como sempre, uma espécie de grito velado por mais liberdade para o país, que ainda tem muitas restrições típicas daquelas de países com regimes teocráticos.

Fortes diferenças culturais…

Assim, “Três Faces” é mais um bom filme do Festival do Rio 2018. Três faces. Três atrizes. A banida do passado, a consagrada do presente, a que busca um espaço no futuro. Todas elas dialogando (ou não) com uma comunidade tradicional. E, dessa peculiar interação, podemos tirar muitas reflexões. Essa película vale a pena estar em circuito por aqui futuramente. Vamos torcer.

Batata Movies (Especial Festival Do Rio 2018) – O Termômetro De Galileu. Microhistória(s).

Cartaz do Filme

Dando sequência às nossas análises de filmes do Festival do Rio 2018, falemos hoje de “O Termômetro de Galileu”, uma produção portuguesa de Teresa Villaverde. A cineasta fez uma espécie de rosário de depoimentos pessoais, recuperando a memória e as relações entre os membros da família do cineasta italiano Tonino De Bernardi, que vive na região do Piemonte. Esse é um documentário extremamente família, onde vários membros do clã contam suas histórias de vida, indo desde os mais jovens até os mais idosos, com relatos muito comoventes. Um dos momentos mais marcantes do documentário foi quando uma das parentes de De Bernardi falou sobre a história de vida de uma parente já falecida, não em forma de depoimento espontâneo, mas lendo um texto escrito, onde houve a preocupação de se organizar previamente todas as informações daquela pessoa.

Tonino de Bernardi e sua esposa Mariela

Pudemos testemunhar sua juventude, seus sonhos, seus amores, suas perdas e seu definhamento, o que algo que muito nos faz pensar, pois geralmente conhecemos ou estamos com uma pessoa amiga em uma fase de sua e poucas vezes temos um convívio integral com a pessoa, mesmo nas famílias mais tradicionais (você não consegue testemunhar a infância e a adolescência de seus pais, por exemplo, mesmo que fique com eles o resto de suas vidas). Ao se resgatar essa história e memória individuais, a afinidade cresce muito mais e, ao fim do relato, parece que a gente conhece todo o íntimo daquela pessoa como se fosse alguém muito próximo. É aí que está a força desse filme.

De Bernardi em contato com pessoas de seu passado…

Outro detalhe que chama muito a atenção é a harmonia total entre os pares da família de De Bernardi. É claro que toda família tem seus problemas de relacionamento, mas quando eles se reúnem para falar deles mesmos, não há qualquer espaço para conflito, e sim uma afetividade mútua que beira o idílio. Essa também é uma família muito ligada à arte. Temos um trecho onde o próprio Tonino De Bernardi lê uma poesia que sempre o cativou muito.

Dando voz aos que não mais estão aqui. Relatos comoventes…

Já o desfecho, se me permitirem o spoiler, chega a ser engraçado. Vemos a família sentada à mesa com a diretora Teresa Villaverde e De Bernardi reclamando que quer falar para ela algumas coisas que ele não quer que a câmara registre. A diretora, já tão mergulhada no íntimo do clã, pede para De Bernardi desligar a câmara. Ele diz que não sabe fazer isso. Uma das mulheres da família, então, vai tentar desliga-la e, depois de várias instruções da diretora (e de vários supercloses da mão da mulher na nossa cara), a câmara desliga e vêm os créditos finais. Essa forma divertida de desfecho é a cereja do bolo que coroa todo o clima intimista produzido no filme com a família de De Bernardi.

A diretora Teresa Villaverde

Assim, “O Termômetro de Galileu” é mais um filme que chamou a atenção no Festival do Rio 2018 pela recuperação de memória através dos relatos da família de um cineasta italiano, e pelo clima altamente intimista que a diretora Teresa Villaverde consegue passar para o espectador. O ritmo do documentário é extremamente lento, mas vale a pena dar uma conferida, pois o filme transpira amor, carinho, afeto e ternura.

Batata Movies (Especial Festival Do Rio 2018) – A Rainha Do Medo. Pimenta Nos Olhos Dos Outros…

Cartaz do Filme

Dando sequência a análise de alguns filmes do Festival do Rio 2018, falemos hoje do argentino “A Rainha do Medo” (“La Reina del Miedo”), de Valeria Bertuccelli, uma co-produção Argentina/Dinamarca. Esse é um filme um tanto angustiante, pois a protagonista é acometida de uma ansiedade que parece chegar muito próximo aos limites do pânico. E aí, ou a gente acha ela uma histérica ou a gente embarca em todo seu sofrimento e suplício. Fica ao gosto do freguês. Só é impossível ser totalmente indiferente à personagem.

Robertina e sua rotina de ensaios…

Mas qual é o plot do filme? Temos aqui Robertina, a grande dama da classe artística argentina, que se prepara para encenar mais uma peça que será um sucesso garantido. Só que a atriz faz aquilo que chamamos no popular de “abraçar o mundo com as pernas”, ou seja, ela assume uma infinidade de responsabilidades ao mesmo tempo e, obviamente, não consegue segurar o rojão.

Assumindo muitas responsabilidades…

Ela se preocupa efusivamente com as constantes faltas de luz de sua casa, com uma obra em seu jardim, com a empregada chorosa que toda hora tem sentimento de culpa, com o amigo doente terminal de câncer na Europa e, é claro, lá na 87ª posição, com o ensaio da peça. Inevitavelmente, o comportamento de Robertina será alagado por uma ansiedade extrema, o que a deixa insegura e constantemente infeliz. E aí o espectador, que assiste a aquilo tudo dentro de um ponto de vista mais racional, vai pensar: é impossível para um ser humano assumir tantas responsabilidades ao mesmo tempo. Há de ser mais seletivo e focado nas coisas.

Robertina não consegue segurar o rojão…

O mais lógico aí seria se concentrar integralmente nos ensaios da peça, pois é sua atividade principal e seu ganha-pão. Mas Robertina tem um quê solidário que a obriga a resolver todos os problemas do mundo ao mesmo tempo. Os mais pragmáticos se revoltariam e achariam a mulher histérica. Os mais emocionais, contudo, entendem a situação da mulher e se solidarizam com ela. Não parece haver um meio termo nessa situação. E o espectador fica angustiado com a situação da atriz.

Dando atenção ao amigo doente…

A atuação de Valeria Bertuccelli foi muito boa. Ela conseguiu passar a ansiedade de sua personagem para o público sem recorrer à explosões de paroxismo. Era algo que tinha sua intensidade, mas era contido. Volta e meia, uma lágrima descia pela sua fronte meio que petrificada, o que acabou sendo mais eficiente do que uma crise de choro. Explosão emocional apenas na estreia da peça, quando ela atuou com muita garra, depois de tomar uma bronca de seu agente, pois pensava em desistir de tudo. Apesar desse detalhe, o desfecho foi um tanto dúbio. Derrota ou libertação? Não entrarei mais em detalhes, para que o leitor, se um dia conseguir ter acesso a esse filme (já que alguma coisa do Festival não voltará a ser exibida aqui), tire as suas próprias conclusões.

Muita garra na apresentação…

Assim, “A Rainha do Medo” é mais um interessante filme do Festival do Rio 2018, pois nos dá uma importante lição: carregue a cruz que você pode aguentar. Não adianta sair abraçando o mundo com as pernas, pois todos nós temos nossos limites. Sem falar que pudemos ter contato com Valeria Bertuccelli, realmente uma grande atriz argentina.

Batata Movies (Especial Festival Do Rio 2018) – A Névoa Verde. Uma Colcha De Retalhos Em Busca De Significados.

Cartaz do Filme

Dando sequência às análises de alguns filmes do Festival do Rio 2018, falemos hoje de “A Névoa Verde”, de Guy Maddin, Evan Johnson e Galen Johnson. Taí um filme que podemos chamar de angustiante, pela força de sua montagem. A ideia é criar uma película com fragmentos de muitos filmes, devidamente montados para se buscar algum significado. O pano de fundo é a cidade de São Francisco e uma estranha névoa que paira sobre ela. Alguns acham que o filme foi concebido de forma a homenagear “Vertigo” (“Um Corpo Que Cai”), de Hitchcock.

Uma névoa verde tomando tudo…

Mas, a meu ver, “Vertigo” é somente um dos muitos filmes homenageados aqui. O clima de suspense realmente paira no ar. Muitos trechos de filmes policiais ajudam a montar o conjunto inspirado em thriller. Mas a montagem também pode adquirir contornos altamente surreais, como os diálogos altamente truncados entre atores, que mais parecem uma mordaça na atuação, tornando a coisa muito tensa. Pouquíssimas falas são inseridas no filme, volta e meia com um quê de ironia.

Um clima de suspense…

Às vezes, faz-se um agregado de imagens que trabalham o mesmo tema (carros andando na rua, o mar de São Francisco e sua famosa ponte, pessoas caindo a la “Vertigo”, etc.). Realmente é complicado para o espectador encontrar uma estrutura narrativa coesa que se espelhe no filme. O que mais parece é uma sucessão de temas e ideias que mais parecem uma coleção de easter eggs. Ou referências. A coisa deixa de ser narrativa e parece mais poética, sensorial até.

Lindas estéticas, do preto e branco…

Uma coisa interessante está mais ao final, quando vemos de uma forma bem rápida, praticamente subliminar, os títulos de todos os filmes envolvidos na produção. Tem muita coisa de várias épocas diferentes. Os trechos de alguns títulos são perfeitamente identificáveis no transcorrer da exibição, mas outros títulos realmente se mostram como uma grande surpresa ao final.

… ao colorido…

O que podemos mais dizer? Para o cinéfilo, é uma experiência boa ver o filme, já que podemos testemunhar trechos de muitas obras cinematográficas espalhadas ao longo do tempo, o que nos faz passear por muitas estéticas, do preto e branco ao colorido. Mas o filme também foge do convencional da estrutura narrativa clássica, onde a nossa relação com as imagens é mais livre e direta, e podemos nos relacionar com o materialismo das imagens de uma forma bem mais criativa. Ou seja, essa estrutura “sem estrutura” nos permite fazer uma leitura muito mais subjetiva, criando diferentes afetividades com o que é visto.

A queda. Relação temática e livre com as imagens…

Dessa forma, “A Névoa Verde” é mais uma curiosidade com a qual nos deparamos no Festival do Rio 2018. Uma experiência sensorial pouco convencional que nos torna mais íntimos das imagens, pois elas estão mais vinculadas à referências do que a uma estrutura narrativa coesa e tradicional. Vale a pena dar uma garimpada nesse também.

Batata Movies (Especial Festival do Rio 2018) – Os Olhos De Orson Welles. O Desenhista Por Trás Do Cineasta.

Cartaz do Filme

O Festival do Rio 2018 foi de 1 a 11 de novembro, com cerca de 200 títulos. Ou seja, mais uma encolhida no Festival, que tem se mostrado cada vez mais combalido nos últimos anos. E, infelizmente para mim, não tive a oportunidade de ver filmes que realmente me interessavam pela questão do tempo e do trabalho. Pelo menos consegui assistir a “Os Olhos de Orson Welles”, esse sim um assunto que me chama a atenção, e é com ele que vou abrir a pequena série de análises dos filmes do Festival. Eu me considero até vitorioso por ter assistido a película, já que sua exibição teve uma série de problemas técnicos (filme que travava, legenda eletrônica que sumia e voltava, etc.).

Um homem multimídia para seu tempo…

Mas, do que se trata esse valioso documentário? O diretor Mark Cousins, narrando em primeira pessoa, procurou esboçar um pouco da trajetória de Orson Welles a partir de um grande achado: centenas de pinturas e desenhos pessoais do cineasta. Dialogando com a contribuição de Welles às artes plásticas, Cousins estabelece meio que um diálogo com essa incrível personalidade do século XX, onde muitas cenas de seus filmes ou imagens de arquivo também foram utilizadas. Pudemos ver ali detalhes da juventude de Welles, um pouco da história de sua mãe, uma ativista avançada para o seu tempo e que morreu quando o cineasta tinha apenas nove anos, seus amores, as mágoas que passou quando entrava em conflito com o sistema, etc.

O diretor Mark Cousins

O documentário também dialoga com suas produções cinematográficas, mostrando para o público toda a importância delas. E claro, conhecemos muitos detalhes do que Welles pensava sobre as coisas do mundo e de sua vida pessoal, onde alguns desenhos têm um tom intimista altíssimo, sobretudo na sua relação com as mulheres que amava. Há, inclusive, um trecho do documentário onde Cousins imagina uma suposta resposta de Welles ao próprio Cousins sobre as questões que são levantadas ao longo do documentário.

Beatrice Welles, a filha…

Um elemento que legitima demais tudo o que é apresentado no filme é a presença de Beatrice Welles, filha do cineasta, que é entrevistada e atua como uma espécie de consultora, dando acesso à sua coleção particular sobre o pai, onde podemos ver ainda mais pinturas e desenhos. Outro detalhe interessante é que Cousins tem a preocupação de retornar a locais que tiveram uma importância para Welles, com o intuito de mostrá-los como estão hoje. Em alguns casos, tudo continua como estava, mas em outros, tudo que lá existia já foi apagado.

Alguns de seus desenhos eram pequenas obras de arte…

O que mais chama a atenção nesse filme? É uma coisa que todo fã de cinema já está careca de saber, mas nunca é demais lembrar: Welles era uma força criativa em estado bruto, no sentido de que ele era muito producente e, simultaneamente revolucionário, seja quando produz um Macbeth somente com atores negros para o teatro, seja na sua estética expressionista em “Cidadão Kane”, seja no plano sequência memorável de “A Marca da Maldade”, seja nos ângulos de câmara de baixo para cima que tornavam gigante o protagonista. Podemos dizer que Welles era um homem multimídia de seu tempo, sempre se arriscando e experimentando, falando o que pensava e se engajando socialmente, o que despertava o ódio de pessoas muito importantes, onde William Randolph Hearst foi o maior paradigma.

… mas havia, também, espaço para Caco, o Sapo…

Assim, “Os Olhos de Orson Welles” é um grande documentário que foi exibido no Festival do Rio 2018, pois ajudou a gente a revisitar esse personagem e grande figura multimídia do século XX que foi Orson Welles, através de seus desenhos e pinturas, desconhecidos da maioria das pessoas. Vale a pena dar uma garimpada atrás desse.

Batata Movies – A Outra História Do Mundo. Ressignificações.

Cartaz do Filme

Um curioso filme, que é uma co-produção Uruguai/Argentina/Brasil passou em pouquíssimas telonas por aqui. “A Outra História do Mundo”, de Guillermo Casanova, é um filme que fala de resistência na ressignificação. Um filme onde a imaginação e a criatividade são usadas como armas contra o autoritarismo e a truculência.

Esnal. Sentimento de culpa pela prisão do amigo

O cenário é uma cidadezinha do interior do Uruguai sob a ditadura militar. Um coronel de nome Valerio (interpretado por Néstor Guzzini) faz as vezes da presença opressora do Estado sobre seus habitantes e ordena que os bares sejam fechados às dez da noite. Dois amigos, Esnal (interpretado pelo bom ator César Troncoso) e Striga (interpretado por Roberto Suárez) decidem fazer uma troça com o coronel e roubam os anões de jardim de sua casa. O problema é que Striga é capturado e desaparece nos porões da ditadura, o que deixa Esnal com uma pesada crise de consciência e ele fica recluso no seu quarto por muito tempo. As filhas de Striga decidem tentar trazer Esnal de volta a vida quando a mãe delas põe a casa à venda e vai embora. Esnal, depois do chamado da bela Beatriz Striga (interpretada por Natalia Mikeliunas) sai de sua auto reclusão e decide levar à frente uma nova estratégia de luta: ele propõe ao coronel dar aulas de História Antiga para a comunidade local. Só que as aulas serão uma alegoria da ditadura em que vivem, com Striga sendo o grande personagem histórico que luta contra o autoritarismo.

Boas lembranças do amigo Striga…

O filme é muito divertido, principalmente pela forma inteligente com que Esnal, nas barbas de todo mundo, distorce os fatos de um passado distante, usando muita lábia e uma forma inovadora de trabalhar com o retroprojetor, onde ele faz uma espécie de “animação” com fotografias impressas em transparências, no intuito de “reconstituir” as heroicas batalhas do passado, onde seu amigo Striga está lá como o grande personagem. O filme também lança o artifício do teatro de sombras enquanto o “professor” Esnal entretém seus alunos (aqui, devo confessar que me lembrei muito das sombras usadas no cinema expressionista alemão, o que deu um tom muito solene para a película). Toda essa forma criativa de se combater a ignorância da ditadura dá um tom deliciosamente lúdico para o filme e é sua grande atração.

Um coronel que controla a cidade com mão de ferro…

Quanto ao elenco, devemos dar todo um destaque especial a César Troncoso, que já trabalhou por aqui em “O Vendedor de Sonhos”. Sua presença é muito carismática, sobretudo como o grande contador de histórias que seu professor de História foi. Mas ele também impressiona nos momentos de reclusão de seu personagem Esnal, onde ele mostrou um desespero latente e uma insanidade grotesca, ao brigar com os anões de jardim do coronel que lhe faziam companhia no quarto. Néstor Guzzini também chama atenção por seu coronel Valerio, espelhando bem o lado ridículo e truculento do autoritarismo. Aliás, Guzzini já havia feito uma boa atuação em “Sr. Kaplan”. Só é uma pena que Roberto Suárez tenha aparecido pouco como Striga, mas foi bem quando esteve na tela. Ainda tivemos a participação de nosso ator Claudio Jaborandy fazendo um papel mais secundário de dono de bar.

O filme tem um alto tom lúdico…

Assim, “A Outra História do Mundo” é uma joia do cinema do Uruguai (lembrando sempre que Argentina e Brasil estão em co-produção) que merece toda a atenção dos cinéfilos. Só é uma pena que nossa rede de cinemas não seja suficientemente grande para exibir esse filme em mais salas; De qualquer forma, existem hoje outros meios para se ver tal película. Vale muito a pena dar uma conferida.

 

Batata Movies – O Doutrinador. Um Herói Brasileiro

Cartaz do Filme

Um bom filme brasileiro. “O Doutrinador” alia duas virtudes: a de se fazer uma história dentro de nossa realidade, mas com uma pegada típica de filme de super-herói da Marvel ou da DC um tanto hard core, já que há muito sangue em toda a película. Essa história, baseada no HQ de Luciano Cunha e dirigida por Gustavo Bonafé, parece também ser um grito coletivo de uma sociedade que já está exausta com a própria corrupção que produz. E aí, temos a catarse de expurgar, de forma muito violenta, todos os demônios que acometem essa mesma sociedade, para lá de combalida. O Doutrinador é uma espécie de produto de uma cultura de ódio que há muito tempo está em gestação.

Miguel, um policial que perde a filha…

Vemos aqui a história do policial Miguel (interpretado pot Kiko Pissolato), que pertence a um grupo de elite da polícia que faz busca e apreensão de políticos corruptos, mas também cumpre ações de despejo contra sem tetos. Enquanto que Miguel vê com bons olhos as ações contra políticos corruptos, ao mesmo tempo ele se inconforma com as ações policiais contra os menos favorecidos. Qual é o papel da polícia, afinal? Mas a vida de Miguel irá desmoronar quando sua filha é atingida por uma bala perdida à caminho do estádio para assistir a um jogo da Seleção Brasileira. Ela acaba morrendo por falta de atendimento no hospital, fruto da… corrupção. É nessa hora que o homem se revolta e participa de uma manifestação contra o governador do Estado, envolvido em vários ilícitos e saindo livre, leve e solto por determinação da justiça (você já viu essa história antes?). Surgirá então o Doutrinador, que esconde seu rosto atrás de uma máscara de oxigênio, depois que ele fica sob uma nuvem de gás lacrimogênio. E aí, com seu treinamento policial, ele mete a porrada em todo mundo com golpes coreográficos de artes marciais, sem falar que ele é muito certeiro com as armas de fogo, ao status de um bom sniper. Com todos esses ingredientes, nosso protagonista caça seus algozes de uma forma regada à extrema violência e com cara de Darth Vader de olhos vermelhos. Brincadeiras à parte, o visual ficou sinistraço e convence muito. É claro que Miguel não conseguirá fazer tudo sozinho nessa empreitada de combater o mal e a corrupção. Ele terá a ajuda de Nina (interpretada por Tainá Medina), uma hacker que abrirá ao nosso herói todas as portas para caçar os políticos do mal, que são verdadeiras alusões a todas as bandalheiras que estão por aí em vários setores.

… se transforma num caçador implacável de corruptos!!!

É um filme que ajuda a gente a aliviar nossa raiva e sentimento de impotência de como o país está indo ladeira abaixo para um estado de convulsão total. A gente sente um certo prazer sádico ao ver todos aqueles políticos corruptos tendo a cabeça estourada (sim, a violência chega a esse nível). Mas fica o espaço para um questionamento: o grande herói do filme é um… policial. Cá para nós, as forças policiais também não têm sido bem vistas em virtude de toda a guerra urbana que passamos e os chamados “autos de resistência”.

Colarinho branco na alça de mira…

Por isso mesmo, a construção do personagem teve que ser muito cuidadosa e detalhada. Miguel é um policial que caça corruptos, mas ao mesmo tempo se comove com os problemas sociais e ele mesmo foi vítima desses problemas ao ter a filha morta por uma bala perdida e por falta de atendimento no hospital. Essa foi uma boa saída para dar “superpoderes” ao nosso herói, pois ele usa o treinamento de sua força policial especial para atacar os políticos do mal, algo que seria impossível se ele fosse uma pessoa normal do povo.

Contando com a ajuda de uma hacker…

O desfecho do filme também foi bem apoteótico (embora eu não vá me alargar aqui sobre isso), hollywoodiano até. E parece que não há a intenção do projeto ficar somente nesse filme. Fique de olho numa cena pós-crédito que irá aparecer.

Capa da HQ

Assim, “O Doutrinador” é uma curiosa experiência de nosso cinema, onde temos a temática dos filmes de super-herói, ao bom estilo da Marvel ou da DC, com uma violência mais turbinada e muito bem encaixada com nossa realidade nacional, que tem parecido muito mais distópica do que qualquer produção de franquia de HQs. Que esse projeto possa ainda render mais bons frutos, pois ele parece ter muito fôlego e disposição para isso. Um programa imperdível para quem gosta de ação, suspense e muita violência, numa temática 100% nacional.

Batata Movies – Bohemian Rhapsody. De Arrepiar.

Cartaz do Filme

E temos o tão esperado “Bohemian Rhapsody”, o filme sobre Freddie Mercury e o grupo Queen. Caramba, o que dá para falar aqui? Em primeiro lugar, quero pedir ao leitor para colocar toda essa resenha sob suspeita, pois eu sou um declarado e ardoroso fã do Queen. Se os Beatles e os Rolling Stones para muitos são considerados os dois maiores grupos de rock de todos os tempos, creio que, para quem vivenciou mais a década de 80, o Queen tem esse gabarito e, para minha pessoa (com todo respeito a outras opiniões, obviamente), o Queen é o maior grupo de rock de todos os tempos. Logo, será muito difícil fazer uma análise distanciada e não tendenciosa dessa película, mas vamos fazer um esforço. Desde já, peço perdão se não conseguir.

Rami Malek, um ótimo Freddie Mercury

Inicialmente, vamos falar do filme muito por alto. Esse é mais um filme de Mercury do que do Queen. Talvez fosse melhor se tivéssemos uma película que desse igual peso para os quatro integrantes da banda. Mas quando você vê os nomes de Brian May e Roger Taylor como produtores musicais executivos do filme, a gente sente que eles quiseram dar uma justa homenagem ao vocalista e, principalmente, amigo, morto pela AIDS em 1991. De qualquer forma, um destaque maior para John Deacon, por exemplo, não faria mal a ninguém.

Uma ótima caracterização do Queen

Uma outra coisa que incomodou um pouco foi o fato de não se seguir a cronologia correta da carreira da banda. Assim, vemos coisas que aconteceram em 1985 sendo citadas antes de 1980, por exemplo. E a gente precisa se adaptar um pouco a isso no transcorrer da exibição. Logo, ficava a dúvida de qual evento acontecia antes ou depois de outro. Assim, a gente precisa enxergar mais o filme como uma sucessão de temas abordados e inter-relacionados onde duas situações distantes no tempo podem ter sido colocadas lado a lado para reforçar o que era abordado.

Início de carreira…

Mais outro problema (e aí podem colocar na conta da histeria de fã mesmo) foi o fato de que a música de Roger Taylor, “I’m in Love With my Car” ter sido mencionada em tom de piada e de troça. Mesmo que ela tenha sido colocada em pé de comparação com “Bohemian Rhapsody” (o que realmente é impossível de se fazer), não ficou de bom tom zoar a música, que também é muito bonita. Creio que, se foi colocada a piada em cima da música, pelo menos ela poderia ter sido executada num dos shows mostrados no filme para que as pessoas pudessem ter contato com ela e tirarem suas próprias conclusões. Outra música que eu esperava muito que aparecesse no filme era “Death on Two Legs”, que critica severamente os Midas da indústria fonográfica da época. A gente vê essa situação de conflito no filme, todo o terreno preparado para a execução de “Death on Two Legs” e… nada. Foi um desperdício de oportunidade.

Um Mike Myers irreconhecível…

Disseram por aí que o homossexualismo de Mercury ficou um pouco acobertado no filme. Não foi essa a minha impressão. O assunto foi abordado de forma respeitosa, sem entrar nos altos escândalos e orgias que se diziam que o vocalista do Queen praticava. Sei não, me pareceu que essa necessidade de se escancarar a vida de Mercury, bem ao estilo “biografia não autorizada” fica meio na conta daqueles que querem dissecar a vida de celebridades para ter materiais para publicar em tabloides de fofoca. Aliás, essa crítica a um comportamento mais perverso da mídia fica muito evidente no filme.

Love of my life…

Até agora, eu falei mais dos problemas do filme, ficou até parecendo que a película foi uma porcaria. Mas vamos agora entrar nas virtudes. Em primeiro lugar, Rami Malek. Quando vi o trailer, confesso que esperava coisa melhor para Mercury. Ele parecia um cara artificialmente caracterizado na maquiagem para dar mais impacto. Só que aí ele aparece no remake de “Papillon”, deixando muita boa impressão em sua atuação. E esse é o grande trunfo de Malek. O cara tem muito talento e força de atuação. Ele consegue superar sua não semelhança e caracterização artificial da maquiagem para incorporar Mercury em sua atuação de uma forma muito impressionante. A gente compra o Mercury de Malek sem medo. Parece até que o cara ressuscitou. E não falo da performance nos shows, onde isso é mais evidente, e sim no momento em que ele não canta e interage com as demais pessoas. Outra coisa que faz o filme ser muito bom é a interação dos membros do grupo, para o bem e para o mal. Não se teve medo de mostrar os desentendimentos e brigas, onde até as vias de fato chegaram a acontecer, além de se desvelar a natureza “esquentadinha” de Taylor (o que magoa um pouco minha pessoa, pois sou muito fã de Taylor, interpretado por Ben Hardy). Dentre os integrantes do Queen, o que mais se parecia fisicamente era Brian May (interpretado por Gwilym Lee). Já John Deacon (interpretado por Joseph Mazzello) foi bem retratado em sua serenidade. Uma coisa que chamou muito a atenção foi um Mike Myers irreconhecível fazendo o papel de Ray Foster, um dos Midas da indústria fonográfica com o qual o Queen se desentendeu. No mais, o filme é muito divertido em referências. É claro que as músicas do grupo eram vistas com muito carinho e celebradas. Mas era muito mais saboroso quando músicas menos conhecidas (ou, talvez, menos executadas) do grupo apareciam, nem que fosse uma referência, casos, por exemplo, de “Doing All Right”, “Lazing on the Sunday Afternoon” (cantarolada por Mercury) ou “Seven Seas of Rhye” Pena que não apareceu muita coisa do LP Queen II, e isso até podia ter acontecido, pois o experimentalismo da banda foi bem explorado em uma certa altura da película. Referências divertidas também aparecem, como as meninas que pedalavam bicicletas numa das festas de Freddie (as “Fat Bottomed Girls” em sua “Bicycle Race” do LP “Jazz”), ou então o caminhão com um enorme “Mack” em seu capô (Mack foi produtor de álbuns do Queen). Outra coisa que torna o filme grandioso é a opção por não se fazer uma choradeira com a AIDS de Mercury. Sim, ela aparece no filme, mas não se foca no sofrimento do cantor como se poderia esperar nesse caso. Esse é um filme de momentos tristes, mas não trágicos. E um filme onde brigas podem ser resolvidas com reconciliações, seja na banda, seja na própria família de Freddie, muito bem espelhada em sua origem outsider, o que dá mais credibilidade a todo o conjunto.

Embates com a imprensa…

No que mais o filme foi bom? Porra, foi um filme do Queen, cacete! A gente cantava as músicas, estava com nossos ídolos em sua trajetória de vida, vimos seus altos e baixos. A empatia e afinidade com os personagens reais do filme parecia ter cinquenta milhões de anos!!! O que vocês mais querem que eu diga???

No Live Aid…

Bom, querido leitor, espero ter dado a você uma análise a mais isenta possível (creio que foi algo impossível, principalmente depois do parágrafo acima). Só posso dizer que fui às lágrimas em muitas partes do filme, sobretudo ao seu final, e junto com os fãs do estádio. Fiz questão de puxar as palmas ao fim da sessão que assistia, no que fui prontamente atendido pelo público. O filme é do caralho (olha só o tamanho da resenha que deu!), não deixem de ver. E não deixem de ver, depois do trailer abaixo, as duas músicas que tinham que estar no filme, “I´m In Love With My Car” e “Death On Two Legs”.