Batata Movies – Meu Anjo. Abandono De Incapaz.

Cartaz do Filme

Um bom filme francês. “Meu Anjo” (“Gueule D’Ange”), de Vanessa Filho, traz a diva Marion Cotillard toda loura oxigenada, com a jovem Ayline Aksoy-Etaix, que surpreende na película. Essa é uma história de uma turbulenta relação entre mãe e filha, com direito a abandono de incapaz e tudo. Temos um drama com levíssimas pitadas de humor e fortes doses de comoção.

Uma mãe doidona…

Vemos a trajetória de vida de Marlene (interpretada por Cotillard), uma mulher extremamente irresponsável que leva a sua vida em meio a muitas noitadas, bebedeiras e farras com homens. No meio disso tudo está Elli (interpretada por Etaix), uma menininha de apenas oito anos que precisa lidar com todas as instabilidades da mãe, pagando muito caro por isso. Elas convivem com a falta de grana, mas também com a night, onde Elli começa a trilhar os passos da mãe e mergulha muito cedo no álcool (não sem uma severa repreensão de Marlene, nos leves lampejos de lucidez). Até que, um dia, Marlene faz a porralouquice extrema: numa das noitadas, ela conhece um homem, coloca a filha num táxi pago para casa e simplesmente some por vários dias, deixando Elli abandonada à própria sorte. Esse será um momento em que a menina se sentirá profundamente sozinha e rejeitada por todos, até pelos amiguinhos de sua escola que a condenam pela maquiagem exagerada ou pelo fato dela consumir bebidas alcoólicas.

Uma menininha que quer afeto…

É um filme pesado. Mas absolutamente necessário. Apesar da situação parecer extremamente surreal, (a mãe que abandona uma filha por vários dias), ela não deixa de ocorrer normalmente no dia-a-dia. Eu, na posição de educador, volta e meia vejo situação semelhante: a de crianças que estão totalmente largadas no mundo, praticamente desprezadas pelos pais. A carência afetiva é muito grande, o que deixa o comportamento dessas crianças altamente problemático. E aí, é necessária muita, mas muita paciência para lidar com a situação. A gente acaba vendo tudo isso no comportamento de Elli, que ora se comporta como uma criança, ora se comporta de forma extremamente ressentida e até agressiva. Também pudera. Quando não é ignorada, é rechaçada pelas pessoas, o que acaba sendo demais para sua cabeça tão carente de afeto. Aqui, a gente tem que bater muitas palmas para Ayline Aksoy-Etaix que, mesmo com sua pouca idade, segurou com muita firmeza o rojão da complexidade de seu papel.

Uma relação instável…

A menininha transpirou infantilidade e inocência, mas também mágoa e ressentimento, sempre na mesma intensidade, sempre na mesma medida, e impressionou muito, engolindo até Cottilard. Essa também conseguiu ir muito bem, mostrando o verdadeiro caos emocional que era a sua personagem. Seu comportamento era tão errático que ela poderia ser extremamente amorosa e preocupada com sua filha mas, num piscar de olhos, largar a menina para lá como se fosse um objeto velho qualquer. Isso faz o espectador ter uma verdadeira relação de amor e ódio com a personagem de Cotillard e, ao mesmo tempo, abraçar cada vez mais Elli, a personagem de Etaix.

A solidão pode ser insuportável…

E o desfecho? Que pena que não posso contá-lo aqui, pois vai envolver um terceiro personagem que não entrarei em maiores detalhes para não estragar a surpresa (veja as pistas nas fotos e no trailer). Só dá para dizer umas poucas palavras sobre o fim do filme: ele foi um bálsamo para tantos momentos de dor ao longo da película, que nele se entrelaçaram. Talvez o desenrolar da narrativa tenha tornado esse final até previsível, mas ele foi tão intenso e tão poético que esquecemos de qualquer previsibilidade. E saímos da sala convictos de que valeu a pena gastar o dinheiro do ingresso.

Uma amizade…

Assim, “Meu Anjo” é mais um daqueles filmes franceses que valem a nossa atenção, pois tem Marion Cotillard, algo sempre muito bom de se ver. Mas também porque esse é um filme que denuncia a grave situação do abandono de incapaz, que não é uma exclusividade brasileira afinal. E, principalmente, por a gente encontrar mais uma joia promissora do cinema francês, que é Ayline Aksoy-Etaix. Vamos esperar que essa florzinha desabroche em sua plenitude. Tudo isso coroado com um lindo e poético desfecho. Um programa imperdível.

Batata Movies – O Nome Da Morte. Balada Do Pistoleiro.

Cartaz do Filme

Um ótimo filme brasileiro. “O Nome da Morte”, de Henrique Goldman, é baseado numa história real e fala da trajetória do pistoleiro Júlio Santana (interpretado por Marco Pigossi), que teria matado 492 pessoas e ficado preso apenas um dia de sua vida, estando ainda vivo e morando escondido com sua esposa e filho num sítio no interior do pais. Um filme que consegue ser, simultaneamente repugnante, em virtude das mortes das vítimas do pistoleiro, e um drama, dada a forma como Santana meteu os pés pelas mãos em sua vida. Vamos falar brevemente dessa película aqui sempre lembrando que alguns spoilers serão necessários.

Aprendendo um ofício com o tio…

O filme se preocupa em contar toda a trajetória de Santana, desde o início, quando ainda vivia com sua família e não tinha qualquer perspectiva profissional. Até que seu pai pede ao tio e padrinho de Santana, Cícero (interpretado por um irreconhecível André Mattos) que o levasse para a cidade para ser policial. O tio percebe que o menino é bom de mira e. assim, o inicia na vida de pistoleiro. As primeiras mortes serão, podemos dizer, muito dolorosas para Santana. Mas, com o tempo, ele consegue banalizar toda a violência em seu íntimo e passa a cometer seus crimes com muita frieza e naturalidade. O mais interessante é que, à medida que o filme passa, volta e meia um número aparece na tela, que é uma espécie de “placar” que vai contabilizando suas mortes. Mas nem tudo na vida de Santana são flores e ele tem problemas de relacionamento com sua esposa Maria (interpretada por uma deslumbrante Fabíula Nascimento, que rouba a cena por sua beleza e atuação) em virtude de todas as mortes que tem nas costas. Assim, nosso pistoleiro vai pisando em ovos para ganhar a vida e driblar seus problemas pessoais e emocionais.

Com o tempo, torna-se frio e calculista…

É claro que o filme incomoda. Nosso protagonista mata as pessoas pelos motivos mais vis, indo de uma briga num jogo de futebol, passando por uma índia que deve estar ocupando as terras desejadas por um grande fazendeiro, chegando até um líder sem terra. Realmente chega uma hora em que a gente quer mais é que o protagonista morra crivado de balas. O problema é que, por ser o protagonista, toda a carga dramática da película é construída em torno dele, o que acaba humanizando um personagem que não merece nada de humano (no bom sentido da palavra). Assim, a gente, como espectador, acaba ficando com os sentimentos meio que embaralhados com relação ao pistoleiro, algo que realmente nos tira de uma zona de conforto. Some-se a esse impasse uma trilha sonora tensa, curiosamente composta por ninguém mais, ninguém menos que Brian Eno, vejam só.

Fabíula Nascimento estava divina…

Esse é também um filme de caras conhecidas. Marco Pigossi foi relativamente bem, mostrando desespero e agonia quando estava em conflito nas primeiras mortes de Santana e uma frieza retumbante quando já carregava meio cemitério nas costas. O problema é que um elenco estelar ajudou a ofuscá-lo. Fabíula Nascimento enchia os olhos com a sua atuação e foi até um problema para Pigossi, pois ela contracenou muito com ele, sendo meiga, amorosa, e muito sofredora nos momentos mais obscuros do filme. André Mattos também ofuscou Pigossi e teve, talvez, uma das maiores interpretações de sua carreira, fazendo um tio paternalista e carinhoso com seu sobrinho, sabendo morder e assoprar nas horas certas. Sem dúvida, o grande ator desse filme. Como se não bastasse, Pigossi ainda teve que contracenar com Matheus Nachtergaele que, nos poucos momentos em que apareceu na película, foi soberbo como sempre e aproveitou cada segundo para destilar todo o seu talento como um marido psicopata. O filme ainda contou com uma rápida e bem vinda aparição de Tony Tornado, que deveria estar mais na mídia, pois além de bom ator sempre teve muito carisma. Pois é, mesmo atuando muito bem, a vida de Pigossi não foi fácil nesta película, já que seus colegas tinham muito e muito talento.

Na coletiva de imprensa…

Assim, “O Nome da Morte” é mais um grande filme brasileiro. Um filme que nos choca e nos incomoda, por provocar sentimentos tão díspares. Um filme que também acaba nos dando um choque de realidade, pois termina com um certo anticlímax, quando a gente quer um desfecho um pouco mais dramático, que nos ajude a acabar com os sentimentos conflituosos quando vemos essa película. Mas, mesmo que uma decepção paire no ar com o desfecho, se analisarmos mais friamente, não poderia haver desfecho melhor. Vale a pena dar uma conferida para prestigiar essa boa película de nosso cinema.

Batata Movies – O Primeiro Homem. Aventura In Loco.

Cartaz do Filme

Um grande e instigante filme. “O Primeiro Homem”, dirigido por Damien Chazelle (o mesmo de “Whiplash” e “La La Land”), e com produção executiva de, ninguém mais, ninguém menos que Steven Spielberg, fala sobre a saga da exploração espacial americana tomando como foco a trajetória de Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar na Lua em 20 de julho de 1969. Para o papel de Armstrong, Ryan Gosling foi escalado. Confesso que sempre gostei desse ator, embora ele já tenha ficado estigmatizado como tendo o talento de uma porta para atuar. Sua carreira decolava quando ele resolveu dirigir um filme e o projeto foi um fracasso total. Veio a redenção com “La La Land” e, então o vemos novamente protagonizando um bom projeto. E aí, Gosling interpreta Armstrong, uma figura que parece transpirar muita serenidade e tranquilidade (se me permitirem o trocadilho infame). Mas, apesar de Gosling ter sido demasiadamente sereno e tranquilo novamente, tivemos um momento em que houve uma explosão de choro onde a coisa foi muito sincera (não vou entrar no porquê do choro de Armstrong para evitar um spoiler que deixa a história interessante e ajuda na construção dramática do personagem).

Um astronauta…

Em relação à película em si, o recorte temporal escolhido está no Programa Espacial Americano realizado durante toda a década de 60, quando os Estados Unidos perdiam de lavada para a União Soviética na Corrida Espacial. Nesse contexto, a chegada de uma viagem tripulada à Lua era praticamente uma obrigação, ainda mais depois do antológico discurso de Kennedy que estabelecia essa viagem como uma meta futura. Assim, o filme nos permite testemunhar, além de detalhes pessoais da vida de Armstrong, como foi todo o processo de preparação da viagem espacial à Lua, onde cada missão buscava avançar em mais uma etapa da futura missão Apolo 11, que era a culminância de todo o processo. O filme, também, aborda a situação de angústia e perda das esposas dos astronautas (muitos astronautas morreram no Programa Espacial Americano), manifestas, sobretudo, na personagem Janet (interpretada por Claire Foy), a esposa de Armstrong, que realmente foi a melhor atuação de todo o filme. Essa é uma película que também mostrou todo um questionamento feito ao Programa Espacial Americano na época, com muito desperdício de dinheiro e de vidas, quando problemas sociais mais graves aguardavam por soluções. Tudo isso implicava numa pressão extra para os astronautas, que já tinham, aliás, que passar por situações muito perigosas e escabrosas. E aqui reside o grande trunfo do filme.

Uma esposa…

Ele permite ao espectador vivenciar in loco toda a sensação de desconforto que um astronauta passa quando é arremessado ao espaço espremido numa cápsula espacial. Definitivamente, esse não é um filme para claustrofóbicos. Essa película nos dá a exata sensação de que uma viagem ao espaço nada tem de romântica ou glamorosa, pelo contrário, é extremamente perigosa. Sentimos isso quando escutamos o barulho de ferro rangendo dentro da cápsula espacial em pleno lançamento, onde mais parece que estamos numa lata velha de um ônibus antigo do que num foguete.

Um objetivo…

Aqui, cai como uma luva as palavras de Janet aos varões do controle da missão, quando o seu marido passava por um sufoco no espaço. Quando eles disseram que estava tudo sob controle, ela retrucou: “Não há nada sob controle! Vocês são um bando de meninos brincando com modelos de madeira! Não têm nada sob controle!”. Frases mais precisas, impossível. Mas a experiência de colocar o espectador ao lado do astronauta é altamente compensadora no momento do pouso lunar e das caminhadas em nosso satélite, com momentos de grande beleza nas imagens.

Uma missão perigosíssima…

Não se pode deixar de dizer, para concluir, que o filme também teve uma preocupação em reconstruir de forma muito fidedigna, imagens de filmagens originais da missão, seja no pouso na Lua, seja em testes que Armstrong fez na Terra de pouso do módulo lunar, onde inclusive houve um fracasso, com o módulo se espatifando no chão enquanto o astronauta descia de paraquedas depois de ejetar.

Visão da Lua. Uma recompensa para o espectador…

Assim, “O Primeiro Homem” é um programa obrigatório por tratar da trajetória de Armstrong, por falar das etapas do Programa Espacial Americano, por testemunhar a difícil vida das esposas dos astronautas, e, principalmente, por dar ao espectador a noção de quão perigosa podia ser uma viagem ao espaço nos primórdios da Corrida Espacial. Não deixe de ver.

Batata Movies – Vinte Anos. Transformações Muito Rápidas Num País Parado No Tempo.

Cartaz do Filme

Um bom documentário brasileiro. “Vinte Anos”, de Alice de Andrade, é uma espécie de continuação do documentário “Lua de Mel”, onde a diretora, cerca de vinte anos atrás, foi a Cuba para documentar a vida de casais cubanos no dia-a-a-dia do embargo americano nos tempos do pós-ajuda soviética. A intenção era ver como a ilha se saía ao enfrentar a crise econômica provocada pelo embargo. Agora, anos depois, Cuba passa por um processo de abertura, e Andrade decide retornar à ilha para poder atestar como três daqueles casais vivem atualmente.

Um casal ontem…

E a documentarista encontra certas permanências mas também rupturas com o que viu vinte anos antes. Dentre as permanências, a situação de dificuldade financeira continua. Mas a ilha já mergulha numa ética capitalista, onde preços de imóveis alcançam níveis absurdos, ou já vemos carros um pouco mais modernos circulando pelas ruas, assim como várias reformas de prédios antigos em curso.

… e hoje, vendo suas imagens do passado…

Os três casais revisitados espelham diferentes situações: há um casal cuja família vive toda em Cuba, onde a esposa já é praticante de uma religião evangélica; a segunda família tem duas irmãs gêmeas, onde uma toca clarinete e permanece em Cuba, ao passo que a segunda é violinista e estuda na Orquestra Sinfônica da Costa Rica; já a terceira família emigrou para Miami com a autorização do governo cubano, pois como havia migrantes dessa família já estabelecidos em Miami, essa família era considerada separada. Mas uma das filhas não pôde viajar para os Estados Unidos, pois o avô dela não deixou (a menina era fruto de outro casamento), com a família permanecendo partida.

Ilha ainda parada no tempo, começa a chegar ao presente, não sem percalços…

Uma coisa o documentário atesta de forma bem marcante: a realidade dos cubanos agora é bem diferente, com uma maior liberdade religiosa ou acesso a recursos tecnológicos como a internet e o celular, o que possibilita a comunicação por vídeo com até outros países, algo impensável na Cuba de outrora. Mas, da mesma forma que o capitalismo traz benesses, ele traz também um nível de vida mais puxado, onde o preço dos imóveis dispara, indo além da realidade econômica do povo da ilha, que agora tem sua economia indexada pelo dólar, ao invés do baratíssimo peso cubano. Ou seja, nem sempre o capitalismo trouxe apenas benefícios para os cubanos.

Resquícios da Guerra Fria…

Uma coisa incomoda: o documentário não se aprofundou muito na explicação das mudanças pelas quais Cuba passa e optou por exibir tais mudanças apenas analisando o cotidiano das famílias. Tal situação presente do país poderia muito bem ter sido explicada de uma forma um pouco mais didática, ao invés de deixar nas costas do espectador o fardo de intuir as mudanças nas entrelinhas da materialidade das imagens. Isso daria um pouco mais de clareza para o cotidiano daquelas famílias e para compreendermos melhor a situação atual da ilha.

A diretora Alice de Andrade

Assim, “Vinte Anos” é um bom documentário brasileiro que busca esclarecer a quanta anda o cotidiano da ilha. Se ele não o faz de forma didática, ainda assim podemos intuir e deduzir tudo pelo que é apresentado nas imagens. A forma como as famílias foram tratadas e exibidas no documentário traz a gente um nível de intimidade com esses personagens reais como se nós os conhecêssemos há bastante tempo, dando uma empatia muito alta entre espectador e os personagens. O cotidiano dos personagens é outro detalhe que chama a atenção, já que sabemos que eles terão que se adaptar à ética capitalista, por bem ou por mal. Quem sabe Alice de Andrade não faz uma terceira parte do documentário daqui a alguns anos? Fica aqui a sugestão. Por ora, não deixem de assistir a esse documentário pelo seu primor de qualidade.

Batata Movies – Do Jeito Que Elas Querem. Comédia Romântica De Estrelas Consagradas.

Cartaz do Filme

Sabe quando você vai ao cinema com o único intuito de ver os atores que você gosta? Já falamos disso aqui umas mil vezes. E creio que será a milésima-primeira agora. Pois hoje vamos nos ater à análise de “Do Jeito Que Elas Querem”, uma comédia romântica bem convencional, mas que conta com atores para lá de consagrados e que não aparecem nas nossas telonas há algum tempo.

Quatro jovens senhoras… as divas arrasaram!!!

A história é muito simples. Quatro distintas senhoras de meia-idade, amigas antigas, fazem uma espécie de clube do livro para se encontrarem periodicamente, onde em cada reunião uma delas seleciona um livro para lerem e debaterem. Até que, um belo dia, uma delas seleciona “Cinquenta Tons de Cinza”, o que desperta um pouco a libido das jovens senhoras, que irão enveredar por casos amorosos, seja com seus maridos, com amantes obtidos via internet, antigos casos ou até novos casos, não necessariamente de uma nova idade. Esses pequenos casos amorosos é que servirão de combustível para a comédia romântica.

Andy Garcia,, numa interpretação meio quadradona…

Já dá para sentir que é uma história muito bobinha, mas agradável, que dá para passar o tempo numa tarde chuvosa e dar algumas risadas. Ou seja, cinema para o único e exclusivo objetivo de entretenimento, nada mais.

Craig T Nelson surpreende

E o elenco? Ah, sim, o grande trunfo do filme. Anota aí: Diane Keaton, Jane Fonda, Candice Bergen, Mary Steenburgen (a namorada do professor Brown em “De Volta Para o Futuro 3”, lembram?), Don Johnson (o policial de “Miami Vice” e sua Ferrari branca), Richard Dreyfuss, Andy Garcia, Craig T. Nelson (o pai do filme “Poltergeist”) e ainda Alicia Silverstone. Dá para perceber como a gente vai para o cinema somente para rever esses atores. As quatro atrizes protagonistas foram muito bem, destaques para Keaton e Fonda, obviamente. Dentre o staff masculino, Garcia parecia um robô, com uma interpretação muito rígida e pouco adequada à situação. Ele já foi melhor em outros papéis recentes. Dreyfuss apareceu muito pouco mas correspondeu quando foi exigido. Nelson foi muito bem na pele do marido inseguro e dançando ao som de Meatloaf (outra grata surpresa). Agora, quem roubou a cena foi Don Johnson, fazendo um excelente par romântico com Jane Fonda, destilando muito carisma. O que chama a atenção é o papel altamente periférico de Alicia Silverstone. Para quem já foi a Batgirl, parece que a moça está recomeçando bem por baixo. Vamos ver se ela dá a volta por cima.

Richard Dreyfuss: pouco tempo de tela…

É claro que, numa historinha simplória como essa, o happy end é garantido. Acho que nem seria um spoiler eu dizer isso aqui, tamanha a obviedade de filmes do naipe da comédia romântica. Afinal de contas, uma coisa que é feita para rir geralmente não pode terminar de forma triste. Seria um plot twist de proporções galácticas…

Don Johnson arrebentou!!!

Assim, esse é o tipo de filme para se passar uma tarde leve e agradável, pois a gente se diverte na pouco mais de hora e quarenta de duração com uma historinha banal, mesmo que ela abarque alguns problemas do cotidiano das pessoas, e isso com um elenco que todos nós já conhecemos de longa data e que gostamos. No mais, o filme não apresenta muitas atrações.

Batata Movies – A Última Abolição. Mais Uma Vez A Desmistificação.

Cartaz do Filme

Um bom documentário brasileiro dirigido por Alice Gomes. “A Última Abolição” revisita o tema da Abolição da Escravatura e a questão do afrodescendente no Brasil. Para quem tem um conhecimento mínimo no assunto, o tema parece ser recorrente. Mas sempre é bom revisitá-lo, pois as pesquisas têm avançado e descoberto novos pontos de vista sobre o contexto. Ainda, voltar a falar da escravidão e do negro no Brasil tem tido uma grande importância, principalmente nos tempos turbulentos que temos vivido e onde a ignorância de muitas pessoas sobre temas históricos tem levado a uma série de equívocos e erros de interpretação sobre as mais variadas questões sociais. Assim, um filme que nos relembra algumas coisas e apresenta outras novas sempre é bem vindo.

João José Reis é um dos entrevistados…

Vários estudiosos e pesquisadores sobre o tema são entrevistados e constroem o panorama que o documentário pretende apresentar. No meio acadêmico, temos figuras, por exemplo, do porte de uma Hebe Mattos e João José Reis. O recorte pretendido no filme se detém pouco na escravidão colonial e dá mais atenção para a Abolição em si e, principalmente, para uma questão que muito poucas pessoas se perguntam: como ficou a situação do negro no Brasil depois da escravidão? Além de serem simplesmente jogados à própria sorte, o Código Penal da época criminalizava todas as situações em que os negros viviam. Por exemplo, foi configurado o crime de vadiagem, numa época em que muitos negros que, mal acabaram de ser libertados, ainda estavam desempregados. Assim, se a Lei Áurea liberta os escravos, o Código Penal os coloca novamente nos grilhões. Há, também, o questionamento (já meio batido) de se a Princesa Isabel é a “grande Redentora e libertadora dos escravos” ou se o processo da Abolição deve ser visto como uma luta dos negros em si. Outro mito já desfeito e que é relembrado no filme é a questão da “democracia racial” de Gilberto Freyre em “Casa Grande e Senzala”. Mas o filme traz alguns elementos interessantes não conhecidos do grande público, como o ato de Rui Barbosa ter queimado as notas de vendas dos escravos (ele ficou conhecido como um destruidor de fontes sobre a escravidão e criticado por isso), pois os senhores, após a Abolição, queriam uma indenização do Estado por terem perdido seus escravos, suas “propriedades”. Embora Barbosa tenha dito na época que eram os escravos que mereciam a indenização, parece que o ato do famoso jurista foi mais o de livrar o governo de pagar pesadas indenizações do que de compaixão com os escravos em si. Enfim… Outro elemento muito interessante que é citado no filme é o surgimento de movimentos que lutam pelos direitos dos negros no Brasil nas décadas de 30 e 40, que teriam influenciado movimentos negros nos Estados Unidos posteriormente, muito antes dos movimentos de Martin Luther King e Malcolm X pelos direitos civis na década de 60, desmistificando a visão corrente de que os movimentos negros brasileiros seriam um mero decalque influenciado pelos movimentos negros americanos, quando temos justamente uma situação contrária.

Hebe Mattos é uma das entrevistadas…

O documentário ainda faz um alerta da estratégia de genocídio sistemático das populações negras de comunidades mais pobres, fazendo de forma eficiente um link direto com a cultura de escravidão que ainda perdura de forma muito forte em nosso país.

A diretora Alice Gomes e Luciana Barreto, que fez as entrevistas…

Dessa forma, “A Última Abolição”, apesar de ser um documentário um pouco repetitivo em alguns momentos, ainda assim se faz absolutamente necessário, pois ele traz alguns elementos novos e nunca é demais lembrar a situação altamente espinhosa que a comunidade negra brasileira passa em nosso país, onde racismos e genocídios fazem parte da ordem do dia, tudo isso uma herança dos mais de três séculos de escravidão que assolaram o Brasil e que não se apagam tão facilmente, mesmo depois de cento e trinta anos de Abolição da Escravatura. Tal documentário é fundamental em dias de tanto ódio e de intolerância como os que temos vivido. Programa imperdível.

Batata Movies – A Festa. Uma Tragicomédia Extremamente Cáustica.

Cartaz do Filme

Um filme perturbador. “A Festa” é uma daquelas películas em que a gente vê o sofrimento dos outros e a coisa é colocada no mórbido estilo de se provocar risos com isso. Ou seja, um humor muito negro e tão ácido que podemos dizer propriamente que chega a ser cáustico. Ainda, a impressão que temos é a de um grande teatro filmado, como se fosse a adaptação de uma peça para o cinema.

Uma festa mal sucedida…

A história gira em torno de Janet (interpretada pela eficiente e bela Kristin Scott Thomas), uma política de oposição na Inglaterra que consegue almejar o cargo de ministra da saúde, fazendo uma pequena festa íntima para comemorar com os amigos mais chegados. Desde o início, seu marido Bill (interpretado por Timothy Spall) apresenta um comportamento muito estranho, olhando para o infinito de forma letárgica e, volta e meia, colocando um vinil na vitrola. Logo, os convidados chegam: April (interpretada por Patricia Clarkson), uma americana cínica e agressiva, e seu marido Gottfried (interpretado por Bruno Ganz), um alemão, digamos, muito zen. Chegam, também, o casal Martha (interpretada por Cherry Jones) e Jinny (interpretada por Emily Mortimer, que já havia chamado muito a atenção no filme “A Livraria”, resenhado aqui). Para encerrar a lista de convidados, temos o bem sucedido Tom (interpretado por Cillian Murphy).

Um homem com um grave problema…

Mas, qual é o problema de Bill? O médico disse que ele está em estado terminal, o que vai estragar completamente a festa. Como se não bastasse, Bill ainda diz que quer se separar de Janet para viver o pouco que lhe resta com outra mulher, para implodir com a coisa de vez. O detalhe é que todo o imbróglio não se resume somente à crise entre Janet e Bill. Ou seja, não posso ir além daqui.

Uma galera muito estranha…

Optou-se pelo uso do preto e branco nas filmagens, o que deu uma atmosfera muito interessante à película, com bons tons de claro e escuro, sobretudo nas cenas bem negras do jardim da casa, e nos closes dos personagens. Ainda, tivemos um excelente trabalho de atores nesse filme que tem um elenco que, como o leitor já viu, não é de brincadeira, ou seja, é muito bom. Mas o mote da película está mesmo na história extremamente irônica e ácida, contada de uma forma muito sábia.

Um casal surreal…

O filme tem um tom muito sério em seu início, caindo pouco a pouco num drama que se torna profundo e angustiante mas que, de tão agressivo, vai se tornando tragicômico em alguns momentos, arrancando boas gargalhadas do público com a sucessão de desgraças que se abate sobre os personagens. Dentre as atuações, podemos destacar a de Bruno Ganz, que estava ótimo no carinha zen que consegue sempre ver o lado positivo das coisas e rechaçado de forma agressiva pela esposa, interpretada por Patricia Clarkson, que também teve uma presença muito marcante.

Ajudando o amigo em crise…

Timothy Spall, ao fazer o velhote letárgico que pouco a pouco se revela, também rouba a cena, justamente com Kristin Scott Thomas, linda como sempre e de atuação bem firme também. Cherry Jones fecha esse time, começando como a mulher toda segura de si, mas que mostra também muita fragilidade quando entra em crise com sua amante Jinny. Num segundo patamar, podemos colocar Emily Mortimer e Cillian Murphy, que realmente ficaram um pouco abaixo dos medalhões, mas que também não comprometeram.

As coisas só pioram…

Assim, “A Festa” não deixa de ser uma reflexão sobre a condição humana e seu estado de fragilidade quando você depende emocionalmente de outra pessoa, configurando aqui o típico caso de se “rir para não chorar”, dada a acidez da coisa. Vale apena curtir a breve experiência desse filme de duração de apenas 71 minutos.

Batata Movies – Minha Filha. Uma Menina, Duas Mães.

Cartaz do Filme

Uma co-produção Itália/Alemanha/Suíça muito interessante. “Minha Filha” traz de volta a atriz Valeria Golino, que fez par romântico com Charlie Sheen em “Top Gang”, lembram? A atriz, já veterana, consegue ainda ser muito bela e elegante, embora aqui a película não tenha favorecido muito seus lindos olhos claros. Ainda assim, a atriz marcou presença no filme, mesmo tendo que dividir as atenções do público com as outras atrizes protagonistas.

Um triângulo amoroso feminino

Como se desenvolve a história do filme? Temos aqui uma espécie de triângulo amoroso, mas não daqueles que estamos acostumados. Eu me explico. São duas mulheres e uma menina: Tina (interpretada por Golino), Angelica (interpretada por Alba Rohrwacher) e Vittoria (interpretada por Sara Casu). Angelica é uma tremenda porra-louca que se envolve com bebedeiras, homens e dívidas. Ela é a mãe biológica de Vittoria e deixou a filha com Tina para criá-la, mas sempre está por perto (todas vivem numa comunidade de pescadores). Angelica mais uma vez se envolve em dívidas e precisa sair de sua casa. Ela decide abandonar a comunidade mas estranhamente começa a se aproximar mais de Vittoria, que não sabe que é filha biológica de Angelica, para o desespero de Tina, uma mulher altamente centrada que não quer perder sua filha adotiva. Pronto, está criado o problema e o triângulo amoroso, ficando uma dúvida: qual será a reação de Vittoria quando ela descobrir que Angelica é sua mãe biológica?

Levando a filha (adotiva) para passear…

Esse é, acima de tudo, um filme de duas mulheres de comportamentos muito antagônicos, mas que podem se mesclar. Se Angelica, num primeiro momento, parece ser a última pessoa do mundo que deve ficar com a guarda de Vittoria, o transcorrer da exibição mostra que a personagem também pode ter virtudes que a aproximam de Vittoria. Já Tina, o modelo perfeito de mãe exemplar, também pode tomar atitudes pouco virtuosas. E, no meio disso tudo, Vittoria, que fica meio sem saber com quem ficar, se magoando com atitudes das duas e, ao mesmo tempo, querendo as duas por perto. Com tal situação, dá até para a gente prever qual será o desfecho, embora eu não vá dar esse spoiler monstruoso aqui. Só vou dizer que o filme termina de uma forma um tanto abrupta, dando ao espectador uma margem para delinear o que provavelmente irá acontecer.

Esse também é um filme muito humano. Mesmo que Tina e Angelica disputem Vittoria, podemos ver um afeto muito consolidado entre as duas. Podemos até dizer que Tina é meio que uma mãezona de Angelica e Vittoria ao mesmo tempo (os menos informados até suspeitariam, no início do filme, de que Angelica é a irmã mais velha de Vittoria), cuidando da moça incauta nas situações mais escabrosas. É, também, um filme que expõe demais a fragilidade, pois é muito triste ver Angelica trocando bebidas por sexo no bar ou então ver toda a tristeza e insegurança de Tina, que teme perder sua filha adotiva. O relacionamento entre Tina e seu marido era também algo comovente de se ver, com este sempre agindo de forma racional e afetuosa com a esposa, que sofria com toda a situação.

Dívidas, dilemas e uma só filha…

Assim, “Minha Filha” é mais um bom filme, pois ele aborda, de forma muito humana, um triângulo amoroso de duas mães e uma filha, onde não há mocinhos e bandidos, somente vítimas de uma situação triste e complicada que atinge a todos. Um filme cujos personagens transpiram fragilidade e que eles precisam decidir se continuarão magoando uns aos outros ou, pelo contrário, decidirão se ajudar para sair desse contexto de tristeza. Um programa que vale a pena.