Batata Movies – Nasce Uma Estrela. Uma História De Música, Amor E Dores.

Cartaz do Filme

Quando eu vi o trailer de “Nasce Uma Estrela”, achei, em meu preconceito, que não seria grande coisa. Um projeto encabeçado por Bradley Cooper, diga-se, de passagem, um ator de que gosto muito, onde ele atuou, foi um dos roteiristas, dirigiu e produziu. Aí, a Lady Gaga é uma das protagonistas (vem, então, a pergunta: mas ela não é cantora? Será que tem experiência como atriz?). O filme é sobre música. Parecia country. Será que o filme será uma versão americana de música sertaneja? Confesso que já tinha praticamente desistido de ver o filme. Mas, por questões de horários de exibição adequados e, principalmente, por ser um projeto em que Bradley Cooper parece que depositou tantas fichas, cedi à curiosidade e dei um pulinho no Estação Botafogo 1 (que teve um bom público na sessão) para ver a película.

Um cantor cheio de problemas…

No que consiste a história? Um cantor consagrado, meio de rock, meio de country de nome Jackson Maine (interpretado por Cooper), tem uma cansativa rotina de shows. Acometido por problemas de alcoolismo, drogas e de surdez, ele procura fugir um pouco de sua vida agitada e cai numa casa noturna de Drag Queens, onde conhece Ally (interpretada por Lady Gaga), uma moça que consegue fazer números musicais por lá.

E aparece Lady gaga, de forma surpreendente…

Os dois se conhecem melhor, têm uma grande afinidade um para com o outro e Jack descobre que Ally é uma excelente compositora. Dessa forma, Jack vai convidando a geniosa Ally para seus shows, com o intuito de cantar ao vivo com ela as composições da moça, o que acaba acontecendo. Logo, eles começam um romance e a carreira de Ally dispara. Mas o passado de Jack e seus problemas com bebidas, drogas e surdez  vão colocar uma série de obstáculos para a felicidade do casal.

Parceira na composição…

E aí vem a pergunta, depois de meu preâmbulo um pouco pessimista: o filme é bom? Pode-se dizer que sim. Isso porque, se ele parecia tomar a cara de um musical country, quando assistimos nós percebemos que a coisa não é bem assim e a película tomou contornos de um drama muito bem construído (o roteiro é inspirado na história de William Wellman e Robert Carson), onde o relacionamento entre Ally e Jack dão o tom da coisa. E aí, os problemas de Jack ganham um enorme peso na História, naufragando a carreira do músico enquanto a carreira de Ally tem uma ascensão meteórica. Obviamente, isso provocará certos problemas de ego e turbulências no relacionamento do casal. Mas paro por aqui com os spoilers.

… na música…

Como o leitor pode perceber, esse é um filme que dependerá demais das atuações dos protagonistas. Foi legal ver Lady Gaga atuando sem toda aquela maquiagem escalafobética. A cantora mostrou bastante firmeza e carisma, fugindo dos padrões de beleza habituais (sua personagem cita isso no filme). Os adeptos da ditadura da magreza diriam que ela estava meio “gordinha”. Mas que bom que foi assim! Ajudou demais a compor o personagem, enchendo de admiração quem a assistia. Já Bradley Cooper, bem, dá para perceber como ele deu muito carinho a todo o processo, a começar por uma voz rouca, um tanto caricata, mas ainda assim virtuosa, para seu personagem Jack.

… e no amor…

Em suas crises, parecia que ele carregava o mundo inteiro nas costas e ele fazia o espectador sentir todo esse peso do mundo junto com ele. Era doloroso ver todo o sofrimento de seu personagem e de como isso afetava Ally, que segurou o rojão com grandeza. Os choros de arrependimento de Jack para com sua esposa também foram muito arrebatadores. Só esses momentos já valeram o ingresso.

Bradley Cooper e Lady Gaga em Veneza…

Assim, “Nasce Uma Estrela” é um filme que vale a pena ser visto, pois não foi um musical com uma historinha de amor meio chinfrim como o trailer parece ter vendido. Muito pelo contrário, é um drama bem construído e pesado, que se amparou nos talentos de Bradley Cooper e Lady Gaga, cujo relacionamento teve uma excelente química. Assim, se você (como eu) viu o trailer com um certo preconceito, deixe-o de lado e pode ir ao cinema tranquilo.

Batata Movies – Promessa Ao Amanhecer. Fazendo O Que A Mamãe Coruja Mandou.

Cartaz do Filme

Uma interessante produção francesa. “Promessa ao Amanhecer” fala da trajetória do renomado escritor polonês Roman Kacew, mais tarde conhecido como Romain Gary, e seu turbulento e afetuoso relacionamento com sua mãe Nina Kacew. É uma história muito comovente e um típico caso de vida que imita a arte de tão inusitada.

Uma mãe e um filho, para o que der e vier…

A película começa com Gary (interpretado por Pierre Niney) tendo uma crise nervosa e sendo conduzido de uma cidadezinha do interior do México para a capital, Cidade do México, por sua esposa Lesley (interpretada por Catherine McCormick). No meio da viagem, a moça encontra um manuscrito que conta a história do escritor com a sua mãe, gancho esse que nos remeterá a Polônia e à infância difícil do escritor. A mãe de Gary, Nina (interpretada de forma magistral por Charlotte Gainsbourg, talvez o melhor papel de sua carreira) era extremamente zelosa com o filho, acreditando sempre que ele seria uma grande pessoa: ora um diplomata, ora um escritor, ora um chefe de estado.

Às vezes, a mãe era dura…

Essa crença (ou certeza) do futuro promissor do filho fazia, também, que ela fosse muito exigente e até dura com o menino que, mesmo assim, a amava incondicionalmente e se dedicava muito a corresponder às aspirações da mãe. A vida dos dois foi uma verdadeira roleta: da fria Polônia, eles foram para Nice, onde Nina passou a administrar um hotel. Mais tarde, Gary foi para Paris estudar, sempre escrevendo e buscando publicar suas obras com algum sucesso, chegando até a posição de combatente na Segunda Guerra Mundial e herói de guerra (e sempre escrevendo).

Mas o rapaz sempre reconheceu o esforço dela…

Esse é um filme que tem um certo tom de comédia, mas apenas em momentos mais pontuais. A vida de nosso Roman Kacew foi um tanto atribulada e nosso protagonista tinha uma tendência para a depressão e para a tragédia. Pode-se dizer que não há muito espaço para o “happy end” aqui, sobretudo nos créditos finais quando, com a ajuda de algumas fotos reais, é dito o que aconteceu com o escritor depois dos eventos exibidos no filme. De qualquer forma, é uma incrível história de vida.

Mãe sempre presente na vida do moço…

Com relação ao desempenho dos atores, Pierre Niney fez um bom trabalho, prendendo a atenção do espectador com sua atuação, ora muito dramática, ora bem engraçada, ora angustiante. Mas ninguém consegue nesta película chegar à altura de Charlotte Gainsbourg, que roubou a cena de forma arrebatadora, fazendo uma matrona muito coruja, que podia ser bem afável, bem terna, mas também extremamente rígida e até violenta, com uma dose muito bem medida de insanidade. A gente fica maravilhado com a personagem, pois a atriz é tão cativante que fica impossível a gente não ver com carinho essa verdadeira mãezona, por mais constrangedora que ela possa ser em alguns momentos para o filho na frente dos outros. Dá para entender a ligação imediata dos dois, que sempre seguraram pesadas barras juntos e com a mãe sempre valorizando o filho. Eles realmente formavam uma boa equipe que encaravam as mazelas da vida de peito aberto.

Mãe próxima até na guerra…

Assim, “Promessa ao Amanhecer” é um filme que vale a pena a conferida do espectador, principalmente por causa do trabalho de Gainsbourg, mas também pela incrível história de vida que podemos presenciar, com doses relativamente fortes de melancolia. Um programa imperdível.

Batata Movies – Venom. Uma Interessante Releitura.

Cartaz do Filme

E finalmente temos “Venom”, com Tom Hardy no papel principal. Ok, as pessoas têm uma certa resistência com produções da Marvel encabeçadas pela Sony. O bonequinho do “O Globo” não foi nada gentil com o filme. Mas devo dizer que, em minha opinião pessoal, gostei muito, embora seja um pouco suspeito para falar já que gosto muito do personagem e sempre esperei pelo dia em que ele tivesse um filme solo decente. A ideia aqui é justamente fazer uma defesa dessa película, já que a crítica especializada a esculhambou tanto.

Eddie Brock vai ter um parasita…

Como a trama foi construída? Eddie Brock (interpretado por Hardy) é uma espécie de repórter freelancer que usa o Youtube e seu celular para fazer reportagens que vende para um grande grupo de mídia. Um belo dia, seu chefe pede para fazer uma entrevista bem simples e rápida com Carlton Drake (interpretado por Riz Ahmed, que participou também de “Rogue One”), o presidente de uma empresa que realiza pesquisas científicas. Mas Brock fica meio contrariado, pois há rumores de que o empresário usa indigentes como cobaias humanas para seus experimentos científicos e que muitas pessoas morrem nesse processo.

Conhecendo seu hospedeiro…

Por intermédio de sua namorada Anne Weying (interpretada por Michelle Williams) ele consegue a entrevista, mas faz as perguntas que não devia, provocando sua demissão, a de sua namorada e, de quebra, o fim de seu relacionamento, deixando-o desempregado e amargurado. Meses depois, Brock é procurado por uma das médicas da empresa de Drake e diz que pessoas estão morrendo sim, pois elas são expostas a um simbionte alienígena altamente agressivo. Brock irá invadir o complexo e acaba sendo invadido por um desses simbiontes que começa a falar com o repórter, se intitulando Venom. Drake vai querer seu simbionte de volta e começará então uma perseguição com direito a muita bomba, porrada, tiro e, principalmente, cabeças devoradas por uma bocarra cheia de dentes afiadíssimos e com uma linguona bem inconveniente.

Uma caretinha básica…

O grande barato desse filme é que temos uma releitura desse (anti) herói. A primeira coisa que logo chama a atenção é a ausência total do Homem Aranha na história, justamente por haver essa divisão do Universo da Marvel com a Sony no meio. De qualquer forma, se o fã mais fervoroso dos quadrinhos provavelmente se sentiu incomodado com essa ausência, por outro lado conseguiram criar uma história solo do Venom sem o aracnídeo que funcionou muito bem e deu autonomia ao protagonista sem aquela impressão dele ser uma espécie de escada para outro super-herói mais conhecido e consagrado.

Um empresário sem escrúpulos…

Outra coisa que muito chamou a atenção foi a atuação de Tom Hardy e a construção do personagem Eddie Brock. Se nos quadrinhos, esse personagem é mais soturno e do mal, Hardy consegue fazer um Eddie Brock meio derrotadão, daqueles de desodorante vencido e sandálias que soltam as tiras, mas com um bom quê cômico.que ficou muito bom, sobretudo quando ele trocava umas ideias com o seu simbionte de estimação.

Michelle Williams no elenco…

As falhas de caráter do personagem não foram exploradas de forma tão negativa, mas sim de uma forma positiva, dando a Brock uma pecha de cafajeste carismático e querido. Pena que o Venom em si apareça menos do que a gente gostaria até porque o protagonista quer vender mais sua imagem no filme, o que é algo inteiramente compreensível e que, pelo talento de Tom Hardy, é algo inteiramente justificável e necessário.

Falando com seu hospedeiro, como se fosse uma consciência.,..

Uma coisa que incomoda um pouco é a duração do filme. Creio que, apesar dos 112 minutos de duração, ele poderia se estender um pouquinho mais e não se solucionar de forma tão rápida. Pelo menos, as duas cenas pós-créditos valem muito a pena e uma delas dá gancho para uma boa continuação. Agora é torcer para que o filme tenha fôlego para isso.

Uma linguona inconveniente…

Assim, “Venom” é um bom filme para esse (anti) herói da Marvel, onde os efeitos especiais e as cenas de porrada, bomba e tiro ajudam muito. Mas o filme não seria bom se não tivéssemos a boa atuação de Tom Hardy no papel principal, reinventando um Eddie Brock sem ódio pelo Peter Parker. Vale a pena dar uma conferida.

 

Batata Movies – Papillon. Um Ótimo Remake.

Cartaz do Filme

O primeiro contato que tive com a história de “Papillon” foi lá na longínqua década de 80, quando o SBT (ou seria ainda a TVS?) exibiu a primeira versão do filme, de 1973. E que versão! Foi a primeira vez que a emissora de Sílvio Santos, então considerada uma espécie de “Patinho Feio” da televisão, exibiu, até onde me lembro, um filme de qualidade. Vejamos: o elenco tinha Dustin Hoffman e Steve McQueen, o roteiro era do lendário Dalton Trumbo e de Lorenzo Semple Jr, o mesmo que escreveu vários episódios do “Batman” do Adam West e o “Flash Gordon” lá de finais da década de 70 e início de 80, com trilha sonora do Queen (Flash! Ah ahhhhh!). Eu era muito novo quando vi esse filme e nunca mais o revi. Mas ficou na minha cabeça as cenas dos dois anos que “Papi” passou na solitária, onde ele era obrigado a comer baratas e lacraias (argh!).

Chegando a um presídio…

Foi realmente um filme que vi há muito tempo e que ainda me lembro de algumas coisas por ter marcado. Qual não foi minha alegria ao ver outro dia no cinema um trailer de uma nova versão feita em 2017? Por isso mesmo, dei uma chegadinha ao Net Rio 5 para, com as parcas memórias da versão de 1973, ver o que essa nova versão tinha a oferecer.

Um preso rico, que pode financiar sua fuga…

A história (real) do filme é muito simples. Nosso amigo Henri ‘Papillon’(Papillon é borboleta, em francês) Charrière (interpretado por Charlie Hunnan) é um arrombador de cofres em Paris que acaba sendo emboscado por seus inimigos e injustamente acusado de assassinato, o que o leva a uma pena de prisão perpétua e uma espécie de “degredo” (expulsão definitiva) para um presídio na Guiana Francesa. Lá, as regras são muito claras. Quem tentar fugir, é morto. Se escapar para a floresta, morre de fome. Se tentar o mar, mata a fome dos tubarões. Se tentar fugir e for preso, dois anos na solitária. Mais uma tentativa de fuga e mais cinco anos de solitária e prisão perpétua na Ilha do Diabo.

Eles tramarão uma fuga…

Se matar um policial, execução na guilhotina. Neste cenário, Papillon, que já está ferrado com prisão perpétua mesmo, tentará fugir. E aí ele vai precisar de dinheiro, algo que outro detento mais rico (falsificava bônus de guerra), Louis Dega (interpretado por Rami Malek, o mesmo que fez Freddie Mercury em “Bohemian Rhapsody”) vai ter. O problema é que Dega é muito frágil e será um prato cheio para os detentos que querem matá-lo para conseguir seu dinheiro. Papillon vai fazer um trato com Degas e será uma espécie de guarda-costas em troca de um pagamento que vai ajudar a tirá-los da prisão. E aí o filme passa a ser a tentativa de fuga dos dois, não sem muitos percalços.

Dustin Hoffman e Steve McQueen na versão de 1973…

O filme é bom porque a história ajuda muito. Ela seguiu o roteiro do filme original. Mas houve alguns adendos. Não me lembro (e aí a minha memória pode me trair), por exemplo, no antigo filme, de ter visto a vida de Papillon na França, algo que aparece nessa nova versão. O desfecho da nova versão também é ligeiramente diferente. Já o restante do filme me pareceu ser muito fiel ao original, embora eu ache que a sequência da solitária ficou menos agressiva na versão nova (McQueen estava muito mais impecável e “degradado” na versão antiga, que realmente foi bem mais hardcore). Ainda assim, a versão de 2017 não decepciona e as atuações dos dois protagonistas foram muito boas, com um destaque para Malek que conseguiu ser um cara frágil e inseguro num ambiente muito hostil, mas mostrou uma explosão de violência que valeu o ingresso. Por seu personagem ter tido essas variações, a gente pode esperar que ele irá muito bem em “Bohemian Rhapsody”. Já Hunnan teve o fardo de ser comparado com McQueen e deu conta do recado, sobretudo nas suas simulações de loucura na solitária.

Pré Estreia em Los Angeles…

Assim, “Papillon” é um filme que vale muito a pena a conferida do cinéfilo mais exigente, que terá a oportunidade de ver um bom remake dessa conhecida película. Novos atores com boas atuações, uma história que foi tratada fielmente e com boas extensões que não desfiguraram a obra e, inclusive, a incrementaram. Programa imperdível.

Batata Movies – Oh, Lucy! Do You Speak English?

Cartaz do Filme

Uma co-produção Japão/Estados Unidos. “Oh, Lucy!” é um filme sobre rumos que tomamos em nossas vidas. Um filme que pode nos mostrar quanto o humano é bom ou cruel. Um filme de temática ácida e não muito feliz. Mas um filme que nos faz refletir.

Setsuko, uma mulher de vida vazia…

A história gira em torno de Setsuko (interpretada por Shinobu Terajima), uma senhora de meia idade que tem um empreguinho ordinário numa empresa. Ela tem uma sobrinha, Mika (interpretada por Shioli Kutsuna), que pede que ela assista a uma aula de inglês em seu lugar. A moça já combinou de pagar todo o curso e não pode quebrar o contrato. Setsuko vai numa aula grátis e conhece o professor americano John (interpretado por Josh Hartnett) que tem um método, digamos, peculiar para a cultura japonesa: ele dá nomes em inglês para seus alunos e pede que eles se cumprimentem e se abracem ternamente. Setsuko irá praticar isso com seu professor e outro aluno, que terá o nome americano de Tom (interpretado por Koji Yakusho). A senhora, que tem uma vida sem graça e solitária, vai ficar maravilhada com a pedagogia do professor John. Entretanto, quando ela volta para a segunda aula, descobre que John não mais trabalha lá e que retornou para os Estados Unidos. Desolada, ela sai do curso e, na rua, ainda consegue ver John indo embora com Mika. Setsuko procura a mãe de Mika, sua irmã Ayako (interpretada por Kaho Minami) e descobre que a mãe nem está aí para o paradeiro da filha. Mas Setsuko recebe um postal de Mika. Ayako visita Setsuko para lhe dar o dinheiro do curso de inglês e descobre onde a filha está pelo endereço do postal. Setsuko pede férias para ir atrás de John e Mika, sendo que Ayako também vai. Ao chegarem aos Estados Unidos, as vidas de Setsuko, Ayako, John e Mika nunca mais serão as mesmas.

Aulas com um professor de inglês americano…

A primeira coisa que chama a atenção no filme é a crueza das relações humanas entre os japoneses. Suicídios, cinismos, solidão, dureza, tudo isso parece fazer parte do cotidiano dos japoneses, onde tem-se a impressão de haver um exagero ao se montar tal estereótipo. E, como redenção a todas essas características negativas, a cultura do abraço e do afeto, ensinada por um americano, cuja cultura também sabemos que não prima muito pelo contato físico. Dessa forma, tal diferenciação cultural soou um tanto artificial, exceto pela professora substituta de John, que logo rechaçou a pedagogia do abraço. De qualquer forma, esse era o elemento necessário para se dar um pouco mais de graça à vida vazia e seca de Setsuko, e ajudá-la a sair do estado de letargia. O problema é que, ao tentar ter uma vida mais leve e colorida, Setsuko entra em atrito com os demais personagens pelos mais variados motivos. E aí é que a gente vê o elemento humano se digladiando em todos os seus defeitos e empáfias, o que faz com que todos se machuquem muito. Se esse filme tem poucos e leves momentos engraçados, progressivamente a história vai ficando tensa e pesada, onde o ego inflado de cada um leva a situações mais e mais tensas e angustiantes. Dessa forma, podemos dizer que “Oh, Lucy!” é um filme triste, embora um esboço de “happy end” se vislumbre no ar, algo pouco suficiente para o sofrimento visto ao longo da exibição.

Abraços e afetos…

Uma curiosidade aqui foi ver o nome de Will Ferrell na produção. Associado a filmes de humor, Ferrell consegue levar a cabo aqui um projeto bem mais marcado por um conteúdo fortemente dramático. O tom de drama regado em desesperança chama a atenção e ver o nome de Ferrell envolvido nisso não deixa de ser uma surpresa, muito boa, aliás.

Relacionamento complicado com a irmã…

Assim, “Oh, Lucy!” é um bom filme. Um drama forte, tingido com tristeza e desesperança, provocado pelo egoísmo das pessoas que se machucam umas às outras. Um filme que exagera um pouco em estereótipos que servem para contextualizar construções de personagens. E um filme que nos faz refletir como devemos tratar o próximo, sem direito a cinismos ou más intenções matreiras de machucar a outrem. Vale a pena dar uma conferida.

Batata Movies – 10 Segundos Para Vencer. Agora É Na Real.

Cartaz do Filme

Um grande filme brasileiro sobre uma grande personalidade de nosso esporte. “10 Segundos Para Vencer”, de José Alvarenga, fala da trajetória do pugilista Éder Jofre, um dos dez maiores boxeadores de todos os tempos. Estrelado por Daniel de Oliveira e Osmar Prado, essa cinebiografia lembra grandes filmes sobre esse esporte tais como “Rocky”, “Creed” e “O Campeão”, com a grande vantagem de que temos uma história real aqui que nada fica a dever às fantasias da ficção.

Daniel de Oliveira na pele de Éder Jofre…

Podemos ver nessa película, a vida de Jofre (interpretado por Oliveira) desde a infância até a conquista de seu segundo título mundial (Jofre foi campeão mundial em duas categorias – peso galo e peso pena – uma proeza considerada rara no mundo do boxe) aos 37 anos, sempre do ponto de vista do relacionamento com seu pai, Kid Jofre (interpretado por Prado), um treinador que exigia muita, mas muita dedicação, o que atrapalhava a vida de nosso protagonista com sua esposa Angelina (interpretada por Sandra Corveloni). O grande mote da história é justamente esse: Jofre continua se dedicando mais à profissão do que à família ou ele abandona o boxe para estar mais perto de sua esposa e de seu filho? Qualquer uma das opções que ele abrace pode trazer pontos positivos e negativos.

Osmar Prado em excelente atuação como o pai Kid Jofre…

O filme também lança mão de imagens de arquivo, onde vemos lutas reais de Jofre com os seus oponentes, intercaladas com imagens tratadas por CGI (para parecerem velhas imagens de arquivo) onde Oliveira e Prado simulam as vitórias do famoso pugilista. Essa é uma escolha interessante, pois dá uma certa legitimidade à coisa, além de nos aproximar com o Éder Jofre real. Ao final da película, uma série de fotografias de Éder, seu pai Kid e sua família aparecem, nos aproximando mais ainda da realidade que o filme buscou ilustrar.

Treinando em presídios, com quem não tem mais nada a perder…

E os atores? Mesmo com Oliveira sendo o protagonista e atuando muito bem, esse filme definitivamente tem um nome: Osmar Prado. Sua atuação foi simplesmente impecável como Kid Jofre, o pai durão que não media esforços para tornar o filho um grande pugilista. Mas, ao contrário do que pode parecer, sua atuação não foi plana, mesmo que o personagem pareça ser de uma característica só.

O verdadeiro Éder Jofre se encontra com Daniel de Oliveira e Osmar Prado…

O velho durão também aparentava fraqueza já na idade avançada com os problemas do pulmão agravados pelo fumo compulsivo. Vemos momentos, também, onde lágrimas sinceras brotam dos olhos do velho, ou a voz embargada quando conversa com o filho antes da luta que irá consagrá-lo com o segundo título mundial. Ou seja, Prado consegue fantásticas nuances emocionais em seu personagem, confirmando todo o talento que tem.

Momento emocionante: Éder Jofre chora muito com o filme sobre sua vida…

Assim, “10 Segundos Para Vencer” é um filme importantíssimo para nos recordar desse grande ídolo de nosso esporte, que é Éder Jofre, assim também como para apresentá-lo às futuras gerações. Temos um Daniel de Oliveira em boa atuação, pegando o sotaque e os trejeitos de Jofre mas, sem a menor sombra de dúvida, esse é um filme para a gente ver Osmar Prado atuando, o que já vale o preço do ingresso. Um ótimo filme brasileiro e um programa imperdível.

Batata Movies – Lámen Shop. Unindo Culturas E Famílias Pela Gastronomia.

Cartaz do Filme

Um interessante co-produção Singapura/Japão/França. “Lámen Shop”, de Eric Khoo, é um filme sobre culinária oriental e encontros. Uma doce e fofa película que fala, também, da família de forma muito terna. Mas que também pode desenterrar sérias feridas do passado. Falemos, agora, desse filme, sempre lembrando que usaremos spoilers aqui.

Um restaurante lámen…

Vemos aqui a história de Masato (interpretado por Takumi Saito), um rapaz que trabalha com seu pai num restaurante lámen no Japão. Aqui no Brasil o termo lámen foi ridicularizado como miojo, aquele macarrãozinho barato com o maldito tempero que é uma sopa de química pura e que a gente come quando está sem grana. No Japão, ele era visto como um mero “macarrão chinês”, mas pouco a pouco ele foi se introjetando na culinária local ao ponto de se tornar um prato muito conhecido e restaurantes especializados em pratos com lámen proliferarem pelo país. Mas, voltando ao nosso protagonista, Masato tem uma relação distante e fria com o seu pai, um homem amargurado desde a perda da esposa. Um dia, o pai de Masato falece e, ao mexer em suas lembranças, ele vê muitas coisas de sua mãe, inclusive um caderno todo escrito em mandarim por ela, uma língua que Masato não conhece.

Masato, um rapaz em busca de seu passado…

O rapaz tem vagas lembranças de sua estadia com a mãe em Singapura. E aí, ele decide procurar seu tio nesse país. Lá, ele consegue achar o tio e lhe pede para ensinar o prato típico da região, o Bak kut teh. Masato troca figurinhas com os chefs locais, ensinando sopas e lámens, enquanto aprende a culinária de Singapura. Mas, o que parece uma idílica farra gastronômica asiática também tem seus dissabores. A avó de Masato não quer conhecê-lo, pois ele é de origem japonesa e Singapura foi invadida pelo Japão em 1942, quando seu marido foi assassinado pelos nipônicos. Masato, então, terá um certo trabalho para se aproximar de sua avó.

Masato faz uma viagem…

Apesar do clima de tensão entre Masato e sua avó, boa parte do filme se passa em brancas nuvens, com relações muito ternas entre os personagens e as receitas orientais sempre cimentando tais relações. Os atores trabalharam de forma muito suave e deu gosto de ver o trabalho de todo o elenco. Já a lembrança do ataque japonês, que era a potência imperialista da região, foi muito oportuna e pertinente, ainda mais porque tal beligerância era o fator que partia a família e trazia dor aos seus membros. E qual foi a melhor forma de combater isso? Isso mesmo, caro leitor! Com a comida! Assim como o lámen era uma comida que, pouco a pouco conquistou o público médio japonês, o Bak kut teh era uma comida das classes menos favorecidas em Singapura e se tornou uma espécie de ícone nacional (tal como a nossa feijoada por aqui). Esses dois pratos se tornaram uma espécie de embaixadores das duas culturas para promover o entendimento entre os povos do Japão e de Singapura, estancando as feridas do passado. São as duas culturas outrora inimigas voltando a interagir através da gastronomia.

Aprendendo novos pratos com o tio…

Assim, “Lámen Shop” é um filmaço sobre o entendimento e a tolerância entre duas culturas. Um filme de atuações muito suaves e cativantes. E um filme de dar água na boca (toda a comida que vemos lá parece ser muito gostosa!). Um programa imperdível.

Batata Movies – Buscando… Sulu Stalkeando.

Cartaz do Filme

Um curioso filme vindo lá dos lados dos Estados Unidos. “Buscando…” é uma película que propõe trabalhar o gênero de suspense com uma temática muito atual atrelada à internet e às redes sociais. Com isso, o filme vai lançar mão de uma estética pouco usual: ele se passa totalmente dentro de uma tela de computador, como se o espectador estivesse sentado à própria máquina.

Um pai cheio de problemas…

Vemos aqui a história de uma família, destroçada por uma doença. Um pai, David Kim (interpretado pelo “Sulu” John Cho), a mãe Pamela (interpretada por Sara Sohn) e a filha Margot (interpretada na adolescência por Michelle La). Pamela morrerá de câncer, deixando pai e filha sozinhos. Um belo dia, Margot diz que vai passar a noite na casa de amigos para estudar para uma prova e… desaparece, deixando David atordoado.

Stalkeando tudo o que pode para encontrar sua filha…

Ele entra em contato com a polícia e vai contar com a ajuda da investigadora Vick (interpretada por Debra Messing) para encontrar sua filha. Enquanto a policial faz as investigações de campo, David segue plugado no seu PC e no de sua filha stalkeando tudo o que vê pela frente para encontrar pistas do paradeiro de Margot. E aí, uma trama de suspense é desenhada.

Onde está a moça???

A grande atração do filme é justamente essa estética baseada no que a gente vê nas telas de computador por aí, com direito a muitas consultas no Google ou conversas no whatsapp. Mas nada disso seria de muita serventia se não houvesse um roteiro bem escrito aqui. A história prende a atenção do espectador do início ao fim, mesmo que alguns possam achar o desfecho um pouco óbvio. De qualquer forma, a investigação das pistas pode assumir caminhos tortuosos, onde problemas muito contemporâneos tais como notícias e perfis fakes levam a perseguição de pistas erradas, introduzindo um elemento relativamente novo nessa proposta de suspense, o que ajuda a tornar a história ainda mais interessante.

Até memórias de um passado distante cabem na tela de um computador…

Com relação aos atores, não há muito o que dizer. Nada de medalhões. O único ator que chama mais a atenção é John Cho, que interpreta o protagonista David Kim, e ainda sim porque ele é conhecido por ser o Sulu do “Star Trek de J. J. Abrams”. Pelo menos foi legal o ator ter a oportunidade de mostrar o seu talento num personagem que passa por várias situações espinhosas, como a perda da esposa e o sumiço da filha, embora sua atuação, se não comprometeu, também não teve nada de muito espetacular.

Identidades fakes…

Assim, “Buscando…” é uma boa história de suspense, que consegue prender a atenção do espectador por despertar grande curiosidade. A gente tem a oportunidade de ver um gênero tão usado no cinema lançando mão de uma nova roupagem, que é o meio cibernético, trazendo elementos novos para a construção da narrativa como os perfis e notícias fakes. E um filme que mostra de forma definitiva como é o exercício de se stalkear tudo o que se vê pela frente. Vale a pena pelo roteiro e pela curiosidade.