Batata Movies – Histórias Que Nosso Cinema (Não) Contava. Uma Sólida Colcha De Retalhos.

Cartaz do Filme

Um bom documentário brasileiro. “Histórias Que Nosso Cinema (Não) Contava”, de Fernanda Pessoa, é mais um daqueles filmes que aborda o período da chamada “ditadura civil-militar”, de 1964 a 1985. Só que, dessa vez, a coisa é feita de uma forma bem peculiar. A gente sabe que a produção cinematográfica do período foi marcada pelas chamadas “pornochanchadas”, umas comédias bem chinfrins de conteúdo altamente erótico, embora não tivessem nada de pornográficas. Foi nessa época que o cinema brasileiro ficou estigmatizado com aquela fama de que os filmes eram ruins e somente mostravam sacanagem e palavrões. A pornochanchada foi o gênero cinematográfico mais visto no Brasil durante a década de 70.

Manifestações…

Pois bem. Fernanda Pessoa fez algo bem simples, depois da difícil garimpagem desses filmes, alguns deles perdidos para sempre. Ela fez uma montagem lançando mão desses filmes eróticos para buscar fazer uma película que analisasse a ditadura militar. E qual foi o resultado? De forma surpreendente, essas películas espelham de forma muito perfeita o Zeitgeist (espírito da época) do período. Filmes que eram vistos de forma depreciativa pelos mais intelectualizados abordam assuntos em voga na época, tais como: o desenvolvimento do capitalismo e da modernização nos anos de chumbo, a mentalidade conservadora a mil, a luta armada, a tortura, as ambições materiais de uma emergente classe média, que ansiava por automóveis ou televisões coloridas, um movimento grevista num puteiro, o assassinato de Werner Herzog, a abertura política e a redemocratização.

Sonhos eróticos com peões de obra…

É notável perceber ainda que as pornochanchadas morrem juntamente com o regime ditatorial. Essa correspondência entre esse gênero cinematográfico e o governo autoritário sempre deu à pornochanchada um ar alienante, despertando a libido dos incautos e desviando-lhes a atenção dos casos de corrupção do governo e da privação da liberdade. Porém, esse documentário desmente de forma arrebatadora essa visão e mostra de uma forma bem contundente como os diretores das pornochanchadas usaram esse aparente manto alienante para expressarem de forma muito eloquente suas ideias e opiniões sobre a repressão de um jeito bem crítico.

Saudades de Tereza Rachel…

Esse é um filme que também desperta memórias muito escondidas dentro de nossas cabeças, pois a gente sempre viu algum filme desses, com atores que também se consagraram posteriormente ou caíram num ostracismo total. Nomes como os de Nuno Leal Maia, Paulo Cesar Pereio, Martim Francisco, Costinha, Sandra Bréa, Matilde Mastrangi, Milton Carneiro, José Lewgoy, André de Biasi, Denise Dumont, Stefan Nercessian, Tereza Rachel, Jece Valadão, Rubens de Falco e muitos, muitos outros desfilam por nossas retinas matando nossas saudades, apresentando-nos outras realidades e outros contextos, alguns deles assustadoramente atuais, como o preconceito contra as esquerdas e a forma tendenciosa como a imprensa analisava os fatos, tudo isso denunciado nas… pornochanchadas (!).

A diretora Fernanda Pessoa…

Assim, “Histórias Que Nosso Cinema (Não) Contava” é um documentário essencial, pois ele desmistifica todo o preconceito em cima das pornochanchadas e mostra de uma forma bem marcante como esse gênero cinematográfico genuinamente nacional resistiu contra a opressão do regime, pontuando que esses filmes devem ser estudados com maior profundidade, e abrindo possibilidades para um campo bem vasto de pesquisas em História do Cinema.

Inspiração revolucionária???

É só uma pena que um filme dessa magnitude esteja presente em pouquíssimas salas com horários nem sempre muito acessíveis. Aliás, para que pensar mesmo, não é? De qualquer forma, vale a pena correr atrás e dar uma garimpada por aí, sendo um daqueles filmes para se ver, ter e guardar.

Batata Movies – Benzinho. Arte Que Imita A Vida.

Cartaz do Filme

Um bom filme brasileiro. “Benzinho”, de Gustavo Pizzi, é uma daquelas películas com a qual é impossível não nos identificarmos pelo menos em um momento de nossas vidas. É um filme de sobrevivência do cotidiano. Um filme sofrido, que nos faz chorar, mas também que nos faz rir. Essa co-produção Brasil/Uruguai foi escrita em conjunto por Karine Teles e Gustavo Pizzi, que se separaram durante a produção do filme e levaram a coisa de forma muito profissional até a película sair. O resultado saiu melhor que o esperado, sendo muito aclamado em Sundance.

Uma família apaixonante…

Mas, no que consiste o filme? Temos aqui as desventuras de uma família de classe média, talvez baixa, mas jamais alta. Eles vivem numa casa cheia de problemas, o marido, Klaus (interpretado por Otávio Muller), tem uma papelaria com uma máquina de Xerox, que dá mais prejuízo que dinheiro, a esposa, Irene, a nossa protagonista (interpretada por Karine Teles), vende comida e pequenas bugigangas como lençóis e essa família tem ainda quatro filhos: dois gêmeos pequenos, um jogador de handebol e um tocador de tuba. Como se não bastasse, Irene ainda tem uma irmã, Sônia (interpretada por Adriana Esteves), que sofreu uma surra do marido, Alan (interpretado pelo excelente ator César Troncoso, do cinema uruguaio, sendo essa uma excelente aquisição para o filme).

Karine Teles, simplesmente sensacional…

Todos levam uma vida bem difícil, ao estilo de se “matar um leão por dia”, e vamos nos identificando cada vez mais com os personagens no transcorrer do filme. Há, ainda, outro elemento que joga mais um drama na história. O filho mais velho, Fernando (interpretado por Konstantinos Sarris), é chamado para jogar handebol na Alemanha, o que dá um nó na cabeça de Irene, que não sabe lidar com a situação. Mesmo assim, nossa heroica protagonista consegue levar a vida adiante, chegando até a concluir o ensino médio, mesmo com todas as condições adversas que ela é obrigada a enfrentar.

Um goleiro que vai embora…

Essa película gera uma empatia entre o espectador e os personagens que cresce muito paulatinamente. A gente sempre tem uma despesa inesperada na casa quando algo quebra, a grana falta para arrumar as coisas, a família sempre nutre o sonho da casa própria e de um lugar melhor para se viver. E os obstáculos para se alcançar esses sonhos são, às vezes, intransponíveis. E a gente cansa, desanima, deita no chão e chora, para depois se reerguer e continuar vivendo. E o único amparo que temos é a nossa própria família e aqueles que nos circundam. Mas quando alguém desse círculo, desse time, vai embora, dá um aperto no coração. O filme conseguiu explorar toda essa gama de sentimentos de forma tão magistral que ele acabou sendo sucesso no Festival de Sundance por causa disso.

Adriana Esteves, uma irmã fragilizada…

A cultura anglo-saxônica, notória por sua frieza, que acha simplesmente a coisa mais normal do mundo um filho ir embora de casa para enfrentar a vida ou um idoso ir para um asilo para não incomodar mais a família (eu me lembro que tive um papo desses com um professor meu de faculdade enquanto eu pegava uma carona com ele e fazíamos o trajeto Niterói-Rio), ao se deparar com “Benzinho”, viu que podia expressar sentimentos tão reprimidos como Irene fazia. Houve casos de pais chorando pela saudade dos filhos e de filhos ligando para os pais sentindo fortes saudades, segundo o próprio relato do diretor Gustavo Pizzi. Tal choque de realidade latina em cima dos gringos foi arrebatador e transformou “Benzinho” num grande sucesso por lá.

Uma mãe que quer colocar o filho sempre debaixo de sua asa, não importa o tamanho que tenha…

Mas é óbvio também dizer aqui que esse foi um filme de excelentes atores. Karine Teles esteve simplesmente magnífica como a mãe e esposa que se desdobrava em mil para poder cuidar da família. Seu choro durante a parada onde seu filho tocava tuba, manifestando a saudade do filho que havia ido embora para a Europa é, sem a menor sombra de dúvida, o maior momento do filme e a coisa mais cativante que a gente viu no cinema brasileiro em anos.

Otávio Müller foi magistral…

Otávio Müller, que tem tido participações muito boas em comédias, arrebentou em seu papel dramático de Klaus, indo da esperança do sonho à tristeza da realidade de uma forma altamente eficaz, de jeito a fazer essa ducha de água fria doer dentro do peito da gente. É uma pena que Adriana Esteves, que também teve um ótimo papel e interpretação, tivesse concorrentes tão fortes dessa vez em Müller e Teles. E a presença de Troncoso, o Ricardo Darín uruguaio, só deu mais status a um filme que nos fisga no primeiro minuto de exibição.

Cesar Troncoso, uma ótima aquisição…

Assim, “Benzinho” é uma das grandes provas de que, quando o cinema brasileiro quer fazer bons filmes, ele os faz com muita maestria. Um filme que é um choque de realidade com o qual nos identificamos logo de cara na via crucis dos personagens que abraçamos e amamos, pois nos vemos lá na tela grande. Um filme que é um programa imperdível com o qual sempre vamos nos emocionar, e muito.

Batata Movies – Bergman, 100 Anos. Descrevendo Fielmente Uma Trajetória.

Cartaz do Filme

Um bom documentário passou em nossas telonas. “Bergman, 100 Anos” se propõe a fazer uma trajetória fiel do grande cineasta sueco Ingmar Bergman, que faria cem anos no dia 14 de julho deste ano. A diretora Jane Magnusson decidiu enfatizar o documentário em torno do ano de 1957, quando Bergman levou a cabo seis produções, sendo que, além dos filmes, ele também montou peças de teatro e fez uma produção para a TV, que acabava de chegar ao seu país natal. Esse ano foi marcante, pois Bergman começaria a falar de si mesmo em seus filmes, algo que ele ainda não tinha conseguido fazer. Foi aí que sua carreira alavancou e ele se transformou no Mito do Cinema Mundial que é até hoje, sendo o único a receber “A Palma das Palmas” em Cannes. É importante mencionar aqui que, se você quer saber mais sobre Bergman, você precisa conhecê-lo através de seus filmes, pois sua autobiografia (“Lanterna Mágica”) é, segundo o documentário, cheia de ideias fantasiosas.

Um dos maiores diretores da História do Cinema…

Para comprovar isso, foram exibidos no filme trechos de uma entrevista do irmão de Bergman, que tinha um relacionamento muito difícil com ele, e que foi proibida de ser exibida pelo cineasta na época em que foi realizada. Dá para perceber, pelo depoimento do irmão, como o relacionamento dos dois era tenso. Aliás, já se nota isso na própria autobiografia, onde Bergman fala até da vontade de matar o irmão. Pegando o gancho, o diretor era realmente uma pessoa de trato difícil. E o documentário não teve o menor receio em abordar essa questão. Para isso, foram usados muitos depoimentos de pessoas próximas a ele e imagens de making of de seus filmes, onde ele tratava as pessoas com muita rispidez.

Na locação de “Morangos Silvestres”

E o pessoal ficava quietinho, quietinho, pois ele virara uma espécie de instituição com todo o reconhecimento internacional e seus prêmios. No tocante à vida privada, a coisa foi também turbulenta: ele casou-se várias vezes (fruto de seu passado católico, segundo o irmão) e teve vários filhos, mas nunca se dedicou a qualquer família que montou, por se dedicar integral e compulsivamente ao seu ofício.

Conversando com a morte…

Obviamente, vários de seus filmes foram apresentados e discutidos. E aí tivemos os momentos mais deliciosos do documentário. Fala-se de “Sétimo Selo”, “Morangos Silvestres”, “Persona”, “Gritos e Sussurros”, “Sonata de Outono” (onde ele trabalhou com Ingrid Bergman), “Fanny e Alexander” (onde um dos personagens, um padre, era uma versão para as telonas de seu pai, também um padre), e muitos outros filmes. Mesmo que o diretor fosse uma pessoa geniosa, ainda assim alguns atores que trabalharam com ele diziam que ele gostava muito de profissionais que dessem sugestões para engrandecer o trabalho, numa prova de que o diálogo era possível.

Um homem difícil…

O documentário também se preocupou em dar voz ao próprio cineasta, e assim o filme é recheado de entrevistas do diretor, onde podemos vê-lo falar de seus filmes, de como ele avalia sua vida profissional e pessoal, etc. Dois momentos são marcantes: quando ele fala de sua paixão inicial com uma espécie de lanterna mágica que ele tinha na infância, cujos jogos de luz e sombras fizeram ele ter a certeza de que seria cineasta, e a forma afetiva como ele fez o que ele considera o mais lindo plano fechado de sua carreira em “Morangos Silvestres”. Ali, o duro cineasta sueco, a instituição intelectual de um país, amolece o seu coração e fala com muita ternura de momentos marcantes de sua vida.

Bergman e Bergman…

Assim, “Bergman, 100 Anos” é um documentário imperdível sobre o grande cineasta sueco Ingmar Bergman. Todo fã de cinema de carteirinha deve ver essa obra-prima e, principalmente, deve ter esse documentário assim que ele sair em DVD ou blu-ray. Pois essa obra é aquela do tipo que devemos sempre ter perto da gente para revisitá-la sempre que pudermos. Não deixem de assisti-la.

Batata Movies – Os Incríveis 2. Sociedade Tradicional?

Cartaz do Filme

A Disney volta a atacar e trouxe, nesse meio de ano, a continuação de “Os Incríveis”. Antes de mais nada, devo confessar que não vi o primeiro filme, mas pretendo preencher essa lacuna em breve, principalmente depois de ter visto o segundo. Em segundo lugar, quero dizer que esta animação segue o alto padrão das animações da Disney, que conseguem ser muito engraçadas e cativantes. E o mais curioso é que ela realmente tem uma pegada de filmes de super-heróis que estamos tão acostumados a ver por aí, constituindo-se numa espécie de sátira a esse novo gênero de ação, o que faz o grande público se identificar mais ainda com a película. Façamos agora uma análise da animação, lembrando sempre que os spoilers serão necessários aqui.

Tentando resgatar a honra dos super-heróis…

O filme já começa com uma questão: os super-heróis são proibidos de trabalhar em virtude de provocarem um estrago quando lutam com seus arqui-inimigos (já vi isso em algum lugar). Mas um grande empresário quer voltar a tornar os heróis populares e, para isso, ele vai pedir a ajuda da mulher-elástica (a mãezona da família Incrível) para levar a cabo tal tarefa. Como os heróis estão proibidos de trabalhar e estão em grave situação financeira, o senhor Incrível (o maridão) apoia a esposa nessa iniciativa, que fica relutante em deixar tudo em casa para o pai tomar conta (afinal de contas, cuidar de três filhos – uma criança pequena, uma adolescente problemática e um moleque totalmente espoleta – não deve ser fácil).

A mamãe vai trabalhar…

Mas, como a necessidade faz o monge, a Senhora Incrível vai ao trabalho e se torna uma celebridade, enquanto o paizão passa poucas e boas com seus filhos, principalmente o menorzinho, que passa a ter 17 (!) superpoderes. Ainda, surge um inimigo muito poderoso, que consegue hipnotizar as pessoas para fazer coisas bem do mal, com o intuito de sabotar o programa de revalorização dos heróis.

… e o papai fica em casa…

O desenho traz umas questões interessantes. Essa coisa dos heróis proibirem de trabalhar para não colocar em risco a vida das pessoas a gente viu no “Batman Vs. Superman” e até nas histórias dos X-Men, onde há a perseguição aos mutantes. Aqui, o desenho faz uma troça com isso, pois se o super-herói não pode trabalhar e fica desempregado, como ele vai pagar as contas da casa, já que os heróis aqui são de uma família média americana? Ou seja, o desenho pega uma coisa que a gente vê na ficção altamente fantasiosa de filmes da DC e da Marvel e a trata,digamos, com uma pitada de choque de realidade, o que torna a coisa engraçada. Mas esse choque de realidade vai mais além, pois esse é um filme sobre família? Mas qual família? Uma mais moderna? Ou uma mais tradicional? A grande piada do filme é o paizão ficar em casa cuidando dos filhos e a mamãe sair para trabalhar. O senhor Incrível, ao ficar em casa, cuidando dos filhos, e tendo uma imensa dificuldade em fazer isso, indica que o “seu lugar” é trabalhar fora, e a senhora Incrível, acostumada à dupla jornada de trabalho, é a mais apta a ficar em casa, sendo esse o “seu lugar”?

E despertam os poderes do Zezé!!!

Ainda, fica muito clara numa parte do filme que o sucesso da Mulher Elástica incomoda o maridão que está dentro de casa. É claro que o filme faz piada e troça com tudo isso, que são traços de uma sociedade tradicional. Se a gente leva por esse lado, o filme tem um quê progressista. Mas incomoda um pouco essa visão de que o pai não consegue levar a cabo as tarefas domésticas, como se isso fosse “coisa de mulher”. Ou seja, atribuir a eficiência de determinadas tarefas a um gênero ou outro é uma coisa que incomoda e que o filme, de uma certa forma, não questiona tanto, exceto pelo sucesso da Senhora Incrível em seu ambiente profissional. De toda a forma, quem consegue salvar o dia são justamente as crianças, também consideradas “incapazes” de fazerem tarefas adultas, outro estereótipo de uma sociedade mais tradicional que, aí sim, será questionado aqui em toda a sua plenitude. E, também pudera, quem tem o Zezé com 17 superpoderes, não precisa de mais nada.

Crianças salvam o dia…

Assim, “Os Incríveis 2” é mais uma baita animação da Disney que só aumentou a minha curiosidade com relação a “Os Incríveis”, além de fazer troça com as histórias de super-heróis que povoam o cinema e nosso imaginário, fazendo um divertido diálogo entre a fantasia e a realidade. No mais, o desenho também serve para levantarmos questões sobre parâmetros sociais mais tradicionais e de como eles estão sendo revistos. Tal levantamento de questões só espelha a qualidade dessa ótima animação. Vale a pena dar uma conferida.

Batata Movies – Primavera Em Casablanca. Libelo Contra A Intolerância.

Cartaz do Filme

Uma co-produção França/Marrocos/Bélgica passou em nossas telonas. “Primavera em Casablanca” (“Razzia”), dirigido por Nabil Ayouch, é mais um daqueles filmes que abordam a questão do Oriente Médio e da intolerância. O terreno de atuação da película será a cidade de Casablanca, no Marrocos, onde veremos cinco histórias cujos personagens se encontram ao longo da narrativa. Vamos ver aqui o professor de ciências que não pode dar aula no idioma de seu povoado e sim em árabe, além de ficar sujeito às regras educacionais do Estado Teocrático, a mulher escultural que engravida e aborta o feto, pois tem um marido possessivo, o dono de restaurante judeu que é obrigado a conviver com os árabes, o rapaz que quer ser cantor e tem Freddie Mercury como ídolo e a menina de classe média alta que nutre um amor homossexual.

Uma mulher que desafia convenções…

Todas essas pessoas terão que conviver numa sociedade muçulmana que parece implodir com a crise econômica, em meio a muitas manifestações de estudantes que não conseguem se encaixar no mercado de trabalho. Ou seja, como se não bastasse a turbulência pela qual passam, esses protagonistas também vão ter que encarar a turbulência do próprio país, embora elas não pareçam ligar muito para isso, já que seus problemas pessoais são bem mais imperativos.

Um judeu (esquerda) e seu empregado de origem muçulmana…

As histórias não são contadas de forma estanque e elas acabam se mesclando no tempo e no espaço. A história do professor, por exemplo, se passa em 1982, e a da mulher que aborta, assim como as demais se passa em 2015. A narrativa acaba por intercalar essas histórias, se bem que a da mocinha de classe média aparece mais na segunda metade do filme, enquanto que as demais se intercalam ao longo de toda a película.

Um professor que tem que superar o radicalismo e ignorância…

É curioso perceber que, mesmo com histórias tão diferenciadas, o ritmo do filme consegue ser um tanto lento, pois se parece que, com esse ritmo, o diretor busca mergulhar toda a narrativa numa vibe mais reflexiva, onde se faz a crítica do conservadorismo do Estado Teocrático de forma bem presente. Esse também é um filme onde devemos prestar bastante atenção nos nomes dos personagens, pois um personagem mais secundário de uma história pode aparecer em outra num papel de um pouco mais de destaque.

Um amante do Queen…

O filme deixa outra mensagem: a de que a intolerância e a violência podem contaminar até as mentes mais livres e tolerantes. Isso fica muito marcante mais ao final do filme, mas os spoilers me impedem de entrar em mais detalhes.

Assim, “Primavera em Casablanca” é mais uma película que lida com a questão da intolerância e convida o leitor a uma boa reflexão. As cinco histórias, por seu caráter altamente diferenciado, dão exemplos bem desafiadores a um Estado Teocrático mais tradicional, o que torna o filme em si muito interessante e iconoclasta por natureza. Vale a pena assistir a essa película que também tem um certo quê poético, seja nas músicas do Queen, seja nas referências ao filme “Casablanca”.

Batata Movies – Uma Casa à Beira Mar. Resgatando Um Mundo Destruído Em Meio Ao Caos.

Cartaz do Filme

Uma interessante produção francesa passou em nossas telonas. “Uma Casa à Beira Mar”, de Robert Guédiguian, é um filme que mescla presente com passado, em mais um diálogo entre a tradição e a modernidade, onde, desta vez, a última dá os tons de vilã. É um filme também sobre relacionamentos familiares e como tempos de inocência podem ser convertidos em tempos de amargura, sendo que a única forma de se sanar isso é reunindo os entes queridos separados pelas circunstâncias para sentar e conversar sobre suas frustrações e dores.

Três irmãos numa missão dolorosa…

A história se passa numa pequena localidade próxima a Marselha que outrora fora um bonito balneário, mas hoje está mais decadente que nunca. Poucos e antigos moradores ainda resistem e, por isso mesmo também compartilham dessa decadência. Um deles, Maurice, sofre um derrame e fica paralisado, olhando para o infinito, mas ainda consciente. Seu filho, Armand (interpretado por Gérard Meylan) chama seus dois irmãos, Angèle (interpretada por Ariane Ascaride) e Joseph (interpretado por Jean- Pierre Darroussin) para conversar sobre a situação do pai e o que fazer numa possível morte do mesmo com relação ao espólio da família. Esses três irmãos então aproveitarão a situação para aparar as arestas do passado e resolver suas diferenças, já que o afastamento os impediu disso.

A irmã que volta muitos anos depois…

A gente muito se identifica com a situação do filme, pois em muitas famílias os irmãos se afastam quando começam a viver suas próprias vidas, não superando as rusgas do passado. Fica bem claro na película que ali não há vilões ou mocinhos. Todos são humanos e vítimas das circunstâncias. O ato de um culpar o outro ou apontar defeitos somente amplifica a dor em todos.

Tentando manter vivo o restaurante do pai…

E a única saída para isso é cada um escutar o lado do outro e tentar compreender a dor do próximo. Só esse pequeno detalhe já faz o filme ser uma grande obra, pois há muita gente por aí nessa situação. E a película faz isso de uma forma, digamos, civilizada, onde uma leve animosidade entre os irmãos paulatinamente vai se transformando numa situação de maior ternura e entendimento.

O professor amargurado…

Como foi dito acima, o filme retoma o já batido tema da tradição e da modernidade, tendo a última como vilã. A crueza dos tempos modernos é implacável com a pequena vila à beira mar, agarrada aos últimos bastiões de tradição. A ideia de Maurice em fazer um restaurante familiar, simples e barato vai de encontro às modernas brasseries, e não vai adiante. A crise econômica afunda ainda mais o lugar e as pessoas passam necessidades, às vezes tomando medidas extremas por não aguentar mais humilhações. E o filme aborda também outro sério problema nesses tempos mais modernos. Por estar próxima ao mar,.a vila sofre com o problema dos imigrantes que atravessam o Mar Mediterrâneo para tentar a sorte na Europa. E, por isso mesmo, os irmãos recebem a visita do exército francês, onde um oficial negro (e provavelmente, descendente de imigrantes) tem agora a função de capturá-los. Todos esses fatores nocivos da modernidade acabam unindo os irmãos e os reconciliando com o passado como direção.

Espaço para novos recomeços…

E os atores? Que primor! Pudemos ver algumas figurinhas carimbadas do cinema francês contemporâneo, como a competente Ariane Ascaride, fazendo uma atriz cujo passado trágico a oprimia, e o excelente Jean-Pierre Darroussin como o antigo ativista político que se compadece de tempos onde o estilo de vida capitalista moderno e burguês oprime todo o resto, tornando-o extremamente amargurado e sarcástico. Não podemos nos esquecer também do terceiro irmão, interpretado por Gérard Meylan, um verdadeiro guardião da tradição, totalmente identificado com o espaço onde vive, sendo o único que zela por sua manutenção. A construção desses personagens dá todo um toque especial à película.

… e para reconciliações…

Assim, “Uma Casa à Beira Mar” é mais um filme francês de qualidade que passou em nossas telonas. Uma película que aborda um tema muito caro a muitas pessoas (as complicadas relações familiares) e que também fala do antigo embate entre tradição e modernidade. Um filme que é muito digno de atenção.

Batata Movies – Ilha Dos Cachorros. Denunciando Maus Tratos.

Cartaz do Filme

Uma curiosa animação passou em nossas telonas. “Ilha dos Cachorros”, de Wes Anderson, tem a mensagem implícita da denúncia aos maus tratos com os bichinhos. Só que o filme faz isso de uma forma muito peculiar: usando uma animação ao estilo “stop-motion”, numa história um tanto violenta, original e carregada de algum preconceito. Façamos uma pequena análise do filme, sempre precisando dos spoilers para se aprofundar na reflexão.

Cães em situação degradante…

Vemos aqui uma trama que tem como cenário o Japão de um futuro não muito distante. O prefeito de uma cidade chamada Megasaki decide erradicar todos os cachorros (que já são malvistos no Japão desde os tempos antigos e em detrimento dos gatos), em virtude de uma suposta gripe canina. Todos eles irão para uma ilha de lixo, um aterro sanitário gigante. E o primeiro cachorro justamente a ser “deportado” para a tal ilha é o cão de guarda de Atari, um neto postiço do prefeito. Anos depois, Atari vai para a ilha à procura de seu cão de guarda, que ele mais vê como um animal de estimação, e lá encontra cinco cachorros que o ajudarão a achá-lo. O grande problema é que o prefeito, independente de seu neto correr perigo, elabora um plano para também exterminar todos os cachorros com um veneno à base de raiz forte (aquela pasta verde que a gente encontra nos restaurantes japoneses que arde que nem uma desgraça).

Um líder…

A primeira coisa que inquieta no filme é o fato do Japão ter sido escolhido como cenário de humanos que não gostam de cachorros. Como vemos pessoas fazendo maldades com os bichinhos caninos por todo o mundo, creio que seja injusto colocar toda a culpa disso nos japoneses. Assim, se o filme cumpre a nobre função de denunciar maus tratos a cachorros, por outro lado, usar o Japão somente como terreno para isso é um pouco injusto.

Um menino atrás de seu cachorrinho…

Outro detalhe que incomoda é a violência explícita do filme. Geralmente, quando vemos uma animação, a primeira ideia que vem às nossas cabeças é a de que esse filme é mais destinado a um público infantil, o que não parece ser o caso aqui, mesmo que as brigas se caracterizem por aquela estilização típica dos quadrinhos, onde vemos uma nuvenzinha com socos, pés e cabeças saindo delas. Entretanto, há uma situação em que um cachorro arranca a orelha de outro com uma dentada. E é degradante ver os animais andando em meio a lixões e substâncias tóxicas.

O amor…

O elenco ajuda. Temos vários medalhões fazendo as vozes dos personagens: Bryan Cranston, Frances Mcdormand, Bill Murray, Scarlett Johansson, Harvey Keitel, F. Murray Abrahan. Edward Norton, Jeff Goldblum, e até Yoko Ono. Embora sempre pareça um pouco artificial vozes em inglês nas animações (as versões dubladas em português são mais palatáveis e dinâmicas, enquanto que, nas versões em inglês, parece que os atores leem diante das imagens ao invés de interpretá-las), ainda assim vale a pena ver a versão original em inglês para saborear as vozes de tantos atores consagrados.

O diretor Wes Anderson

Dessa forma, “Ilha dos Cachorros” é uma experiência que o espectador não deve deixar de ter, pois vemos aqui um filme até certo ponto divertido e muito exótico, embora carregado de algum preconceito. Ah, e defende os cachorrinhos, denunciando abusos e maus tratos contra eles, o único laço com a vida real que o filme traz. Vale a pena dar uma conferida quando sair no DVD e Blu-Ray.

 

Batata Movies – Berenice Procura. Thriller de Enrustidos E Assumidos.

Cartaz do Filme

Um curioso filme brasileiro em nossas telonas. “Berenice Procura”  é uma experiência razoável de nosso cinema pelo gênero do suspense, lançando mão do ambiente do “submundo” de Copacabana, onde temos as casas de shows de transformistas. Um homicídio irá acontecer. E o mistério será desvelado aos poucos com resultados surpreendentes (ou talvez nem tanto) ao final. Vamos precisar usar alguns spoilers aqui.

Uma taxista com uma vida pessoal atribulada…

Temos aqui a história da tal Berenice (interpretada por uma jovial Claudia Abreu), uma motorista de táxi que circula pelas ruas de Copacabana. Ela tem um casamento turbulento com o jornalista Domingos (interpretado por Eduardo Moscovis) e tem um filho chamado Thiago (interpretado por Caio Manhente), que se envolve com a transformista Isabelle (interpretada por Valentina Sampaio). Um belo dia, Valentina aparece morta na praia. Enquanto o pai faz reportagens sensacionalistas na TV sobre o caso e o filho sofre intensamente com a perda de seu melhor amigo e amor, a mãe começa uma investigação por conta própria para descobrir o assassino, já que ela muito se compadece do sofrimento do filho.

Um marido rude…

Esse é um filme tem uma história instigante,fazendo um thriller bem adaptado à nossa realidade, contendo elementos como a homofobia, a exploração sexual dos transformistas, cuja “cafetina” é interpretada por Vera Holtz, e a mídia televisiva sensacionalista que transforma crimes em espetáculos, embora a investigação de Berenice não tenha ocupado a maior parte da exibição do filme. Ou seja, a trama de suspense foi pouco elaborada e de rápida solução, Entretanto, a história foi carregada de elementos que prendem a atenção do público e o roteiro consegue funcionar muito bem.

Um transformista que será assassinado…

O filme também presta um grande serviço ao denunciar a situação de preconceito que os homossexuais sofrem, assim como a situação de violência ao qual eles estão submetidos, lembrando que eles são pessoas com aspirações, desejos, qualidades, defeitos e angústias como qualquer uma. A questão da crise conjugal e de relacionamento no seio das famílias também é discutida, onde as pessoas vivem distanciadas e pouco se conhecem dentro da própria casa.

Uma cafetina odiosa…

Esse é também um filme de atores. Cláudia Abreu, a protagonista, consegue convencer muito bem como a taxista que trabalha no seu dia-a-dia, assim como a esposa que sofre no casamento e com o distanciamento de seu filho. Eduardo Moscovis teve um papel mais fácil, fazendo o antagonista cheio de defeitos e nenhuma virtude de uma forma bem eficiente, mas ele surpreende mais ao final (infelizmente, não posso entrar em detalhes). Vera Holtz também foi odiosa toda a vida como a cafetina da Casa de Transformistas, também pegando um papel relativamente fácil. Já Caio Manhente e Valentina Sampaio foram relativamente bem, embora não tenham tido tempo suficiente para mostrar mais do talento deles. Obviamente, o filme se sustentou mais nos atores conhecidos. Quem chamou a atenção foi Emílio Dantas, no papel de Russo, o irmão de Isabelle e que teve bons momentos com Vera Holtz, onde seus personagens tinham uma relação extremamente tensa. O ator demonstrou muita firmeza e carisma em sua atuação.

Um suspeito…

Assim, “Berenice Procura” é um interessante filme brasileiro que busca enveredar pelo suspense, mas recai também num dom drama psicológico. Esse é um filme que se pauta na atuação de atores consagrados. Um filme que serve como um bom entretenimento. Vale a pena dar uma conferida.