Batata Movies – 50 São Os Novos 30. Uma Gatona De Meia Idade.

Cartaz do Filme

Um filme francês passou em nossas telonas. “50 São Os Novos 30”, de Valérie Lemercier, é uma película que nada mais é do que uma comédia despretensiosa de amor na meia idade. Um filme que, pura e simplesmente, tem o objetivo de entretenimento e nada mais.

Marie-Francine: buscando reconstruir sua vida…

A história começa com a decepção de Marie-Francine (interpretada por Valérie Lemercier), uma cientista cinquentona especialista em células-tronco, ao saber que seu marido a trocou por uma instrutora de tênis bem mais nova. Marie sai de casa e fica morando em um quartinho até descobrir que será mandada embora de seu emprego, o que a obriga a viver na casa dos pais, que a tratam como uma criança. Como não consegue emprego, ela começa a trabalhar numa lojinha de cigarros eletrônicos, onde vai conhecer Miguel (interpretado por Patrick Timsit), um cozinheiro português que trabalha no restaurante ao lado. A simpatia cativante de Miguel irá conquistar Marie paulatinamente. Mas esse amor será marcado por muitos desencontros e confusões que alimentam essa comédia romântica.

Para isso, ela volta a viver com os pais…

Realmente, não há muito o que dizer sobre esse filme. Não que ele seja ruim. O filme presta bem ao que se propõe fazer, que é provocar algumas risadas na plateia. Mas não passa muito mais do que isso. Pode-se falar, ainda, das boas atuações de Valérie Lemercier e Patrick Timsit, o casal protagonista, que esbanjou simpatia e teve uma excelente química. O mais curioso é que Lemercier interpretou também a irmã gêmea de Marie-Francine, Marie-Noelle, que era bem mais elegante e geniosa, o que ajudou a arrancar mais algumas risadas.

Conhecendo um novo amor…

Já Timsit fez um português super bem humorado e de bem com a vida, sendo altamente cativante. Aproveitando o gancho lusitano do filme, a trilha sonora é bem exótica, com fados em português e francês (!) além de uma música latina bem quente, com direito a uma versão em francês de “No balancê”.

Um restaurante muito divertido…

Ou seja, a parte musical é que acaba sendo a coisa mais original de um filme que segue aquela receitinha de bolo básica das comédias românticas: um começo de relacionamento regado a piadas, uma série de desencontros e mal-entendidos que geram mais situações cômicas e tensas, e o desfecho com uma cara de happy end, onde se resolve todos os problemas que aparecem ao longo da película, embora, no caso desse filme, os possíveis mal-entendidos que poderiam abalar o relacionamento do casal até se resolvem muito rápido, dando pouco espaço para o desenvolvimento de mais intrigas e situações inusitadas. Ou seja, uma história simples e rápida, de fácil digestão, para ser consumida num piscar de olhos.

Valérie Lemercier e Patrick Timsit

Assim, “50 São Os Novos 30” é o tipo do filme que você vê apenas para distrair sua cabeça e nada mais. Um puro entretenimento para você passar uma tarde animada e ficar com a cabeça levinha, levinha. De vez em quando, até é bom.

Batata Movies – Ex-Pajé. Discutindo O Etnocídio Em Dias Atuais.

Cartaz do Filme

Um curioso documentário brasileiro. “Ex-Pajé”, de Luiz Bolognesi, aborda a questão do etnocídio (destruição de uma cultura) nos dias atuais. Um documentário que nos dá uma ideia do que deve ter acontecido com inúmeras nações indígenas que aqui viviam nos tempos da colonização. Um documentário que dá pano para manga para pensar.

Um ex-pajé de gravata…

Vemos aqui a trajetória do Pajé Perpera Suruí, que tinha uma posição de importância em sua tribo até o momento em que um pastor evangélico estrangeiro chega à sua aldeia para evangelizar os índios. Nesse momento, o Pajé passa a se questionar, já que suas práticas religiosas ficaram rotuladas como “coisa do demônio” pelos habitantes, ignorando a existência de Perpera.

Posição periférica na Igreja Evangélica…

Ele só volta a ser aceito em sua comunidade quando passa a frequentar os cultos evangélicos, tendo uma posição altamente periférica. O problema é que uma das mulheres da aldeia é picada por uma jararaca e é internada em estado grave no hospital, com poucas chances de sobreviver. Será nesse momento que o “ex-pajé” voltará a ter uma posição central novamente, pois os índios se voltam novamente para suas tradições no intuito de tentar salvar a mulher.

Recebendo uma tese sobre sua tribo…

Esse documentário é valiosíssimo, pois ele registra a cultura dessa tribo indígena em riqueza de detalhes. Em primeiro lugar, na maior parte do filme é falada a língua nativa da tribo e as dificuldades do próprio Perpera quando ele vai à cidade e precisa se expressar em português. Ainda, podemos ver Perpera ressaltando elementos da sua religião nativa, onde há espíritos das matas e dos rios que precisam ser evocados para lutar contra os inimigos da tribo. Para que isso aconteça, há várias práticas como, por exemplo, destruir um formigueiro, que simboliza um dos espíritos do mal, não comer a comida de branco e sim o que eles comiam antes da chegada do elemento colonizador, ou fazer uma espécie de trombeta com um grande pedaço de bambu para evocar os espíritos. Tudo isso aparece no documentário e é um registro audiovisual vivo de uma cultura que não sabemos se ainda existirá nos próximos anos, até em virtude do processo de aculturação e de evangelização, que já estão bem avançados. Só esse pequeno detalhe já espelha a importância desse filme.

Ensinando velhas práticas aos mais novos…

É muito curioso perceber como há uma mescla da cultura branca com a cultura indígena. Os índios usam a tecnologia de celulares para gravar os cânticos de seus rituais e o facebook para denunciar a exploração ilegal de madeira em sua região, não deixando de mencionar os assassinatos de índios promovidos pelos madeireiros. Ou seja, mais uma vez o caso da relação entre tradição e modernidade, aqui vista de forma positiva, ao contrário da evangelização, onde vemos o etnocídio acontecendo em estado puro em dias contemporâneos.

A equipe de filmagem…

Agora, fica aqui a pergunta: a mulher índia melhorou com todos os rituais promovidos por Perpera? Essa resposta eu deixo para o próprio leitor buscar, assistindo ao documentário.

Em Berlim, com o diretor Luiz Bolognesi (direita)…

Assim, “Ex-Pajé” é um documentário fundamental, pois registra a cultura de uma tribo indígena que pode estar em vias de extinção em virtude do processo de aculturação e etnocídio, além de cumprir sua função social de denúncia ao lembrar a todos nós que a destruição de culturas ainda é um problema muito atual. Esse documentário é daqueles para ver, ter e guardar.

Batata Movies – O Nó Do Diabo. Terror Histórico.

Cartaz do Filme

Um filme brasileiro muito curioso e experimental. “O Nó do Diabo” trabalha um gênero que não é muito visto em nosso cinema: o terror. E, ainda mais notável, o campo de atuação é um antigo engenho de açúcar. Ou seja, experimentou-se articular o gênero de terror com a História do Brasil. E o resultado? Podemos dizer que ficou muito bom.

Um pistoleiro atormentado…

São cinco histórias passadas em épocas diferentes (2018, 1987, 1921, 1871 e 1818), sempre no mesmo cenário da antiga fazenda. Na primeira história, o proprietário contrata um pistoleiro para evitar as inevitáveis invasões. Dada a grande quantidade de pessoas nas imediações e as várias pressões do fazendeiro, o pistoleiro pira na batatinha e se torna um serial killer.

Um casal numa casa de senhores macabros…

Na segunda história, um casal pede emprego na fazenda e acaba tendo uma experiência macabra com os proprietários, que ainda usam os instrumentos de ferro que aprisionavam os escravos para tripudiar de seus empregados, além de abortá-los e decapitá-los. A terceira história (a melhor, na minha opinião) se passa com duas irmãs que ainda são tratadas como escravas, sendo uma delas chicoteada em pleno ano de 1921 e a “mais comportada” dotada de poderes misteriosos que matavam todos os algozes. A quarta história (a mais fraca a meu ver) é a de um escravo que foge de sua fazenda para enterrar seu filho e se embrenha numa região inóspita onde ele procura também por um quilombo e tem uma série de alucinações.

Todo o autoritarismo colonial…

E a última história (que conta com a ilustre participação de Zezé Mota) fala de escravos que fugiram de um quilombo atacado por brancos e que se refugiam num cemitério de escravos. Lá, eles fazem cultos de magia negra que trazem os mortos de volta à vida para atacar os brancos (isso mesmo, caro leitor, escravos zumbis!!!).

Objeto sexual…

A primeira coisa que chama a atenção e que a gente não se toca disso num primeiro momento é como a temática altamente autoritária e desumana da escravidão pode servir de inspiração para boas histórias de terror. Tais temáticas se casam perfeitamente, não somente pela violência e os instrumentos de aprisionamento e tortura, mas também pela magia negra dos escravos que leva a situações para lá de macabras. Ainda, tivemos cinco histórias relativamente boas, umas melhores, outras nem tanto, mas onde todas prendiam muito a atenção do espectador.

Escravos fugidos em guerra….

Com relação aos atores, além do óbvio destaque de Zezé Mota, que rouba a cena nos poucos momentos em que aparece mais ao final da película, não podemos nos esquecer de falar de Fernando Teixeira, que fez o fazendeiro de todas as cinco histórias de forma muito odiosa, tornando-se o antagonista por excelência da película. Sua face densamente barbada e suas falas altamente enérgicas e racistas incrementavam em muito o tom de terror das tramas.

O ator Fernando Teixeira

Assim, “O Nó do Diabo” é uma tentativa bem sucedida de nosso cinema de mesclar o gênero de terror com a nossa realidade, usando parâmetros históricos da época da escravidão. Ao se trabalhar cinco histórias como variações sobre um mesmo tema, criou-se um tubo de ensaio rico em originalidade. Vale a pena curtir tal experiência.

Batata Movies – Custódia. Tensão à Toda Prova.

Cartaz do Filme

Mais um filme francês em nossas telonas. “Custódia”, escrito e dirigido por Xavier Legrand, é o que podemos chamar de filme tenso. Um filme que, novamente, pode ser entendido como um choque de realidade, mesmo com a carga de inusitado que vemos mais ao final. Um filme que mostra como as decisões de um sistema judiciário podem afetar definitivamente a vida das pessoas e que essas decisões, portanto, devem ser tomadas com muito cuidado.

Um casal decidindo o destino do filho com o uso da justiça…

O filme começa com uma audiência que vai decidir a custódia de um menor de idade, Julien (interpretado por Thomas Gioria), disputada entre a mãe, Mirian Besson (interpretada por Léa Drucker) e Antoine Besson (interpretado por Denis Menochét). De cara, a gente já nota que há algo de errado com o pai, pois Julien não quer ficar com ele. Os advogados de ambas as partes expõem as suas argumentações em favor de seus clientes e a juíza diz que irá tomar uma decisão futuramente, comunicando aos pais. E ficou acertado que Antoine terá direito a passar fins de semana alternados com o menino. Quando isso acontece, a relação dos dois é extremamente tensa, chegando até a um ponto de beligerância, pois o pai pressiona o menino a dizer como está a situação na sua casa, se a mãe tem um namorado, etc. Fica bem claro, nesse momento, que Antoine é uma pessoa de índole violenta, o que justifica o medo de Julien e as tentativas de Mirian de se afastar de Antoine, chegando a trocar de endereço. É claro que veremos uma típica escalada de violência, com Antoine fechando cada vez mais o cerco ao seu filho e a sua esposa. E o final disso não pode acabar bem. Mas, paremos aqui com os spoilers.

Clima de extrema tensão e ,medo…

Esse é o típico caso de filme que faz o cinema cumprir a sua função social de denúncia, pois casos como esses nós vemos aos montes por aí e, principalmente aqui no Brasil, eles costumam terminar em homicídios onde geralmente a mulher é a vítima. Mas o ponto que mais chama a atenção aqui é que a película faz uma espécie de crítica velada ao sistema judicial, pois fica bem claro que a decisão da justiça de dar a custódia de Julien ao pai em fins de semana alternados foi mais do que equivocada, até porque foi marcante o medo que o menino tinha do pai. Ficou parecendo implicitamente, pela decisão que a justiça tomou, que a mãe estava virando o filho contra o pai, quando o medo da mãe e do filho eram mais do que legítimos, numa prova de que a justiça tem que ser muito cautelosa ao tomar tais decisões.

Um pai pressionando o filho…

Quanto aos atores, o destaque deve ser todo dado a Denis Menochét, por interpretar um pai psicopata e odioso. Seu porte físico avantajado até ajudou a compor o personagem, mas seu talento é que faz a gente odiá-lo a toda prova, dando-lhe a característica de que podia ser uma bomba que explodiria a qualquer momento. Já o jovem Thomas Gioia foi exatamente o contraponto à rudeza de Menochét, interpretando um filho completamente subjugado nas mãos de um pai desequilibrado, sem ter muito o que fazer para sair daquela situação. Léa Drucker não participou tanto do filme como os outros dois protagonistas, mas também não comprometeu na hora que apareceu, convencendo como uma esposa totalmente amedrontada, que só teve coragem de encarar o marido furioso uma única vez, que foi na festa de aniversário da filha.

Uma criança atormentada…

Assim, se “Custódia” parece, num primeiro momento, inspirado numa história real particular, ainda assim pode-se dizer que o filme é inspirado em várias histórias reais por aí, denunciando tal situação. A grande virtude da película é alertar para a importância de não se errar numa decisão judicial, pois vidas de pessoas estão em jogo por causa disso, o que faz desse filme algo essencial para ser mostrado e visto pelo maior número possível de espectadores.

Batata Movies – Cachorros. Revolvendo Um Passado De Forma Bem Banal.

Cartaz do Filme…

Um interessante produção chilena passou em nossas telonas. “Cachorros”, filme escrito e dirigido por Marcela Said, mais uma vez visita o período sombrio da ditadura chilena de Augusto Pinochet. Só que, dessa vez, a coisa é feita de uma forma, digamos, estranha, como se todos esses crimes fossem relativizados, ou até se fizesse uma troça com tudo isso. Mas, será que foi isso mesmo?

Mariana, uma moça meio doidinha…

A película tem como protagonista Mariana (interpretada por Antonia Zelgers), uma mulher de espírito livre e que leva a vida meio que na flauta. Ela toma aulas de equitação com Juan (interpretado por Alfredo Castro), um ex-militar do exército que participou da repressão em tempos pretéritos e está em vias de ser julgado. Logo, logo, o passado de Juan virá à tona e algumas pessoas (dentre elas, o próprio marido de Mariana), não verão mais com bons olhos nossa protagonista continuar a ter aulas com uma pessoa com muitas mortes nas costas. Só que Mariana não dá muita bola para isso e continua seu relacionamento com Juan. À medida que o passado é revirado, Mariana descobre que seu próprio pai esteve envolvido com o exército na época. E assim, o filme vai se desenvolvendo, com Mariana tendo um comportamento um tanto quanto errático, ora parecendo se preocupar com o passado, ora não dando a mínima para tudo o que ocorreu e mantendo seu relacionamento com o ex-militar acusado.

Relacionamento com um homem de passado negro…

Alguns críticos argumentam que esse comportamento errático de Mariana é a grande atração de um filme que prima pelo não explicado e pelo excesso de pontas soltas, tendo uma natureza um tanto quanto fragmentada. O filme, por ter tal característica, teria recebido uma série de prêmios no exterior. Entretanto, me parece aqui que essa personagem é mais alienada do que qualquer outra coisa, fugindo do lugar comum de se condenar a ditadura e suas atrocidades em favor de primar pela liberdade de se relacionar com qualquer homem e não seguir ordens de ninguém (além do militar, ela também se aproxima do policial que investiga o caso, sendo rechaçada categoricamente por este). Tal mistura não me pareceu algo pertinente a se fazer, pois a moça pode, ao mesmo tempo, ser livre e rechaçar os crimes cometidos pela ditadura. Seu relacionamento com o militar, mesmo sabendo que ele teve participação em atrocidades do passado foi, no mínimo, muito esquisito. Mais esquisito ainda foi Juan reclamar que não foram somente as vítimas da ditadura que sofreram perdas. Não podemos nos esquecer que as perdas em ambos os lados foram única e exclusivamente consequência da ditadura, pois sem ela, o movimento guerrilheiro não existiria. Por outro lado, Mariana tem uma postura mais crítica com a participação do pai, o que somente aumenta a dose de inusitado e de contradição da personagem. Ou seja, Mariana não tem qualquer coerência em suas ações. Se isso é uma virtude a ponto do filme receber vários prêmios internacionais eu confesso que não sei. Mas que a coisa ficou muito confusa, ah isso ficou. Pelo menos, o destino dos cachorros parece que condena as atitudes de Mariana ao longo do filme. Mas se isso aconteceu ou não, eu deixo para o espectador.

Comportamento um tanto inconsequente…

Assim, “Cachorros” pode ser visto como um filme perturbador, pois sai do lugar comum da crítica às atrocidades da ditadura e parece relativizar o discurso da barbárie, algo que é totalmente impossível de se relativizar. Eu sugiro que o nobre leitor assista ao filme e tente quebrar a cabeça ao fazer a sua leitura.

Batata Movies – Arranha-Céu: Coragem Sem Limite. Medo De Altura.

Cartaz do Filme

Dwayne “The Rock” Johnson volta a atacar em mais um filme de ação. “Arranha-Céu: Coragem Sem Limite” é mais um daqueles filmes de porrada, bomba e tiro, embora ele tenha algumas diferenças bem sutis como, por exemplo, puxar referências de outros filmes. Vamos falar agora algumas coisas sobre essa película, sempre lembrando que os spoilers serão necessários.

Ele está de volta!!!

A história começa com uma operação de resgate, onde Will Sawyer (interpretado por Johnson) tenta induzir o sequestrador a se entregar, mas ele explode uma bomba que mata todos os reféns (a própria família do sequestrador) e fere muitos soldados de seu esquadrão. Anos depois, Sawyer está casado com a médica que o atendeu no hospital e tem uma modesta empresa de segurança. Ele foi contratado por um bilionário chinês que construiu a torre de vidro mais alta do mundo, em Hong Kong, para checar todos os sistemas de segurança e liberar o acesso ao público a parte mais alta da torre.

Contratado por um bilionário chinês…

Quem intermediou o contrato foi um antigo amigo de Sawyer. O problema é que um inimigo do bilionário chinês quer destruir a torre e, para isso, precisa de um tablet em poder de Sawyer que controla todos os sistemas de segurança. Pois bem, esse tablet cairá nas mãos do tal vilão e ele induzirá um incêndio que destruirá a parte superior da torre. O problema é que a família de Sawyer está hospedada lá em cima e, ainda por cima, ele é o suspeito de provocar todo o incêndio. Agora, Sawyer, que estava fora do prédio na hora do incêndio terá que entrar na parte alta acima do incêndio com o encalço da polícia bem atrás de si. Ah, sim, o grandalhão tem medo de altura (o entendo bem).

Medo de altura e muita fita adesiva…

Já falamos aqui em outras ocasiões do talento de Dwayne Johnson no que se refere à atuação. E aqui não foi diferente, ele sempre corresponde muito bem quando é exigido nesse campo. O problema aqui é que o filme, por conter muitas cenas de suspense e ação, não dá muitas oportunidades para The Rock atuar. O mais curioso é que, mais uma vez, a força de sua musculatura é pouco exigida. Tá certo que o homem fica dependurado em prédios, cordas, quase cai o tempo todo, mas uma cena mais “mamãe, tô forte” somente aparece quando ele precisa segurar uma ponte meio bamba enquanto sua esposa salva o filho do casal. O que realmente é mais tenso no filme está nas sequências onde ele precisa ficar dependurado no prédio do lado de fora, ainda mais porque ele mostra, de forma bem convincente por sinal, que morre de medo daquela altura toda. Essas sequências tensas foram as melhores do filme, batendo até as cenas de tiroteios com os vilões.

Precisando salvar a família…

Mas o elemento que diferencia esse filme dos filmes de ação mais convencionais é o excesso de referências a outras películas. Impossível não se lembrar do primeiro “Duro de Matar”, com Bruce Willis, pois o filme também se passava num alto edifício, com sua esposa refém de um grupo terrorista. Mas o filme vai além e bebe fonte de películas ainda mais antigas como, por exemplo, “Inferno na Torre”, onde tivemos o prazer de ver um elenco do quilate de Paul Newman, Steve McQueen, William Holden, Richard Chamberlain, e que também se referia a um incêndio num alto prédio onde as pessoas ficaram encurraladas pelas chamas nos andares mais altos. Ainda a título de curiosidade, “Inferno na Torre” foi baseado no incêndio do Edifício Joelma em São Paulo na década de 70, onde as pessoas também ficaram encurraladas pelo fogo na parte mais alta do prédio e isso se constituiu numa verdadeira tragédia com mais de 180 mortos.

Vilões implacáveis…

Agora, a referência mais inesperada foi ao filme “A Dama de Shangai”, de Orson Welles (1947), cuja sequência clímax do filme é um tiroteio na sala de espelhos de um Parque de Diversões, onde a ilusão de ótica ditava as regras. Qual não foi a surpresa de ver a mesma ideia na sequência final aqui, onde tínhamos telas de led com câmeras cujo conjunto fazia o papel dos espelhos? Essa sequência final é bem ao estilo “entendedores entenderão” e foi uma grata surpresa num filme “blockbuster” que visa apenas ao entretenimento. Valeu muito pela lembrança e foi uma surpresa para cinéfilos mais exigentes.

Poucos momentos “Mamãe, tô forte”…

Assim, “Arranha-Céu: Coragem Sem Limites” é mais um filme de ação estrelado por Dwayne Johnson que, se não deu muita oportunidade ao ator de mostrar seu talento na atuação, trouxe a boa surpresa de fazer referências a filmes mais antigos de um passado relativamente recente, mas também de um passado bem mais distante. Somente esse pequeno detalhe já torna a película digna de atenção. Vale a pena dar uma conferida.

Batata Movies – O Desmonte Do Monte. Radiografando Uma Demolição.

Cartaz do Filme

Um interessante documentário brasileiro passou em nossas telonas. “O Desmonte do Monte”, de Sinai Sganzerla, faz uma análise meticulosa sobre a vida do núcleo fundador da cidade do Rio de Janeiro, o Morro do Castelo, ao longo do tempo. É um documentário bem didático e explicativo, fartamente documentado, com uma trilha sonora, digamos, peculiar.

Morro do Castelo. O núcleo urbano de povoamento mais antigo da cidade do Rio de Janeiro…

A narrativa começa ainda com os indígenas e toda a querela entre portugueses e franceses pela disputa da Baía de Guanabara. Após a vitória lusa e o extermínio de praticamente todos os tamoios, aliados dos franceses (os portugueses receberam a ajuda dos temiminós), o primeiro e efetivo núcleo de povoamento se deu no chamado Morro do Castelo. Era prática em Portugal colocar as cidades à beira mar em cima de morros, pois isso facilitava a segurança em caso de ataques vindos do mar. Tanto Rio de Janeiro, quanto Lisboa e Salvador tinham essa configuração. Lá, foi erguida em 1567 a primeira Igreja da cidade, sob o controle dos padres jesuítas da Companhia de Jesus que, por ter uma posição altamente estratégica na colônia (a catequese de índios para suprir as perdas na Europa de fiéis que o catolicismo sofria para as religiões reformadas) acumularam muito poder, o que desagradou à Coroa Portuguesa, que promoveu a expulsão dos Padres Jesuítas do Brasil. Séculos depois, o fato de a cidade estar espremida entre o mar e as montanhas fez com que os terrenos ultravalorizassem, e o Morro do Castelo acabou sendo uma vítima da especulação imobiliária, sofrendo o processo de desmonte. É importante também dizer que o desmonte de morros seguia uma política higienista altamente autoritária onde os ambientes considerados imundos (e onde estava a população pobre, mestiça e negra) eram responsáveis pelas doenças; esse argumento foi usado também para expulsar as pessoas pobres do centro da então capital federal, com a campanha “O Rio Civiliza-se”, levada a cabo pelo Presidente Rodrigues Alves e pelo prefeito Pereira Passos, conhecido como “O Bota Abaixo”, pois ele demolia casas e cortiços na calada da noite, onde a população mais pobre vivia, para que as pessoas não pudessem recorrer na justiça. Foi dessa forma que o digníssimo prefeito, junto com o desmonte do Morro do Castelo, abriu espaço para a Avenida Central (atual Avenida Rio Branco), embora ele não tenha ficado livre das convulsões sociais, pois foi nesse momento que surgiu a Revolta da Vacina, onde suas demolições foram apenas um dos motivos que levaram a tal revolta.

E começa a destruição…

É curioso também perceber, como o documentário atesta, que o imaginário popular, em virtude do poder dos jesuítas, ficou muito embebido na questão de que havia subterrâneos abaixo da Igreja do Morro do Castelo e um tesouro escondido estaria por lá. Com o desmonte, galerias subterrâneas foram encontradas, mas somente instrumentos de tortura foram achados. Uma tentativa de se fazer uma pesquisa arqueológica dessas galerias foi barrada por uma simples questão de vaidade das autoridades da época.

O processo de expulsão dos moradores e o desmonte também foi muito bem ilustrado no documentário, que lançou mão de fotos, reportagens de jornal, documentos e até de depoimentos gravados de antigos moradores. Tal documentação farta dá muita credibilidade ao que é exposto no filme.

O passado pouco a pouco se esvai…

Uma coisa que incomoda um pouco é a trilha sonora. Optou-se por colocar uma música meio setentona na abertura do filme, algo que parecia não ter muito a ver. Em alguns momentos onde se queria fazer um clima mais tenso com as imagens antigas, pintou até alguns trechos da trilha sonora de “Vertigo”, de Hitchcock. Mais ao final, para espelhar um pouco o clima melancólico dos moradores ante ao desmonte, apareceu um sambinha, aí sim tendo algo um pouco mais a ver com aquela realidade mostrada na tela. É claro que sempre se terá alguns problemas com a manipulação das fontes e a narração, como, por exemplo, o já clássico uso das pranchas de Debret (feitas no século XIX) para ilustrar um processo escravista ainda nos séculos XVI e XVII, ou então o uso de imagens coloridas do Rio de Janeiro, um pouco mais recentes do que a época que era mencionada na narração (os anos 20 do século XX). Entretanto, o cinema não tem qualquer compromisso com a realidade (o próprio princípio de funcionamento do cinema, a imagem em movimento, nasceu de um show de ilusões em parques de diversões) e podemos dizer que a pesquisa histórica do documentário foi muito boa. Tais descontinuidades entre as fontes históricas exibidas e a narrativa acontecem a todo momento em vários filmes. E não será isso aqui que comprometerá a qualidade do documentário.

O morro praticamente arrasado…

Assim, “O Desmonte do Monte” é um bom documentário que faz uma excelente investigação da destruição do Morro do Castelo, sendo inclusive, um ótimo material para ser usado em aulas de escolas e até de Universidades. E um prato cheio para o cinéfilo que curte um bom filme e ainda gosta de História. Programa imperdível.

 

Batata Movies – Desobediência. Mais Uma Vez O Embate Entre Tradição E Modernidade.

Cartaz do Filme

Um curioso filme passou em nossas telonas. “Desobediência”, dirigido pelo chileno Sebastián Lelio, o mesmo do filme “Garota Fantástica”, premiado com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro esse ano, aborda um tema bem delicado, levantando polêmica novamente. Para que possamos entender toda a polêmica envolvida na película, vamos ter que lançar mão de alguns spoilers.

Voltando ao passado para velar o pai…

A história tem como protagonista Ronit (interpretada por Rachel Weisz), uma fotógrafa de origem judaica que, digamos, se desgarrou do rebanho. O problema é que o seu pai, o rabino da comunidade, morre, e a moça terá que retornar às suas origens. Lá, ela encontra Dovid (interpretado por Alessandro Nivola) e Esti (interpretada por Rachel McAdams), dois amigos de infância que ela descobre que acabaram se casando depois que ela foi embora. Ronit queria ter uma vida mais independente ao invés de manter a tradição de sua comunidade, que seria casar num matrimônio arranjado e ter muitos filhos. Já Esti rezou pela cartilha da tradição com Dovid, que inclusive foi cotado para substituir o rabino morto. O grande problema aqui é que Ronit e Esti tiveram um relacionamento homossexual no passado que agora volta com força total, abalando as estruturas e as tradições da comunidade judaica.

Três antigos amigos…

Esse é mais um filme que tem como tema principal o embate entre a tradição e a modernidade, desta vez vendo a primeira como algo opressor e retrógrado e a segunda como a vanguarda, a liberdade e a felicidade. Simples assim, de forma bem maniqueísta. Chama muito a atenção as tórridas cenas de sexo entre Weisz e McAdams, consideradas talvez um tanto ousadas para atores do cinema americano. Mas a ousadia meio que parou por aí.

Um casamento estável…

Esperava-se uma reação muito mais violenta da comunidade contra a paixão das personagens protagonistas. E o marido aceitou muito facilmente a situação. Creio que, se esses tópicos fossem mais trabalhados, teríamos um filme melhor. Do jeito que ficou, pareceu um drama um tanto sonolento de fácil resolução. E o filme tinha potencial para ser mais do que isso. Ou seja, escreveu-se uma história ousada o suficiente para se usar uma estrutura muito iconoclasta e, na hora de se usar tal estrutura em toda a sua plenitude, não se fez isso.

Relembrando as amizades do passado…

De qualquer forma, havia duas Rachel. A Weisz mostrou-se deslumbrante, apesar dos primeiros sinais da idade, e muito carismática, convencendo como a mulher moderna. Já McAdams posou bem como a perfeita casada, que transgride quando necessário para o desenvolvimento da história. Rolou uma química muito boa entre as duas.

As coisas vão ficar quentes…

Assim, podemos dizer que “Desobediência” foi um bom filme, embora tivesse potencial para ser melhor. Todo o terreno para o embate entre a tradição e a modernidade foi preparado, mas não se aproveitou totalmente tal terreno, o que foi uma pena, já que a temática prometia muito. Pelo menos, restou as cenas quentes entre Rachel Weisz e Rachel McAdams, que valem pelo filme, dada a intensidade da coisa.