Batata Movies – Hannah. Um Doloroso Choque De Realidade.

Cartaz do Filme

Um filme letárgico em nossas telonas. “Hannah” traz de volta a diva Charlotte Rampling num papel que lhe rendeu o prêmio de melhor atriz em Veneza no ano passado. Essa película, dirigida por Andrea Pallaoro, é arrebatadora no sentido de que transforma o cinema num violento choque de realidade. A sétima arte costuma ser ilusória e fantasiosa. Quando vemos a arte imitando a vida, surge uma sensação de certo desconforto, que é o que acontece aqui da forma mais intensa possível.

Charlotte Rampling em atuação magistral…

Vemos a história de um casal idoso que vai se separar, já que o marido irá para a cadeia. Não fica muito claro porque isso acontece. A esposa, Hannah (interpretada por Rampling), passa então a ter uma rotina altamente opressora marcada por muita solidão. Mesmo tendo uma vida muito ativa, a distinta senhora não consegue se livrar do impacto emocional que tal rotina e tal solidão impõem a ela. E aí, o filme é todo um rosário de movimentos e atos de Hannah que em nada diminuem seu sofrimento. Para piorar a situação, seu filho não quer saber dela, e o marido não quer saber do filho, ficando implícito que o pai está na cadeia por denúncia do próprio filho, sendo que essa história nunca fica bem contada para o espectador.

É um filme totalmente sem esperança. E muito maçante, pois acompanhamos o cotidiano de Hannah, onde pouca coisa de interessante acontece. Como ela está sozinha em grande parte do tempo, o filme passa por vários momentos de uma total ausência de diálogo, onde vemos Rampling fazendo toda uma sucessão de movimentos banais como trocar de roupa (há cenas de nudismo com ela) ou chamar o encanador para consertar um vazamento que vem do apartamento de cima. Nos poucos momentos em que ela tenta quebrar com a rotina, a senhora dá com os burros n’água como, por exemplo, quando ela prepara um bolo de aniversário para o neto, sendo escorraçada pelo próprio filho, o que lhe rende uma posterior explosão de choro. No mais, resta a melancolia do dia a dia e uma certa angústia que vai nos pregar uma peça no desfecho. Mais um choque de realidade no espectador, que sai da sala totalmente perplexo e desalentado com o que viu.

Uma rotina cheia de banalidades e melancolias…

Com relação ao prêmio dado a Rampling pela interpretação desse papel, temos que dizer que foi merecido, pois ela consegue tirar leite de pedra ao tratar de forma bem dramática o sofrimento da personagem tendo como campo de atuação um rosário de situações muito banais. Fora o paroxismo da explosão de choro, Rampling sempre levava consigo uma expressão serena, com um leve toque de angústia, o que fazia a gente sentir que algo ia errado atrás daquele semblante desgastado pelas mágoas que sofria. É o tipo do filme que se sustenta totalmente na atuação de sua protagonista, atuação essa muito difícil, pois a atriz quase não falava e tinha que demonstrar seu leve desespero na medida certa. Confesso que nem me preocupei muito com a sinopse ao ver o nome da diva nos créditos.

Um marido que irá para a prisão…

Assim, “Hannah” pode ser considerado um filme um tanto mediano com a interpretação de uma grande atriz. A opressão das situações banais aliada a solidão da personagem principal dão o tom da película que, por sua vez, dá pouco espaço para a atriz mostrar seu talento em toda a sua plenitude. Mesmo assim, Rampling deu conta do recado, o que lhe rendeu o prêmio em Veneza, o que confirma, mais uma vez, o seu grande talento. Se você gosta de Charlotte Rampling, vá ao cinema, esqueça do filme e foque na atuação da grande atriz. É o que vale aqui.

 

Batata Movies – Auto De Resistência. Uma Verdadeira Tragédia Social.

Cartaz do Filme

Um documentário brasileiro extremamente polêmico em nossas telonas. “Auto de Resistência”, de Natasha Neri e Lula Carvalho, fala das ações da Polícia Militar em comunidades e periferias do Rio de Janeiro, onde são analisados os casos conhecidos como “autos de resistência”, ou seja, a legítima defesa dos policiais contra supostos ataques de traficantes.

Enterros. Perda de entes queridos…

O filme levanta a questão de se esses casos são realmente legítima defesa ou são práticas de extermínio da população mais pobre e desfavorecida, constituindo-se numa verdadeira tragédia social. Muitas vezes, quando aparece na TV os casos de pessoas sendo mortas pela polícia em comunidades, cai-se no lugar comum de que foi bandido e traficante que morreu e que tinha mais é que morrer mesmo. Mas, até onde isso é verdade ou um estereótipo totalmente preconceituoso? E mais: mesmo que a pessoa seja realmente traficante ou bandido, ela tem o direito de ser executada de forma tão bárbara? A polícia não pode ser treinada para atirar sem matar?

Triste rotina de sepultamentos…

Como um exemplo, tivemos uma chacina onde um carro com cinco pessoas foi alvejado 111 vezes pela polícia. Todos esses tiros eram realmente necessários? Num outro caso, dois adolescentes foram alvejados pelo simples fato de estarem correndo de noite na rua. E foi provado, pelas imagens de celular dos próprios adolescentes, de que eles não faziam nada de errado. Quer dizer que, correr na rua de noite já é motivo para você ser executado por vários tiros de fuzil, como registrado na câmara instalada no carro dos policiais? Não poderia haver outro tipo de abordagem que não colocasse em risco a vida de ninguém, sejam policiais, sejam moradores da comunidade? São essas as questões que se colocam ao longo do documentário.

Luta dos parentes na rua…

O filme mostra as audiências onde testemunhas das ações policiais depõem, assim como os próprios policiais. Tais audiências são importantes para se ver se o caso será levado ou não a julgamento. Infelizmente, pouquíssimos casos chegam a esse estágio e condenações são praticamente uma exceção, como se houvesse uma legitimação de tal matança.

… e nos tribunais…

Enquanto isso, os parentes das pessoas mortas continuam se mobilizando para exigir mais justiça. Pode-se ver, inclusive, a presença de Marielle Franco entre as mães dos mortos nas manifestações, a vereadora que seria assassinada anos depois provavelmente em virtude das denúncias que ela fazia sobre ações policiais em Acari (o documentário se passa no ano de 2015). Aliás, as próprias mães de Acari até hoje não têm resposta por parte do Estado, das mortes de seus entes queridos, numa comprovação de que tais práticas são mais antigas do que se imagina, provocando nos parentes uma dor que não se aplaca e afetando profundamente suas vidas, a ponto de chegarmos a ter mortes por depressão.

Julgamentos tensos…

Assim, “Auto de Resistência” é mais um documentário onde o cinema cumpre a sua função social de denúncia. Um documentário corajoso, que não tem medo de levantar tais questões, ainda mais numa sociedade extremamente autoritária na qual temos vivido.

Presença de Marielle Franco nas manifestações…

Um filme essencial para repensarmos como levamos de forma totalmente partida a população dessa cidade, constituindo-se em dois mundos que pouco se conhecem, se estranham e se tratam com muita violência. E, enquanto isso acontecer, não há qualquer perspectiva de melhora para o Rio de Janeiro.

Batata Movies – Sicario, Dia do Soldado. Na Maldição Das Continuações.

Cartaz do Filme

Uma sequência foi exibida em nossas telonas; “Sicario, Dia do Soldado”, dá continuidade a “Sicario, Terra de Ninguém” e segue a mesma filosofia do primeiro filme, onde agentes federais dos Estados Unidos fazem “serviços sujos” para combater o narcotráfico mexicano. O primeiro filme  mostrou uma sinistra e excessiva carga de violência, disputada com afinco por protagonistas e antagonistas que mais pareciam farinha do mesmo saco do que qualquer outra coisa no que tange a serem pessoas implacáveis. Entretanto, essa sequência sofre a maldição, muitas vezes vista em outros filmes, do fato de ser pior do que o primeiro filme, principalmente na sua principal característica: a violência explícita. Para entendermos um pouco melhor o que aconteceu, vamos precisar de alguns spoilers.

Graver, em nova missão…

Façamos uma breve sinopse. O agente federal Matt Graver (interpretado pelo “Thanos” Josh Brolin) é chamado pelo secretário de defesa para lidar com mais uma ameaça aos Estados Unidos: os atentados terroristas cometidos pelo Estado Islâmico. Após algumas investigações (e ameaças de torturas a prisioneiros de origem islâmica, assim como assassinatos de seus entes queridos), descobriu-se que são os narcotraficantes mexicanos que estão promovendo a vinda dos terroristas para solo americano. Dentro da mentalidade americana dos homens da defesa, só há um jeito de se lidar com a situação: colocar os narcotraficantes em guerra. Para isso, a filha de um deles será sequestrada. É claro que Graver contará com a ajuda do obscuro e misterioso Alejandro (interpretado por Benicio Del Toro), um assassino frio e calculista. O problema é que o plano não dará tão certo. E aí, o governo obrigará Graver a tomar medidas, digamos, muito práticas.

Alejandro, mau que nem um pica-pau…

Por que esse filme perde em qualidade para o primeiro Sicario? Em primeiro lugar, há uma menor violência, até porque já esperamos um pouco o que vai acontecer, o que não ocorria na primeira película, onde a inesperada violência foi muito arrebatadora. Mesmo assim, as cenas de violência ainda vieram em menor número aqui na sequência, o que atrapalhou um pouco. Em segundo lugar, o filme é vendido com uma temática de combate ao terrorismo, que acaba atuando apenas como uma fachada, sendo que a película prefere revisitar o tema do narcotráfico mexicano. Ficou com cara de propaganda enganosa a coisa. Esperava-se mais terroristas muçulmanos fanáticos e cruéis trocando tiros com os federais ensandecidos.

Filme tem menos violência…

Num ponto, o filme acertou mais uma vez: o uso de práticas ilícitas para caçar inimigos dos americanos. O interessante aqui é que, tal prática, embora seja vista como necessária., não é exatamente vista como virtuosa, onde os próprios personagens protagonistas são vistos dentro de um clima altamente sombrio, muito realçado pela trilha sonora.

Os dois parceiros irão se desentender…

Ou, resumindo: nossos “heróis” não são exatamente caras bonzinhos, muito pelo contrário. Curioso aqui é que, ao contrário do primeiro filme, onde eles tinham carta branca para explodir completamente tudo o que vissem pela frente no país vizinho (no caso, o México), violando alegremente as leis e a soberania, nesta sequência Graver toma uns pitos do FBI, pois ele matou “só” 24 policiais mexicanos, todos ligados ao traficante local e que abriram fogo contra sua equipe. Ou seja, vamos violar a soberania do México ma non troppo, botando algum freio na insanidade cowboy  conservadora do primeiro filme.

Uma federal na incumbência de segurar a onda da galera…

De qualquer forma, apesar dos problemas, o filme ainda pôde produzir sequências bem dramáticas e angustiantes, sobretudo no que se refere ao personagem Alejandro, mas não vou mencioná-las aqui. Só digo que foi colocado, no desfecho, um gancho para uma continuação, algo bom a meu ver, pois esse Universo tão torto onde os procedimentos de “mocinhos” e “bandidos” muito se assemelham, pode ainda dar mais pano para a manga do que se pode imaginar.

Salvando uma sequestrada…

Assim, se “Sicario, Dia do Soldado” não é exatamente uma boa continuação, ainda assim segue o ritmo e a temática do primeiro filme, onde se estabelece uma espécie de “vale tudo” para o combate ao narcotráfico, nem que direitos básicos sejam violados, indo bem ao estilo do pensamento conservador americano, embora a narrativa do filme deixe bem claro que isso não é visto como algo virtuoso, embora se insinue que seja necessário. Entretanto, toda essa violação começa a ser mais questionada e relativizada nessa sequência, mesmo que seja por um breve momento. No mais, o gancho para uma sequência é um bom sinal de que há uma disposição para ampliar a discussão do que se é apresentado no filme, ou seja, a violação dos direitos e uma truculência explícita usando como argumento o combate ao narcotráfico e ao terrorismo. Torçamos para que esse terceiro filme saia.

 

Batata Movies – Nos Vemos No Paraíso. Guerra, Morte, Mutretas e Um Toque Lúdico.

Cartaz do Filme

Uma curiosa produção franco-canadense está em nossas telonas. “Nos Vemos no Paraíso” consegue misturar uma gama de gêneros: filme de guerra, uma leve comédia, um drama psicológico, um toque terno de lúdico. O resultado é um ótimo filme que consegue prender a atenção do espectador do início ao fim. Vamos analisá-lo aqui, lembrando sempre que precisamos lançar mão de alguns spoilers.

Um soldado e um tenente…

A película começa no dia do armistício da Primeira Guerra Mundial. Os soldados franceses nas trincheiras, assim como os alemães, só esperam pela confirmação do fim das hostilidades. Mas o temível tenente Pradelle (interpretado por Laurent Lafitte), sedento por sangue, manda dois soldados numa missão de reconhecimento em pleno dia e ainda os mata pelas costas para parecer que foram os alemães que os alvejaram, o que detonou uma batalha sangrenta. Tudo isso foi visto pelo soldado Albert Maillard (interpretado por Albert Dupontel), que quase é morto por Pradelle, não fosse o fato de que ele caiu num buraco provocado por uma explosão de bomba e acabou soterrado.

Um homem desfigurado…

Mas Maillard foi salvo por Edouard Péricourt (interpretado por Nahuel Pérez Biscayart, do ótimo “120 Batimentos por Minuto”, já resenhado aqui). Péricourt, entretanto, é atingindo por uma bomba que lhe dilacera o rosto abaixo do nariz. Maillard leva o companheiro ferido para o hospital e depois troca sua identidade com a de um soldado morto, pois Péricourt não quer mais voltar à casa do pai, um empresário muito ganancioso, Marcel Péricourt (interpretado pelo ótimo Niels Arestrup). Os dois amigos passam a viver juntos depois da guerra e Maillard acaba conhecendo os familiares de Péricourt, descobrindo que Pradelle é marido da irmã de Edouard e que ele ganhava dinheiro com negócios escusos relacionados a cemitérios de soldados mortos na guerra (daí sua sede de sangue no front). A coisa vai se complicar quando Marcel vai começar um concurso para fazer um monumento aos soldados mortos na Guerra e Edouard irá participar mandando seus desenhos, com apenas o intuito de ganhar dinheiro e não fazer monumento nenhum.

Máscaras para cobrir o rosto dilacerado…

Como foi dito acima, o filme consegue satisfazer os mais variados gostos. As cenas da Primeira Guerra Mundial são de um potente realismo, algo admirável, já que vemos mais filmes sobre a Segunda Guerra Mundial do que a Primeira. Destaque para um travelling acompanhando um cachorro correndo por uma trincheira francesa cheia de soldados, o que ficou muito bom. O drama de Edouard e seu rosto deformado também merece destaque, pois concilia um forte drama psicológico com algo bastante lúdico. É que Edouard adorava desenhar, logo se antagonizando com o pai, que pensava somente em dinheiro e não suportava a cabeça de artista do filho. A ida à Guerra, por parte de Edouard, foi para libertá-lo desse mundo imposto pelo pai. E agora, ele não tinha mais uma face inteira para mostrar. O jovem, então, começará a confeccionar máscaras que serão verdadeiras obras de arte modernas, antenadas com os movimentos artísticos do período do filme, inclusive a arte abstrata.

Um empresário inescrupuloso e um vilão…

E são deliciosos os momentos em que ele brinca com suas máscaras na companhia da órfã Louise (interpretada pela fofíssima Héloïse Balster, uma ótima aquisição ao filme), sendo o ponto lúdico da coisa. Nahuel Pérez Biscayart, na pele de Edouard, teve uma interpretação ímpar, até porque a deformidade de seu personagem o obrigava a atuar dando gemidos graves por debaixo da máscara, obstáculos que já desfavorecem a interpretação, mas o ator conseguia dar muita vivacidade ao personagem mesmo assim. Laurent Lafitte, na pele do vilão Pradelle, consegue convencer sem ser caricato, embora faça um antagonista relativamente banal. Niels Arestup mostra novamente seu grande talento na pele de um empresário inescrupuloso que só pensa em dinheiro. Para quem consegue ir de um oficial nazista clássico até um vovô bonzinho de fazenda do interior, ele tirou de letra a sua interpretação nesse filme.

Um estilo bem moderno…

Assim, “Nos Vemos no Paraíso” é uma excelente co-produção franco-canadense que traz uma bela história onde vários gêneros são mesclados com maestria e prendem a atenção do espectador por durante toda a exibição. É um filme de guerra, e um lúdico filme de máscaras, onde a alma de um artista supera um trauma e uma deformidade. Vale muito a pena dar uma conferida nessa ótima película.

Batata News (Especial Nouvelle Vague Soviética) – Palestra O Cinema Moderno Soviético. Radiografando a Nouvelle Vague Soviética.

Hernani Heffner

Na Mostra “Nouvelle Vague Soviética”, realizada na Caixa Cultural do Rio de Janeiro, em fins de maio e início de junho, a coisa não ficou restrita a apenas a exibição dos filmes da era pós-Stalin. Houve, também, ciclos de palestras, cursos e debates. Tivemos, por exemplo, a palestra “O Cinema Moderno Soviético”, ministrada por Hernani Heffner (chefe de preservação da Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro) e Luiz Carlos Oliveira Jr. (ex-editor da Revista Contracampo e autor do livro “A mise-en-scène no cinema”). Essa palestra muito ajudou o público a identificar elementos dos filmes exibidos em consonância com o período histórico em que foram produzidos. Nas falas dos pesquisadores, tivemos a oportunidade de conhecer informações muito preciosas. Em primeiro lugar, após a morte de Stalin, o novo Secretário Geral do Partido Comunista, Nikita Kruschev, denuncia os crimes e arbitrariedades de seu antecessor e seu governo é denominado “Era do Degelo”, onde há uma espécie de distensão entre o Estado Soviético e sua classe artística. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, a produção de filmes soviéticos havia caído muito. Também pudera, o povo russo foi o que mais sofrera nas duas guerras mundiais e a recuperação do cinema no pós-guerra foi muito lenta. Com Kruschev, a produção de cinema recebeu um estímulo e chegou a se produzir uma média de cem filmes por ano. Em trinta anos, produziu-se cerca de quatro mil filmes, muitos deles ainda inéditos no Brasil. Em 1985, a União Soviética atingiu a histórica marca de 4,5 bilhões de ingressos vendidos, numa prova de que a exibição se expandiu e se manteve. Mas, na década de 80, o governo Brejnev voltou a lançar mão da censura com carga total. De qualquer forma, a alta frequência de público manteve uma indústria cinematográfica altamente diversificada. Dentre os filmes que foram produzidos, tivemos, por exemplo, adaptações de autores clássicos da literatura, como Tolstoi e Dostoievsky, além de um estilo que ficou conhecido como “faroeste vermelho”.

Por incrível que possa parecer, alguns desses filmes soviéticos chegaram por aqui, através de uma distribuidora chamada Tabajara Filmes (!) e foram exibidos em circuito comercial, caso de “Quando Voam as Cegonhas”. Com a ditadura militar, a Tabajara Filmes foi fechada e esses filmes foram parar no acervo da cinemateca do Museu de Arte Moderna (MAM). Por iniciativa de Cosme Alves Netto, do MAM, houve uma parceria com o consulado russo e, de 1965 a 1991, muitos filmes soviéticos foram para o acervo do Museu. O mais interessante é que a exibição de filmes soviéticos no circuito comercial brasileiro permaneceu mesmo com a ditadura militar.

E o que mais podemos dizer dessa produção soviética pós-stalinista? Vemos aqui novas práticas nesse cinema mais antenadas com as práticas que aconteciam no resto do mundo. Em 1959, filmes estrangeiros começam a chegar a União Soviética, e a Escola Superior de Cinema Soviético chegou a ter filmes estrangeiros em seu interior sendo assistidos e debatidos, embora essa não fosse uma prática corriqueira. Curioso é notar que os tempos turbulentos da Guerra Fria não influenciaram a produção russa. Os filmes tinham uma preocupação muito maior com o sujeito, com questões mais amplas como o que é a vida, onde personagens jovens se desvencilham do fardo do stalinismo e da guerra, se importando com questões mais subjetivas e com uma vida comunal mais solidária, que talvez se aproximasse de uma ideia matriz mais utópica da revolução, embora tenha ficado muito claro na palestra de que essa ideia de comunidade não seguia nenhuma ideologia de Estado. Foi também assinalado que tal estilo de se contar histórias não se arrefeceu nem com a ditadura de Brejnev e artifícios para se driblar a censura foram utilizados. O eu se confrontava com o Estado e não cedeu perante a repressão. Ainda, devemos nos lembrar de que o orçamento era limitado, ao contrário dos filmes hollywoodianos, e muita imaginação foi usada para se contar histórias. É notável perceber que os filmes resistem ao tempo e permanecem atuais. E uma película como “Vá e Veja” resistiu abertamente à censura de Brejnev, começando a ser realizada em meados de 1976 e sendo apenas concluída na década de 80, mesmo com todas as dificuldades impostas pelo regime.

Ainda foi assinalado na palestra que tais filmes mostravam uma espécie de displicência na montagem, afrouxando a sintaxe e dando pouca importância à linguagem cinematográfica. Se o cinema soviético em sua fase inicial ficou muito marcado pela inovação na montagem, onde Sergei Eisenstein foi um de seus grandes nomes, o cinema soviético pós-Stalin, por sua vez, mostra filmes com planos longos e até planos sequência, com poucos cortes. Isso se afasta um pouco do cinema moderno feito no ocidente, cuja montagem é mais fragmentada, tornando os filmes mais dinâmicos e despojados. No caso do bloco socialista, os filmes mais se aproximavam do cinema moderno ocidental estavam no cinema tcheco e polonês.

Fazendo uma análise do que foi dito na palestra e do que foi visto em doze dos vinte e um filmes da mostra, posso dizer que o ponto mais polêmico acima foi a fala que se refere a questão do eu e da vida comunitária totalmente descolada de qualquer ideologia de Estado. É verdade que vários filmes foram colocados dentro dessas premissas. Mas creio que um pouco da ideologia socialista entra no discurso de algumas películas. Em alguns filmes da Segunda Guerra Mundial como “Vá e Veja” a gente até vê uma crítica velada ao autoritarismo soviético numa convocação forçada do protagonista pelos partisans, mas depois de todo um rosário de atrocidades nazistas, vemos o nazista capturado proferindo um discurso de ódio psicótico contra os socialistas, sendo devidamente fuzilado. No caso de “A Comissária”, a protagonista abandona a vida comunitária e seu filho para voltar a se engajar na guerra civil. Em “O Primeiro Professor”, o aldeão abandona muito rapidamente a sua tradição para ajudar o professor a derrubar a árvore para fazer uma nova escola e ensinar a pedagogia do partido. E em “Soy Cuba”, o soviético vê no cubano um paradigma de seu passado de luta contra as injustiças do modelo capitalista. Ou seja, o cinema subjetivo, comunal, destacado da ideologia do Estado aparece mais quando se aborda a vida soviética mais contemporânea, ao passo que em filmes que abordam contextos de guerra ou veem outras culturas diferentes, uma ideologia mais socialista pode se fazer presente em algumas ocasiões. Pelo menos essa é a impressão que temos de apenas doze filmes de uma mostra de vinte e uma películas, lembrando que esse é um mapeamento muito pequeno se compararmos com a produção total do período, que é de cerca de quatro mil filmes, com muitos deles nem tendo chegado por aqui.

De qualquer forma, as informações dadas na palestra sobre a filmografia do período abordado foram de grande utilidade para entendermos um pouco melhor o que aconteceu nos filmes dessa época muito prolífica da cinematografia soviética.

Luiz Carlos Oliveira Jr.

Batata Movies (Especial Nouvelle Vague Soviética) – Bem Vindo Ou Entrada Proibida. Curtindo A Vida Adoidado Às Avessas.

Cartaz do Filme

Ainda dentro das análises dos filmes da Mostra “Nouvelle Vague Soviética”, ocorrida na Caixa Cultural do Rio de Janeiro, falemos hoje de “Bem Vindo ou Entrada Proibida”, de Elem Klimov (o mesmo diretor de “Vá e Veja”), realizada em 1964 e com duração de apenas 75 minutos. Temos aqui uma comédia bem levinha sobre crianças que estão numa espécie de colônia de férias, onde elas são submetidas a uma rotina cansativa e cheia de tarefas e disciplina, comandada pelo diretor da colônia, Dynin (interpretado pelo excelente Evigeniy Evstignev).

Uma colônia de férias que prima pela disciplina…

Um dos meninos, Kostya (interpretado por Viktor Kosykh) é expulso da colônia de férias depois que ousa nadar para uma ilha num rio. Mas o menino não pode retornar para a casa da avó, com medo de desapontá-la. E volta para a colônia de férias, se escondendo no interior de um palanque, numa espécie de “Curtindo a Vida Adoidado” às avessas, onde o menino, ao invés de querer fugir da colônia de férias, faz de tudo para permanecer em seu interior.

Um diretor durão…

No mais, a história é cheia de lances engraçados, onde uma comédia com crianças e adultos abobalhados dá o tom. E quem disse que o cinema soviético não faz filmes de entretenimento leve e descartável? Tal filme é aquilo que denominamos “filme de Sessão da Tarde” bem típico, com direito a muitas crianças fazendo todo o tipo de gracinha e até alusões às comédias de cinema mudo.

Adultos um tanto abobalhados…

Assim, “Bem Vindo ou Entrada Proibida” é uma prova viva de como o cinema soviético se diversificou nessa “Nouvelle Vague” pós-Stalin. Se a gente tem uma infinidade de filmes que abordam a questão da vida, do indivíduo e da vida comunitária solidária, podemos ter também uma comédia inteiramente despretensiosa, ao estilo dos filmes de Sessão da Tarde, isso num país que nosso senso comum insiste em dizer que é altamente sisudo e fechado. Nessa película ocorre exatamente o oposto: adultos fazendo papéis cômicos que beiram o ridículo são cercados por crianças que tomam o rumo da ação e da narrativa, gerando uma história agradável, bobinha e de fácil digestão. E você pode ver o filme na íntegra. Clique no vídeo abaixo, depois clique em assistir no Youtube. Lá no Youtube, clique na engrenagem no canto inferior direito, depois em legendas, depois em traduzir automaticamente e selecione o idioma português.

Batata Movies (Especial Nouvelle Vague Soviética) – É Difícil Ser Um Deus. O Surreal Como Crítica.

Cartaz do Filme

Dando sequência a análise dos filmes da Mostra “Nouvelle Vague  Soviética”, realizada na Caixa Cultural do Rio de Janeiro, falemos hoje do curioso “É Difícil Ser Um Deus”, realizado em 2013 por Aleksey German e que tem a duração de 177 minutos. Pode-se dizer que esse é um dos filmes mais loucos da Mostra e um dos de mais difícil realização.

Um cientista com ares de Deus…

A sinopse da história é bem simples. Há um planeta chamado Arkanar, cuja civilização ainda se encontra no período medieval. Trinta cientistas da Terra são enviados ao planeta para desenvolver a civilização de lá. Entretanto, a tarefa não vai ser simples, pois não se pode lançar mão do expediente da violência. O líder da missão, Don Rumata (interpretado por Leonid Yarmolnik) tenta salva intelectuais locais de punições e assume uma postura um tanto quanto divina, mesmo não podendo interferir profundamente naquela sociedade. Levanta-se a questão de o que um Deus pode fazer. Pouco a pouco, Rumata vai tomando posturas autoritárias que aniquilam aquela sociedade.

Planeta medieval…

É um filme um pouco difícil para o público acompanhar. O diretor Aleksey German optou por uma proposta altamente non sense e surrealista, por durante as quase três horas de filme, onde somente uma narração esporádica nos dava algum norte para acompanhar a história. Não é à toa que várias pessoas do público abandonaram a sala de projeção durante a exibição. O surreal era tão forte que tornou a película demasiado hermética. Isso realmente atrapalhou. Não que o surreal não devesse ser usado, ele é muito bem vindo, aliás. Entretanto, um pouco de estrutura narrativa mais tradicional ajudaria na compreensão do filme. De qualquer forma, o filme também tem suas virtudes. A mais interessante delas era a construção de vários planos longos, estrategicamente emendados para se dar a impressão de planos sequências. Víamos cenários totalmente caóticos, cheios de lama, sucata, interpretações de atores completamente surreais, mas dava para perceber como cada movimento, cada diálogo, cada posição de ator foi meticulosamente calculado e planejado da forma mais racional possível. Nós ficamos com a sensação de como tudo aquilo que vemos na tela deve ter sido de uma realização extremamente elaborada e complexa. Ou seja, é o surreal sendo arquitetado previamente de forma extremamente racional, por mais paradoxal que isso possa parecer.

Narrativa excessivamente surreal…

Outra coisa que fica muito clara é a crítica aos dias do regime soviético, materializada na figura de Rumata. O cientista que tinha a missão de levar progresso e estabilidade para o planeta atrasado, acaba cometendo as maiores violências e atrocidades, típicas dos regimes autoritários. O homem corta orelhas, massacra estudantes, comete as maiores arbitrariedades, e faz tudo isso com a chancela de que é uma figura meio divina, como se ele justificasse seus atos com esse argumento. Mas em poucos momentos de lucidez, ele implora a Deus que o detenha, veja só. Assim, Rumata pode ser visto como o protótipo do estado autoritário que tanto assolou a Rússia em tempos passados.

Opressão e violência…

No mais, o filme assume uma postura um tanto agressiva com o público, trazendo imagens muito desagradáveis que beiram a escatologia: torturas, maus tratos a animais, corpos em decomposição, falas e atitudes de baixo calão. Fica bem clara aqui a intenção de agredir o espectador, para realçar como o autoritarismo pode levar a situações repugnantes.

Assim, “É Difícil Ser Um Deus” é mais um interessante filme da Mostra “Nouvelle Vague Soviética”. Mesmo sendo hermética e demasiado surreal, a película é muito interessante do ponto de vista técnico por ter sido de difícil realização. Além disso, é um filme que denuncia de forma agressiva as mazelas de um regime autoritário, já cumprindo sua função social de denúncia. Agora tenha a oportunidade de assistir abaixo ao filme na íntegra, com legendas em português.