Batata Movies (Especial Nouvelle Vague Soviética) – Soy Cuba. Se Identificando Com Um País Distante.

Cartaz do Filme

Em mais uma análise de um filme da mostra “Nouvelle Vague Soviética”, realizada na Caixa Cultural do Rio de Janeiro, vamos falar hoje do bom “Soy Cuba”, de Mikhail Kalatozov, produzido em 1964 e com duração de cerca de 140 minutos. Podemos dizer que esse é um filme onde uma nação (a União Soviética) se identifica com o pequeno país caribenho na sua luta contra as injustiças, tal como aconteceu na Revolução Russa de décadas antes.

Uma moça sendo obrigada a vender seu corpo para estrangeiros…

Temos aqui quatro histórias que buscam compreender como foi o processo de transição do poder, com a derrubada de Fulgêncio Batista, o ditador patrocinado pelos Estados Unidos, e a ascensão ao poder da Revolução Cubana  propriamente dita, que implanta o socialismo na ilha. A primeira história mostra como uma moça precisa se prostituir para ganhar a vida, tendo como clientes turistas americanos que a tratam como um objeto.

Um camponês que perde tudo…

A segunda história fala de um pequeno agricultor que, depois de trabalhar duro durante a vida toda e nunca se livrando das dívidas, perde tudo que tem para um grande fazendeiro, levando-o a um ato desesperado. A terceira história está mais ligada às manifestações de rua contra a ditadura de Batista e a violenta repressão policial, que acabou unindo ainda mais o povo. E a quarta história nos remete à Sierra Maestra, onde um pequeno agricultor entra para o movimento revolucionário, depois de ter seu casebre bombardeado por um ataque aéreo do governo.

O movimento urbano contra a ditadura…

Em todas as quatro histórias fica bem clara a temática da injustiça do governo de Batista, onde a luta do povo contra tal ditadura vai crescendo paulatinamente ao longo das quatro histórias. Na primeira história, a resistência limita-se apenas à atitude da moça negra, que ao dançar no bar com músicas americanas, volta-se para si e imagina as músicas africanas em sua mente. Na segunda história, a resistência já é maior, pois o camponês bota fogo em seu próprio canavial.

a morte em praça pública…

Na terceira história, já temos protestos de rua bem organizados, que encaram de peito aberto a violência policial. E, na quarta história, a luta armada da Revolução está em curso, essa sim, a reação popular mais eficaz e que toma o governo, com o desfile triunfal do povo com a bandeira nacional ao final.

A linda sequência do funeral

O filme também é impecável do ponto de vista técnico, com planos-sequência onde temos longas tomadas aéreas, com direito a muitas gruas, onde a câmara entra e sai dos prédios fazendo belas imagens do alto de um cortejo fúnebre, com direito ao povo jogando flores das janelas sobre a multidão que acompanha o caixão acompanhado de uma grande bandeira cubana. Uma imagem muito linda de se ver e, provavelmente de muito difícil elaboração.

A equipe de filmagem…

Assim, “Sou Cuba”, é um filme onde um país, a União Soviética, reconhece seu passado de lutas no presente de outro país distante, ou seja, Cuba. Se os filmes soviéticos da era pós-Stalin não se envolvem profundamente com o discurso socialista, ao se analisar Cuba, as lutas pelo socialismo se legitimam na questão da luta contra as injustiças e agruras do capitalismo. As quatro histórias narradas ao longo do filme, mostram um crescente de reação popular contra a ditadura de Batista, culminando com o desfecho que exalta o triunfo da Revolução Cubana. Mais um curioso filme da Mostra “Nouvelle Vague Soviética” na Caixa Cultural do Rio de Janeiro.

O diretor Mikhail Kalatozov

Fique agora com o impressionante plano sequência do funeral do manifestante. Lembrando sempre que a Mosfilm não autoriza a exibição do vídeo em sites. Clique então no vídeo abaixo e depois clique em Assista no Youtube.

Batata Movies (Especial Nouvelle Vague Soviética) – Vá E Veja. Só Não Pode Fechar Os Olhos.

Cartaz do Filme

E continuamos a dar sequência às análises dos filmes da Mostra “Nouvelle Vague Soviética”, na Caixa Cultural do Rio de Janeiro. Hoje vamos falar de “Vá e Veja”, um filme de Elem Klimov realizado em 1984 e de 142 minutos. Esse filme foi exibido no Brasil há muitos anos mas não tive a oportunidade, na época, de assisti-lo (não fui e não vi). De qualquer forma, ficou na minha cabeça o cartaz do filme, com um menino de semblante petrificado, como se estivesse muito horrorizado. Ao ver os filmes disponíveis no folder da mostra, lá estava “Vá e Veja”. E, dessa vez, fui e vi.

No início, tudo parecia ser idílico…

E o que vi? A expressão fantasmagórica do garoto se justificava em toda a sua plenitude. O filme se passa na Bielorrússia (hoje Belarus) de 1943, ou seja, em plena ocupação nazista na Segunda Guerra Mundial (isso mesmo, mais um filme que aborda a Segunda Guerra, não sendo somente um privilégio do Ocidente em produzir películas com essa temática; há, na mostra, vários filmes soviéticos que abordam o conflito). Temos aqui o menino Florya Gaishun (interpretado por Aleksey Kravchenko), que brincava com um amigo desenterrando objetos de covas rasas de soldados que eram nazistas.

Mas logo os horrores se revelam…

Um belo dia, guerrilheiros Partisans levam o menino à força de sua casa e contra a vontade da mãe para lutar no front. O menino vai cheio de vontade para a guerra, mas acaba ficando no acampamento, pois teve que dar seus sapatos novos para um soldado que tinha seu calçado completamente deteriorado. Ele conhece Glasha (interpretada pela bela Olga Mironova), uma moça que quer amar e ter filhos. Os dois começam uma amizade meio idílica, meio lúdica, meio infantil.

… e surge a expressão do terror…

Mas isso é fortemente impedido por um bombardeio nazista que deixa Florya meio surdo. Passado o trauma, o garoto quer levar a menina para conhecer sua casa, mãe e irmãzinhas, mas os nazistas já haviam passado por lá e exterminado todo mundo, mergulhando o garoto num trauma ainda maior. Ele é convidado a participar do movimento guerrilheiro, que o coloca de vez em contato total com todos os horrores da guerra.

Enfrentando a morte…

É um filme que tem como objetivo chocar o espectador, com closes da face do menino desfigurada pelo horror sendo usadas como vírgula. É particularmente muito traumática a sequência onde os nazistas dizimam uma cidadezinha inteira, cometendo as piores atrocidades (leia-se colocar toda a população da vila numa igreja e incinerá-la com explosivos, coquetéis molotov e lança-chamas, sendo todo esse massacre aplaudido pelos nazistas, ou mostrar uma menina levada à força para um caminhão cheio de soldados e depois a mostrando caminhando com a face toda arrebentada e as pernas ensanguentadas, resultado do estupro coletivo que sofreu).

Histeria coletiva provocada pela violência explícita…

São cenas profundamente repugnantes e revoltantes, mas absolutamente necessárias e uma prova concreta de que o cinema cumpre sua função social de denúncia aqui. E tal filme se faz amplamente indispensável hoje, onde temos tantos exemplos de ódio explícito contra o outro em nosso país. O filme ainda coloca um letreiro dizendo que tais atrocidades aconteceram em mais de seiscentas cidades na Bielorrússia na Segunda Guerra Mundial. Definitivamente é um filme de denúncia contra as atrocidades nazistas.

Guerrilha faz um boneco com restos de corpos…

Foi marcante a atuação de Aleksey Kravchenko. Ele, que já devia estar na casa dos seus treze, quatorze anos, conseguia agir como uma criança frente aos traumas, chorando copiosamente e despertando pena no espectador. Mas seus grandes momentos foram, definitivamente, seus closes onde o menino se encontrava em verdadeiro estado de choque, tamanho o horror que ele presenciava. Esses closes serão inesquecíveis para sempre em toda a História do Cinema.

Catando piolhos…

Assim, “Vá e Veja” é, acima de tudo, um filme fundamental. Um filme que deve ser muito exibido e divulgado por aí, principalmente num país como o nosso, onde a ignorância retumbante dá força para movimentos de ódio retornarem e provocarem muita desgraça entre nós. Uma obra-prima que foi aplaudida ao final da sessão.

Uma vítima de estupro coletivo…

E você pode vê-la na íntegra legendada em português. É só clicar na engrenagem do vídeo no canto superior direito, selecionar a opção legendas, depois selecionar a opção traduzir automaticamente e selecionar o idioma português. Lembrando sempre que a Mosfilm não autoriza a exibição aqui. Por isso, depois de clicar no vídeo abaixo, clique em Watch on Youtube. Note que o vídeo está dividido em duas partes. Para continuar a assistir, é só clicar na parte dois do vídeo ao lado direito da tela. Ela tem a duraão de uma hora, treze minutos e cinco segundos.

 

Batata Movies – Homem Formiga E A Vespa. Micro-Macro.

Cartaz do Filme

A Marvel apresenta mais um de seus filmes. Depois do impacto provocado por “Vingadores: Guerra Infinita”, chega “Homem Formiga e a Vespa” para manter o bom nível das películas, além de, talvez, lançar alguma luz sobre todo o imbróglio do filme anterior, onde Thanos pintou e bordou, saindo triunfante. Dá para perceber o tamanho da responsabilidade que o micro (ou quântico?) herói tem sobre suas costas. E o filme, correspondeu? Para isso, teremos, como sempre, que lançar mão de spoilers.

O Homem Formiga agora tem a companhia da Vespa…

Do que consiste a história? Scott Lang (interpretado por Paul Rudd) cumpre prisão domiciliar depois de ter ajudado o Capitão América em “Guerra Civil”. Só que logo ele será “solto” por Hope Van Dyne (interpretada por Evangeline Lily), pois a mesma tenta buscar tirar sua mãe, Janet (interpretada por Michelle Pfeiffer) do mundo quântico. Scott teve sonhos com a mãe de Hope e enviou uma mensagem de texto para o Dr. Hank Pym (interpretado por Michael Douglas), marido de Janet e pai de Hope.

Devidamente paramentados…

O cientista estava elaborando uma espécie de túnel quântico para resgatar a esposa e tentou colocá-lo em funcionamento, no que não foi bem sucedido. Logo após esse evento, Scott começou a ter esses sonhos. Hank acredita então que Scott e Janet podem estar conectados por uma espécie de emaranhamento quântico. O mais curioso é que o tal túnel foi construído dentro de um prédio que era devidamente “encolhido” pelo Dr. Pym e transportado para lá e para cá. Tudo parecia ir às mil maravilhas, não fosse o fato de que Ava, uma vítima de uma experiência quântica mal sucedida (interpretada por Hannah John-Kamen) precisa fazer uso desse túnel quântico para salvar sua vida (ela tinha sua estrutura molecular destruída e reconstruída permanentemente e isso a matava lentamente). O problema é que esse uso poderia matar Janet. Começa, então, uma disputa pelo túnel quântico, que ainda conta com a presença de um empresário inescrupuloso, Sonny Burch (interpretado por Walton Goggins), que funciona mais como um alivio cômico (como se o filme precisasse de mais algum) do que como um vilão.

Fantasma, uma vilã, mas nem tanto…

O filme segue a tendência do primeiro, que é mostrar uma veia cômica mais forte do que habitualmente se vê nos filmes da Marvel, tal como faz “Guardiões da Galáxia”. A situação onde heróis e objetos de todos os tipos são aumentados e diminuídos repentinamente trazem situações muito engraçadas, o que é a grande atração do filme, sem falar no carisma de Paul Rudd, que consegue ser um protagonista muito cômico. Interessante, também, é o uso de termos de física quântica no filme, onde é citado o emaranhamento quântico, ou a “ação fantasmagórica à distância” mencionada por Albert Einstein. Para compreendermos melhor esse termo, temos que citar aqui o Princípio da Incerteza de Werner Heisenberg. Quando estudamos o movimento de uma partícula, precisamos saber simultaneamente de sua velocidade e posição. O problema é que não podemos medir essas duas grandezas ao mesmo tempo, por limitações impostas pela própria natureza.

Michael Douglas de volta…

Assim, para cada posição que medimos, temos infinitas velocidades possíveis e vice-versa. Isso leva à conclusão de que o Universo que observamos é apenas um de muitos possíveis. Como os cientistas procuram fazer uma determinação simultânea de posição e velocidade de uma partícula? Eles pegam duas partículas iguais, colocando-as em movimento e em sentidos opostos, e medem a posição de uma e a velocidade de outra. Dessa forma, para que possamos estudar o movimento da partícula, elas precisam ter alguma ligação entre si, mesmo que estejam separadas. É o tal emaranhamento quântico. No filme, Scott e Janet estão, digamos, “emaranhados” (no bom sentido, é claro, segundo o próprio Scott).

Laurence Fishburne. Outro nome de peso…

É curioso também notar que o filme não tem propriamente um antagonista de peso como foi Thanos em “Guerra Infinita”. Aqui, Ava (que é também conhecida como “Fantasma”) é uma moça revoltada por ter sofrido com as experiências quânticas, e é tratada mais como uma vítima do que uma vilã. Há, inclusive, a boa presença de Laurence Fishburne no elenco, como um cientista que é um antigo desafeto do Dr. Pym e que tenta salvar a moça do mal que a acomete. É claro que, até a antagonista se entender com os personagens protagonistas, muitas cenas de ação irão ocorrer, com Fantasma aparecendo e desaparecendo aqui e ali, ao bom estilo de uma onda de probabilidade quântica.

Pode ficar pequeno, mas também pode ficar grande…

Já Burch, o empresário inescrupuloso, funciona muito mais como uma piada do que como um vilão, sendo um declarado alívio cômico, além de sua atuação ser para lá de sofrível. De qualquer forma, o elenco tem bons medalhões. Além da presença já citada de Fishburne, temos Michelle Pfeiffer, retornando a um blockbuster e Michael Douglas. Nomes desse quilate sempre são bem vindos a filmes de super-heróis. E não podemos nos esquecer que o CGI trabalhou aqui nos flashbacks, rejuvenescendo Douglas, Pfeiffer e Fishburne.

Michelle Pfeiffer de volta…

O filme tem duas cenas pós-créditos. A última, depois de todos os créditos passados, é um alivio cômico. Mas a primeira é um pouco mais sinistra, pois nos lembra dos estragos provocados por Thanos e nos ajuda a entender por que o Homem Formiga não desmanchou como outros super-heróis. Mas vou parar com os spoilers por aqui.

Cenas de filmagem.

Assim, “Homem Formiga e a Vespa” é uma boa continuação do minúsculo herói e sua nova parceira e, se não traz uma luz no fim do túnel para a querela de Thanos em “Guerra Infinita”, estabelece uma ponte com aquele arco. Fica agora a expectativa de se a gente verá o Homem Formiga trabalhando em conjunto com a Capitã Marvel para salvar o Universo das garras de Thanos.  Vamos aguardar os próximos capítulos.

 

Batata Movies – Balada De Um Soldado. Tudo Pelo Amor De Uma Mãe.

                 Cartaz do Filme

Continuemos a falar da mostra “Nouvelle Vague Soviética” da Caixa Cultural do Rio de Janeiro. O filme a ser analisado de hoje é “Balada de um Soldado”, de Grigory Chukhrai. Essa película de 1959 e de 88 minutos é mais um filme que aborda a temática da Segunda Guerra Mundial. Embora esse filme trabalhe uma temática tão pesada quanto a guerra, podemos dizer que é talvez uma das películas mais delicadas de toda a mostra.

Um soldado e seu superior…

Vemos aqui a história do soldado Alyosha Skvortsov (interpretado por Vladmir Ivashov), responsável pelas comunicações no front, e que se viu prestes a ser esmagado por um tanque alemão. Por sorte sua, ele conseguiu atirar no tanque com uma espécie de morteiro e destruí-lo.

Ajudando um soldado a se reencontrar com a esposa…

Como se não bastasse, ele destruiu mais outro tanque. Tratado como um herói por seu superior, Alyosha iria receber uma condecoração, mas preferiu trocá-la por seis dias de licença para visitar a sua mãe. O rapaz inicia, então, sua viagem de trem, onde ele vai se deparar com uma série de imprevistos, onde seu grande altruísmo e capacidade de ajudar as pessoas atrasam sua viagem, mas acabam valendo a pena como experiência dignificante e humanizadora.

O casal mais fofo da História do Cinema Soviético, quiçá russo, quiçá mundial!!!

Ele ajuda um soldado ferido de guerra a retornar à sua mulher (ele havia desistido disso, por ser extremamente ciumento e achar que a esposa merecia homem melhor), cuidou de feridos num trem que ele estava e foi bombardeado pelos alemães e, principalmente, ajudou uma mocinha chamada Shura (interpretada pela deslumbrante Zhanna Prokhorenko) a chegar a casa de sua tia. Ao final, ele teve apenas um curtíssimo espaço de tempo para ficar com sua mãe, mas ficou a sensação de tudo o que aconteceu na sua viagem foi uma experiência que o engrandeceu. O filme deu a entender que ele foi morto em combate e que ele ia ser lembrado somente como um soldado. Mas, ao mesmo tempo, fica a clara impressão que a película quer exaltar a figura do soldado russo que defendeu seu país durante a Segunda Guerra Mundial.

Ah, mas eles merecem outra foto!!!

O mais lindo momento desse filme ficou a cabo do relacionamento entre Alyosha e Shura. Esse, provavelmente é o casal mais fofo da História do Cinema Soviético, quiçá Russo, quiça mundial!!! Poucas vezes foi vista uma química tão grande entre dois atores.

O breve reencontro com a mãe…

Obviamente, a doçura de Zhanna Prokhorenko ajudou muito, mas Vladmir Ivashov também muito contribuiu para a forte sinergia do casal. A belíssima fotografia e os closes dos belos semblantes cimentavam e davam acabamento à toda a obra. Esse casal é uma pequena e terna joia que glorifica e dá um tom todo especial a essa mostra, que exibiu ótimos filmes e atraiu grande público.

A mãe vendo um filho que vai embora mas não irá voltar…

Assim, “Balada de um Soldado”, apesar de ser uma obra com tons leves de propaganda, ainda assim encanta pela belíssima fotografia, pela interpretação de seus atores e pela mensagem positiva e altruísta. Um filme que merece ser guardado com carinho no fundo de nossos corações e almas. Um filme de um casal fofíssimo.

O diretor Grigory Chukhrai, responsável por essa pequena joia…

Fique agora com o belo momento desse casal no primeiro vídeo e assista ao filme na íntegra com legendas em português no segundo vídeo. É só clicar na engrenagem no canto direito do vídeo e selecionar a opção traduzir automaticamente e escolher o idioma português. Como a Mosfilm bloqueia a transmissão aqui, clique nos dois filmes a opção “assista no youtube”.

 

Batata Movies – A Ascensão. A Imolação De Um Povo.

Cartaz do Filme, curiosamente em alemão

Ainda dentro de nossas análises dos filmes da Mostra “Nouvelle Vague Soviética”, realizada na Caixa Cultural do Rio de Janeiro em fins de maio e começo de junho, vamos falar hoje do bom filme “A Ascensão”, realizado por Larisa Sheptiko (a mesma diretora de “Roda Elétrica”, um filme que, junto com “Anjo”, de Andrei Smirnov, compõe o filme “O Início de Uma Era Desconhecida”, analisado aqui) no ano de 1977 (dois anos antes da morte da diretora) e com duração de 111 minutos. Esse é mais um filme que aborda a temática da Segunda Guerra Mundial.

O bom ator Anatoliy Solonitsyn, na pele de um implacável funcionário do Partido Nazista (em primeiro plano, de chapéu negro)…

A história fala de dois soldados guerrilheiros Partisans, Sotnikov (interpretado por Boris Plotnikov) e Rybak (interpretado por Vladimir Gostyukhin), que enfrentam o frio e os nazistas para arranjar comida para suas tropas. Mas eles acabam parando na casa de uma mãe de três crianças e sendo descobertos pelos nazistas por lá, sendo todos presos, com exceção das crianças. Como alguns soldados nazistas foram assassinados, eles acabaram sendo incriminados e interrogados. É nessa hora que vamos descobrir quem tem a coragem para dar a vida pela causa que luta e quem rapidamente se entrega pensando apenas em salvar sua vida.

Sotnikov e Rybak, partisans fugindo dos nazistas…

É um filme sem final feliz. Um filme que mostra toda a imolação do povo russo, o que mais teve perdas com as duas guerras mundiais. E um filme que faz a gente odiar nazistas, pois eles espezinham seus prisioneiros o tempo todo, não havendo qualquer vislumbre de esperança à vista. O destino de nossos protagonistas já está selado e, dessa vez, nem a cavalaria (nem o Exército Vermelho) vai chegar. O filme também aborda a questão do colaboracionismo, onde um antigo morador da vila, com estudo universitário e que parece ter o rei na barriga, interroga os prisioneiros e se traveste de funcionário do Partido Nazista.

Os flagelos da tortura…

Cabe ressaltar aqui a excelente atuação de Anatoliy Solonitsyn, que interpretou esse funcionário. Sua fronte gélida era assustadora e deu bastante impacto dramático à película, sobretudo no interrogatório do soldado Sotnikov, esse sim eleito o personagem mais nobre do filme, que não esmoreceu por nenhum momento e resistiu à sessão de torturas para não entregar o seu destacamento. Já com Rybak aconteceu exatamente o oposto, rapidamente colaborando com os nazistas para salvar a sua vida, mas carregando o fardo de Judas por sua covardia, que o colocava numa espécie de letargia, totalmente paralisado pelo medo. Sei não, o filme deixou bem clara a condenação desse personagem, mas fica aqui a pergunta: o que faríamos em seu lugar? Aguentaríamos a pressão da tortura e do medo de forma tão nobre como Sotnikov?

O medo de uma criança na hora da execução. Imagens fortes que atestam o ótimo trabalho da diretora…

Dá mesmo para condenar Rybak de forma tão sumária? Em tempos de guerra e na pedagogia da obediência, talvez sim. Mas, e em outros parâmetros? Difícil encontrar uma resposta definitiva. Sotnikov parece transcender a tudo em sua nobreza, mas talvez a entrega de Rybak não possa ser condenada sumariamente em qualquer circunstância.

A bela e competente diretora Larisa Sheptiko, falecida prematuramente…

Polêmicas à parte, “A Ascensão” é mais um grande filme da Mostra “Nouvelle Vague Soviética”, organizada na Caixa Cultural do Rio de Janeiro. Mais um filme sobre Segunda Guerra Mundial, desesperançoso toda a vida, mas que ensina o valor de sucumbir por seus ideais. Mais um filme que traz um convite à reflexão nessa surpreendente mostra. Vamos colocar abaixo dois momentos do filme: a cena do interrogatório (onde podemos ver as grandes atuações) e a cena final da execução. No primeiro vídeo, você pode colocar o filme com legendas em português. Clique na engrenagem do canto inferior direito, selecione a opção traduzir automaticamente e escolha português. Como a Mosfilm bloqueia a transmissão do vídeo aqui, clique na opção Assista no Youtube.

 

Batata Movies (Especial Nouvelle Vague Soviética) – A Escrava Do Amor. Fazendo Cinema Em Dias De Guerra Civil.

Cartaz do Filme

Dentro de nossas análises dos filmes da mostra “Nouvelle Vague Soviética” na Caixa Cultural do Rio de Janeiro, falemos hoje de “Escravas do Amor”. Essa película, dirigida por Nikita Mikhalkov, realizada em 1976, com duração de 96 minutos, aborda mais uma vez o tema da guerra civil entre os russos brancos e os russos vermelhos, ocorrida entre 1918 e 1921. Como já foi dito nas resenhas dos filmes “A Comissária” e “O Início De Uma Era Desconhecida”, após a Revolução Socialista de Outubro de 1917 e da subida dos bolcheviques ao poder (os russos vermelhos), os russos adeptos do capitalismo e do Czar deposto Nicolau II (ou seja, os russos brancos) se uniram a uma força estrangeira de quinze países capitalistas que temiam que o socialismo avançasse entre seus trabalhadores e ameaçasse a estabilidade de seus governos, deflagrando a Guerra Civil de três anos contra a Rússia, terminando coma vitória dos russos vermelhos mas mergulhando o país numa profunda crise econômica. Houve até casos de canibalismo em virtude da falta de comida, algo com o qual os países capitalistas fizeram troça, dizendo que “comunista come criancinha”. A situação piorou mais ainda depois que os países capitalistas, derrotados pela guerra, fizeram um bloqueio econômico à Rússia que teve o nome de péssimo gosto de “cordão sanitário”.

Olga, uma estrela fútil em anos de turbulência

Do que consiste a história do filme? Estamos no ano de 1920, numa pequena cidade do sul da Rússia sob o controle do Exército Branco. Uma equipe de filmagem realiza uma película intitulada “A Escrava do Amor”, estrelada pela estrela Olga Nikolayevna Voznesenskaya (interpretada pela belíssima Elena Solovey). A moça é cheia de trejeitos e manias, como toda grande estrela tem, trazendo momentos engraçados para a película. Mas os horrores da guerra civil estão mais próximos do que se imagina e atropelarão as filmagens com muita força, transformando a vida de todos que estão ali.

Filmagens igualmente turbulentas…

Esse é um filme que tem características muito bem definidas. Em primeiro lugar, a película prima por um senso estético muito bem elaborado e sofisticado. É uma película com um caleidoscópio de lindas imagens, onde locações, figurino e o belo semblante de Elena Solovey ditam as regras dessa apologia à beleza. Em segundo lugar, temos uma comédia levinha, que torna a película muito agradável de se assistir em cerca de 80% de sua duração. O filme também mostra detalhes das filmagens de uma película muda, o que ajuda a gente a entender como era a execução de um tipo de filmagem que hoje em dia não mais ocorre. Mas a grande surpresa está reservada mais ao final. A violência dos inimigos russos brancos dão um desfecho altamente sombrio e desesperançoso a um filme que primava por um capricho um tanto burguês em boa parte de sua execução. A própria Olga, em seus ataques de depressão, se dizia arrependida em fazer um filme considerado um tanto fútil numa época tão turbulenta quanto a guerra civil.

O diretor Nikita Mikhalkov

Assim, “A Escrava do Amor” consegue ser um filme cheio de alternativas, começando por uma estética altamente refinada, passando por uma comédia leve e agradável, indo até um desfecho sombrio e trágico. Uma curiosidade interessante na mostra “Nouvelle Vague Soviética” na Caixa Cultural do Rio de Janeiro. Fiquem agora com o desfecho desse filme, com legendas em inglês. O vídeo está bloqueado pela Mosfilm para ser exibido aqui. Para assiti-lo, clique na imagem e depois no link “assista no youtube”.

Batata Movies – No Intenso Agora. Análise De Imagens (Quase) Perdidas.

Cartaz do Filme

Todos nós sabemos da qualidade dos irmãos Salles em termos de cinema. Walter Salles Jr. é um nome de excelência em termos de enredo e João Moreira Salles se especializou mais na arte do documentário. É o irmão mais novo, João, que lançou, há algum tempo, mais uma de suas obras-primas, o excelente documentário “No Intenso Agora”. Mesclando um quê jornalístico com uma memória afetiva, o cineasta monta todo um filme especial, numa colcha de retalhos de fragmentos de uns filmes caseiros, outros nem tanto.

Revolução Cultural. As imagens de leitura mais intimista…

O escopo principal do filme está centrado em vários movimentos sociais da década de 60: a Revolução Cultural Chinesa de Mao, a Primavera de Praga, o maio de 1968 parisiense, os movimentos de protesto contra a ditadura militar brasileira, também em 1968. O documentarista analisa as imagens produzidas naquele período, seja por cineastas, seja por amadores, seja por movimentos de trabalhadores. Infelizmente, a disponibilidade de material que sobreviveu ao tempo e à censura dita o peso de cada um desses movimentos no filme. Como a França teoricamente é o país mais rico e democrático dos registrados aqui, o movimento de maio de 1968 em Paris ganha maior destaque no filme, justamente porque foi o mais ricamente documentado. Já a Revolução Cultural de Mao ganha um viés mais caseiro, em filmes particulares da mãe de Salles, sendo talvez a parte mais intimista de todo o filme, não sem abandonar um ponto de vista mais jornalístico. Por se tratar, talvez, de um dos filmes de mais curta duração, as imagens dele recorrentemente aparecem ao longo da película, sendo estas as que mais se impregnam em nossa memória. É notável perceber como essas imagens são relidas pelo texto de Salles, a cada nova aparição, dando um tom de ineditismo ao já dito no materialismo das imagens.

Maio de 1968 parisiense. O movimento mais documentado…

Notáveis são os filmes da Primavera de Praga. Mesmo que os cineastas desses fragmentos tenham tido uma certa liberdade de mostrar o avanço soviético em seu início, o ambiente opressor soa mais pronunciado que nos filmes dos demais movimentos. Filmagens escondidas de dentro de apartamentos ou de telas de televisão no interior de salas escuras, onde ocorre a posse de elementos “oficiais” do governo pró-soviético, dão um tom de clandestinidade ao registro.

O 1968 brasileiro merecia mais destaque…

Só é um tanto lamentável que a manifestação brasileira tenha tido tão pouco espaço no filme, e ainda assim para servir de contraponto a um caso de suicídio de um manifestante em Praga. Os relatos brasileiros mereciam um espaço um pouco maior. Mas, cabe aqui a dúvida: será que eles são tão ínfimos por escolha do diretor ou porque a repressão em terras brasileiras foi tanta que tornou os registros ínfimos em sua essência? Foi uma questão de escolha, seletividade, recorte, ou foi uma questão de imposição da própria precariedade do material produzido durante violenta repressão?

O diretor João Moreira Salles

De qualquer forma, “No Intenso Agora” é um grande documentário, pois ele consegue fazer com magnificência três coisas básicas: um relato familiar profundamente pessoal e afetivo; consegue registrar de forma um tanto jornalística todo um ambiente de luta pela liberdade inerente àquela época, que se manifestava de formas diferentes em lugares diferentes; e fazia toda uma leitura das imagens, analisando-as e comparando-as com outras imagens de outros contextos. Essas três características não se manifestavam de forma compartimentada e estanque, mas sim interligadas e relacionando-se mutuamente, o que dá excelência e grandeza a esse bom documentário, cujo ato de assisti-lo se torna assim um programa imperdível. Filme essencial para amantes de Cinema, de História, e de uma trama contada com o coração.

Batata Movies – Finalmente Podemos Falar De Han Solo: Uma História Star Wars (Parte 5)

Alden Ehrenreich convenceu, apesar das más expectativas. Já Chewie foi o mesmo de sempre…

Vamos hoje terminar de expor as impressões sobre “Han Solo: Uma História Star Wars”.

Bom, dá para perceber, pelo que foi dito nos artigos anteriores, que é um filme que dá muito caldo e que vale a pena assistir, mesmo depois de todos os spoilers citados. Mas, o que a gente pode falar dos atores que participaram da película? Em primeiro lugar, vamos falar de Alden Ehrenreich. Muito se falou mal no início do ator: que ele não se parecia em nada com Harrison Ford, que a presença de um “coach” (uma espécie de pessoa que o orienta na interpretação do papel) mostraria seu talento limitado, etc. Mas até que ele não foi mal. Ele conseguiu, por exemplo, dar aquele sorriso torto que somente o Harrison Ford sabe fazer, o que já foi um grande trunfo, embora ele repetisse muito isso ao longo do filme, como que se fosse para se afirmar. Ele também conseguiu ser um misto de cafajeste cara de pau (o futuro Han) e o menino apaixonado que acredita cegamente na namorada, apesar dos alertas de Beckett, que também se revelou outro traíra (aliás, a trairagem pode ser considerada uma personagem do filme, com loops de trairagem, o que é outro fator de construção do personagem Han que, interpretado por Ford, é o cara que não confia em ninguém, exceto em Chewie, e que pensa em só si mesmo). Na minha modesta opinião, o melhor momento de Ehrenreich no filme foi quando ele pilotava a Millenium Falcon em Kessel, onde ele mostra, com a sua destreza, que seu discurso de ser um grande piloto não era apenas da boca para fora.

Emilia Clarke meio letárgica…

Já Emilia Clarke como Qi’ra não ficou tão bem. Ela tinha um ar meio indiferente, meio blasé para a personagem que exigia mais dela. A mulher era o primeiro grande amor de Han e vai traí-lo. Não podia ter um arzinho tão letárgico. A única explicação para isso era a de que Qi’ra estava sendo sonsa mesmo. Já Woody Harrelson foi muito bem interpretando o personagem Beckett, que serviu de inspiração para Han em várias coisas: seu destemor, os malabarismos com a arma, etc (foi de Beckett que Han recebeu sua pistola). Algumas pessoas acham que Harrelson é um ator de um papel só, interpretando qualquer personagem sempre da mesma forma. Eu confesso que não o acho tão plano assim. No filme “O Povo Contra Larry Flint”, sua atuação é impressionante, e em “Três Anúncios Para Um Crime”, ele consegue fazer um policial com todos os preconceitos e rudezas de um WASP, mas ainda assim ser uma boa pessoa, mostrando que ele dá conta de papéis complexos e não ser somente o carinha legal.

Woody Harrelson. Bom ator e não somente o “carinha legal”…

Ele ainda deu visualidade a alguns trejeitos em seu personagem que ficaram marcados, como aquele amendoim (?) que ele comia enquanto tinha conversas decisivas com seus interlocutores. Agora, um ator que muito me impressionou foi Paul Bettany, que interpretou o vilão Dryden Vos. Talvez pelo fato dele interpretar o Visão nos Vingadores, e ser lá excessivamente cortês e gentil, tenha parecido a mim que sua interpretação de Dryden Vos tenha ficado tão marcante ao fazer um cruel vilão. O que mais impressiona é o misto de paternalismo e de truculência, onde ele mostra uma preocupação com as pessoas que fazem missões para ele, mas que se volatiliza numa fúria assassina se elas falham. O cara era mais instável do que o coaxium que ele mandava roubar e era assim que Vos controlava as pessoas: através do medo que elas sentiam de seu comportamento instável e violento.

Donald Glover arrebentou!!!

E, apesar de ser um chefão muito sofisticado, como era o seu enorme iate, ele não hesitava duas vezes em fazer o trabalho sujo de matar alguém com aquelas duas adagas iradas, ou seja, não deixava o trabalho para os capangas, mas sim ele mesmo fazia, como se tivesse prazer em matar com raiva. Foi uma atuação bem impressionante e uma das melhores do filme. Outro cara que mandou muito bem foi Donald Glover, entrando muito bem no personagem de Lando. Mesmo não sendo tão bonito e elegante como Billy Dee Williams, ainda assim Glover conseguiu recuperar essas deficiências na sua excelente atuação, sendo, na minha modesta opinião, o ator que mais aproxima sua atuação das atuações dos filmes clássicos. Só não foi melhor do que o Chewbacca, que estava igualzinho a todos os outros filmes.

Paul Bettany, um excelente vilão, aprovado pelo diretor…

Bom, essas foram em linhas gerais as impressões sobre “Han Solo: Uma História Star Wars”. Mais uma vez o spin-off foi melhor que os episódios. Também pudera. Colocar Ron Howard na direção e Jonathan e Lawrence Kasdan no roteiro acaba dando um resultado melhor, mesmo com toda a turbulência nas filmagens. Ou seja, quando o pessoal quer fazer um filme bom, acaba fazendo. Que essa lição fique para o Episódio IX e os próximos spin-offs, sendo esses últimos os que mais despertam a curiosidade agora.

Será que vai ter continuação???