Batata Movies (Especial Mostra Nouvelle Vague Soviética) – O Primeiro Professor. Ao Mestre, Sem Carinho.

Cartaz do Filme

A Caixa Cultural organizou uma mostra intitulada “Nouvelle Vague Soviética”, que mostrou alguma coisa da produção do cinema da União Soviética pós Stalin. Foram vinte e um filmes exibidos, com direito a palestras e debates, além de um prolífico catálogo cheio de artigos e de entrevistas. Foi uma excelente mostra que durou duas semanas e a Batata Espacial esteve lá vendo alguns filmes. Faremos aqui a análise de alguns deles. Hoje vamos falar de “O Primeiro Professor”, de Andrei Konchalovsky. Essa película de 1965 e duração de 102 minutos, fala de um professor do Quirguistão, filiado ao Partido Comunista, e sua saga empreendida para abrir uma escola numa comunidade muçulmana no interior do país. O mestre é sistematicamente ridicularizado pela comunidade, mas não desiste na sua tarefa de levar a educação e a cartilha do Partido Comunista para as crianças. Só que muitos problemas e atritos aconteceriam nessa empreitada, levando a situações extremas.

Um professor e sua melhor aluna…

Esse é um filme que mais uma vez aborda a velha questão da relação entre a tradição e a modernidade. Aqui o moderno é a palavra do Partido, a alfabetização, a matemática, a chance de simplesmente ter luz elétrica e de se falar ao telefone. E a tradição está na religião islâmica e suas práticas onde, em tempos mais antigos, as meninas eram “casadas” pelos seus pais, de acordo com as conveniências. No meio de tudo isso, uma comunidade submissa a um fazendeiro local que a explora impiedosamente. O professor será uma espécie de paladino socialista da liberdade e justiça, mas é fortemente rechaçado pela comunidade, que quer seguir firme em suas tradições e que teme a ação dos mais ricos contra ela. Tudo isso vai gerar uma violenta situação de desgraça e conflito, onde a comunidade culpará o professor de todas as coisas ruins que se abaterão sobre ela, mesmo que o docente não tivesse culpa de nada.

Um fazendeiro local que oprime a todos…

E a reação do professor nem sempre foi das melhores, onde ele ignorava a cultura local em sua missão de levar, a qualquer custo, a educação e a aprendizagem para lá. Mesmo com todo esse conflito latente, o filme não optou por uma relativização e tomou partido da cartilha da modernização, com o professor destruindo o maior símbolo de tradição, uma árvore mantida com afinco por gerações nas estepes, para usar sua madeira para construir uma escola, símbolo da modernidade, e destruída por um incêndio provocado pelo fazendeiro local, lembrando sempre que a escola funcionava num estábulo com galinhas no meio das aulas, sendo ela uma espécie de símbolo contra o descaso geral da comunidade com a educação, embora o professor tenha tido uma resposta muito boa das crianças à sua proposta, não sem antes passar por alguns percalços (se me permitirem uma piada docente, é que ele não tinha feito o planejamento).

A aluna segue os passos da luta contra a tirania…

Assim, “O Primeiro Professor” é um curioso filme dessa mostra da Nouvelle Vague Soviética, que mais uma vez aborda a questão da tradição e da modernidade, mas sem relativizar a discussão. Aqui, o moderno é visto de forma virtuosa e a tradição é vista de forma negativa, criando um discurso um tanto maniqueísta. Ainda assim, o filme vale como uma interessante reflexão sobre esses dois pólos.

O diretor Andrei Konchalovsky

Batata Movies – Paraíso Perdido. Filme Família.

                                Cartaz do Filme

Um excelente filme brasileiro em nossas telonas. “Paraíso Perdido”, escrito e dirigido por Mônica Gardenberg, é, acima de tudo, um filme família. Mas engana-se quem acha que essa classificação indique algo mais tradicional ou conservador. Temos aqui uma lição de muito amor e de tolerância com o próximo, o que torna a película altamente deliciosa. Vamos falar um pouquinho dessa pequena joia de nosso cinema, lembrando sempre que a gente vai usar um pouquinho de spoilers aqui.

Imã sendo cortejada…

A história se passa numa casa noturna de nome Paraíso Perdido, administrada por José (interpretado por ninguém mais, ninguém menos que o “tremendão” Erasmo Carlos) e onde temos várias atrações musicais que cantam aquilo que alguns chamariam de música brega hoje em dia, mas que já foi bem chique no passado. E tome um Reginaldo Rossi, Paulo Sérgio e companhia. José acaba sendo o patriarca de uma família que o ajuda a manter a casa e cujos membros são as atrações. Há, também, um amigo da família, Teylor (magistralmente interpretado por Seu Jorge), que é parado numa blitz pelo policial Odair (interpretado por Lee Taylor). Teylor convida Odair para visitar a casa. E aí, o policial será contratado por José para cuidar de seu neto, o transformista Imã (interpretado por Jaloo), perseguido frequentemente por homofóbicos. A casa ainda conta com a presença de Ângelo (interpretado por Júlio Andrade). Mas a família é bem maior que isso e está altamente entrelaçada, onde descobrimos um relacionamento novo a cada instante, podendo ser mais tradicional ou mais, digamos, moderno, com direito a relações homossexuais e bissexuais, tudo encarado dentro da maior normalidade, pois é uma família muito unida que se ama de verdade. E a entrada de Odair nesse círculo restrito somente aumentará a gama de relacionamentos.

Tem dias que nada dá certo…

A função da casa noturna Paraíso Perdido aqui é apenas servir como uma espécie de pano de fundo para a apresentação da família em si. Já o repertório musical meio brega para os padrões atuais serve como um cimento para as emoções dilatadas de seus personagens. De qualquer forma, a película prende a atenção do espectador de jeito bem marcante e provoca uma empatia imediata do público com os personagens. O elenco também ajuda nas interpretações para lá de sinceras. Seu Jorge estava simplesmente espetacular, roubando a cena nos momentos em que aparecia. Foi emocionante o seu diálogo com Erasmo Carlos, onde atores e personagens lá se misturavam. O tremendão, por sua vez, até por não ser ator profissional, pode até ter derrapado na atuação em alguns momentos, mas a sua entrega ao papel e toda a emoção que ele colocou em seu personagem José compensaram qualquer deficiência. Ele foi absolutamente cativante. Outras atrizes também colaboraram muito com o filme: Marjorie Estiano fazendo um papel mais periférico, Malu Galli como a mãe surda de Odair e Hermila Guedes, como Eva, uma filha de José que estava na prisão. E não podemos nos esquecer da deslumbrante Julia Konrad, no papel de Celeste. Todos esses atores farão membros dessa grande família cujos relacionamentos são altamente intrincados.

… mas a vida também reserva bons momentos…

Uma curiosidade marcante. Tanto Celeste quanto Imã se comunicam por sinais de surdos-mudos, mesmo sendo do ofício de cantores. Isso causa uma afinidade imediata de Odair com eles, que também se comunica com a sua mãe por linguagem de sinais.

Erasmo Carlos emociona!!!

Apesar do ambiente um tanto idílico dessa família, o mundo real também é representado e espreita sorrateiramente nossos personagens. Mesmo com todo o clima de tolerância presente no núcleo fechado da família, a intolerância e os homofóbicos estão ali fora, esperando o primeiro vacilo de nossos protagonistas. Ainda, se nossos personagens eram estrelas da noite no Paraíso Perdido, a rotina diária era de pessoas comuns onde as víamos desempenhando seus trabalhos durante o dia. Esse choque de realidade quebra o clima idílico e de romance da película e foi bem vindo por provocar um pequeno contraste na narrativa.

Júlio Andrade também foi muito bem…

Assim, “Paraíso Perdido” é um grande filme brasileiro que traz uma família altamente idílica e um exemplo de tolerância num ambiente considerado bem tradicional que é o familiar. Um filme que prioriza o humano em detrimento do preconceito. Um filme fundamental, terno e de muita qualidade de nosso cinema. Vale a pena dar uma conferida.

 

Batata Movies – Jurassic World, Reino Ameaçado. Mais Uma Vez, O Grande Vilão É O Homem.

 

Cartaz do Filme

E estreou o esperado “Jurassic World, Reino Ameaçado”. Confesso a vocês que, desde que vi o primeiro “Jurassic Park”, não gostei muito da cara do filme. Sei lá. Acho que foi aquele dinossauro abrindo a porta que eu não engoli muito, e também pelo fato de ter sido um ardoroso fã de “Elo Perdido” na minha infância, associando as imagens de dinossauros com meninas louras de trancinhas, com o Tchaca e os sleestaks. De qualquer forma, decidi voltar a ver um filme de dinossauros depois de algum tempo de abstinência e fazer uma pequena análise dele. Lembrando sempre que alguns spoilers rolarão por aqui.

Adestrando um dinossauro

E qual foi a minha impressão dessa nova película? Pelo que eu me lembre, sempre ficou meio implícito nos filmes que o grande vilão da história não são exatamente os bichões em si, mas o ser humano, que pisa continuamente na bola ao querer brincar de ser Deus e de tentar ganhar dinheiro com os lagartos terríveis. Dessa vez, o herói do filme, Owen Grady (interpretado por Chris Pratt, de “Os Guardiões da Galáxia”) é chamado para salvar os dinossauros do parque, que serão extintos por um vulcão ativo, sob a promessa de que eles ficarão isolados numa nova área longe dos humanos. Mas, na verdade, são pessoas inescrupulosas que tocam o projeto e, ao fim das contas, elas pretendem usar os dinossauros para vendê-los em um leilão, onde há todo o tipo de gente ruim que se pode conhecer. Para piorar a situação, um dinossauro é desenvolvido por engenharia genética, sendo ele uma verdadeira máquina de guerra, pronta para matar o que vê pela frente. E aí, tome dinossauro virtual de todos os tamanhos e tipos, com os humanos “bonzinhos” tendo que pagar um dobrado para não serem devorados pelas feras.

Participações de Jeff Goldblum…

Apesar do tema ser um tanto repetitivo, a película não cansa, pois as cenas dos bichões perseguindo as pessoas são cobertas de muito suspense. Ah, e a espécie desenvolvida geneticamente também abre portas! O que é mais interessante é a proximidade de Owen com um dinossauro chamado Blue, uma fera que tem uma inteligência bem desenvolvida, ao ponto de Owen conseguir uma espécie de comunicação rudimentar com ela e estabelecer um adestramento. É claro que os humanos ruins irão tripudiar do bichinho, que terá que ser curado com uma transfusão de sangue, cujo doador é um tiranossauro (!). Como tal coisa inusitada aconteceu? Deixo para vocês verem na película.

… Toby Jones…

No mais, o elenco tem nomes poucos conhecidos ou com carreiras mais sólidas em séries de TV. Um destaque especial fica para os nomes de Jeff Goldblum (que faz uma ponta recordando dos perigos do Homem brincar de Deus), Toby Jones (que marcou presença como um cientista da Hydra em filmes do Capitão América) e James Cromwell (o Zephran Cochrane de “Jornada nas Estrelas, Primeiro Contato”). No mais, o T-Rex e os brontossauros eram os mesmos…

… e James Cromwell…

Assim, “Jurassic World, Reino Ameaçado”, é um filme que mais uma vez prima pelo CGI que busca imaginar como seria uma coexistência entre dinossauros e seres humanos. Mesmo que se insista na temática, nunca é demais denunciar o poder do ser humano e da engenharia genética em animais irracionais, onde o Homem brinca de Deus e cria feras incontroláveis a seu bel prazer, causando morte e sofrimento em função de caprichos e ganância.

Chris Pratt fazendo uma selfie com o dinossauro mais perigoso…

Vale sempre a pena a gente se lembrar disso e que uma punição ao ser humano é uma mera consequência de seus atos tresloucados. Só por essa lição, o filme já vale, pois ele deixa de ser um mero entretenimento e introduz uma reflexão. Vale a pena assistir.

 

Batata Movies – O Mundo Fora Do Lugar. Um Novelão?

Cartaz do Filme

A lendária diretora alemã Margarethe von Trotta está de volta e trazendo Barbara Sukowa a tiracolo. Caramba! Tive o privilégio de ver dois filmes com Sukowa em menos de uma semana no ano passado (o outro filme foi “Stefan Zweig, Adeus Europa”)! Dado também que a lendária atriz alemã (ela era uma das estrelas de Rainer Werner Fassbinder) não aparece muito pelas telas daqui, esse evento de vê-la duas vezes em menos de uma semana é motivo para comemoração, assim como ver um filme escrito e dirigido por Trotta. Mas, será que desta vez a história correspondeu?

Sophie, uma cantora mediana…

Bom, vemos aqui a trajetória de Sophie (interpretada por Katja Riemann), uma cantora de bar que não é muito bem sucedida. Para complementar a sua renda, a mulher também organiza festas de casamento. Um belo dia, seu pai Paul (intepretado por Matthias Habich) a chama à sua casa. Ele mostra uma notícia de um jornal americano sobre uma famosa cantora, que é a cara da mãe de Sophie e se chama Caterina Fabiani (interpretada por Sukowa). Obcecado por tal cantora, já que sua esposa havia falecido um ano antes, Paul manda a filha ir para os Estados Unidos à procura de Caterina para buscar entender o que está acontecendo, pois a cantora se parecia muito com a esposa de Paul. Esse vai ser somente o começo de uma série de situações inusitadas e revelações perturbadoras que vão permear toda a película.

Seu pai lhe dará uma missão

Cá para nós, esse filme tem um enredo que muito se assemelha aos das novelas mexicanas que são exibidas à tarde no SBT. Só que, em vez do laquê e dos olhares perdidos no infinito, vemos aqui atores alemães, muitas vezes nas suas interpretações quadradonas e nada sutis para os nossos padrões culturais.

Caterina. Mãe ou não???

O maior ícone disso foi justamente Sukowa, pois a partir do momento em que sua personagem Caterina foi perseguida por Sophie, ela se tornou extremamente rude por não querer que estranhos interferisem em sua vida pessoal. E tome coices do naipe de um rinoceronte entrando à toda numa loja de cristais. Já Katja Riemann, a atriz que interpreta Sophie, a protagonista, fez uma atuação muito mais suave e cativante, algo que surpreendeu bastante. A personagem também agiu de forma muito centrada à cada revelação que a história trazia, o que foi outro trunfo para o filme. Aliás, essa característica “mexicana” do filme foi interessante: nós, espectadores, não sabíamos mais da história em si do que a protagonista e íamos descobrindo junto com ela todas as mutretas e picaretagens dos demais personagens lá num passado distante e, também, no presente. Esse artifício ajudou a prender a nossa atenção na trama, principalmente depois que ela ficou com uma certa cara de dramalhão.

Aos poucos, as duas se aproximam e desvelam o passado…

Assim, “O Mundo Fora do Lugar” tem uma história que justifica bem o título, pois suas revelações inusitadas à la novela mexicana dão o tom da coisa. Se num primeiro momento a gente torce o nariz para o dramalhão, num segundo momento a gente se concentra nas atuações dos atores que, apesar de ser um filme alemão e a gente esperar uma padronização nas atuações pela forte diferença cultural entre nós e eles, são bastante diferentes. Se Sukowa é muito mais rígida e teutônica, Riemann foi muito mais amável e suave, nos cativando muito. E o fato de que não sabíamos mais do que a protagonista sobre a história e compartilhávamos simultaneamente com ela todas as inusitadas revelações fez com que tivéssemos um relacionamento muito mais intimista com a personagem. Por esses motivos, vale a pena dar uma conferida nesse filme. E cultuar Sukowa, obviamente.

Batata Movies – Um Homem Chamado Ove. Queridos Vizinhos.

Cartaz do Filme

No ano de 2017, tivemos um filme que disputou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e Maquiagem e Cabelo, mas não levou nenhum dos dois prêmios. Pelo menos, valeu pela indicação. “Um Homem Chamado Ove” é uma pequena joia do cinema sueco e é uma prova de como a cultura nórdica pode fazer uma película que soa muito engraçada a nós, latinos, e, ao mesmo tempo, é um bom drama com uma grande história de vida.

Ove, um velho rabugento…

Vemos aqui a trajetória do tal Ove (interpretado por Rolf Lassgard), um senhor rabugento que era um antigo síndico do condomínio onde mora. Ele, mesmo não sendo mais o síndico, ainda impõe uma série de regras aos moradores, despertando muita antipatia em todos. As únicas outras atividades de Ove são trabalhar na fábrica em que seu pai trabalhou a vida inteira e visitar o túmulo da esposa no cemitério. Um belo dia, os seus patrões o chamaram para uma conversa, cheios de dedos, pois ele era o funcionário mais antigo, e lhe sugerem um curso de reciclagem. Percebendo a situação, Ove pediu demissão de uma só vez e foi embora. Deprimido e sem escolha, Ove resolve se suicidar. Mas quando vai se enforcar, chega um novo casal de vizinhos que adia a sua morte. A partir daí, suas tentativas de suicídio são sistematicamente interrompidas pelos seus novos (e velhos) vizinhos e surge um amável e terno relacionamento entre o velho rabugento e seus pares.

O jovem Ove. A gente entende por que ele ficou assim…

É um filme delicioso. O primeiro motivo é que, apesar da rabugice e grosseria de Ove, todos os seus vizinhos gostavam muito dele, pois ele era muito prestativo para todos, com uma ou outra exceção. Por ser muito duro, ele era o tipo de amigo que não fala o que você quer escutar, mas fala o que você tem que escutar.

Chama o síndico!!!

Isso tornou o personagem muito simpático e atraente, mesmo com todo o seu mau humor, que o deixava mais engraçado do que antipático. Outra grande virtude do filme foi ver toda a vida de Ove repaginada em flashback, desde a sua infância até a sua velhice, com tudo isso sendo muito bem distribuído ao longo de toda a película, de forma que essas incursões ao passado não provocavam descontinuidades no roteiro, sendo uma prova de que o filme foi bem escrito e, principalmente, bem montado. Ao podermos examinar toda a vida de Ove, compreendemos todos os seus sentimentos, amores, angústias e de como ele chegou ao estado de um idoso mal-humorado e muito hermético. Essa trajetória de Ove só nos tornou muito mais íntimos do personagem, com uma relação de empatia e até de identificação.

Antigos vizinhos…

Com boas qualidades assim, podemos dizer que Ove bate em muito o filme “Tony Erdmann” (que também concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro no ano passado) no humor (é um filme cuja comédia tem uma identificação bem mais rápida com a nossa forma de rir do que o filme alemão) e até no drama, pois os momentos mais comoventes de Ove suplantam em muito os momentos mais sensíveis de “Tony Erdmann”.

… e novos vizinhos amam esse senhor cativante…

Desta forma, “Um Homem Chamado Ove” é uma diversão garantida, que vale muito a pena. É um bom filme de humor e um bom filme de drama, muito digno da indicação que recebeu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Ah, e a indicação de melhor Cabelo e maquiagem também foi justa, pois ajudou muito a reconstituir os costumes da época de juventude de Ove. Vale a pena procurar essa película por aí para assisti-la.

Batata Movies – Aliados. Dormindo Com o Inimigo?

Cartaz do Filme

O Oscar do ano passado teve outro concorrente que foi indicado, mas não levou. “Aliados”, do lendário Robert Zemeckis, concorreu à categoria de Melhor Figurino e é mais um daqueles filmes que abordam o inesgotável tema da Segunda Guerra Mundial. É uma história de espionagem e drama, com direito a uma enorme pulga atrás da orelha.

Um casal fake…

Vemos aqui a história de Max Vatan (interpretado por Brad Pitt), um espião que tem uma missão a ser realizada em Casablanca (só para ficar no climão dos filmes de guerra): eliminar o embaixador nazista. Para isso, ele fará contato com Marianne Beauséjour (interpretada pela sempre bela Marion Cotillard), uma outra espiã que será a sua “esposa”. Como o casal também é constantemente vigiado por espiões nazistas, os dois precisam fazer de tudo para parecerem marido e mulher o tempo todo, o que provoca uma atração entre os dois espiões. Chega o dia do atentado e tudo ocorre de forma bem sucedida. Aliás, a coisa foi até bem sucedida demais, pois o casal nem foi perseguido quando fugiu da cena do atentado. Os dois, então, decidem casar de verdade e têm uma filha, morando na Inglaterra, numa época em que o país era severamente bombardeado pela Força Aérea Nazista.

Cumprindo uma missão…

Mas um dia, a vida de Max vai realmente virar de cabeça para baixo quando seus superiores o chamam e dizem a ele que há fortes indícios de que sua esposa é uma espiã alemã. Isso será checado e, caso a esposa seja realmente a espiã, o próprio marido terá que matá-la, caso contrário ele será acusado de alta traição e fuzilado. Simples assim. A partir desse momento, Max vai começar uma corrida contra o tempo para investigar toda a situação e concluir se sua esposa realmente é uma traidora ou não.

Um fuga bem sucedida…

Ufa, dá para perceber como a coisa é angustiante e dramática, dando a esse filme cores fortes de drama. Imagine a situação de você dormir com o inimigo, a mãe de seus filhos, e ainda ter que executar a pessoa que ama? Isso foi de uma agonia extrema, e todo esse tormento só poderia ser parcialmente aliviado, tanto para o protagonista quanto para o espectador, por uma busca pela verdade, pois se Max descobrisse se sua esposa era uma traidora ou não antes de seus superiores, ele teria uma margem um pouco maior de autonomia para lidar com a situação e tempo para decidir o que fazer. Aí entra o outro gênero do filme, baseado na investigação e na espionagem, que alivia o forte peso do drama envolvido.

Um casal de verdade…

Essa parte da investigação deixa o filme bem instigante, onde o voyeurismo tomava ares muito intensos em alguns momentos e a busca por pistas e paradeiros em pleno ambiente da guerra, onde até linhas inimigas tinham que ser atravessadas, davam à película leves tons de ação, embora não possamos dizer que esse filme possa ser propriamente considerado de ação.

Uma terrível dúvida…

E a indicação ao Oscar de Melhor Figurino? Creio que ela foi acertada, principalmente quando vemos o vestuário de Marion Cotillard. Ela estava simplesmente deslumbrante e elegantérrima, provocando uma babação geral no público masculino. Sua atuação também foi primorosa, chegando a engolir Brad Pitt em alguns momentos.

Uma investigação…

Não que o casal como um todo não tenha tido uma boa química (foi muito bom ver os dois atuando), mas a natureza mais complexa da personagem de Cotillard, que teve que ser uma espiã assassina fria, uma esposa apaixonada, uma mãe devotada e uma mulher frágil, lhe deu muito mais chances de demonstrar todo o seu talento em contrapartida ao personagem de Brad Pitt, muito mais plano em suas características. E, cacilda, que mulher bonita é Marion Cotillard! Devoção de “star system” puro! A gente realmente vai ao cinema para ver essa linda atriz francesa!

Uma mãe fragilizada…

Assim, “Aliados” é uma película e tanto, com uma boa história onde o forte drama é atenuado por um bom filme de espionagem e ainda temos o privilégio de idolatrar Cotillard em toda a sua exuberância, ajudada pelo excelente figurino, digno da indicação que recebeu ao Oscar. Vale muito a pena assistir.

Batata Movies – Lion, Uma Jornada Para Casa. Busca Insólita.

Cartaz do Filme

“Lion, Uma Jornada Para Casa”, foi um filme que concorreu ao Oscar no ano passado (mas não levou nenhum). Dirigido por Gath Davis, ele concorreu, na época, a seis estatuetas (melhor filme, ator coadjuvante para Dev Patel, atriz coadjuvante para Nicole Kidman, trilha sonora, roteiro adaptado e fotografia). Apesar de não premiada, essa película nos traz boas recordações. Esse é mais um daqueles filmes baseados numa história real, que deixam as pessoas maravilhadas de como a vida imita a arte. Uma história não muito simples que amplifica aos nossos olhos uma tragédia pessoal que precisa de um desfecho. Lembrando sempre que, como é um filme de mais longa data, tomarei a liberdade de usar spoilers.

Um menininho perdido…

Vemos aqui a trajetória do pequeno Saroo (interpretado por Dev Patel em sua fase adulta), um menininho que vive no interior da Índia com seu irmão mais velho, sua mãe e sua irmãzinha caçula. Os dois irmãos vivem de fazer pequenos biscates na rua, trazendo sempre um pouco de leite ou algumas frutas para a mãe, que trata a todos com muito carinho. É o ano de 1986 e a pequena família vive em situação de miséria extrema. Um belo dia, Saroo e seu irmão vão para uma estação de trem de madrugada para procurar algum biscate. O irmão mais velho deixa Saroo na estação, não sem antes pedir ao garotinho que fique onde está. Mas o irmão demorou para voltar e Saroo, ao procurá-lo, acabou entrando num trem vazio e adormeceu. O problema é que o trem deu a partida e andou por muito tempo até chegar a Calcutá, muito longe da terra natal de Saroo. Ele vai viver como menino de rua, até que vai parar numa espécie de reformatório. Dali, ele irá para a Austrália, onde foi adotado por um casal. Os anos passaram e Saroo cresceu, tornando-se um rapaz que queria fazer hotelaria. Mas, ao entrar em contato com alguns colegas de origem indiana, Saroo ficou com vontade de procurar sua família original na Índia, tarefa um tanto difícil, já que ele tinha uma lembrança apenas muito vaga do vilarejo em que morava e nem sabia onde ele ficava localizado na Índia.

Ele consegue uma família nova…

Esse é um filme que se apoia numa bela história. A saga de Saroo para encontrar sua família original tem lances muito dramáticos, despertando uma série de dores que atingiam principalmente o protagonista, mas também todos os que estavam à sua volta. Pode-se dizer que esse momento mais angustiante tornou a história também um pouco morosa, e assim sentimos uma relativa descontinuidade no roteiro (as sequências da infância de Saroo eram mais instigantes num ritmo rápido, e o desfecho foi emocionalmente muito intenso; no meio de tudo isso, uma parte lenta e depressiva, que foi a busca).

Mas a adaptação pode ser difícil…

O filme também se ampara no bom elenco. Dev Patel merece a indicação a melhor ator coadjuvante, apesar de ser o protagonista principal do filme (estratégias da Academia), mostrando que não é mais um carinha simpático que apareceu em Hollywood.

Logo, o menino crescerá…

Ele conseguiu trabalhar muito bem os sentimentos bem díspares de seu personagem, indo de uma amabilidade muito grande, passando a uma angústia profunda, com pitadas de uma melancolia inerte. Agora, a grande surpresa foi ver Nicole Kidman no papel da mãe adotiva de Saroo, uma distinta senhora idealista que buscava dar um lar à crianças que sofriam neste mundo. Podemos dizer que a química entre Kidman e Patel foi perfeita neste relacionamento entre mãe e filho, sendo que as sequências em que os dois apareciam contracenando juntos eram os grandes presentes que esse filme nos dava. E não podemos nos esquecer da presença de Rooney Mara, que fazia a namorada de Saroo, uma personagem que acompanhou de perto as angústias do namorado.

Procurando por suas origens…

Assim, “Lion, Uma Jornada Para Casa” é um bom filme que apostou numa história real, inserindo forte carga dramática, um modelo que, volta e meia se repete, mas que aqui foi bem trabalhado. Esse também é um filme de ator, onde vamos alegres ao cinema para vermos as atuações de Dev Patel e Nicole Kidman. Vale a pena procurar o DVD ou no Youtube.

Batata Movies – Cães Selvagens. Um Crime Que Não Compensa.

Cartaz do Filme

Imagine você testemunhar Nicolas Cage e Willem Dafoe trabalhando juntos. Para o primeiro, é uma boa oportunidade, depois do baque que ele sofreu em sua carreira (a gente tem visto o ator aparecendo até de forma muito obscura como coadjuvante de luxo em alguns filmes por aí). Já para o segundo, é mais uma película de sua boa e muito prolífica carreira. Mas, para um enorme azar de Cage, a coisa não deu muito certo. E olha que o filme foi dirigido por Paul Schrader, responsável por roteiros como “Taxi Driver” e “Touro Indomável”.

Troy quer uma nova vida depois da prisão…

Vemos aqui a história de três ex-presidiários, Troy (interpretado por Cage), Mad Dog (interpretado por Dafoe) e Diesel (interpretado por Christopher Matthew Cook). A ideia inicial do trio é retomar uma vida normal longe da criminalidade. Mas a verdade é que, em nenhum momento, eles saem do submundo. Troy quer levar uma prostituta para passear em Nice, mas a moça declina do convite. Mad Dog está tão ensandecido em sua ânsia de matar que ele nem consegue, digamos, relaxar. E Diesel até tenta engatar uma conversa com uma moça que não pertence ao submundo, mas é também um tanto perturbado e não consegue. O que resta aos três? A velha vida de crimes e trabalhos sujos que vão lhes render um parco dinheiro. Mas como é dito por aí, o crime não compensa. E então…

Mad Dog, um homem atormentado…

O filme tem influências. Tarantino é uma delas, embora a coisa pareça um decalque mal feito, pois Tarantino consegue combinar com maestria grandes paroxismos de violência com um humor negro escrachado. Já “Cães Selvagens” têm uma violência explícita e é só, violência essa onde os personagens usam e abusam da maldade contra inocentes, não despertando qualquer simpatia do público, muito pelo contrário. A gente quer o tempo todo que os caras se ferrem de verde e amarelo, tamanhas as atrocidades psicóticas que eles cometem. Esse filme lembra, também, e guardadas as suas devidas proporções, a película de Fritz Lang “Vive-se Só Uma Vez”, estrelada por Henry Fonda e Sylvia Sidney, onde um ex-presidiário (interpretado por Fonda) busca recomeçar a sua vida com a namorada (interpretada por Sidney), mas a marca de criminoso na vida do personagem de Fonda criou uma barreira entre o protagonista e a sociedade, dando um desfecho trágico ao casal. Aqui a temática do ex-preso que não consegue se ressocializar por preconceito é repetida, mas explorada de forma muito mais pobre que no filme de Lang, já que os três personagens protagonistas praticamente não saem da vida marginal quando fora da cadeia. E isso para vermos num momento mais à frente da película o pensamento de Cage resmungando que ex-criminosos não tinham uma chance de recuperação na sociedade. Pelo menos, o desespero do personagem de Dafoe (e sua ótima atuação, obviamente), que queria sair de sua bolha psicótica e ser uma pessoa normal, foi algo bem mais sincero, mas muito efêmero. Ou seja, o tema da falta de oportunidade de ex-presidiários era uma boa ideia que poderia ter sido bem mais explorada.

Juntos com Diesel, eles não conseguem deixar a vida de crimes…

Apesar dos problemas da película, houve uma grande qualidade nela, que foi toda uma gama de efeitos visuais que ilustravam o barato de nossos protagonistas quando eles estavam doidões e se afogavam nas drogas. O uso do CGI na criação de imagens totalmente artificiais deu toda uma plasticidade especial à materialidade visual do filme, tornando-o mais atraente (ou menos repulsivo).

Paul Schrader

Assim, “Cães Selvagens”, apesar das boas influências, não rendeu um bom resultado, pois aproveitou mal as ideias a que se propôs, teve um roteiro um tanto truncado e até mal explicado em algumas passagens, além de criar um clima de antipatia entre público e personagem. Esse último fator até é um pouco mais original, mas tem o efeito colateral de deixar o final da película altamente previsível. Como ponto a favor, bons efeitos visuais que deram plasticidade às alucinações por vício às drogas. E mais um filme mediano de Nicolas Cage, cuja carreira não consegue deslanchar novamente. Você pode até procurá-lo por aí para ver, mas não espere muito.