Batata Movies – Colheita Amarga. Stalinismo, Fome E Genocídio.

Cartaz do Filme

Um filme de impacto passou nas telonas. “Colheita Amarga”, de George Mendeluk, aborda uma tragédia humanitária conhecida como Holomodor, uma política genocida imposta por Stalin contra a Ucrânia, que consistia simplesmente em deixar as pessoas daquele país sem comida até morrerem de inanição. Tal ato de extermínio eliminou de 7 a 10 milhões de pessoas, sendo revelada somente após o fim da União Soviética em 1991, e mais tarde, reconhecida até pela própria Rússia. Antes de analisarmos o filme, fica aqui o alerta de que teremos spoilers ao longo do artigo.

Yuri, um artista buscando reconstruir sua vida

A história é focada em uma pequena vila no interior da Ucrânia, onde vive Yuri (interpretado por Max Irons), um jovem com alma de artista que adora pintar e que tem em sua família um antepassado guerreiro que ele considera um herói nacional. Yuri é apaixonado pela jovem Natalka (interpretada por Samantha Barks), uma antiga amiguinha de infância. Tudo é muito idílico, romântico e prosaico até o dia em que chega a notícia de que o Czar foi assassinado, um sinal de tempos mais livres para o seu país.

Natalka, o grande amor de Yuri…

Entretanto, alguns anos depois, os bolcheviques dos soviets começam a chegar e a impor a pedagogia estatizante do partido comunista para aqueles pequenos fazendeiros do interior, além de um ateísmo forçado. A onda de violência provocada pelo povo invasor faz com que Yuri vá tentar a sorte na capital, Kiev, para depois levar sua esposa para lá. Só que a repressão stalinista piorava tudo à sua volta. Yuri vai então ter que lutar contra todas essas situações adversas para ter a sua amada a seu lado novamente.

Um Stalin um tanto quanto caricato…

Esse é um filme de denúncia, onde o cinema cumpre sua função social, como tantos outros já mencionados por aqui. Esse é um genocídio pouco falado e que deve ser divulgado aos quatro ventos para que nunca mais aconteça. O filme também não deixa de ser uma peça de propaganda do Ocidente (a produção é canadense) contra o regime socialista, demonizando ao extremo todos os seus membros, embora, por incrível que pareça, vejamos algumas relativizações. Chama muito a atenção as atitudes do personagem Sergei (interpretado por Tamer Hassan), o líder dos bolcheviques que espezinha ao máximo a comunidade de Yuri, sendo o verdadeiro cão chupando manga, mas que faz pequenas e rápidas concessões. Ou um soldado soviético que não aceita as agruras que Stalin pratica contra os agricultores ucranianos e se volta contra seu próprio exército. Mas temos principalmente o personagem Mikola (interpretado por Aneurin Barnard), um amigo de infância de Yuri e que se torna um idealista que acredita que pode conciliar o nacionalismo ucraniano com as premissas socialistas. Creio que tal relativização serviu para amenizar um pouco a extrema e negativa carga nas tintas com que os socialistas foram pintados nesse filme, praticamente nazificando-os, o que poderia dar a impressão de a coisa (a virulência dos soviéticos) não ser tão exacerbada assim, dada a forma muito exagerada da crueldade exposta no filme. Não é à toa que, ao final da película, foram exibidos muitos dados reais do Holomodor em si, para dar mais legitimidade às cenas de extrema e injustificada violência do filme.

Mikola, um idealista…

É claro que a película apresentou alguns elementos dramáticos que davam um sabor especial a essa história baseada em fatos reais. A história de amor, a reação heroica dos ucranianos ao invasor, com direito a morte do vilão e atos heroicos do mocinho, etc., ou seja, uma tentativa de se encaixar um happy end ou um arremedo dele, já que tivemos um desfecho meio que aberto, o que deu uma certa elegância a uma película cheia de lances espetaculares e um pouco exagerados.

Sergei, o vilão clássico, “ma non troppo”…

Só cabe dizer mais um pequeno detalhe: o filme tem uma cereja bem vistosa no bolo, que é a participação de Terence Stamp como o avô de Yuri, Ivan, onde tivemos uma interpretação bem sóbria e austera, dando muita elegância ao personagem.

Participação magistral de Terence Stamp

Assim, “Colheita Amarga” é um filme importante, pois denuncia um genocídio. O único problema foi colocar toda uma carga de maldade muito excessiva nos soviéticos. Não que eles não tenham sido, mas tais exageros e violências gratuitas podem deslegitimar essa construção que se pretende fazer do Holomodor. Provavelmente, veio dessa preocupação a leve relativização da figura do invasor soviético e dos ideólogos do socialismo. De qualquer forma, é um filme atraente e até esteticamente interessante, por apresentar uma boa fotografia, sobretudo do casal protagonista e dos dias idílicos pré-stalinistas na vila ucraniana.

Batata Movies – Argentina. Viagem Multicultural.

Cartaz do Filme

O genial Carlos Saura volta a atacar! Esse brilhante cineasta, que faz musicais com um estilo todo próprio, cheio de muito amor e carinho, e que mostra a cultura viva pulsando em toda a sua existência, volta a Argentina (já havia rodado o espetacular “Tango”) para, agora, falar um pouco do folclore do país vizinho. Aqui no Brasil, a película ficou com o singelo título de “Argentina”, mas o título original em espanhol é “Zonda: Folclore Argentino”, uma referência aos muitos estilos musicais e de dança presentes no país, que vão desfilando ao longo do filme como um rosário multicolorido e multicultural. Aliás, essa é a grande característica: uma mistura extremamente rica de culturas.

Folclore argentino, a grande atração…

Presenciamos a mistura de elementos altamente europeus, indígenas, africanos, gaúchos e muito mais. Canções cujas letras nos falam de temas altamente poéticos como o amor e a natureza, mas que também não se esquecem de uma forte temática de cunho social. Canções que também revelam diferentes ritmos e peculiaridades de cada região em que são produzidas. É de se lamentar, somente, que tais ritmos, danças e canções não tenham sido explicadas mais a fundo. Há pouquíssimas legendas explicativas que definitivamente não saciam a nossa sede de informações. Mas quem já conhece o cinema de Saura de longa data sabe como ele trabalha: ao invés de um enciclopedismo e uma visão mais didática, os musicais se pautam muito mais na experiência sensorial do espectador, que entra em contato direto com o meio cultural em questão, despertando a sua curiosidade para pesquisar o tema mais a fundo posteriormente, tamanha é a sedução de sons e imagens que as películas de Saura despertam em nós.

Gatinhas lúdicas e eróticas…

Os números de dança eram simplesmente sensacionais. Havia desde uma espécie de “variação” do tango, só que dançado com muito mais contato corporal, fortes trocas de olhar dos parceiros e grande sensualidade, passando por “gatinhas” que conseguiam ser simultaneamente lúdicas e eróticas sem serem vulgares, chegando a números onde a cultura gaúcha dava a sua cara.

Essas cordas com bolas davam um nervoooso!!!

Havia dois dançarinos já na meia idade que deram um show, principalmente num número onde usavam cordas com bolas em suas pontas. Os caras giravam aquelas cordas numa velocidade que gerava, ao mesmo tempo, um profundo encantamento e uma forte aflição, pois se uma daquelas bolas acertasse a cabeça de um, poderia machucar feio. No filme, nada aconteceu, obviamente. Mas, e nos ensaios? Fica essa dúvida no ar.

Fotografia sempre deslumbrante…

O uso de instrumentos musicais também foi marcante. Desde violões até pianos, sendo usados de forma convencional ou pouco ortodoxa, chegando até a instrumentos mais ligados ao folclore local, como tambores de couro animal. Os números de instrumentos musicais foram outra atração à parte, que hipnotizavam e fascinavam.

Carlos Saura, o cara!!!

Assim, “Argentina” é mais uma das pequenas joias de Saura, meticulosamente dilapidada com uma riqueza de detalhes que beira o infinito. Se suas outras produções eram um pouco mais monotemáticas, onde se aborda uma dança ou um estilo musical em particular, dessa vez temos um verdadeiro caleidoscópio cultural onde o folclore argentino foi a grande atração. Tamanha variedade de manifestações artísticas é o testemunho da forte miscigenação cultural da América que aliou de forma criativa elementos locais com influências estrangeiras, sejam da Europa, sejam até da África (!). Isso tornou o musical uma espécie de documentário mais sensorial do que explicativo, que serve como um grande motivador de interesse pela cultura de nosso país vizinho e nos deixa com sede por conhecer um pouco mais de cada flor daquele caleidoscópio. É o cinema em pura expressão de arte, do jeito que Saura sempre soube fazer. E o tipo do filme que você deve ter em sua casa, da mesma forma que você tem um quadro ou um CD de música erudita, ou seja, temos aqui um produto cultural não descartável, ao contrário daquele blockbuster que você consome e depois joga fora. Aqui não. Saura é para ver, ter e guardar.

Batata Movies – Variações De Casanova. Ópera Filmada?

Cartaz do Filme

John Malcovich ataca novamente. Ele protagoniza “Variações de Casanova”, escrito e dirigido por Michael Sturminger. Como o próprio título sugere, a ideia aqui não é contar a vida do conhecido mulherengo Giacomo Casanova de uma forma única e engessada, mas sim com variações, embora elas se tornassem pouco visíveis ou demasiado sutis ao longo da película. Tomando como locação o Teatro São Carlos em Lisboa, o filme (e, também, a peça, assinada pelo próprio Sturminger) se desenvolve como um grande teatro e ópera filmadas, embora se faça toda uma brincadeira com a situação, onde, em alguns momentos, haja um toque mais hilário, como na ocasião em que Malcovich, ao início do filme, simula um piripaque, que faz parte da peça, e uma médica do público busca prontamente atender o ator, sendo obrigada a assistir a peça dos bastidores até o intervalo, para não impedir o andamento do espetáculo. Ainda, o filme usava outros espaços do teatro além do palco, onde podíamos ver Malcovich e Veronica Ferres contracenando juntos numa saleta ou em outras dependências. Mas os grandes momentos do filme, sem a menor sombra de dúvida, são as sequências de claro teatro filmado e, principalmente, de ópera filmada, realizadas por cantores líricos profissionais. Tudo isso deu um grande toque de muita plasticidade à materialidade visual do filme, mas também foi um deleite para os que amam ópera e música erudita.

Malcovich, fazendo Casanova e ele mesmo…

Do que se falou de Casanova? O personagem protagonista já estava numa idade relativamente avançada e pensava em escrever suas memórias. Vemos aqui um conquistador ainda na ativa, mas que se ressentia de alguns atos de seu passado, embora guardasse com carinho na lembrança muitos outros, como o flerte com um castrati, os antigos cantores líricos que castravam seus órgãos sexuais para afinarem suas vozes (no caso, o castrati aqui foi interpretado por uma atriz, o que deu ao personagem um visual de grande androginia). Dos atos mais sentidos, a paixão pela filha de uma antiga amante, amante essa interpretada pela magnífica Fanny Ardant, que apareceu por pouquíssimos minutos, deixando na alma do cinéfilo de carteirinha um gostinho de “quero mais”.

Amor com um castrati…

E os atores? Nem é preciso falar muito de Malcovich. Ele esteve genial como sempre, podendo ser dramático, engraçado, sedutor, atormentado, enfurecido quando ele quisesse. Sem falar que ele fazia o próprio Malcovich no filme, seja falando com a amiga que odiava ópera no intervalo da peça (como se os atores circulassem livremente pelo público em intervalos de peças; viva a liberdade poética do cinema!), seja falando com a médica lá do início da película, que era uma fã inveterada do ator e fazia perguntas constrangedoras que Malcovich, sabiamente, respondia com falas da peça (“Como um cavalheiro, responderia à sua pergunta?”).

Elegantemente saindo da saia justa de uma fã…

Veronica Ferres, por sua vez, mostrou-se uma versátil companheira de palco de Malcovich, trabalhando com o ator diálogos que exploravam os traumas de uma relação amorosa descartável bem ao estilo do amante, embora fosse difícil acompanhar os diálogos em virtude do belíssimo vestido vermelho da atriz, com um decote para lá de voluptuoso e generoso, um verdadeiro deleite para os olhos.

Uma bela química…

Assim, se “Variações de Casanova” caíram mais no lugar comum da ópera e do teatro, ainda assim houve variações, sobretudo na mesclagem das obras que exaltavam o amante com um “suposto” mundo real, onde o próprio Malcovich era personagem. O filme conta ainda com um vistoso figurino e números musicais de muito bom gosto que, entretanto, pode entediar os não iniciados no mundo da ópera, mas é um prato cheio para os amantes dessa nobre arte. É o tipo do filme que você não vê por aí todo o dia e vale a pena a experiência.

Batata Movies – O Processo. Radiografia De Um Impeachment.

Cartaz do Filme

Estreou nos cinemas o documentário “O Processo”, de Maria Augusta Ramos. Esse é um filme muito inserido em questões contemporâneas e que trata de um tema extremamente espinhoso: o processo de impeachment de Dilma Rousseff, ocorrido há pouco menos de dois anos. Poucas vezes um filme chegou tão próximo a questões de nosso cotidiano no tempo (as últimas informações presentes no filme se remetem a abril de 2018), dando uma sensação de que vemos algo que “saiu do forno” muito recentemente.

Documentário é focado na equipe do então Governo Dilma…

E como foi que a diretora tratou esse tema muito polêmico, capaz de despertar as reações mais inflamadas? Ela simplesmente ligou a câmara e deixou as imagens falarem por si mesmas. Nenhuma interpretação delas, nenhuma leitura. Ela somente se preocupou em registrar o que se passava no Congresso Nacional naqueles meses turbulentos, deixando para o público tirar suas próprias conclusões do que assistia. Ao não descrever o que se passava nem dar uma opinião enquanto realizadora do documentário, Ramos parece ter buscado a intenção da isenção.

Entretanto, todos nós sabemos que ninguém é filho de chocadeira e uma isenção total é algo praticamente impossível. Todos têm um posicionamento, ainda mais nos dias turbulentos pelos quais nós temos passado, e a diretora optou por focar o documentário mais na defesa preparada pela então base governista, mostrando, principalmente, as ações dos senadores Gleisi Hoffmann, Lindbergh Farias e o advogado José Eduardo Cardozo. E, nesse momento, a diretora do documentário se posiciona, assim como isso já ocorreu em outros filmes que têm tratado os dias de instabilidade política do Brasil recente.  Outro indício do posicionamento da diretora pode estar na montagem, onde algumas discussões acaloradas no Congresso entre a situação e a oposição eram suprimidas antes de seu final, e ficava na gente a sensação de curiosidade de como aquilo teria acabado.

Dilma depõe no senado…

Agora, uma coisa é certa: o filme é muito esclarecedor em vários aspectos, sobretudo dos lados em que cada conhecido político está, lados esses muito bem definidos hoje em dia. As imagens do plenário da Câmara dos Deputados e do Senado não deixam mentir.

Uma coisa assusta: o tom profético do discurso de Roberto Requião no dia em que Rousseff foi definitivamente afastada. Muitas das coisas que ele falou naquele dia (e coisas muito ruins) acontecem agora e pululam em nossos noticiários.

Assim, “O Processo” é um documentário polêmico sobre um assunto muito complicado que foi o impeachment da então presidente Dilma Rousseff. Um documentário que tem a coragem de se posicionar politicamente, mas ainda assim tenta mostrar um registro relativamente isento, sem interpretar ou descrever imagens. Foi ligar a câmara e captar o que acontecia, para o público tirar suas próprias conclusões. Um programa imperdível.

Batata Movies – Roda Gigante. Mais Um Woody Allen.

Cartaz do Filme

Woody Allen volta à cena com mais um filme, desta vez com o bom “Roda Gigante”. Uma película mais voltada para a tragédia do que para a comédia. Um filme, acima de tudo, inusitado.

Ginny, uma mulher infeliz…

Vemos aqui a história de Ginny (interpretada por Kate Winslet), uma dona de casa que trabalha de garçonete num bar e que vive dentro de um parque de diversões, em frente a roda gigante e ao lado de uma irritante barraca de tiro ao alvo, numa decadente Coney Island da década de 50. Um belo dia, uma moça chega ao parque, procurando o marido de Ginny, Humpty (interpretado por Jim Belushi). Trata-se de Carolina (interpretada por Juno Temple), filha de Humpty, que não falava com o pai há cinco anos mas que agora o procura, pois ela se casou com um mafioso e foi obrigada pela polícia a depor contra o marido, sob a pena de ficar na cadeia. Carolina agora é procurada pelos mafiosos e vai se esconder na casa do pai, para o desespero de Ginny, que é infeliz no casamento e ainda tem um filho piromaníaco, fruto de um relacionamento anterior. Como se não bastassem todos esses problemas, Ginny vai se envolver com um salva-vidas, Mickey (interpretado por Justin Timberlake), buscando um certo alívio em sua vida altamente estressante. Até o dia em que Mickey conhece Carolina. Paremos com os spoilers por aqui.

Dificuldades de relacionamento com o marido…

Os últimos filmes de Allen têm sido ou de comédias mornas, de um fim com acentuado anticlímax (caso de “Cafe Society”, com Jesse Eisenberg), ou então de filmes com uma pegada maior de suspense (caso de “O Homem Irracional”, com Joaquin Phoenix), sendo estes últimos de suspense mais instigantes.

Ginny tenta aliviar suas mágoas ao lado de Mickey

Parece que “Roda Gigante” atingiu um meio termo entre esses dois pólos, pois o anticlímax está lá no desfecho (que, obviamente, não direi aqui), mas há, também, uma leve pegada de suspense no caso dos mafiosos. Agora, o grande ingrediente do filme é um drama psicológico profundo, com um leve, e quase imperceptível, humor negro (o filme, definitivamente, não é bem exatamente para rir, embora tenha momentos engraçados), que conta uma tragédia sobre pessoas convencionais de um nível social baixo, cuja desilusão no relacionamento é o mote principal. Há um leve arremedo intelectual no passado de Ginny (que queria ser atriz e tinha alguma experiência em teatro) e Mickey (um cara que fazia pós-graduação e se encantava com literatura), mas isso ficou mais como um elemento para cimentar o relacionamento entre a atriz frustrada e o salva-vidas cheio de frescor (no bom sentido, é claro) e esperançoso no futuro de sua vida.

Carolina, perseguida pela máfia…

O filme é muito focado nas angústias de Ginny, uma personagem com a qual rapidamente nos identificamos, muito em virtude do sofrimento explícito de suas angústias (quem não as tem?). A interpretação de uma Kate Winslet envelhecida, mas não menos linda e sensual, com seu uniforme apertado de garçonete dos anos 50, foi simplesmente magistral e, mesmo que não fosse um filme de Woody Allen, o preço do ingresso já valia a pena pela presença da atriz. Outra grata surpresa foi a interpretação (e a volta) de Jim Belushi. Lembrado mais por suas películas de humor regadas à ação (ou vice-versa), Belushi surpreendeu como o marido vaca-brava e rude, mas, ao mesmo tempo, totalmente dependente emocionalmente, o que o fazia ir da bravata à submissão em questão de segundos. Tal complexidade fazia a gente também se afeiçoar com ele.

O diretor Woody Allen e seu elenco

Asssim, “Roda Gigante” pode ser considerado um bom filme de Woody Allen, depois de uma certa decepção com “Cafe Society”. O diretor, conhecido pelas películas de humor, investiu mais no suspense nos últimos anos, e conseguiu misturar os dois gêneros nessa película relativamente bem. Vale a pena pegar em DVD se você não viu no cinema. E, afinal de contas, é um filme do Woody Allen, que, por seu nome, acaba sendo uma espécie de programa obrigatório para o cinéfilo que se preza.

Batata Movies – Deadpool 2. Reinventando-se.

Um dos muitos cartazes do filme.

E estreou o novo “Deadpool”. Confesso que fiquei um pouco temeroso com essa continuação, em primeiro lugar pela conhecida “Maldição da Sequência”, onde, na grande maioria das vezes, a sequência de um filme é pior do que o primeiro E, principalmente, pelo fato de que, desta vez, o super-herói não era uma mais uma novidade para o grande público. A forma como Deadpool foi apresentado e o forte tom de humor negro do primeiro filme foram coisas surpreendentes a meu ver. Como seria agora que o super-herói já era conhecido? Como seria a pegada do humor, que geralmente é algo muito difícil de se fazer?

Um casal apaixonado (filme família)

Bom, para falarmos desse filme, os spoilers infelizmente serão necessãrios. Nosso herói (interpretado por Ryan Reynolds) está muito deprimido, pois perdeu a namorada depois de um ataque de gangsters à casa em que moravam. Depois de tentar o suicídio, sem sucesso, já que ele se regenera constantemente, é acolhido na mansão dos X-Men por Colossus. Para espairecer, ele se torna uma espécie de “X-Men estagiário” e, em sua primeira missão, ele toma contato com o jovem Russell (interpretado por Julian Dennison), um garoto gordinho cheio de ódio no coração que tem o poder de lançar chamas com as mãos e sair explodindo tudo por aí. Por uma, digamos, falta de habilidade de Deadpool de lidar com a situação, ele e Russell vão parar na cadeia.

Cable, um excelente personagem com o toque de Josh Brolin…

Lá, eles serão perseguidos por Cable (interpretado por Josh Brolin), um homem que veio do futuro para matar Russell sob o argumento de que ele se tornará uma pessoa muito perigosa (a esposa e a filha de Cable foram incineradas por Russell em dias ainda vindouros). Como Deadpool não sabe de nada, ele busca salvar o garoto e o pau quebra entre Deadpool e Cable. Mas o filme ainda vai ter algumas reviravoltas que não vou falar aqui.
Bom, à respeito de meu temor no primeiro parágrafo, quando disse que não me sentia seguro se a sequência poderia ser considerada boa por não se tratar mais de uma novidade, o início do filme me trouxe um pouco de receio. Parecia que ia ser mais sem graça mesmo.

Russell, muito ódio no coração…

Mas, paulatinamente, o humor deixou de ser sem graça e passou a funcionar muito bem, brincando com o poiticamente incorreto e sendo humor bem negro em alguns momentos, como a sequência da descida de para-quedas da X-Force. Meio que se ri de nervoso de toda aquela situação, tamanho o grau de inusitado ali. Outro ponto bizarro aqui, e que parece ter sido mais explorado nesse filme, foi o poder de regeneração de Deadpool, que possibilitou que nosso personagem fosse espezinhado ao máximo, sendo seu corpo quebrado, torcido, partido ao meio, e sempre se regenerando (parecia até personagem de desenho animado que é massacrado continuamente e volta novinho em folha).

Cala a boca, Deadpool!!!

Outra situação em que se ria de nervoso. Ou seja, o humor negro do filme é altamente agressivo e ácido, da mesma forma que ocorreu na primeira película, se reinventando e não deixando a peteca cair.

Dominó, uma sortuda de respeito…

Não faltaram piadas de bom gosto e de gosto duvidoso com os X-Men, assim como foi feita uma troça com a classificação indicativa do filme passar de 18 para 16 anos, essa sim uma excelente jogada de marketing, já que isso foi ventilado pela mídia antes da estreia. Além disso, o filme sempre teve boas e instigantes cenas de ação que, em Deadpool, definitivamente não são a atração principal, dado o grande grau de inusitado do humor do filme.

X-Force!!!!

Uma boa surpresa foi Josh Brolin no papel de Cable. Sua atuação foi muito boa, confirmando todo o seu talento exibido interpretando Thanos em “Guerra Infinita”. Mesmo sendo considerado um personagem sisudo e sério, as boas falas e a interpretação de Brolin encaixaram bem Cable na história (sem qualquer trocadilho infame), gerando uma ótima química com Deadpool, que o sacaneava constantemente, além de haver situações para lá de constrangedoras, onde Cable reagia com um “Jesus”, tipo “não acredito no que vejo ou no que ouço”, o que foi muito engraçado.

Posições inusitadas (tem hora que parece pornochanchada…)

Assim “Deadpool 2” conseguiu manter o nível do primeiro filme, mesmo que não tenha sido mais uma novidade. A pegada de humor negro se renovou, com uma dose de surreal e inusitado, e o universo desse herói ganhou novos personagens que podem dar muito caldo em eventuais sequências, sobretudo Cable, com a boa interpretação de Josh Brolin. Nosso herói de duplo sentido (no bom sentido) vale a pena a sua visita ao cinema.

Batata Movies – O Sacrifício Do Cervo Sagrado. Crendice Superando A Razão.

Cartaz do Filme

Você conhece aquelas pessoas que costumam “rogar praga” nos outros? Volta e meia, a gente escuta um ou outro caso de um espírito de porco assim. Pois é, esse é justamente o tema do filme “O Sacrifício do Cervo Sagrado”, dirigido por Yorgos Lanthimos, onde o místico atropela a vida de pessoas que sempre se pautaram pelo racional. Devo confessar que, para me fazer mais claro aqui, vou precisar lançar mão de alguns spoilers.

Steven, um médico racional

Vemos aqui a história de Steven Murphy (interpretado por Colin Farrell), um renomado cardiologista casado com uma médica também bem sucedida, Anna Murphy (interpretada por Nicole Kidman). Eles vivem num mundo rico e perfeitamente racional, o que faz com que o casal trate seus filhos de forma muito fria e onde as regras bem cumpridas são o mote principal. Mas um pequeno detalhe irá causar muita turbulência nesse mundo aparentemente perfeito. Steven volta e meia se encontra com Martin (interpretado por Barry Keoghan), um adolescente com um comportamento no mínimo estranho, meio letárgico, meio receoso com o que Steven pensa sobre ele. Aos poucos, Martin vai entrando na família de Steven. Mas o que parecia ser um adolescente inseguro vai se revelar uma verdadeira ameaça quando Martin “roga” uma espécie de praga para a família de Steven: se ele não escolher um membro de sua família para matar, toda a família morrerá, com seus membros ficando inicialmente doentes, passando por outros problemas de saúde, até chegarem à morte.

Anna, uma médica racional

Martin rogou essa praga em Steven, pois o pai do garoto foi operado pelo médico e acabou morrendo. Havia uma suspeita não confirmada na película, de que Steven havia operado o pai de Martin depois de tomar umas bebidinhas e teria feito a cirurgia um pouco bêbado, o que teria matado o paciente. Para um homem de ciência como Steven, tal ameaça de Martin poderia até parecer uma bobagem, mas a coisa começa a ficar muito esquisita depois que seu filho caçula adoece e fica sem sentir suas pernas. Daí para a frente, o filme se torna uma grande jornada ao inusitado.

Martin, o rogador de pragas…

Esse, definitivamente, é um filme que trabalha dois pólos de forma bem dicotômica e antagônica: a superstição e a razão, com a primeira subjugando totalmente a segunda. A família inteiramente racional, sem qualquer pingo de emoção, que se transforma até em um bastião de arrogância e frieza robótica, é atingida em cheio por uma praga supersticiosa rogada de forma totalmente irracional. A situação inédita à qual a família é submetida faz com que ela não tenha qualquer ideia de como vai lidar com a adversidade, levando muitas vezes a situações em que seus membros saem completamente do controle. É um filme onde o irracionalismo prevalece em grande parte da exibição, quase sendo um personagem.

Martin se envolve com a filha da família…

E os atores, como foram? Colin Farrell foi muito bem, todo artificial como seu personagem exigia. Entretanto, as explosões emocionais, de tão intensas, destoavam um pouco do resto de sua interpretação, ficando um tanto caricatas. Kidman, por sua vez, conseguiu jogar um pouco melhor com essa variação frieza/emoção, pois sua personagem parecia ter mais interesse em resolver o problema e encarava a situação de uma forma, digamos, mais prática. O jovem ator Barry Keoghan foi um tanto plano, onde as nuances de sua atuação pareciam ser mais auxiliadas pelas falas. Só foi de se lamentar a curta e fugaz participação de Alicia Silverstone no papel da mãe de Martin. Com pouquíssimo tempo de tela, a impressão que se deu é de que a moça está no ocaso de sua carreira. Triste fim para quem já foi um dia a Batgirl.

O conflito entre o racional e o irracional…

Assim, “O Sacrifício do Cervo Sagrado” é um daqueles filmes que chamam a atenção pela sua dose de inusitado e pela sua clara afronta a cultura racional, que é subjugada por uma superstição. Para dar mais essência à mensagem do filme, o elenco de medalhões ajudou muito, sendo este também um filme de atores. É uma curiosa experiência assistir a esse filme, que aborda uma temática que não se vê todo dia por aí, sendo que essa película vale a pena uma visitinha.

Batata Movies – Coragem! As Muitas Vidas De Dom Paulo Evaristo Arns. Vivendo Como Pregava.

Cartaz do Filme

Quando falamos do posicionamento da Igreja Católica no que se refere aos dias da ditadura militar, logo dois nomes nos vêm à cabeça: Dom Paulo Evaristo Arns, Cardeal Arcebispo de São Paulo, e Dom Eugênio Sales, Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro. Sempre ficou um tanto pontuado que os dois tinham posições muito definidas. O primeiro assumiu uma postura mais combativa, lutando pelos pobres e contra a opressão, e o segundo mais antenado com o sistema vigente da época. Há alguns anos, essas duas posições foram revistas e relativizadas. Há quem diga que Dom Paulo tenha participado de algumas reuniões com os militares para conversar sobre os atos do governo golpista no que se referia aos presos políticos (como eles seriam tratados, por exemplo) e outros dizem que Dom Eugênio escondeu em casa pessoas perseguidas pela repressão politica. Polêmicas à parte, foi lançado o bom documentário “Coragem! As Muitas Vidas de Dom Paulo Evaristo Arns”, de Ricardo Carvalho, que tem o objetivo de traçar a trajetória do famoso Cardeal Arcebispo e seus inúmeros atores sociais naqueles dias tão turbulentos da ditadura militar.

Um cardeal de coragem…

O filme é uma verdadeira homenagem ao Cardeal Arcebispo e à sua luta pelos menos favorecidos, não buscando cair em qualquer tipo de polêmica. É um documentário estruturado de forma bem simples e convencional, narrado por Paulo Betti, e formado por entrevistas de pessoas da família, amigos, conhecidos, além de muitas fotografias, entrevistas e depoimentos do próprio Dom Paulo, onde podíamos sentir todo o seu espírito combativo e energia, manifestos sempre na palavra “coragem”, que ele entoava a todos que encontrava.

Sempre de bom humor, mas combativo nas horas certas…

Sem a menor sombra de dúvida, os momentos mais dramáticos do filme eram aqueles em que Dom Paulo combateu a ditadura abertamente, visitando presos que eram torturados, enfrentando cara a cara altas autoridades (o Cardeal chegou a promover um encontro entre Golbery do Couto e Silva, general estrategista do governo no mandato de Médici, e parentes de desaparecidos da ditadura militar, além de um encontro tenso com o próprio Médici, que lhe rendeu o fechamento da rádio onde Dom Paulo mantinha um programa diário) e participando dos mais variados movimentos sociais que sempre eram violentamente reprimidos pela polícia (deu-se a entender no filme que, não fosse a presença do Cardeal, a polícia poderia ter promovido verdadeiros massacres contra esses movimentos sociais).

O fatídico encontro com Médici…

Ao divulgar e distribuir uma cartilha sobre os direitos humanos analisados à luz do cristianismo, Dom Paulo foi acusado pelos mais conservadores de estar defendendo bandidos (já vi esse filme mais recentemente). Mas Dom Paulo rebatia. No programa Roda Viva, ele disse que Jesus foi acusado de estar com meretrizes, bandidos e todo o tipo de ralé da sociedade. Pelo menos, Dom Paulo foi acusado de estar apenas com bandidos. E lembrou que aqueles que querem punir bandidos são os mesmos que não dão emprego para a pessoa ter uma vida minimamente digna e não cair na bandidagem. E que isso está sendo visto.

Apoiando causas sociais…

Uma curiosidade foi a que o Cardeal tinha um relacionamento melhor com os papas do que com a Cúria Romana, tratada no documentário como realizadora de práticas que a deixam vista como um verdadeiro poder paralelo e que age de forma extremamente conservadora. Num dos depoimentos de Dom Paulo, ele deixa bem clara essa posição meio que litigiosa contra a Cúria Romana.

Um dos fatores que deixaram o documentário bem rico foi o fato de que o Cardeal era também jornalista e ele usou a mídia como ninguém para divulgar suas ideias e tocar os seus projetos, chegando ao ponto (inusitado, visto por alguns) de dar entrevista em revista masculina e até participação especial como ator numa novela da extinta TV Tupi.

Indo onde estavam os menos favorecidos…

Assim, “Coragem! As Muitas Vidas de Dom Paulo Evaristo Arns” é mais um daqueles documentários obrigatórios, pois mostra a vida de um religioso realmente de muita coragem, que enfrentou forças opressoras que voltam a nos assombrar nos dias de hoje. O documentário nos ajuda a contextualizar um pouco que forças são essas. Programa imperdível.