Batata Movies – Zama. Um Homem De Seu Tempo.

Cartaz do Filme

Uma co-produção Argentina/Brasil/Espanha passou em nossas telonas. “Zama”, de Lucrecia Martel, é uma história fictícia sobre uma realidade bem antiga: a da América Latina em dias coloniais. Um filme que é permeado de uma certa fidedignidade histórica, embora ele incomode um pouco em alguns momentos.

Um elegante funcionário público…

Vemos aqui a trajetória de Don Diego de Zama (interpretado por Daniel Giménez Cacho), um oficial da Coroa Espanhola dotado de certo prestígio, mas lotado num rincão de fim de mundo, ali para os lados da Argentina e Uruguai. O homem busca uma transferência para um grande centro, mas esbarra em alguns obstáculos, como um filho ilegítimo com uma índia e o fato de ter, entre seus protegidos, um escritor de um livro considerado proibido. Desesperado, Zama busca uma atitude drástica: ele sai em caça a um bandido local, Vicuña Porto (interpretado pelo nosso Matheus Nachtergaele), com o objetivo de buscar um prestígio derradeiro. Mas nem sempre o que se planeja é o que acontece por fim.

Um cruel bandido…

Esse filme tem dois elementos que chamam a atenção. Em primeiro lugar, é uma película que aponta para o cotidiano colonial, onde costumes europeus se mesclam com a cultura local. Vemos toda a coisa de se ser um funcionário público colonial dentro de uma retórica de Antigo Regime, onde havia uma concentração excessiva de poder na figura da autoridade pública. A prática do clientelismo (troca de favores) também era muito presente, onde Zama, na esperança de obter o tão almejado cargo num grande centro, fazia tudo o que o governador exigia. Mas Zama também estava inserido numa realidade colonial local que o tornava vulnerável, sobretudo no já citado relacionamento com uma índia, cujo filho ilegítimo era um estorvo para ele. Sua atitude voyeur de espreitar mulheres nuas no banho de rio era também uma espécie de fraqueza que a realidade local o submetia, embora sua reação fosse exemplar numa retórica de Antigo Regime. Ao fugir do flagrante de sua espreita ao banho feminino, Zama é perseguido por uma das mulheres nuas que quer lhe tirar satisfações. Nesse momento, o funcionário público afirma a sua autoridade e dá um tapa no rosto da mulher, lembrando muito bem quem é que manda ali.

Um encontro cheio de surpresas…

O segundo elemento da película que salta aos olhos é a impressão de alguns estereótipos que temos sobre aqueles tempos pretéritos. Se o filme traz uma certa fidedignidade histórica ao analisar a figura de Zama como um funcionário público inserido na lógica de Antigo Regime de seu tempo, o filme também parece carregar nas tintas com relação à rótulos. No nosso senso comum, os dias coloniais parecem ser “piores” que os nossos. E o filme reza um pouco por essa cartilha. Tudo parece decadente, miserável. Há, por exemplo, um prostíbulo com negros e animais usados para práticas sexuais, como se tudo fosse altamente normal e corriqueiro. Confesso que nunca tive em mãos um estudo histórico sobre tal tema, mas o filme (que é baseado numa história de ficção, devemos nos lembrar) parece forçar excessivamente essa visão decadente e depravada. Outra coisa que incomoda um pouco é a forte decadência de Zama naquela sociedade, cuja mobilidade social era algo mais raro de ocorrer do que hoje. Sua queda foi muito acentuada e violenta, sendo esse mais um caso onde parece se carregar nas tintas.

Belíssima fotografia…

E os atores? Daniel Giménez Cacho deu muita elegância ao personagem de Zama. Se o filme pode ter exagerado em alguns momentos, a atuação de Cacho foi bem contida e calculada, o que deu elegância e, por que não usando um trocadilho, “nobreza” ao personagem. Já Nachtergaele arrasou como sempre. Aparecendo mais na parte final da película, a caçada a Vicuña Porto, parte essa a mais interessante, nosso ator conseguiu transpirar uma crueldade atroz, confirmando a tese de que, dentro de uma visão maniqueísta, se havia algum “vilão” naquela região, esses eram os portugueses e brasileiros, que queriam de alguma forma se intrometer no fluxo de prata peruana para a Europa. Sim, meus amigos, os argentinos estão cobertos de razão à nosso respeito nesse ponto.

Lucrecia Martel na direção…

Assim, “Zama” é um filme que consegue ser contraditório. Se por um lado traz uma certa fidedignidade histórica, por outro parece também carregar nas tintas sobre o passado colonial latino-americano. Somente essa curiosidade já merece a atenção do espectador. No mais, temos a oportunidade de presenciarmos dois talentos na atuação: Daniel Giménez Cacho e Matheus Nachtergaele. Vale a pena dar uma conferida.

Batata Movies – Tudo Que Quero. Trekkers Entenderão.

Cartaz do Filme. Vida longa e próspera!!!

Um filme muito singelo e fofo em nossas telonas. “Tudo Que Quero” é, antes de tudo, uma película muito humana, muito tocante. Em segundo lugar, é um prato cheio para qualquer trekker, apinhado de referências que somente os fãs de “Jornada nas Estrelas” vão pescar logo de cara. Em terceiro lugar, temos atrizes do quilate de Dakota Fanning (sim, ela cresceu desde “Guerra dos Mundos”!!!), Toni Collette (a inesquecível e sempre amada Muriel) e Alice Eve (a Dra. Carol Marcus de… “Jornada nas Estrelas, Além da Escuridão”!!!). Com esse curto preâmbulo, já dá para perceber que o filme promete.

Wendy. Vivendo em seu mundinho trekker…

Mas, no que consiste a história da película? Temos aqui a trajetória de Wendy (interpretada por Fanning), uma moça na casa de seus 21 anos e que sofre de autismo. Ela está internada numa clínica sob tratamento ministrado por Scottie (interpretada por Collette). Wendy obviamente tem dificuldades de relacionamento e se fecha no seu mundinho, onde “Jornada nas Estrelas” tem uma parcela muito grande de sua atenção. Ao descobrir que haverá um concurso de roteiros de “Jornada nas Estrelas” para os fãs, a moça decide escrever sua história. Mas um imprevisto a impedirá de colocar o roteiro no correio para participar do concurso. E aí, com a cara, a coragem e seu cachorrinho de estimação, Wendy parte sozinha para Los Angeles com o objetivo de entregar o roteiro pessoalmente para a direção do concurso. É desnecessário dizer que essa viagem será feita com muitos percalços e a mocinha terá que se descobrir para superar todas as dificuldades.

Explosões de paroxismo…

Esse é um filme em que Fanning rouba a cena quase que completamente. A jovem atriz convence muito em sua interpretação de autista, robótica e repetitiva em alguns momentos, e com explosões paroxistas de desespero em outros. Sua beleza de mulher feita não apagou sua beleza infantil angelical, constituindo uma boa mistura estética. Mas o seu talento não se ancora em sua beleza, sendo espontâneo acima de tudo, fazendo com que a personagem conquiste o espectador desde o primeiro momento. A gente compra a ideia da menina, a gente torce por ela e sofre com ela. É como se a atuação de Fanning nos impregnasse totalmente e nos prendesse ao mundinho de sua personagem. O misto de obstinação e de fragilidade de Wendy nos apaixona fortemente.

Sofrimento da irmã…

Quanto às atuações de Collette e Eve, ambas foram bem. A última convenceu com o sofrimento de longa data provocado pela doença da irmã caçula. Já a primeira teve o paradoxo de ser uma terapeuta compreensiva e uma mãe relativamente opressora.

Em busca de seu sonho…

As referências ao Universo Trekker são uma atração à parte, que divertem demais os iniciados e, infelizmente, a ameaça de spoilers não me permite dizer. Digo, inclusive, que o grande momento do filme é uma referência ao Universo Trekker, que provoca uma situação muito terna e fofa, de fazer qualquer trekker ir às lágrimas (confesso que devo estar carregando nas tintas, pois me identifiquei demais com a personagem). De qualquer forma, o roteiro é quase que um personagem à parte na película e que ajuda muito a se entender a psique de Wendy e o seu relacionamento com sua irmã, Audrey (interpretada por Eve). Só para dar uma palhinha bem rápida, a história se passa num planeta árido e desértico, com o Capitão Kirk à beira da morte e Spock, seu primeiro oficial e amigo, tentando salvá-lo. Esse enredo inicial tem muita coisa a ver com a vida e os sentimentos de nossa protagonista e fica bem claro como a confecção do roteiro funcionou como uma espécie de terapia para a moça.

Uma terapeuta meio bolada…

Dessa forma, “Tudo Que Quero” é um filme, sobretudo, para trekkers, mas não apenas para trekkers. Se os fãs de “Jornada nas Estrelas” vão se deliciar com as referências, esse também é um apaixonante filme de atrizes, com um destaque todo especial para Dakota Fanning, que nos arrebata do primeiro ao último minuto. Programa imperdível.

 

Batata Movies – Vingadores, Guerra Infinita. Thanos Malthusiano.

Cartaz do Filme

E estreou o tão esperado “Vingadores, Guerra Infinita”, com novamente a Marvel produzindo um grande filme, embora eu confesse que o filme me incomodou, talvez pela pegada altamente sombria da película. Antes de mais nada, vou logo dizendo que esse texto está repleto de spoilers. Não é a toa que estou o publicando com pouco mais de uma semana de exibição. De qualquer forma, se você ainda não viu o filme, é melhor voltar aqui quando já tiver assistido à película.

Thanos, um vilão muito poderoso…

Vamos lá. Bom, a sinopse todo mundo já conhece. O vilão Thanos precisa das seis joias do infinito para se tornar a criatura mais poderosa de todo o Universo e fazer todos de gato e sapato com um mero estalar de dedos. É claro que, para enfrentar um vilão extremamente poderoso, tivemos a presença de praticamente todos os heróis da Marvel, com a (sentida) ausência do Homem Formiga. Infelizmente, todos os heróis não lutaram exatamente juntos, numa batalha totalmente épica, mas sim em núcleos isolados, embora eles não tenham necessariamente deixados de ser épicos. Uma coisa deve ser dita aqui: houve várias situações paralelas, em locais (e planetas) diferentes, o que exigiu uma certa atenção do espectador. Mas como o filme teve a grande virtude (como todos os filmes da Marvel) de prender constantemente a atenção do espectador, a coisa se fez de forma relativamente tranquila. Ainda, o filme, apesar do clima pesado, manteve a pegada de humor, sobretudo nas situações em que personagens de dois núcleos diferentes interagiam, como quando vimos Groot e o Capitão América se conhecendo. O não abandono do humor nessa situação extrema não comprometeu o filme, ao contrário do que poderia parecer. Nos poucos momentos em que o humor desandou um pouco foi nas participações dos personagens dos Guardiões da Galáxia, onde tivemos diálogos bem bobinhos, a ponto de deixarem um Stark e um Strange da vida completamente estupefatos, mas que também contaminava as falas engraçadas desses personagens. Tudo bem, a pegada dos Guardiões da Galáxia é outra, mais bobinha e engraçadinha mesmo.

Dr. Estranho e Homem de Ferro. Choque de egos…

Uma coisa que chamou demais a atenção foi a motivação de Thanos em acumular tanto poder com as joias do infinito. Sua argumentação se baseava na premissa de que o Universo é finito e seus recursos também. Logo, o aumento das populações dos planetas provocaria um colapso que somente poderia ser solucionado com a execução de metade dessas populações. E ele se vangloriava de levar essa tarefa a cabo, uma tarefa que ninguém mais tinha coragem de fazer. Impossível não fazer uma comparação direta com Thomas Malthus, um economista britânico que viveu entre os séculos XVIII e XIX, e sua famosa teoria que dizia que a população pobre crescia em progressão geométrica e a produção de alimentos crescia em progressão aritmética. Logo, a única forma de resolver esse problema de escassez seria através de um controle populacional onde, obviamente, os pobres pagariam o pato.

Malthus, o Thanos real…

O governo não deveria dar qualquer assistência aos pobres, pois assim eles morrem e a proporção entre pessoas e comida se equilibra novamente (pode-se dizer que, quem critica hoje programas como o Bolsa Família ou reclama que o dinheiro dos impostos arrecadados são para sustentar “vagabundos” tem uma visão considerada neomalthusiana). Só que Thanos, a uma certa passagem do filme, falava que, ao sacrificar as metades das populações dos planetas, faria isso sem privilegiar ricos ou pobres. Seria Malthus ainda pior do que Thanos? Eu não queria estar por perto se Malthus tivesse as seis joias do infinito em sua manopla.

Thor e os Guardiões da Galáxia…

Falando ainda em Thanos, a atuação de Josh Brolin, mesmo com toda aquela capa meio virtual, foi de uma força tremenda, não somente pelas porradas que ele dava, mas também por acreditar piamente que sua visão genocida era totalmente necessária para salvar o Universo. E, ainda, ele, volta e meia apresentava uma visão respeitosa para com seus oponentes, sobretudo Tony Stark e Wanda, sobretudo no episódio da morte de Visão (chamou muito a atenção o afago que ele faz na cabeça de Wanda antes de conquistar a última joia). Agora, foi algo arrebatador a sua relação com Gamora, num misto de amor e ódio, que culminou com o sofrimento (sincero) de sacrificar sua filha para obter a joia da alma. Essa humanização de um vilão ultrapoderoso e imbatível foi um dos grandes momentos do filme.

Homem Aranha e sua roupa iradíssima…

Na parte dos heróis, algumas coisas também chamaram a atenção. O traje do Homem Aranha, por exemplo, estava com aquelas pernas mecânicas implantadas por Stark. O diálogo de Thor e Rogers, falando de barbas e penteados, foi engraçado. Confesso que gostaria de uma participação maior de Steve Rogers no filme. De qualquer forma, foi bom vê-lo em Wakanda (na minha modesta opinião, o que a Marvel tem de melhor nos filmes solo são os três filmes do Capitão América e o Pantera Negra). Agora, uma coisa ficou muito clara aqui. Cada filme de herói da Marvel, mesmo que tenha pontos em comum com os outros, tem uma pegada própria. Isso ficou muito claro quando os personagens interagiam ou havia mudanças de um núcleo para outro, como se a gente tivesse uma espécie de mosaico de tudo o que vimos da Marvel nos últimos anos. Nesse ponto, o filme ficou bem construído, pois essas diferenças de cada personagem poderiam não ter dado muito certo se não fossem bem trabalhadas.

Pantera Negra e Wakanda como campo de batalha…

E o desfecho? Bom, pode-se dizer que a opção pelo vilão ter vencido a guerra e os mocinhos terem perdido foi muito boa, pois se chutou o “happy end” para escanteio. De fato, essa solução engrandece o filme, mas aqui surgiu um pequeno problema. Se tem reclamado por aí que as mortes têm sido desvalorizadas, pois hoje se matam heróis e eles são ressuscitados num piscar de olhos. E, agora, mais do que nunca, se lançará mão desse expediente, pois morreram muitos heróis. E a Marvel não quer perder dinheiro com a franquia, obviamente. Mas ficou uma pulga atrás da orelha: será que todos voltarão à vida, ou alguns realmente foram de forma definitiva? Essa dúvida (e angústia) somente aumentava à medida que víamos os heróis virarem cinzas. Devo confessar que, quando disse que o filme me incomodou, o foi principalmente pela parte dolorosa de ver muitos heróis morrendo (eu sou adepto daquela opinião, meio antiquada para os padrões de hoje, eu sei, de que o herói não deve morrer). Isso deu uma agonia e uma cara de tacho ao fim da exibição, com um Thanos sorridente vendo o pôr-do-sol depois de ter vencido sua guerra.

Steve Rogers, com barba…

Ficou aquela sensação de “já acabou?”. E, dessa vez, até os créditos finais nos meteram uma rasteira, sem cenas por toda a sua extensão, somente com uma aparição de Nick Fury (que também desmanchou) mandando uma mensagem para a… Capitã Marvel (!). Confesso que não conhecia essa super-heroína, mas o que se tem falado por aí é que ela tem muito poder. Outro detalhe interessante está nos heróis que sobreviveram. Bruce Banner, que não se transformou em Hulk por todo o filme, deve voltar com força total como o monstro verde no próximo filme (pelo menos assim espero!), assim como Stark e Rogers terão que fazer as pazes de qualquer jeito. Quanto a trazer os mortos para a vida, Thanos já até deu a dica: é só usar a joia do tempo (o problema vai ser tirar a manopla da mão dele, embora os heróis tenham quase conseguido nesse filme). E seria muito legal ver o Thor descer o cacete (ou o machado) no Thanos (ele quase conseguiu aqui).

Capitã Marvel vem aí???

Assim, “Vingadores, Guerra Infinita”, é mais um filmaço da Marvel, muito sombrio, pois os heróis encontraram um inimigo muito poderoso, e a derrota foi avassaladora. Haverá uma volta por cima total? Ou algumas marcas permanecerão? Confesso que não li os quadrinhos para saber como tudo se processou, se bem que nem sempre o cinema toma o mesmo rumo das histórias dos quadrinhos, alterando-as ao seu bel prazer. Até Thanos retornar (como foi prometido no final derradeiro do filme) esse incômodo vai ficar coçando o fundo de nossas mentes. Aquelas cinzas até agora estão provocando uma sensação desconfortável. Mas esse filme é um programa para lá de obrigatório.

Batata Movies (Revival) – O Mordomo da Casa Branca. Quem não vive para servir não serve para viver.

Cartaz do Filme

A Batata Espacial vai fazer um revival e resgatar alguns filmes que foram exibidos há alguns anos. Essa é a seção Batata Movies, com o selo revival. Hoje começamos com o bom filme “O Mordomo da Casa Branca”.

Cecil, chegando ao seu novo emprego…

A América como ela é. Conservadorismo, direita e racismo travestidos de democracia somente para os brancos WASP (sigla em inglês para a expressão branco, anglo-saxão e protestante). Essa é a impressão inicial do filme “O Mordomo da Casa Branca” (The Butler), estrelado pelo “Academy Award Winner” e excelente Forest Whitaker. Vemos aqui a história de Cecil Gaines, um menino negro do sul dos Estados Unidos que trabalha como empregado numa fazenda que cultiva algodão. O filho do proprietário da fazenda estupra a mãe de Cecil (interpretada por uma gorda e deformada Mariah Carey que, praticamente entrou muda e saiu calada do filme) e, não satisfeito, ainda mata o seu pai, numa mostra de que a vida dos negros da primeira metade do século XX nos Estados Unidos estava totalmente à mercê dos brancos e suas vontades.

Um mordomo dedicado…

O menino é então adotado pela matriarca da fazenda (interpretada pela veterana artista Vanessa Redgrave) que o inicia na criadagem e na arte de servir. Depois de alguns anos, ele abandona a fazenda, pois, como adolescente, já não tem a proteção que a criança negra da Casa Grande tem e, para não ser assassinado, ganha o mundo. Ao tentar assaltar uma confeitaria, é flagrado pelo empregado negro que o acolhe e lhe dá oportunidades de trabalhar no comércio, sempre servindo as pessoas. Daí, sua carreira se desenvolve até chegar a ser mordomo da Casa Branca. A vida, que pareceria um mar de rosas a partir daí, tem ainda muitos lances dramáticos, como a crise conjugal na vida de Cecil que a dedicação ao emprego provoca (a esposa de Cecil é interpretada pela multimídia Oprah Winfrey) e as severas crises de relacionamento entre Cecil e seu filho mais velho, Louis (interpretado por David Oyelowo). Louis decide estudar no sul dos Estados Unidos e se torna politicamente engajado, estando ligado a Martin Luther King num momento, e aos Panteras Negras em outro, indo para a prisão várias vezes, para desespero de sua família, que assiste tudo à distância. Seu pai, em contrapartida, procura não se engajar politicamente para garantir seu emprego de mordomo, engolindo todo tipo de humilhações para poder sustentar a família.

Mordomos muito elegantes…

Tudo isso tendo como pano de fundo a história dos Estados Unidos ao longo do século XX, principalmente no que tange à questão racial. O filme tem um grande mérito: aborda o racismo em toda a sua intolerância, agressividade e violência, onde o próprio espectador sente-se agredido ante à tantas situações ultrajantes que os brancos impõem aos negros. As posições de pai e filho também são relativizadas no filme. Fica bem claro que o pacifismo de Martin Luther King é valorizado e a violência dos Panteras Negras é condenada (ao melhor estilo manifestação pacífica X “Black Blocs” que vimos nos últimos tempos) ao encontrarmos Louis jantando na casa dos pais com sua namorada num gigantesco penteado “black power” e soltando arrotos à mesa, num comportamento que choca os pais inseridos numa vida burguesa, apesar do racismo que sofrem. Por outro lado, o próprio Martin Luther King valoriza os procedimentos do pai mordomo de um envergonhado Louis, dizendo que conquistar a confiança dos brancos e os conhecer a fundo também pode ser visto como uma estratégia de luta (impossível não comparar tal situação com a dos escravos no Brasil Colonial que, em algumas situações, se aproximavam dos seus senhores, conquistando-lhes a confiança, ao denunciar planos de fuga de escravos, por exemplo, ganhando prêmios como comida extra no almoço, um pedacinho de terra para plantar e viver com a família no engenho e até a sua liberdade). Apesar dessa relativização, pai e filho somente se aproximam quando o Cecil pede demissão de seu emprego e também se engaja politicamente com o filho.

Cecil e sua esposa…

Como todo o filme americano que se preza, o “happy end” está garantido, com a apoteose “we can” de Barack Obama, numa espécie de vitória final dos negros na sociedade americana. Outra nota curiosa do filme é o desfile de presidentes americanos, onde a constante é o conservadorismo e o racismo, exceção aberta a Kennedy e, talvez, Eisenhower. Jimmy Carter somente em imagens de arquivo é uma ausência sentida. Talvez o episódio da embaixada dos Estados Unidos no Irã em 1979 tenha sido contundente demais para o seu já combalido carisma. A caracterização de Alan Rickman na pele de Reagan, assim como a de Jane Fonda na pele de Nancy Reagan impressionam. Destaques também para Cuba Gooding Jr. e Lenny Kravitz (!), que trabalhavam na equipe de mordomos.

Excelente caracterização do casal Reagan

Dramas pessoais e história da América. Racismo e luta pela liberdade. Bom elenco e interpretações primorosas. Tudo isso faz de “O Mordomo da Casa Branca” um bom filme.

 

Batata Movies – 1945. Mea Culpa.

Cartaz do Filme

Um curioso filme passa em nossas telonas. “1945” é uma produção húngara que aborda indiretamente a já batida temática da Segunda Guerra Mundial (confesso que já perdi a conta da quantidade de filmes que trabalham esse assunto). E por que indiretamente? Porque vemos aqui as consequências do conflito no imediato pós-guerra, onde algumas tensões ainda davam as cartas.

Do que trata a história do filme? Estamos no já citado ano de 1945, numa pequena vila do interior da Hungria. A vida de seus habitantes transcorre normalmente. A impressão que se tem é a de que os horrores da guerra passaram bem distantes de lá. Até que, um dia, dois judeus chegam ao povoado. Importunados rapidamente por soldados soviéticos ainda na estação de trem, os judeus começam a andar pela região. Essa simples presença causa alvoroço em toda a população local, pois os habitantes aproveitaram a frágil situação dos judeus na guerra para lhes usurparem todos os seus bens. Agora, a presença desses “forasteiros” parece uma espécie de acerto de contas. O que vemos daí em diante é a população de uma vilazinha inteira batendo as cabeças numa espécie de mea culpa para alguns e um show de mesquinharia para outros.

Dois judeus voltando ao lar…

A primeira coisa que grita aos olhos nesse filme é a questão do colaboracionismo, onde alguns países europeus, com sua carga de antissemitismo, colaboraram com os ocupantes nazistas na perseguição aos judeus. Esse é um tema muito controverso e uma coleção de feridas abertas que se tornam um assunto tabu na Europa provavelmente até hoje, o que já torna essa película muito digna e corajosa de tocar uma temática tão delicada.

Um líder local ganancioso…

O filme também chama a atenção para outro ponto: o questionamento à noção de psicologia de massas, onde todo um grupo de pessoas, seja de um povoado, seja de uma cidade, ou até de um país, agiria de uma jeito praticamente uniforme sob determinada situação. Essa teoria foi usada por alguns pensadores do passado (no caso do cinema, o primeiro nome que me vem à mente é o de Siegfried Kracauer, da Escola de Frankfurt, com o seu conhecido livro “De Caligari a Hitler, Uma História Psicológica do Cinema Alemão”). Mas hoje em dia, a psicologia de massas parece um termo um tanto ultrapassado. Isso porque a mente humana é um fenômeno extremamente complexo e parece não ser muito responsável englobar algo tão dinâmico num comportamento tão padronizado. O próprio caso da vila mostra uma diversidade de reações sob a igual pressão da presença dos judeus. Havia os moradores mesquinhos, que queriam garantir a posse dos seus bens a todo custo; havia o caso do morador que se atormentava com o sentimento de culpa e buscava refúgio na bebida; havia o caso do jovem que simplesmente queria se desvencilhar daquilo tudo e deixar a vila, em busca de um recomeço num centro mais cosmopolita, seja na própria Hungria ou até em outro país. Ou seja, diferentes reações para uma mesma pressão psicológica, fazendo cair por terra a retórica da psicologia de massas.

Uma cidade desconfiada…

O filme, apesar de suscitar boas discussões, tem, entretanto, um problema. Não pareceu haver uma boa apresentação dos personagens. Era necessária uma atenção do espectador acima do usual para compreender as funções de cada uma das pessoas que apareciam na película. Talvez isso tenha acontecido em virtude do grande distanciamento cultural entre nós e os húngaros, tornando o filme de mais difícil compreensão. Ou, simplesmente, não era a intenção do diretor trabalhar mais profundamente os personagens, embora ele tivesse o cuidado de realçar suas pequenas matizes.

Todos de olho…

Assim, se “1945” nem sempre seja um filme de fácil digestão, ele ainda é um programa recomendável, pois sempre podemos ver como quem “tem culpa no cartório” reage aos infernos que surgem dentro de suas próprias cabeças. Isso faz o filme se transformar num pequeno estudo da condição humana, tornando a película num programa obrigatório, o que vale a pena o preço do ingresso.

Batata News – Homenagem a Nelson Pereira dos Santos

Nós, brasileiros, perdemos este fim de semana um de nossos grandes cineastas. Nelson Pereira dos Santos, um dos fundadores do Cinema Novo, levou o Brasil que ninguém conhecia ao exterior. Um Brasil assolado pela injustiça e pela desigualdade social. Um Brasil contado pelos grandes clássicos de nossa literatura. Toda vez que se fala de Nelson Pereira dos Santos, a primeira coisa que me vem à cabeça é a cachorrinha Baleia, de “Vidas Secas”, que precisa ser sacrificada por seus donos, uma família de retirantes que mal tem o que comer para si próprios. A morte de Baleia dói no fundo da alma até hoje. O filme impressionou tanto que os brasileiros que o realizaram foram acusados no estrangeiro de maus tratos ao bichinho, ao que eles precisaram levar a cachorrinha no ano seguinte para provar que ela estava viva e bem de saúde. É por isso mesmo que não há melhor forma de homenagear Nelson Pereira dos Santos recordando de Vidas Secas. Conheçam e emocionem-se não somente com Baleia, mas também com os problemas sociais profundos de nosso povo. E a Nelson Pereira dos Santos, nossa gratidão eterna…

Batata Movies – Rampage: Destruição Total. O Ser Humano Como Vilão.

Cartaz do Filme

Mais um filme de porrada, bomba e tiro em nossas telonas. “Rampage: Destruição Total” tem elementos de que um bom blockbuster precisa: algumas cenas de luta, alguns tiroteios, minicatástrofes, como a queda de um avião, e megacatástrofes como três monstros gigantes destruindo uma cidade inteira. E, no meio de tudo isso, Dwayne Johsnon, muito bem acompanhado por Naomie Harris.

Um primatologista e seu gorila…

Do que se trata a história? O primatologista Davis Okoye (interpretado por Johnson) mostra a seus alunos como fazer uma espécie de comunicação rudimentar com sinais com gorilas. O gorila mais avançado nessa comunicação é George, de uma rara espécie albina. Mas a queda de um patógeno que estava em órbita transforma George num gigantesco monstro, assim como um lobo e um peixe, que saem destruindo tudo por aí. O tal patógeno foi criado por uma empresa com intenções, digamos, escusas, mas um acidente na estação espacial com um rato transformado pelo patógeno acabou provocando a queda na Terra. Okoye terá que pagar um dobrado para salvar a pele de seu amigo George, que está totalmente descontrolado, e ainda buscar um antídoto para o gorila. Mas, para isso, ele contará com a ajuda de Kate Caldwell, uma antiga cientista da empresa que desenvolveu o tal patógeno.

Um trio tentando resolver uma catástrofe…

Parece uma história bem simples com o pretexto perfeito para se ter muitas cenas de destruição, que é como o filme é vendido. Mas há uma pequena discussão implícita aí. O grande vilão não são os monstros aterrorizantes que destroem a cidade de Chicago, mas sim o próprio ser humano, explicitado no casal de irmãos sem escrúpulos que dirigem a empresa que fez o patógeno. É até curiosa a disposição dos dois personagens: a moça (interpretada por Malin Akerman) representa a ambição e maldade humana em todos os seus sentidos; já o irmão (interpretado por Jake Lacy) representa a inconsequência, com um toque de estupidez. Esses dois ingredientes se unem para usar a engenharia genética de forma totalmente irresponsável, onde o humano brinca de Deus. Em oposição a tudo isso está Okoye, um homem em completa interação com a natureza, chegando inclusive a desenvolver meios e linguagens para se comunicar com ela mais profundamente, e afastando-se totalmente de qualquer relacionamento mais estreito com os humanos. Essa dicotomia presente no filme, apesar de um tanto simplória, dá um elemento a mais que faz com que a película não seja um simples filme de ação regado a muitos CGIs.

Bichinhos Feios…

E esse é um filme de atores, por que não? A atuação de Dwayne Johnson volta a impressionar. Apesar de ser apresentado como o estereótipo do grandalhão musculoso, ele não precisa disso para marcar presença. Suas atuações são sempre seguras e naturais, e ele convence, mesmo que elas às vezes pareçam um pouco planas. De qualquer forma, o cara passa muito carisma e a gente até se esquece de seu estilo Brucutu ao longo do filme, o que dá a chance de ele trabalhar até algumas piadas quando sua força física é requisitada na história.

Um peixão descomunal…

E Naomie Harris? Essa foi uma grande presença no filme e fez um par com Johnson que rendeu boa química. Sua beleza estonteante ajuda sempre, mas, assim como Johnson não precisa de músculos para se afirmar, Harris não precisa de sua beleza para isso, já que seu talento é inigualável, já mostrado em outras produções como “Moonlight” e “Beleza Oculta”. Vale ainda registrar aqui a presença do ator Jeffrey Dean Morgan, como um agente federal meio canastrão, meio cafajeste, meio gente fina, que chama a atenção no filme e tem bons diálogos com o casal protagonista.

Os verdadeiros vilões…

Assim, “Rampage: Destruição Total” é mais um clássico filme de porrada, bomba e tiro, mas que tem elementos adicionais como a discussão da vilania humana ao fazer manipulações genéticas e conta com bons atores no elenco, mostrando mais uma vez o carisma de Dwayne Johnson, com a grata companhia de Naomie Harris. Vale a pena dar uma conferida para se divertir sem compromisso.

Batata Movies – Uma Temporada Na França. Humanos De Segunda Categoria.

Cartaz do Filme

Mais um filme que é um convite à reflexão em nossas telonas. “Uma Temporada na França” é, acima de tudo, um filme de denúncia. Um filme onde o Cinema grita com todos os seus pulmões contra as injustiças que vemos por aí. Um filme que nos envergonha como humanos.

Um casal sofrendo as perseguições contra os imigrantes…

Vemos aqui a trajetória de uma família originária da África Central, que foge de uma guerra em seu país. No meio da fuga, a mãe é assassinada. O pai e o casal de filhos consegue chegar a Paris e enfrenta todas as dificuldades de estrangeiros em solo europeu que pedem asilo político. O pai, Abbas Mahadjir (interpretado por Eriq Ebouaney), era professor em seu país natal. Agora, em Paris, ocupa o cargo de feirante. Ele vai precisar criar os dois filhos com muito jogo de cintura, pois o passado burguês da família lhe impõe certas exigências cobradas pelos filhos, como uma casa própria com um quarto para cada um. Mas tudo é muito difícil em solo estrangeiro. Abbas tem uma namorada, Carole Blaszak (interpretada por Sandrine Bonnaire) que o ajuda nas dificuldades do dia-a-dia, e também imigrante. Um terceiro amigo, o conterrâneo Etienne (interpretado por Bibi Tanga) fecha o círculo de pessoas próximas à família. Vivendo num país hostil em sua maioria das vezes, esses personagens precisarão matar um leão por dia para sobreviverem, pois a terra natal já se encontra arrasada e retornar não é uma opção.

Amigos compatriotas compartilhando a mesma dor…

Esse é um filme que transpira melancolia em grande parte de sua execução. A película denuncia o pouco caso das autoridades francesas com os imigrantes que querem o acolhimento do país europeu mas lhe têm as portas fechadas na maioria das vezes. O que mais dói nesse filme é um misto de indiferença e de repúdio por parte dos franceses que conseguem negar um visto de permanência a uma família que foge de uma situação de guerra e que já perdeu sua mãe. O ódio contra os imigrantes é um tempero explosivo a mais nessa química perigosa. Fica bem claro que africanos negros e muçulmanos são os que mais sofrem preconceito nessa relação entre os franceses e os imigrantes, já que a imigrante branca do leste europeu conseguiu regularizar sua situação. Tal filme tem uma importância marcante, pois se a França sofreu uma série de ataques terroristas nos últimos anos, fica a questão: até que ponto esse tratamento ríspido contra os imigrantes não produz inimigos contra a própria França? Será que uma politica mais flexível para com os imigrantes não deteria um pouco tamanha escalada de ódio? Todos nós sabemos que cada país tem seus problemas, mas não podemos nos esquecer de que todo esse contexto caótico vem da exploração imperialista sobre a África e a Ásia feita no século XIXm justamente pelas potências europeias estrangeiras. Tal cataclisma não ficaria sem consequências.

Um pai, no desafio de dar um conforto burguês aos filhos…

No mais, a gente precisa bater (e muito) palmas para Mahamat-Saleh Haroun, o diretor e roteirista desse filme que dá voz a um segmento excluído e marginalizado no continente europeu, que é o imigrante que foge de sua terra natal, de misérias e de guerras provocadas direta ou indiretamente pelas potências imperialistas estrangeiras e seu processo colonizatório altamente predatório.

O grande diretor Mahamat-Saleh Haroun

E palmas também a um elenco que mostrou que tal situação escabrosa pode acontecer com qualquer um: eu, você, seu pai, mãe, vizinho, amigo… ou seja, qualquer pessoa que tem sua vida estável numa zona de conforto que subitamente lhe  é arrancada. Um filme que choca e alerta, um filme que cumpre sua função social de denúncia. Um programa imperdível.