Batata Movies – Soldados do Araguaia. Revirando Um Passado Negro.

Cartaz do Filme

Um importante documentário está em nossas telonas. “Soldados do Araguaia” fala, antes de denunciar as atrocidades cometidas pelos militares contra os guerrilheiros do Araguaia, na primeira metade da década de 70, das atrocidades cometidas pelos militares contra os soldados do próprio exército, que foram convocados para a caça aos guerrilheiros.

Confiantes soldados do passado…

O diretor Belisário França (o mesmo diretor de “Menino 23”) fez um ótimo trabalho de reconstituição com imagens de arquivo ilustrando todos os horrores dos depoimentos dos soldados, que foram submetidos a torturas sem qualquer motivo, sob a alegação de que eles deveriam ser preparados para uma guerra. Alguns desses soldados, segundo seus próprios depoimentos, perderam os testículos nessas torturas, assim como eram obrigados a beber lama ou a ficarem empapuçados de açúcar e nus na floresta, sendo picados por formigas, marimbondos e todos os tipos de insetos que eram atraídos pelo açúcar.

… mostram hoje dolorosas marcas…

Esses militares também testemunharam os horrores cometidos contra os guerrilheiros, onde puderam ver sacos cheios de cabeças e mãos, além do fato de que prisioneiros vivos eram supostamente enviados para Brasília por helicópteros e, ao invés disso, teriam sido lançados vivos a cachoeiras, já que o helicóptero voltava de viagem apenas cerca de meia hora depois.

Os helicópteros transportavam os guerrilheiros capturados…

Após o fim da operação, muitos desses soldados simplesmente foram dispensados e tiveram ordens estritas de nada dizer sobre tudo aquilo. Alguns não aguentaram os tormentos psicológicos e se mataram. Outros, como podemos ver nas entrevistas desse documentário, permanecem seriamente abalados depois de mais de quarenta anos do ocorrido.

Os soldados na selva…

Definitivamente, é um documentário assustador, mostrando a que ponto a humanidade pode chegar em todas as suas atrocidades. Tais ações do exército em nada se parecem diferentes das ações cometidas pelo mesmo exército para reprimir revoltas no interior do Brasil na virada do século passado, como as vistas em Canudos ou no Contestado, onde a população pobre foi completamente dizimada.  A Guerrilha do Araguaia foi somente um pequeno exemplo de que tais práticas ainda podem ser cometidas em dias mais próximos de nosso presente. Quando vemos “Soldados do Araguaia”, parece que reviramos uma grande quantidade de sujeira debaixo do tapete, sujeira essa escondida pela anistia de 1979. De qualquer forma, esse é um filme onde o cinema cumpre sua função social de denúncia, além de ser um importante instrumento de reflexão sobre quais rumos queremos para o nosso país, tão entupido de ódio e intolerância nos dias de hoje. Esse é um programa obrigatório para todos nós, seja de qual espectro político for.

Batata Movies – Jogador Número 1. Easter Eggs Em Tempos de Páscoa.

Cartaz do Filme

Estreou, no último dia 29 de março, “Jogador Número 1”, dirigido por Steven Spielberg. Baseado na obra de Ernst Kline, esse filme somente poderia estrear numa quinta-feira santa, pois ele é um Easter Egg por excelência, é o grande filme das referências de todos os tempos, um prato cheio para a cultura nerd, pop e geek.

Wade, fugindo do mundo real com o Oasis…

Mas, no que consiste a história do filme? Estamos no ano de 2045, onde as pessoas mais pobres vivem em favelas construídas com trailers e andaimes amontoados. Tudo é distópico, feio e sujo. Mas há uma luz no fim do túnel: o grande programa de realidade virtual Oasis, uma espécie de videogame onde as pessoas se relacionam com outras através de seus avatares. Wade Watts (interpretado por Tye Sheridan) é uma dessas pessoas, tendo uma vida simultaneamente idílica e desafiadora naquele ambiente virtual. Mas, um belo dia, é anunciada a morte do criador do Oasis, James Halliday (interpretado por Mark Rylance), o grande responsável por esse mundo irreal em que todos se escondem de suas vidinhas reais miseráveis. Mas Halliday deixa uma pequena mensagem gravada, onde desafia todas as pessoas a procurarem três chaves escondidas no Oasis, que abrirão uma espécie de portal que dará todo o controle desse mundo virtual (e muita riqueza) ao vencedor. Todos começam a procura ensandecida pelas chaves, inclusive a poderosa empresa IOI, liderada por Sorrento (interpretado pelo “Diretor Krennic” Ben Mendelsohn). Assim, Wade e seus amigos reais/virtuais irão lutar contra Sorrento e toda a sua ganância pelo controle do Oasis.

Que tal uma voltinha de De Lorean?

Eu disse que o filme é uma espécie de Easter Egg por excelência, já que a película está apinhada de elementos da cultura pop, nerd e geek. Podemos ver, por exemplo, o De Lorean de “De Volta Para o Futuro”, o batmóvel da série “Batman” da década de 60 com o Adam West, a motocicleta do Kaneda de “Akira”, o King Kong como obstáculo intransponível numa corrida cheia de automóveis, e muitas outras referências, inclusive musicais, das décadas de 70 e 80, como “1984”, de Van Halen, ou músicas do Blondie e de Cindy Lauper. Só isso já faz o filme ser um deleite para qualquer marmanjo pré-cinquentão. No mais, parece que temos um imenso videogame rodando um jogo inspirado em RPG, onde algumas questões como o fato de ser melhor você não conhecer pessoalmente o dono do avatar com o qual você interage, são discutidas. O filme também não deixa de ter o seu quê de ação e diversão juvenil, com situações hilárias provocadas pela interação entre o mundo real e virtual.

O avatar de Wade, Parzival, encontra Halliday no mundo virtual…

Uma boa presença no elenco foi a de Simon Pegg, onde ele interpretou Ogden Morrow, um antigo amigo de Halliday com quem acabou tendo alguns problemas de relacionamento. Aliás, esse é um detalhe bastante interessante do filme, pois para resolver o enigma das três chaves, Wade tinha que estudar detalhes da vida pessoal de Halliday, onde a vida do criador do Oasis ocupava uma parte central do RPG eletrônico, numa mostra do real invadindo o virtual (geralmente vemos o oposto).

Spielberg em ação!!!

Assim, “Jogador Número 1” é mais um divertido filme de Spielberg, que busca fazer projeções para o futuro. Só não sei dizer ainda se essas projeções são utópicas ou distópicas, pois há argumentos suficientes no filme para validar as duas hipóteses. De qualquer forma, o filme é um bom entretenimento e vale a pena dar uma conferida.

 

Batata Antiqualhas – Spock e Leonard. Dualidade que se Completa (Parte 21)

Spock da era J. J. Abrams

Após o sexto filme,  mais uma vez ficou uma sensação de encerramento de “Jornada nas Estrelas” por Nimoy. Mas ele foi convidado a participar do sétimo filme, onde Kirk morreria. Ao ler o roteiro, Nimoy percebeu que Spock apenas teria uma aparição rápida, sem qualquer função na história. Ao discutir isso com o produtor Rick Berman, ele simplesmente alegou que não tinha tempo para mexer no roteiro. Nimoy, então, declinou do convite. De Forest Kelley se recusou a trabalhar no filme, pois Nimoy não trabalharia. E o intérprete do Dr. McCoy ainda falou que teve uma boa despedida em “Jornada nas Estrelas 6”. Para que estragar isso?

Passando o bastão para Zachary Quinto…

Nimoy não se arrependeu de sua decisão, desejou boa sorte à sua equipe de produção e seguiu sua vida adiante. Participou de mais séries de tv, interpretando e dirigindo. Nimoy também fez incursões na fotografia (onde fez um belo ensaio fotográfico feminino inspirado em “Shekkinah”, a versão feminina de Deus na tradição judaica) e na poesia. Nimoy manteve uma vida muito ativa e produtiva.

As orelhas pontudas sempre fizeram parte de sua imagem…

Em 2009, foi chamado para novamente interpretar Spock na versão de J.J. Abrams de “Jornada nas Estrelas”, agora na figura de um embaixador, como seu pai o fora (na verdade, Spock já tinha sido embaixador no episódio “Unifcação”). Em abril de 2010, Nimoy anunciou que não faria mais o papel de Spock, passando o bastão para Zachary Quinto. Nimoy ainda participou com sua voz em alguns filmes, como “Transformers”, documentários científicos, séries de tv como “The Big Bang Theory”, onde ele dá voz a um “action figure” de Spock e até jogos de vídeo game. Nimoy ainda faria uma derradeira interpretação de Spock, numa rápida participação em “Jornada nas Estrelas, Além da Escuridão”, de J. J. Abrams. Em fevereiro de 2014, foi diagnosticada sua doença pulmonar obstrutiva crônica, provocada pelo cigarro. Depois disso, ele se internou em hospitais várias vezes, até se internar definitivamente, no dia 19 de fevereiro de 2015, no UCLA Medical Center, para aliviar suas dores.

Seu conhecido livro de fotografias…

Leonard Nimoy morreu no dia 27 de fevereiro de 2015, com a idade de 83 anos, em sua casa, de nome Bel Air. Seu corpo foi cremado a 1 de março, com a presença de trezentas pessoas, dentre elas, seus familiares, colegas da série clássica, as filhas de Shatner, J. J. Abrams, Zachary Quinto e Chris Pine. Ele deixou esposa, dois filhos, seis netos, um bisneto e seu irmão Melvin.

Sua última aparição como Spock…

E assim, chegamos à fronteira final. Quero só me desculpar a todos os leitores por ter escrito todo esse monte de artigos sobre Leonard Nimoy e Spock. Mas houve alguns motivos para isso. Um motivo foi o fato de que quis mostrar que Leonard Nimoy era um artista muito talentoso, não ficando restrito a somente o papel do vulcano Spock. Ele aceitou vários desafios em sua carreira, como por exemplo, sua carreira no teatro, na tv e no cinema, seja como ator, seja como diretor.

Um inesquecível cavanhaque…

Sua preocupação com a cultura judaica, da qual faz parte, é outro elemento marcante de sua versatilidade como artista, isso sem falar de suas incursões na fotografia e na poesia. Em segundo lugar, aqui é um espaço para se escrever sobre aquilo que se gosta. E, confesso que gosto muito desse personagem vulcano de orelhas pontudas. E tenho certeza que ainda há muita gente por aí que gosta dele, dentre as gerações mais antigas. Essa coluna é chamada de Batata Antiqualhas  justamente para falar de cultura pop-nerd mais antiga, para os mais velhos matarem a saudade e os mais novos a conhecerem um pouco melhor. Impossível não falar da morte de Nimoy nestas circunstâncias. Fui até convidado para uma palestra organizada pelo hoje extinto site Abacaxi Voador para isso. Mas aí, soube da morte de minha mãe na hora em que ia para o evento. E toda a pesquisa tinha ido por água abaixo. Eu tive duas fortes dores num intervalo de três semanas. E aí, decidi expurgá-las escrevendo. Como uma espécie de “articulista” de “Jornada nas Estrelas” no Abacaxi, não poderia deixar que essa pesquisa fosse em vão. E aí vieram os artigos, sobre um personagem com o qual todos nós nos identificamos. Spock é o “outsider” que é mal compreendido e sofre perseguições e preconceitos, aquele que tem sentimentos mas deve escondê-los para não se tornar vulnerável, tem suas contradições e dramas internos, a necessidade de pensar de forma mais serena e racional para escapar das más situações. Ora bolas, quem nunca passou por uma dessas situações na vida? Spock não é apenas um personagem de uma série de ficção científica de tv, mas um verdadeiro espelho da condição humana. Daí a sua universalidade e popularidade. Sua seriedade, humor, cinismo, alegrias e tristezas jamais serão esquecidos e residem em nossos corações para todo o sempre, nos ajudando a encarar esse mundo cada vez mais difícil de se viver, onde a desumanidade simplesmente impera. E, segundo seu amigo Kirk, durante o funeral de Spock em “A Ira de Khan”, “…de todas as almas que eu conheci a de meu amigo foi a mais… humana”. Shatner dizia isso com a voz visivelmente embargada sentindo a morte do personagem de forma bem sincera. Esse é o sentimento que os fãs de “Jornada nas Estrelas” ainda possuem, mesmo três anos depois da morte de Leonard Nimoy. Mas fica o legado de Spock. Esse sim, nunca morre. É só colocar o DVD no aparelho e ele está lá de volta, com todos os seus ensinamentos para nossas vidas, o que alivia um pouco a dor provocada pela ausência física. Peço mais uma vez desculpas em terminar essas linhas da forma mais óbvia, mas esse é o principal ensinamento desse personagem tão marcante e importante, sendo uma eterna mensagem otimista (e precisamos de muito otimismo hoje em dia): “Vida longa e próspera!”.

Vida longa e próspera, sempre!!!

 

Batata Movies – Imagens do Estado Novo 1937-1945. O Passado Materializado.

Cartaz do Filme

O diretor Eduardo Escorel traz par nós um documentário realizado no já longínquo ano de 2016. “Imagens do Estado Novo 1937-1945” é um importante documento e fonte histórica de nosso país, pois traz, na materialidade de suas imagens, muito do que aconteceu no período de nossa História que ficou conhecido como “Ditadura do Estado Novo”. Vindo desde a Revolução de 1930 e chegando até ao suicídio de Vargas, o documentário não deixou de ser fiel ao seu recorte, enfatizando mais o período 1937-1945. Além de muito material oficial do governo e do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), temos imagens também de particulares e de filmes como “O Descobrimento do Brasil”, de Humberto Mauro. Todas essas imagens são cimentadas e significadas por uma narração que tem a sua visão e interpretação dos fatos, que nem sempre pode agradar a gregos e troianos. De qualquer forma, sabemos que a História possui múltiplas interpretações do passado e que todas essas interpretações têm um local de fala, ou seja, não são neutras ideologicamente, como nada o é (até a suposta postura de ser neutro ideologicamente é uma postura ideológica). Como professor de História, consegui identificar vários elementos factuais que são trabalhados em sala de aula como, por exemplo, o Plano Cohen, que foi um complô orquestrado pelo governo ao denunciar uma suposta tentativa comunista de golpe, totalmente falsa, para justificar um golpe de estado dado pelo próprio Vargas para se perpetuar no poder.

Um presidente cuidando de sua imagem…

Vimos, também, a campanha queremista, onde era pedida uma Assembleia Constituinte e a permanência de Vargas no poder. Ou então as pressões militares para que Vargas saísse do governo após a Segunda Guerra Mundial. Mas o grande trunfo é que os filmes também mostram o cotidiano daqueles fatos, que eram cimentados por muitos eventos de curta duração praticamente despercebidos hoje, como um acidente de carro que manteve Vargas no hospital por alguns meses, fazendo com que sua ausência deteriorasse sua posição política num momento decisivo. Ou as visitas de Roosevelt ao Brasil nas tentativas de dissuadir o Estado Novo a continuar namorando com o Eixo.

Documentário fala de um cotidiano já esquecido…

Ou ainda, imagens (coloridas) dos eventos cívicos dos quais Vargas participava no Estádio de São Januário. Imagens de pessoas influentes do governo como Osvaldo Aranha ou Gustavo Capanema, também se faziam presentes. Toda essa materialidade de imagens trazem aqueles distantes dias até nós de uma forma muito vívida e ajudam a gente a compreender melhor todo o contexto daquela época, mesmo que sejam imagens lidas por uma versão ideologizada.

Pessoas próximas a Vargas são destacadas…

Aliás, essa é a grande questão colocada ao início da película: será que é possível fazer uma reconstrução histórica do período com um acervo de imagens? Nesse caso foi possível, mesmo que essa seja apenas uma das leituras possíveis de passado que podemos assumir. As imagens têm um peso tão determinante nesse documentário que ele tem a duração de 227 minutos, ou seja, quase quatro horas de duração, sendo o filme dividido em duas partes com um intervalinho de dez minutos. Até a exibição do filme se processa como antigamente.

Os integralistas…

Assim, “Imagens do Estado Novo 1937-1945” é uma grande relíquia de nosso cinema e uma espécie de material obrigatório para historiadores. Acima de um filme, esse documentário pode ser considerado uma verdadeira fonte histórica, pela força de suas imagens e pela leitura delas. Programa imperdível, sendo aquele tipo de filmes que já falamos aqui um monte de vezes, ou seja, aquele filme para ver, ter e guardar.

Batata Movies – Indiana Jones E O Templo Da Perdição. Novas Ideias, Antigos Ideais.

Cartaz do Filme

A Rede Cinemark realiza, toda última terça-feira do mês, uma sessão Clássicos Cinemark em algumas de suas salas, onde são exibidos consagrados filmes do passado. Neste mês de março de 2018, tivemos a exibição de “Indiana Jones e o Templo da Perdição”. Esse foi um filme que, curiosamente, não assisti quando passou no cinema e somente o fiz quando passou na TV. Como era uma oportunidade ímpar de ver esse agora clássico na telona, me despenquei para o Cinemark do Botafogo Praia Shopping para assisti-lo. Vamos dar algumas palavrinhas sobre um filme que já assistimos muito, mas que sempre tem pano para a manga numa boa conversa e análise.

Um herói mais hilário

Temos aqui a continuação das aventuras do renomado arqueólogo Dr. Henry Jones Jr., conhecido como Indiana Jones e um ladrão de tumbas segundo o seu intérprete Harrison Ford. Caçador de relíquias, ele as negocia com gângsters sempre pensando em compensações financeiras (acho que Ford estava certo em sua avaliação do personagem). Depois de tomar uma carreira de um desses gângsters, ele foge com a cantora Willie Scott (interpretada por Kate Capshaw) e com seu fiel escudeiro, o chinesinho Short Round (interpretado por Jonathan Ke Quan, que também trabalhou no filme “Os Goonies”, uma das pérolas da Sessão da Tarde) de avião, que pertencia à companhia do gângster em questão. Seus capangas abandonam o avião com para-quedas e nosso destemido arqueólogo se lança com seus amigos num bote (!) e chega ileso a um rio, depois de duas quedas abissais. Eles, então, encontram uma comunidade indiana que perdeu todas as suas crianças depois que uma pedra sagrada desapareceu. Caberá a Indiana pegar a tal pedra e salvar as crianças, embora ele inicialmente pensasse na fama e glória da conquista de mais um artefato arqueológico. Só que, miraculosamente, ele fica “bonzinho” com o tempo e pensa mais nas crianças da tribo. É claro que a coisa se dará com toda aquela pompa de aventura muito fora da realidade que marcam esses filmes. Mas quem está preocupado com isso?

Momentos de humor

A gente pode falar de outras coisinhas aqui. Em primeiro lugar, a ideia de se criar Indiana Jones partiu de George Lucas. Ele seria uma espécie de reedição dos antigos personagens de fitas em série do cinema, quando antes do filme principal, as crianças, lá das décadas de 30, 40, assistiam aos seriados (lembremos que a TV, onde hoje vemos seriados, ainda não existia). Lucas tentava fazer com esse estilo de personagem a mesma coisa que ele tinha feito com “Guerra nas Estrelas”, tomando Flash Gordon como inspiração. Já Spielberg pensava num personagem com uma pegada mais, digamos, James Bond. Lucas convenceu Spielberg a abraçar a ideia de Indiana e saíram os filmes. E, como o filme foi inspirado em heróis e séries antigas, a primeira coisa que chama a atenção é a floresta de estereótipos que a película contém. O herói americano, com um quê meio canalha, tanto nos hábitos quanto no trato com outras civilizações, que são vistas de forma totalmente supersticiosa e inferior, dentro de um ponto de vista muito maniqueísta e de uma ideologia imperialista.

Um casal à moda antiga…

Só devo alertar que esse ponto de vista extremamente ostensivo sobre outras culturas talvez não deva ser levado tão à sério assim, pois é nítida a intenção de se mostrar essa reedição das antigas fitas em série de uma forma um tanto galhofeira, onde se carrega muito nas tintas para se ter essa impressão. Como um exemplo disso, o herói, mais imaculado nas fitas antigas (vejam Flash Gordon, com Buster Crabbe, por exemplo), é aqui ridicularizado em algumas passagens do filme. Cansamos de rir vendo Indiana passando pelas situações mais escabrosas, onde até o seu medo de cobras é explorado. Aliás, poucas vezes pudemos presenciar como a combinação de filme de aventura com comédia foi tão bem sucedida. A sequência dos carrinhos nas minas, onde o inusitado é o condutor dos veículos naqueles trilhos com cara de montanha russa, é simplesmente deliciosa. As populares “mentiras” dos filmes desfilam apoteoticamente nos fotogramas e, pelo menos da minha parte, eu via os filmes de Indiana para me deliciar com suas coleções de absurdos. Esse, talvez seja o ingrediente que mais atrai nesses filmes.

O inusitado a todo instante…

Dessa forma, foi uma experiência muito legal poder ver na telona um filme que chama tanto a atenção por tantos fatores. E também uma viagem no tempo, pois pudemos presenciar um Harrison Ford jovial em toda a plenitude de sua atuação, recheada de carisma e cinismo (podemos dizer que Indiana é uma espécie de Han Solo light). Se você tiver um tempinho, volte a assistir essa película tão saborosa.

Batata Movies – Silêncio No Estúdio. A Trajetória De Uma Comunicadora.

Cartaz do Filme

Em meus tempos de infância, havia um programa de TV à tarde na Rede Bandeirantes cujo cenário reproduzia uma sala de uma casa muito elegante, onde uma senhora muito bem vestida falava com você de forma muito simples e direta, sempre abordando uma temática qualquer do cotidiano. Lembro-me que, a primeira vez que ela me chamou a atenção de verdade foi quando falou sobre o assunto das pessoas que perdiam os seus bichinhos de estimação e ofereciam uma pequena recompensa em dinheiro para quem os achassem. A elegante senhora ficava indignada com aqueles que, ao encontrarem os bichinhos perdidos e entregarem aos seus donos faziam questão da tal recompensa e não o faziam com a pura intenção de devolver um ente querido à família que sofria pela sua ausência, aliviando a sua dor. Esse pensamento, que pode parecer altamente simplório nos dias de hoje, era apenas um dos temas de um programa vespertino de TV, cujo principal público da época era o das donas de casa (algo que também não parece ser mais uma constante nos dias de hoje). E quem era a tal senhora bem vestida que conduzia esse programa? Seu nome era Edna Savaget.

Edna Savaget, uma mulher à frente de seu tempo…

E agora, para homenageá-la e para que as novas gerações a conheçam, foi lançado há alguns meses o bom documentário “Silêncio no Estúdio”, de Emilia Silveira, onde pudemos ver a trajetória de Savaget numa riqueza de detalhes. Mesclando imagens de arquivo de seus programas, filmagens, pessoais, muitas fotos e entrevistas de figuras como Artur Xexéo e o Boni, da Rede Globo, “Silêncio no Estúdio” consegue mostrar Savaget de uma forma que, a princípio, não notamos em toda a sua plenitude, pois sempre nos fica o estereótipo de que o programa feito para a tarde e para um público de donas de casa enfocado em variedades parece ser uma coisa menor, uma espécie de tapa-buraco na programação. Entretanto, Savaget não se encaixava de forma nenhuma nesse estereótipo, pois sua mente era de uma erudição inigualável, sempre lendo e, principalmente, escrevendo muito, desde romances, passando por poesias e chegando até a colunas de jornal. O jeito com que ela se dirigia ao público, comentando todo o tipo de coisa, de forma muito corajosa e direta, lhe trouxe alguns problemas, por exemplo, com a censura da ditadura militar.

Fernanda Montenegro foi uma das entrevistadas

É notável perceber que seu programa era um convite para a reflexão, justamente num veículo de comunicação – a TV – que foi concebido aqui no Brasil inteiramente para a função de entretenimento, com o objetivo de alienar e manipular as massas. Ela era uma apresentadora, por exemplo, que entrevistava escritores que falavam de seus lançamentos literários, levando pela primeira vez na TV a menção de nomes da literatura latino-americana como Gabriel Garcia Marquez e Jose Luis Borges. Savaget também abordava termas espinhosos para os mais conservadores, como uma nova ideia para a relação homem-mulher no casamento, que não se ancorasse em parâmetros determinados pela tradição, discutindo com muita coragem o papel da mulher nas décadas de 60, 70 e 80. Desafiando todas as convenções da época, ela apresentava em seu programa ao vivo sua maquiadora, uma transex, em dias de repressão latentes. Sincera, quando era demitida de uma emissora de TV ou se demitia, ela anunciava isso no ar e ao vivo, para a perplexidade geral. Mas, apesar de toda a sua vivacidade, Savaget também era muito sensível e, volta e meia, tinha crises de depressão. Todos esses elementos são contados com muita simplicidade nesse filme que faz a gente se apaixonar por Savaget por ela mesma, pelo que simplesmente ela é. O único problema que incomodou um pouco no filme foi no que se refere às entrevistas do documentário, pois optou-se por fazer um cenário muito escuro, com muitas molduras entulhadas num canto. A gente até entende a proposta estética da coisa, mas um primeiro olhar mais despreocupado dá a impressão de que as entrevistas foram feitas num depósito de coisas velhas, indo totalmente contra a grande vivacidade da homenageada pelo documentário. Mas isso não diminui a qualidade do resgate de Savaget e de sua trajetória pelo filme.

A diretora Emilia Silveira

Assim, “Silêncio no Estúdio” (onde o título desse filme é o mesmo de um dos livros escritos por Savaget) é um grande documentário que fala da trajetória de uma mulher notável que deu qualidade intelectual a um meio de comunicação visto por alguns como extremamente alienante, que é a televisão. A personalidade dessa senhora nos cativa instantaneamente e fica a vontade de ter aproveitado melhor aquele cotidiano longínquo de seus programas que a minha infância não os fez desfrutar direito. Uma pena.

Batata Movies – Em Pedaços. A Vingança Basta?

Cartaz do Filme

Um excelente filme que é co-produção Alemanha/França está em nossas telonas. “Em Pedaços” fala de dor, de vingança e de se tal vingança é capaz de aplacar uma dor muito grande. Esse também é um filme de denúncia, mostrando que a barbárie humana pode vir de qualquer lugar e não apenas de grupos que são vistos de forma marginalizada por aí. Também não podemos nos esquecer de que esse filme ganhou o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro.

Katja e o marido. Início de uma vida feliz.

Temos aqui a história de Katja Sekerci (interpretada por Diane Kruger), uma mulher alemã que casou com um imigrante de origem turca. Ele havia sido preso por tráfico de drogas, cumpriu a pena e voltou ressocializado para a liberdade e para os braços de sua esposa. Eles tiveram um filho e tocavam um negócio. Mas tudo veio por água abaixo, quando um atentado terrorista à bomba destruiu o escritório do casal, matando pai e filho. Katja mergulha, então, num redemoinho sem fundo e já havia cortado os pulsos quando seu advogado lhe liga e diz que um casal neonazista foi acusado de praticar o atentado. Assim, Katja reúne forças para ir ao julgamento e colocar os assassinos de sua família atrás das grades. Só que essa história ainda vai reservar muitas surpresas.

Logo, uma bela família é formada…

Esse é um filme sobre atentados terroristas que envolve muçulmanos. Mas, ao contrário do que o senso comum (e o preconceito) diria, o muçulmano é que é a vítima ao invés de algoz. O filme tem o grande mérito de denunciar o assassinato de muçulmanos na Alemanha por grupos neonazistas, algo que não é muito lembrado por aí. E o cinema cumpre sua função social de denúncia.

Descobrindo que sua família foi destruída…

Mas a película não é apenas isso, pois testemunhamos toda a via-crucis de Katja em todo o seu sofrimento, sendo algo muito dolorido, e dando a impressão de que nada, nem a condenação dos réus, poderá aplacar a sua dor. Não é à toa que esse filme também foi premiado em Cannes para melhor atriz. Diane Kruger conseguiu uma atuação bem convincente, em todo o seu esplendor e intensidade. Chorávamos com ela, sofríamos com ela, odiávamos com ela. Mas também ficou o alerta de que esses grupos neonazistas são muito bem articulados em toda a Europa, constituindo-se num perigo que os atentados terroristas de grupos islâmicos radicais encobrem devido à sua forte exposição na mídia. Às vezes, é melhor você se preocupar com os problemas que vêm de fora, enquanto que sua própria sujeira é varrida para debaixo do tapete.

Sofrimento no julgamento…

Esse é também um filme de julgamento, gênero que a gente não vê muito por aí hoje e que quando volta agrada, pois todo julgamento é um forte exercício de argumentação e retórica que, se bem construído, vale a pena ser assistido e acompanhado, o que é o caso aqui. Mas essa é apenas uma parte do filme que vai ter outros lances curiosos, mas não posso contar aqui em virtude dos spoilers.

Diana Kruger fez jus ao prêmio em Cannes

Assim, “Em Pedaços” é mais um bom filme que temos da Europa, que trabalha um tema atual – o terrorismo – mas que não fala do islâmico como vilão e sim como vítima. Nesse caso, o terrorista não vem de fora e está dentro de casa. Mais um filme de denúncia e de reflexão.

Batata Movies – Tomb Raider, A Origem. Uma Lara Croft Sem Glamour.

Cartaz do Filme

E estreou “Tomb Raider, A Origem” em nossas telonas. E, antes que algum fã já estranhe o título do texto, quero dizer que essa falta de glamour mencionada aí em cima é vista como algo extremamente positivo. Toda vez que a gente fala dessa famosa personagem dos games, nos lembramos imediatamente da atuação de Angelina Jolie. Só que, pelo menos no primeiro filme, me pareceu que vimos uma personagem altamente glamourizada. Não tive a oportunidade de vê-la nos joguinhos eletrônicos, mas a Croft de Jolie parecia um tanto marrenta e muito segura de si, vícios que já vimos em inúmeros heróis masculinos por aí, não sendo isso algo positivo nem para um gênero, nem para outro, além de Jolie esbanjar muita sensualidade para a personagem. Assim, aquela Croft de tempos pretéritos parecia um tanto plana e sem graça, ainda mais quando falava com seus antigos amigos de longa data, dando ao espectador a impressão um tanto desagradável de estar caindo de para-quedas na história.

Uma heroína mais humana…

Pois bem. Com todas essas referências um tanto negativas sobre Lara Croft no cinema, vamos nós para assistir a “Tomb Raider” de 2018, agora com a Alicia Wikander, premiada com o Oscar. As comparações serão inevitáveis. E o que pode ser dito desse novo Tomb Raider, que busca a origem de nossa heroína? Este foi um filme que deixou impressões muito positivas. Li em algum lugar, nessa floresta selvagem que é a internet, gente sentando o malho em Wikander, dizendo que ela não era boazuda como Jolie, parecia masculinizada, etc. Pura maldade. Mesmo que Wikander não tenha os atributos físicos de Jolie, sua Lara Croft teve muito mais essência. Creio que, por se tratar de um filme de “origem”, Wikander acabou tendo alguma vantagem nisso, pois sua Croft foi muito mais bem construída.

Mistérios arqueológicos. Saudades desse gênero…

E a face angelical da atriz contribuiu de forma positiva para a sua desglamourização. Ela não era uma heroína perfeita, acima do bem e do mal, totalmente artificial como a Croft de Jolie. Ela era muito mais humana, com suas virtudes, coragens, medos, traumas e mágoas. Uma menina levemente atrevida, mas também destemida e um pouco frágil. E Wikander consegue amarrar todas essas características muito bem, fazendo a gente comprar a personagem.

Procurando um pai desaparecido…

A história é relativamente simples. A moça, que sempre fora muito ligada ao pai desde cedo (interpretado por Dominic West) sofre com o sumiço dele depois que ele parte para uma ilha do Japão onde uma antiga rainha maligna foi sepultada. Com espírito arqueólogo, Richard Croft vai em busca do corpo dessa rainha. E desaparece. A moça, que precisa assinar uns papéis reconhecendo a morte do pai para assumir os negócios das empresas da família, se recusa a fazê-lo e começa a seguir uma série de pistas que Richard deixou. Ela consegue chegar à ilha depois de muitas saias justas. E aí…

Vilão canastrão…

Esse é um daqueles filmes de ação cheios de referências. Há muita porrada, bomba e tiro, há os mistérios arqueológicos a la Indiana Jones, há a cumplicidade entre pai e filha, há o vilão canastrão. Nada de muito novo e fora do convencional. Somente a presença de Wikander, que não temos o hábito de ver em produções desse tipo e a grande curiosidade de como ela encararia tal papel. De qualquer forma, é legal a gente ver um filme de aventura, pelas armadilhas das tumbas, pelos enigmas de antigas inscrições, pelo embate entre fé e razão.

Só um pouquinho de marra…

Dessa forma, “Tomb Raider, A Origem” é um filme que vale a pena ser visto, pois ele desmistifica o glamour montado em cima da personagem dos games quando da película feita por Angelina Jolie. Vikander nos dá uma Croft muito mais humana, sem perder o pique da ação. E é, também, um filme divertido, apesar de não apresentar nada de muito novo. Não deixe de assistir.