Batata Movies – Cartas Para Um Ladrão de Livros. Crime Como Ideologia?

Cartaz do Filme

Um curioso documentário brasileiro passou em nossas telonas. “Cartas Para Um Ladrão De Livros” mostra a trajetória de Laessio Rodrigues Oliveira, que frequentou o noticiário policial como o maior ladrão de obras raras do país há alguns anos. O filme mostra como Laessio começou sua vida no crime, inicialmente pegando revistas antigas em bibliotecas que tinham a imagem de Carmen Miranda, cantora da qual Laessio era grande fã. Com o tempo, Laessio descobre que há uma espécie de mercado, onde pessoas de condição social muito alta compram obras raras de todo o tipo, mantendo-as escondidas, já que elas não podem ser expostas, pois o crime seria revelado. Assim, Laessio transformou seu pequeno “passatempo” numa espécie de profissão e ele se especializou nos itens que eram roubados, adquirindo grande cultura geral. Laessio também fala de que ele seria incapaz de furtar algo de uma pessoa, mas que tem prazer em furtar coisas do Estado, já que este não cumpre com suas obrigações para com o povo. Segundo o protagonista do documentário, um figurão que compra uma obra rara furtada pode restaurar a mesma enquanto que o Estado não tem condições de fazer o restauro. Quando esse figurão morre, a obra acaba voltando para o Estado. O documentário também explorou bastante a opção sexual de Laessio, declaradamente homossexual e enfatizou seus relacionamentos enquanto esteve confinado na prisão.

Laessio,

Preferências sexuais à parte, e por se tratar de um personagem altamente polêmico, mesmo que o documentário dê muita voz ao personagem protagonista (como não deveria deixar de ser), o diretor Carlos Juliano Barros também entrevistou pessoas “do outro lado” ou seja, a diretora do Arquivo da Cidade do Rio de Janeiro, Beatriz Kushnir, assim como funcionários do arquivo que estavam revoltados com os furtos praticados por Laessio, e o delegado da Polícia Federal que conduziu as investigações, para deixar bem claro qual é o prejuízo à sociedade de um crime dessa natureza. Outro detalhe bem curioso é como a única pessoa que se deu mal com todo o episódio foi o próprio Laessio, com os figurões que compravam suas obras permanecendo completamente anônimos e ainda ameaçando o diretor do documentário de processo na justiça caso tivessem seus nomes divulgados. Já Laessio foi preso várias vezes nos últimos anos.

No Real Gabinete Português de Leitura

De qualquer forma, se algumas das obras raras foram jamais recuperadas, outras, por sua vez, voltaram aos arquivos, mostrando que os esforços de investigação não somente da Polícia mas da própria diretora do Arquivo da Cidade do Rio de Janeiro, surtiram efeito. A gente só não pode se esquecer de que o furto de obras raras impossibilita que pesquisadores de nossa memória e de nosso passado entendam um pouco melhor a construção de nosso país e de nossa identidade e isso prejudica em muito a compreensão de nós mesmos.

Vida pessoal muito explorada no documentário…

Por isso, apesar da imagem aparente de glamourização de Laessio no documentário, não podemos nos esquecer de que este é um crime grave, pois lesa a nossa já combalida memória nacional. Mesmo assim, vale a pena dar uma olhada no documentário e o espectador deve tirar suas próprias conclusões.

Batata Movies – Jovem Mulher. Uma Menina Perturbada E Um Gato.

Cartaz do Filme

Um filme francês muito curioso passou em nossas telonas. “Jovem Mulher” é uma daquelas películas que fala de pessoas que não se enquadram muito bem nas regras e convenções impostas pela sociedade e que acabam vivendo largadonas por aí, sem qualquer perspectiva de vida e ao sabor dos acontecimentos. Um filme que pode ser uma tortura para os mais metódicos.

Paula, a menina maluquinha…

Vemos aqui a história de Paula (interpretada por Laetitia Dosch), uma moça bem perturbada que está em crise com o namorado e acaba ficando internada provisoriamente numa instituição psiquiátrica. Depois da internação, ela tenta voltar ao apartamento de seu companheiro, que não a deixa entrar. A moça vê o gato do namorado na rua e acaba o levando. Andando pela noite, ela fica por aí, aqui e ali, dormindo na casa de amigos ou até de desconhecidos, além de hotéis baratos. Completamente sem rumo, Paula precisa reconstruir sua vida, fazendo bicos de babá e trabalhando numa loja de departamentos. O filme transcorre nessa montanha russa de emoções, onde as pessoas que entram e saem da vida de Paula acabam definindo novos rumos para a sua vida.

com o gato do namorado…

O filme foi classificado por aí como comédia dramática. Mas, cá para nós, de comédia esse filme não tem nada, muito pelo contrário até. Ele é um drama psicológico bem pesado, onde uma moça completamente perdida vai se equilibrando como pode nas agruras da vida, ora recebendo uma parca ajuda de alguém, ora nem isso. A sensação que temos é a de que Paula tem uma estrutura muito frágil que entrará em colapso a qualquer momento, e isso é algo extremamente angustiante, até porque a própria personagem é contra uma filosofia de vida mais estável e prefere uma vida mais galgada ao sabor dos acontecimentos. O problema é que a coisa toda acaba ficando muito instável e muitos momentos da vida de Paula se tornam um verdadeiro martírio, até porque ela não consegue se enquadrar nas convenções sociais, passando muitas vezes uma imagem até meio infantil.

Vida ao sabor dos acontecimentos…

Do jeito que a coisa é conduzida na narrativa, fica a impressão de que essa forma mais “livre” de se encarar o mundo é vista como negativa pelo filme, pois a própria personagem alimenta um discurso um tanto libertário mas tem a plena consciência de que precisa imediatamente de alguma estabilidade em sua vida. Visão conservadora? Talvez. Mas é interessante notar como a película trabalha esses dois pólos à medida que a trajetória da protagonista se desenrola. Num momento, ela abomina a palavra “livre”, pois significa que ela está sozinha. Mas, em outro momento, ela trata esse termo com bastante indiferença.

Doidinha na entrevista de emprego…

Apesar de termos uma película que é um choque de realidade e termina com um anticlímax, o desenrolar do roteiro não é enfadonho e prende a atenção do público, mesmo sendo algo não espetacular (salvo em poucos momentos). Isso deve acontecer, pois é uma história com a qual nos identificamos, pois conhecemos alguns exemplos reais do que vemos no filme por aí.

Aos poucos, ela encontra amigos…

Assim, “Jovem Mulher” é um drama que fala da vida real de forma nua e crua, algo que pode angustiar bastante. É um filme cujo roteiro parece tomar partido por uma vida mais metódica do que sonhadora. Um filme que não deixa o espectador ficar sem pensar e que, por isso, merece a sua atenção.

Batata Movies – 120 Batimentos Por Minuto. Vida Em Tempos De AIDS.

Cartaz do Filme

Um polêmico filme francês passou em nossas telonas. “120 Batimentos Por Minuto”, de Robin Campillo,  que ganhou o Grande Prêmio do Júri em Cannes, nos leva aos anos 80 na França para testemunharmos as ações do grupo Act Up, que defendia que os infectados pelo vírus HIV tivessem acesso mais rápido e fácil a novos medicamentos desenvolvidos por laboratórios que, aparentemente, visavam apenas ao lucro. Vale lembrar que, naquela época, havia pouquíssimas drogas que davam um tratamento apenas parcialmente eficaz e que traziam efeitos colaterais desagradáveis, como o AZT.

O diretor Robin Campillo

O Act Up fazia ações volta e meia radicais, como invadir os escritórios de laboratórios e sujar tudo com um sangue artificial, invadir escolas e fazer campanhas de prevenção na marra, etc., tudo isso sob a alegação de que o tempo dos infectados era muito pouco e que eram necessárias ações mais rápidas para combater o problema que tinha dimensões de saúde pública (segundo o que foi falado no filme, a França daquela época era o país da Europa com o maior número de casos de AIDS, o que não podia em hipótese alguma ser negligenciado pelo governo).

Manifestações com sangue artificial

Outro ponto interessante do filme foram as reuniões que o grupo fazia, mostrando uma diversidade de opiniões que nem sempre se relacionavam de forma harmoniosa. Apesar de muitos momentos de conflito, ainda assim a gente podia ver como era o debate de um grupo de pessoas muito esclarecidas, algo que não acontece com muita frequência por aqui, infelizmente. Foi curioso, também, perceber a quantidade de homossexuais no grupo. Sabemos que o filme é datado e que hoje a AIDS está muito mais difundida em vários segmentos sociais.

Reuniões onde as opiniões eram expostas e votadas…

Mas o filme deu um pouco a impressão de que a AIDS era uma doença restrita muito mais ao mundo gay do que a outros, embora a película tenha dito reiteradas vezes que qualquer um possa se infectar. Talvez tivesse sido melhor mostrar não somente como a AIDS atingia os homossexuais, mas também os heterossexuais.

Momentos de affair….

Uma coisa que provocou muito impacto foi mostrar o desenvolvimento da doença e como ela definhava as pessoas violentamente naqueles dias (não que isso não aconteça hoje, isso tem que ficar bem claro). Isso se deu de forma fictícia, onde foi mostrado todo o processo de morte lenta de um dos personagens do filme, Sean (interpretado por Nahuel Pérez Biscayart), como de forma real, quando vimos a foto de um casal gay americano infectado, onde um dos membros do casal estava extremamente debilitado e desfigurado pela doença. Talvez essa seja a parte mais importante do filme, pois depois do terror mundial que a doença provocou, os dias de coquetel, mesclados às novas gerações que não presenciaram aqueles dias dos anos 80 e 90, trouxeram uma nova vida de descuidos e o aumento do número de infectados. Relembrar todo o mal da AIDS no filme é um choque necessário que as pessoas precisam sofrer, fazendo a película cumprir sua função social.

Em Cannes, os atores Arnaud Valois, Adèle Haenel e Nahuel Pérez Biscayart 

Assim, “120 Batimentos por Minuto” é um filme muito importante que nos faz relembrar de todas as mazelas da AIDS e notar que a doença ainda está por aí e é muito perigosa. É uma prova de que o cinema pode ser uma arte útil, do ponto de vista de denúncia de uma situação que parece que muitos não enxergam mais.

Batata Movies – Assim É A Vida. Montando Um Casamento.

Cartaz do Filme

A dupla Eric Toledano e Olivier Nakache (de “Os Intocáveis”) está de volta com a boa comédia “Assim é a Vida”. Desta vez, os diretores e roteiristas se superaram em fazer rir. No filme “Intocáveis” já tivemos uma boa comédia, embora houvesse pitadas de drama em alguns momentos. Já em “Assim é a Vida”, deu-se liberdade total à arte de fazer rir.

Max (centro). Muito estressado  com seus empregados…

O enredo da película é muito simples. Uma pequena empresa organiza uma festa de casamento num castelo do século XVII e vemos os bastidores dessa organização. Temos uma grande equipe liderada por Max (interpretado por Jean-Pierre Bacri), um chefe bem estressado. Também pudera. Sua trupe de funcionários provoca as mais confusas situações, colocando nosso patrão em maus lençóis várias vezes. A organização da festa em si é uma sucessão de problemas para se resolver, onde todos correm contra o tempo. E, para piorar, o noivo (interpretado por Benjamin Lavernhe) é, ainda, um cara extremamente exigente, egocêntrico e até megalomaníaco, o que somente coloca mais pressão em todos.

Um noivo malucão…

Contado dessa forma extremamente simplória (até para se evitar os spoilers), a coisa parece muito sem graça. Mas Toledano e Nakache conseguem transformar o filme em algo muito divertido, onde a comédia vai paulatinamente tomando conta da película até o momento da festa em si, onde a sequência de eventos provoca gargalhadas no público. Outra coisa que ajudou muito o filme foi a grande variedade de funcionários e, consequentemente, de bons personagens e oportunidades diferentes para se fazer rir, deixando a comédia sempre com um ar de ineditismo.

Um fotógrafo que odeia celulares…

E até as piadas repetidas foram inseridas na película em horas oportunas, o que só serviu para melhorar a comédia. Dentro dos vários personagens do filme, podemos destacar um fotógrafo que se irrita com pessoas tirando fotos pelo celular quando ele trabalha, um garçom que é apaixonado pela noiva (ela é uma antiga colega de escola dele), uma mãe do noivo toda deslumbrada, um músico grosseirão e inconveniente (magistralmente interpretado por Gilles Lellouche), um garçom que não sabe cortar robalo (na verdade, ele nem sabe que um robalo é um peixe), dois paquistaneses que riem das situações mais constrangedoras (até porque não sabem falar francês direito) e outros casos.

Um vocalista muito inconveniente…

Assim, se você está com vontade de curtir uma boa comédia de dois competentes diretores e roteiristas do cinema francês atual, não deixe de ver “Assim é a Vida”. Embora haja no elenco poucos nomes conhecidos pelo público brasileiro de atores, todos eles trabalharam muito bem, não deixando o ritmo do filme cair e provocando muitos risos no espectador. Vale a pena dar uma conferida nessa boa película francesa.

Batata Movies – 15h:17 Trem Para Paris. Uma História Real Um Tanto Morna.

Cartaz do Filme

Clint Eastwood está de volta em seu novo filme “15h:17 Trem Para Paris”. Temos aqui mais uma película inspirada numa história real. Mais um filme de qualidade dirigido por  Eastwood. Só que temos uma história principal meio que morninha, apesar de heroica. Toda a vez que a gente pensa em algo heroico (o trailer dizia que o filme era inspirado numa história real com heróis reais), a gente acha que algo de muito espetacular vai passar nas telonas. Mas nem sempre a vida imita a arte.

Um herói real…

Bom, temos aqui a história de três amigos de infância, Anthony Sadler, Alek Skarlatos e Spencer Stone (interpretados por eles mesmos, os tais “heróis reais”), cujas trajetórias foram um tanto tortuosas, sobretudo na infância. Crianças problema e mimados pelas mães, os garotos não conseguiam se adaptar a nada, mas pelo menos dois deles alçavam a carreira militar e enveredaram por esse caminho. O filme mostra a trajetória de nossos protagonistas até o momento em que eles decidem viajar pela Europa juntos e, no tal trem para Paris, testemunham uma tentativa de atentado terrorista. E aí, não posso dar mais detalhes para evitar os spoilers.

Uma viagem, com outro herói…

Devo dizer que o filme é dividido em algumas partes: a infância dos protagonistas, a vida adulta deles e a viagem em si. E, de todas essas partes, a mais instigante é justamente a da infância, onde os meninos não se enquadravam. O filme dá a entender que houve uma educação meio frouxa das mães e de que a escola foi negligente com os meninos, no sentido de que apenas praticavam punições com qualquer indiferença com relação aos alunos. E, se dessem um problema mais sério, recomendavam às mães coisas desde medicações até a expulsão sumária. E as mães sempre discordavam da fala da escola, deixando os meninos meio largados.

Um terceiro herói, entediado…

Sei não, mas essa pareceu mais uma versão dos protagonistas, pois a coisa pareceu plana e simplória demais, tanto da parte das mães como da parte da escola. Como vimos a trajetória dos alunos em mais de uma escola, fica um pouco difícil avaliar que o comportamento das duas tenha sido tão uniforme assim. De qualquer maneira, é interessante ver em que ambiente os meninos se formavam, onde o militarismo e a paixão às armas era algo considerado supernormal, e o coleguinha podia manusear rifles, fuzis e pistolas livremente na casa do amigo. Do jeito que isso foi mostrado, pareceu que evocou um tom de crítica a essa visão bélica daquela sociedade americana. Mas, ainda assim, o filme levou essa história num tom muito normal, até porque depois tal belicismo infanto-juvenil não foi mais recordado, mesmo que a carreira militar tenha sido mais enfocada. Nosso senso comum diz que tal cultura bélica americana é um celeiro de psicopatas que dizimam pessoas em shoppings, supermercados, escolas e universidades. Mas depois da infância, todos levaram uma vida normal, sem qualquer paranoia adicional. Ou seja, brinca-se com armas o tempo todo nos Estados Unidos, mas psicopatas somente são uma exceção. Dá para acreditar nisso? Difícil de dizer.

Mas aí, surge o terrorista!!!

Pelo menos, essa foi uma história de redenção de um de nossos protagonistas. Spencer Stone, o personagem no qual o filme foi focado, era tido como o garoto problema por excelência e tomou um tremendo puxão de orelha da mãe numa de suas estripulias. Arrependido, o menino reza à beira da cama a Oração a São Francisco (como todo bom cristão católico) implorando a Deus para ser um instrumento da paz divina. E. alguns anos depois, o menino teve a sua chance. O mais engraçado é que tal oração ficou famosa aqui no Brasil como exemplo de clientelismo e corrupção há alguns anos (sobretudo a parte do “… é dando que se recebe…”).

Eastwood e os “heróis reais”…

No mais, o filme teve uma pegada pouco estimulante, talvez pelo fato da história ser focada mesmo no episódio do trem. O problema é que a gente compara esse filme com outras películas dirigidas por Eastwood, que muitas vezes se inspiraram em histórias reais muito fantásticas ou que tiveram roteiros muito bem escritos. E aí a gente acha esse filme um pouco menos interessante e até enfadonho em alguns momentos.

Nosso estimado diretor fazendo o filme com seus personagens reais…

De qualquer forma, sempre vale a pena ver o trabalho desse diretor que se revelou um diretor de mão cheia com os anos, fazendo algo um pouco mais convencional e menos espetacular. Vá, mas não espere o padrão dos filmes anteriores.

Batata Movies – Cora Coralina, Todas As Vidas. Uma Trajetória Magistral.

                   Cartaz do Filme

Mais um bom documentário brasileiro. “Cora Coralina, Todas as Vidas”, busca descrever com riqueza de detalhes a trajetória dessa grande figura brasileira e, sobretudo, goiana. Uma mulher nascida no fim do século retrasado, que teve uma vida relativamente simples, mas não menos emocionante. Uma mulher de letras, que se informava lendo tudo o que podia, algo que a transformou numa escritora simplesmente magistral. Classificada como poetisa, seus escritos eram altamente descritivos, o que fazem os especialistas da área tomá-la como uma transição entre a prosa e a poesia, entre o épico e o lírico.

Uma poetisa muito importante da literatura brasileira…

O diretor Renato Barbieri conseguiu conduzir o filme de uma forma maravilhosa, onde ele, assim como a escritora, mescla gêneros. Se a gente tem a parte documentário do filme, com entrevistas de especialistas e até de filhos da poetisa, por outro lado, temos uma cara de filme de enredo, pois a personagem Cora é interpretada por várias atrizes como Tereza Seiblitz e Walderez de Barros, sendo essa parte tomada por grandes momentos de sensibilidade e beleza. O documentário e o filme de ficção dão as mãos na película para justamente traçar com muita eficiência a trajetória de Cora. Mas o documentário não fica apenas nesses dois pólos. Podemos testemunhar, também, figuras como Camila Màrdila, Beth Goulart e Zezé Motta declamando os textos da poetisa, com certeza a grande atração do filme, pois suas palavras conseguem descrever com precisão altamente racional tudo o que ela via e vivia, mas essa precisão é ornamentada por uma beleza toda singular do texto.

                                                            Tereza Seiblitz: uma Cora jovem

A descrição não é fria, ela sempre vem seguida de uma reflexão que toca emocionalmente a alma. Ainda, o filme traz como uma espécie de bônus imagens de arquivo com depoimentos da própria Cora Coralina sobre vários assuntos, indo desde coisas de sua vida pessoal (uma artista também em fazer doces de frutas que chegaram até ao Papa, no Vaticano), até reflexões mais básicas sobre a vida, como a importância de se fazer tudo (até arear uma panela) da melhor forma possível e com muito amor. Todos esses elementos interagem entre si e dão uma química poderosa a todo o filme, que se torna uma espécie de documento e testemunho dessa importante escritora brasileira muito celebrada, principalmente depois que Carlos Drummond de Andrade a descobre e escreve um artigo sobre ela em sua coluna de jornal e que não pode cair no esquecimento.

  Walderez de Barros interpreta Cora na terceira idade…

Assim, “Cora Coralina, Todas as Vidas” é um daqueles documentários fundamentais, sendo uma preciosa joia que deve ser preservada e guardada, pois fala da vida de uma pessoa com depoimentos e belas encenações. Um documentário que fala de uma figura ímpar da literatura, considerada por alguns a maior personalidade da História do Estado de Goiás. Um filme de cinema com “F” maiúsculo, que consegue transpirar afeto e emoção. Um programa imperdível.

Batata Movies – Antes Do Fim. A Vida Como Prisão?

                               Cartaz do Filme

O cineasta belga radicado no Brasil Jean Claude Bernardet, conhecido também por ser um estudioso do cinema brasileiro, com livros de sua autoria publicados sobre o assunto, chega em mais um filme para nós. “Antes do Fim”, dirigido por Cristiano Burlan é, acima de tudo, um filme que pensa a vida, ou a morte. Do alto de seus 81 anos, chega a hora em que o ser humano precisa fazer aquela pausa, aquele “fechado para balanço”, onde se olha para trás e para frente, buscando colocar as ideias em ordem e ver quais rumos o pouco tempo que resta deve tomar.

                                 Um casal num momento decisivo da vida…

E aí, nosso intrépido protagonista (interpretado por Bernardet) toma a decisão com muita serenidade: é melhor pôr logo um fim a tudo, saindo de cena bem, antes que as mazelas provocadas pelas doenças o coloquem numa existência lastimável pouco antes do inevitável. Para colocar seu plano em prática, ele contará com a ajuda de sua companheira de praticamente toda a vida (interpretada por Helena Ignez). Entretanto, a longevidade pode ser mesmo uma prisão? Não seria melhor aproveitar intensamente o tempo que resta para curtir toda a vida em sua plenitude? Essas são as questões que o filme coloca, da forma mais velada possível.

                                                                             O filme é arte pura…

E por que isso ocorre de forma tão velada? Porque a película de Burlan é arte pura, onde o narrativo tradicional ocupa um pequeno lugar em detrimento ao estético. Para começar, o filme é rodado em preto e branco, algo que já lhe ajuda a render uma linda fotografia. Em segundo lugar, há um quê bem performático, com sequências onde movimentos corporais altamente sensuais e sinuosos enchem a tela com toda uma delicadeza. O que mais impressiona é que a beleza dessa dança não fica em nada abalada pelos corpos já idosos dos atores. Em nossa mente preconceituosa com “os mais velhos”, um número de dança, a princípio, não pareceria “bonito” se feito por corpos mais idosos. A plasticidade do novo seria mais adequada à essa estética da dança. Bernardet e Ignez provam, de forma contundente, que tudo isso é uma tremenda falácia e conseguem trazer toda uma beleza às sequências onde o corpo se expressa.

O filme também tem um toque de humor, ao brincar com a própria morte, na sequência onde o casal vai comprar um caixão na funerária para o suicídio.  Aqui há uma homenagem ao cinema mudo e às comédias pastelão, com uma simulação de uma briga entre o personagem de Bernardet com o dono da funerária, num verdadeiro tom de deboche com o inevitável.

                                                                  A dança como plasticidade…

Esses dois pequenos exemplos são só uma amostra de como o filme, com sua narrativa fragmentada e com a arte bem coesa e a mil, consegue trabalhar a questão da vida, da morte e da passagem do tempo. Definitivamente, um tema para se refletir, já que, cedo ou tarde, todos nós estaremos em tal encruzilhada. Tal filme é um bom exemplo e referência para lançarmos mão quando chegarmos ao ponto de nossas vidas em que faremos tal avaliação. Mais uma vez, o cinema mostra que o melhor filme é aquele que te faz pensar. Apesar de se algo pouco convencional, o que pode causar um certo estranhamento quando se começa a ver, “Antes do Fim” merece uma conferida, não somente por tratar de temas tão universais quanto a vida e a morte quanto pela simpatia do casal que dá uma careta para a velhice e ainda brinca com a vida.

Batata Movies – Operação Red Sparrow. Uma Trama de Espionagem Como Antigamente.

                  Cartaz do Filme

Você se lembra daqueles filmes de espionagem mais antigos onde as cenas de ação e de explosão não eram a parte mais importante da coisa, mas sim a trama complexa, que exigia uma atenção desmedida do espectador? Pois é, esse é o ritmo de “Operação Red Sparrow”, um filme de espionagem que, podemos dizer, tem esse espírito “das antigas”, mas traz uma atriz que de antigo não tem nada, pelo contrário, estando muito na crista da onda, que é Jennifer Lawrence.

       Uma Jennifer Lawrence muito sensual…

Vemos aqui a história de Dominika Egorov (interpretada por Lawrence), uma bailarina russa do Bolshoi, que sofre um acidente numa apresentação e fica inutilizada para dançar. Ela vai receber a visita do tio, Vanya (interpretado por Mathias Schoenaerts), que trabalha no Serviço Secreto Russo. Ele lhe propõe fazer parte de uma emboscada para um criminoso em troca de ajudá-la nas despesas de sua casa e de sua mãe doente. A moça era considerada muito esperta pelo tio, além de ter uma propensão, digamos, um pouco violenta, requisitos suficientes para trabalhar na espionagem. Como a moça testemunhou o assassinato de seu alvo na missão, ela precisa ficar permanentemente ligada à espionagem e ao tio para não ser morta como queima de arquivo. Assim, Dominika iniciará seu treinamento como espiã e participará de missões onde ela vai percorrer os mais perigosos caminhos.

                                                 Se envolvendo com um espião americano…

E vai ser nestes caminhos perigosos que a trama irá se desenrolar, montando um quebra-cabeça na mente do espectador onde lhe faltam as peças e caberá a quem assiste ao filme a procurar as peças perdidas e encaixá-las da forma mais conveniente possível para a elucidação da trama. O problema é que isso fica tão tortuoso que devemos dispensar ao filme uma atenção maior do que a que estamos acostumados a dispensar com qualquer outra película um pouco mais convencional. Isso pode parecer um pouco enfadonho para uns, e instigante para outros. O problema é que a maioria dos filmes comerciais de hoje em dia não têm uma preocupação mais aprofundada com a reflexão e preferem a ação com direito a muita bomba, porrada e tiro, coisa que esse filme definitivamente não tem em abundância.

                                A cara do Putin…

É uma outra película que prima pelo elenco bem escolhido. Lawrence estava um poço de sensualidade, até com alguns toques de erotismo, não diminuindo, entretanto, a sua relevância como protagonista, nem a forma como ela conduziu sua personagem. Mas tivemos, também, atores de um quilate de um Jeremy Irons e de uma Charlote Rampling, que roubavam e muito a cena nos poucos momentos em que apareciam. Tivemos, também, Joel Edgerton, fazendo um espião americano que se envolve com Dominika, mas creio que ele não esteve muito à altura de Lawrence e dos outros atores citados aqui.

                  Boa presença de Jeremy Irons…

Não podemos nos esquecer da atuação do excelente Mathias Schoenaerts, que, ao interpretar o tio Vanya de Dominika, estava a cara do próprio Putin. Aliás, o cinema americano continua fazendo das suas estripulias, ao rotular os russos como nos tempos do comunismo; eles ainda matam os “traidores” que os desobedecem, fumam, são ardilosos e não medem esforços em ser úteis ao Estado, mesmo que precisem ser amantes de alvos totalmente repugnantes (afinal de contas, não se entregar a um homem que provoca inteira repugnância não é nada mais do que um capricho burguês que não se pode tolerar; a entrega ao estado deve suplantar todos esses sentimentos burgueses). E aí, o filme cai nos velhos clichês de produções de época da Guerra Fria, se bem que essa era mesmo a intenção, sobretudo quando a personagem de Rampling diz que a Guerra Fria ainda não havia acabado.

                                                                     … e de Charlote Rampling…

Assim, “Operação Red Sparrow” não é exatamente o filme de ação que você deseja, mas ainda assim é uma película que vale a pena ser vista, pois encena uma trama de espionagem “das antigas”, ou seja, com mais roteiro reflexivo e menos ação. Pelo contexto de hoje, até se torna uma coisa meio diferente, mas já vimos histórias de espionagem desse naipe em outros carnavais. Vale a pena dar uma conferida, até porque recordar é viver.