Batata Movies (Especial Oscar 2018) – Lady Bird, É Hora De Voar. Impossível Não Se Identificar.

                                                                               Cartaz do Filme

Continuando nossa saga de analisar os filmes indicados ao Oscar, falemos hoje de “Lady Bird, É Hora de Voar”, que concorre a cinco estatuetas (Melhor Filme, Melhor Atriz para Saoirse Ronan, Melhor Atriz Coadjuvante para Laurie Metcalf, Melhor Direção para Greta Gerwig e Melhor Roteiro Original, também para Greta Gerwig). Além disso, o filme também levou o Globo de Ouro de Melhor Filme de Comédia ou Musical e Melhor Atriz de Musical e Comédia para Saoirse Ronan. Ou seja, mais um medalhão e páreo duro para a noite de premiação. Antes de mais nada, vejo esse filme como um grande enigma em termos de premiação, pois ele parece não ser grande coisa e está sendo muito celebrado. O que acontece aqui então?

                                                            Uma menina doce e espevitada…

Bom, a película conta a história de uma menina de Sacramento, Califórnia, de nome Christine McPherson (interpretada por Ronan), que adota o pseudônimo, considerado por muitos estranho, de Lady Bird. Podemos dizer que a moça é uma pós-adolescente que ainda não amadureceu de todo e é muito encucada com várias coisas, sendo a típica garota enxaqueca de tão chata que é. Ela vive às turras com sua mãe (interpretada por Laurie Metcalf). Tudo levava a crer que se tratava de um típico drama adolescente, onde devemos ver a garotinha perdida com uma certa complacência, pois os hormônios funcionando a mil não deixavam ela ter muito a consciência do que fazia. Ou seja, uma típica história para lá de sacal e barata.

                        Conflitos com a mãe…

Só que o filme não é somente isso (apesar de, inicialmente, ter-se a impressão de que ele será apenas isso mesmo). A menina chata, que pensa grande, pois ela quer ir para uma grande Universidade Americana, algo que praticamente ninguém põe fé (até os seus familiares), vai aos poucos revelando seus sonhos e fragilidades no meio em que ela vive, paulatinamente conquistando o espectador de forma arrebatadora já que, em algum momento de sua trajetória, a gente se identifica com a moça e começa a compreendê-la debaixo de todo aquele véu de chatice adolescente.  Para começar, ela vive numa família que a própria moça intitula que está no “lado ruim da linha do trem”, ou seja no lado onde vivem pessoas de um estrato social mais baixo, ao contrário das mais ricas que moram do outro lado. Isso já a torna de cara uma outsider, o que muito incomoda a moça.

                                                                      Experiências de vida…

Ela tem uma amiga bem gordinha, também outsider e fragilizada por sua condição. Todos os jovens dessa comunidade (seja do lado de lá ou do lado de cá da linha do trem) frequentam uma Escola Católica e Lady Bird participa de várias experiências como o grupo de teatro, o primeiro namorado, a primeira vez e a tentativa de inclusão no grupo dos riquinhos descolados do colégio. Isso leva a menina a muitas esperanças e decepções que a amadurecem. Ou seja, vemos uma trajetória que é uma sucessão de lições de vida que nos fazem reavaliar nosso próprio passado à medida que o filme vai sendo exibido. A diretora e roteirista Greta Gerwig faz isso de uma forma muito afetuosa, levando o espectador a comprar a ideia, mesmo que Ronan parecesse com mais idade para o papel. Sei lá, a impressão que ela tinha dado em “Brooklyn” foi a de uma moça um pouco mais madura. Talvez essa diferença de idade seja até benéfica para a atriz, pois a gente realmente vê uma pós-adolescente imatura em sua atuação e acredita nela.

                                                                 Com a amiguinha outsider…

Assim, pelo número de estatuetas indicadas e pelos prêmios do Globo de Ouro, de repente um filme com cara de azarão tem mais tarimba para fazer bonito na noite de premiação. Esse é, sobretudo, um filme de atores, cujo elenco também não deixou a desejar. Vale a pena dar uma conferida.

 

Batata Movies (Especial Oscar 2018) – Mudbound. Lágrimas Sobre o Mississippi. Lutando Dentro E Fora De Casa.

                               Cartaz do Filme

Dando sequência às análises dos filmes indicados ao Oscar, vamos falar hoje de “Mudbound. Lágrimas Sobre o Mississippi”, que concorre a quatro estatuetas (Melhor Atriz Coadjuvante para Mary J. Blige, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Fotografia e Melhor Música Para filme, competindo com a música “Mighty River”). Essa é mais uma boa história que aborda a questão do racismo nos Estados Unidos durante uma época que podemos considerar um tanto especial: a da Segunda Guerra Mundial.

      Dois amigos unidos pelo trauma da guerra

O enredo da história é um tanto simples. Uma família branca, outra negra. Ambos moram numa fazenda de propriedade da família branca. Estamos em meados da década de quarenta no Mississippi. A família negra aluga a terra em que vive, mas paga o aluguel com sua produção agrícola. Apesar de serem inquilinos, a família negra é tratada de uma forma, digamos, escravocrata pela família branca. Esse equilíbrio delicado vai sendo levado no dia-a-dia, até que chegamos à situação em que um membro de cada família vai para a guerra lutar contra o nazismo. Os dois membros de cada família sobrevivem e voltam para casa, encontrando um Mississippi provinciano, opressor e extremamente racista, bem ao sabor dos seus inimigos nazistas que combatiam na Europa. Com o mesmo inimigo no seio de seu lar, esses dois homens se conhecem, se identificam por seus traumas de guerra e irão se unir para conviver com toda a paranoia contra a qual lutavam no Velho Continente.

                                                            Um patriarca extremamente racista

Essa coisa de lutar contra uma raposa com outra mais felpuda ainda dentro de seu galinheiro é uma coisa a se pensar. Se considerarmos “Mudbound” como um filme de guerra, ele sai daquela dicotomia e maniqueísmo mocinho/bandido da grande maioria dos filmes de guerra. É difícil ver uma película desse gênero que não demonize o inimigo, embora, por ser muito vasta a filmografia sobre esse tema, a gente encontre alguns exemplos (como “O Pianista”, de Polanski), sempre muito bons. Mas em “Mudbound”, a coisa é muito mais gritante, pois o inimigo nazista não tem rosto, enquanto que a face do racismo do Mississippi é pintado em cores bem vívidas, sobretudo no patriarca da família (interpretado por Jonathan Banks), que não esconde de ninguém o ódio pelos negros. Por isso mesmo, há passagens de “Mudbound” que são extremamente repulsivas, algumas delas pelo constrangimento que a família negra é obrigada a passar, onde a individualidade e a liberdade de seus membros sempre é posta em xeque, mas há outros momentos repugnantes de violência extrema que arrebatam o filme, até então muito tenso, mas ainda não visceral. É, sem dúvida nenhuma, mais um filme de ódio do que de guerra.

                                                   A mãe que vê o filho indo para o covil dos lobos…

E os atores? Além da boa interpretação de Banks, que faz a gente odiar seu personagem com todas as nossas forças e do fundo da alma, tivemos Carey Mulligan, que se destacou como protagonista em “As Sufragistas”, fazendo a esposa da família branca, trazendo um pouco (somente um pouco) de tolerância para com a família negra. Já a mãe da família negra, Mary J. Blige, recebeu a indicação para atriz coadjuvante e foi muito bem, embora o pouco tempo de tela, se analisarmos todo o contexto do filme possa prejudicar a avaliação de seu talento. Esse é um filme de muitos atores, rostos e personagens, onde parece que cada um deles pega um pedacinho da película para si e logo abandona em favor de outro ator. Isso incomodou um pouco e meio que fragmentou um pouco a narrativa, apesar do fio condutor dos dois combatentes, que foram bem mas são um tanto desconhecidos (Garrett Hedlind e Jason Mitchell).

                                           A mãe que é solidária somente quando possível…

Assim, “Mudbound. Lágrimas Sobre o Mississippi” é mais um bom candidato ao Oscar, embora essa película pareça correr por fora em relação a filmes como “A Forma da Água” ou “Três Anúncios Para Um Crime”. De qualquer forma, mesmo que ela não faça bonito no Oscar, já o fez por tocar numa ferida da sociedade estadunidense que jamais deve ser esquecida: o racismo crônico, declarado e latente de um povo que se diz o maior defensor da democracia e da liberdade. E comparar esse defeito imperdoável com o nazismo é uma jogada de mestre. A repugnância da película em alguns momentos choca o espectador, como se ele tomasse mesmo um tapa na cara. Você sai incomodado da sala, pois passa por emoções muito fortes num intervalo de tempo muito pequeno mais ao fim da exibição. Por isso mesmo, essa película merece muito respeito como obra artística que é, independentemente de qualquer prêmio.

 

Batata Movies – Os Iniciados. Tradição E Modernidade No Interior Da África Do Sul.

                  Cartaz do Filme

Um curioso filme passou em nossas telonas. “Os Iniciados” fala de tradição. Mas também fala de modernidade. Mais uma película que trata do embate entre esses dois pólos, trabalhando, dessa vez, a modernidade como algo mais positivo que a tradição. É um filme que trata, ainda, da questão do homossexualismo.

                               Xolani tem uma importante missão…

Vemos aqui a história de Xolani (interpretado por Nakhane Touré), um homem do interior que foi incumbido de levar um adolescente da cidade grande para o interior com o objetivo de orientá-lo num ritual de iniciação que o transformará em… homem (!). Tal ritual consiste numa violenta circuncisão à sangue frio, que deixa um grande ferimento que deve ser tratado num espaço de duas semanas. Enquanto tratam de seus ferimentos, os iniciados participam, junto de seus orientadores, de uma série de outros rituais que os transformarão em homens.

                                                  Mestre e aprendiz…

Até aí, descontando a violência da circuncisão, tudo bem. O problema é que Xolani é homossexual e tem um caso com outro orientador, Vija (interpretado por Bongile Mantsai). Como o iniciado de Xolani também é homossexual e está ali muito a contragosto, e o rapaz percebe o caso dos dois orientadores, dá para perceber como o relacionamento entre esses três personagens será uma espécie de bomba relógio nesse ambiente regado à muita testosterona.

  Um jovem da cidade perdido num ritual tribal…

O embate entre tradição e modernidade se manifesta aqui de várias formas: o campo e a cidade (onde o iniciado de Xolani é visto com preconceito pelos outros iniciados por ser da cidade e o próprio iniciado vê os outros com preconceito por estarem tão atrelados àqueles rituais); a cultura homossexual e heterossexual; a tecnologia e a vida silvícola. Esses pólos não se manifestam de forma estanque e mesclam-se entre si, principalmente no caso dos orientadores homossexuais que, ao mesmo tempo, são guardiões das tradições. O próprio jovem, que é do meio urbano e repudia a tradição, acaba se agarrando de certa forma a ela quando ele quer se afirmar perante os demais jovens que caçoam dele e o faz de uma forma violenta, como a boa tradição masculina impõe. Muitas vezes, a dubiedade da situação entre esses dois pólos aparece no gestual corporal dos personagens, sobretudo no relacionamento entre Xolani e Vija, onde as carícias são feitas de forma ríspida e precedidas de agressões físicas, como se a opressão da tradição os impedisse de terem uma postura mais carinhosa um com o outro.

Uma relação homossexual num ritual de afirmação de masculinidade…

Em virtude de toda a tensão produzida pelo filme, um happy end acaba se tornando impossível aqui. Mesmo com essa constatação um tanto óbvia, o final não deixa de ser surpreendente, de uma certa forma. Mas paremos com os spoilers por aqui.

                                                  Uma rotina difícil…

Assim, “Os Iniciados” mostra para nós mais uma vez o embate entre a tradição e a modernidade, desta vez no interior da África do Sul e numa cultura que pode ser considerada muito exótica para alguns, mas que não deixa de ter algumas ligações com a nossa cultura ocidental por outro lado. A coisa da circuncisão e do “ser homem” não é, de jeito nenhum, uma exclusividade dessa cultura tribal africana exposta no filme. E, mais uma vez, temos uma película que nos faz pensar, o que sempre é algo bem vindo.

Batata Antiqualhas – Spock e Leonard. Dualidade que se Completa (Parte 15)

                         Nimoy e Bennett…

Ao começar as filmagens, surgiria um problema. O elenco original da série não gostou muito da ideia de Nimoy na direção e não sabia das pretensões do diretor para com seus papéis. Assim, Nimoy começou uma estratégia de convencimento de seus antigos colegas. William Shatner fez uma reunião com Nimoy e Bennett acompanhado de seu advogado e apontou todas as objeções que tinha contra o roteiro, sendo prontamente atendido nas alterações. Quanto aos outros membros do elenco original, eles esperaram para ver o que ia acontecer. Mas, mais tarde, eles chegaram à conclusão de que Nimoy não seria um ditador e que faria o melhor por todos. Nimoy também sentiu que as responsabilidades de um diretor de um longa são muito maiores que as de um diretor de séries de tv. Ele tinha que se preocupar não só com as técnicas de filmagem em si e a quantidade de cenas a serem filmadas em cada dia, assim como com toda a logística envolvida: figurinos, dublês, nuvens de gelo seco, etc. Além disso, havia um clima de desconfiança dos executivos do estúdio quanto ao fato de um novato estar na direção e Bennett era o escalado para vigiar Nimoy quanto a isso, chegando a checar as tomadas feitas durante o dia de filmagem na sala de edição sem o conhecimento dele.

           Elenco inicialmente receoso com direção de Nimoy…

Durante as filmagens, George Takei ficou incomodado de ter seu personagem, Sulu, ser chamado de baixinho por um segurança. Na sequência, Sulu lhe dá um golpe, dizendo: “Não me chame de baixinho”. Depois de uma discussão com Bennett, essa cena foi filmada de duas formas: com e sem a expressão “baixinho”. Takei ficou chateado com o uso da expressão “baixinho” na edição final. Mas se acalmou depois de constatar a reação calorosa do público à cena.

                                         Conversa entre vulcanos…

Na cena da morte do filho de Kirk, Nimoy e Shatner se reuniram em separado para discutir a cena e encenaram uma briga para assustar a equipe de produção, que não engoliu a zoação, já que sabia que os dois velhos amigos faziam isso de vez em quando. Na verdade, Nimoy deu toda a liberdade a Shatner para fazer a cena, já que ele conhecia muito bem seu personagem. A cena ficou tão boa que um executivo da Paramount, Jeff Katzenberg,  ligou para Nimoy, felicitando-o por seu trabalho de diretor depois de vê-la. Nimoy deu todos os créditos a Shatner pela cena. A cena do Pon Farr entre Saavik  e o jovem Spock foi rechaçada por Katzenberg, achando que ia provocar risadas. Nimoy e Bennett apostaram um dólar como ela não ia provocar as tais risadas. E eles ganharam a aposta. Nimoy emoldurou seu dólar numa placa assinada por Katzenberg, que diz: “Apostei que a cena do Pon Farr ia causar risos”. Jeff Katzenberg, abril, 1984”. Nimoy realmente sabia das reações dos fãs de “Jornada nas Estrelas”.

                                               Velhas amizades…

A notícia da destruição da Enterprise vazou e causou indignação entre os fãs. Mas Nimoy já estava vacinado com a morte de Spock e tudo transcorreu sem problemas, ainda mais porque a cena foi feita pelo pessoal da Industrial Light and Magic, a produtora de efeitos especiais de George Lucas. Complicado mesmo foi o final das filmagens, onde Nimoy tinha que acumular à pesada rotina da direção o fato de ainda atuar e se maquiar como o vulcano. No início, ele interrompia a maquiagem para ver outros problemas, chegando a andar pelo set com apenas uma orelha pontuda ou sobrancelha vulcana. Mas depois viu que isso era muito mais complicado e passou a chegar às cinco da manhã ao estúdio para se maquiar para depois resolver os demais problemas do dia. Numa cena, Nimoy contracenava com Kelley e Spock estava inconsciente, não podendo ver que rumos a filmagem tomava. Kelley chegou a rir com a situação porque Nimoy tentava abrir os olhos um pouquinho para ver se a filmagem transcorria bem. Na cena final, Nimoy tinha que se concentrar em seu diálogo e na direção. Ele instruiu os atores a abraçar Spock, mas todos mantiveram uma distância respeitosa, com exceção de Uhura.

                  Uma aproximação solene…

Ficou bem claro que eles sabiam que Spock não gostaria disso. Um personagem consolidado depois de tantos anos. Foi decidido também que o nome de Nimoy só apareceria nos créditos como diretor e não no elenco, para não estragar a surpresa (para lá de anunciada) da ressurreição de Spock. Os executivos da Paramount viram o filme e adoraram. Decidiram que Nimoy dirigiria o quarto filme com sua visão pessoal de “Jornada nas Estrelas”, antes mesmo que “A Procura de Spock” estreasse nos cinemas.

E como foi a produção de “Jornada nas Estrelas 4, A Volta Para Casa”? Isso é o que veremos no próximo artigo. Até lá!

     Enterprise queimando na atmosfera de Gênese. Dor no coração…

Batata Movies (Especial Oscar 2018) – Três Anúncios Para Um Crime. Violência Gera Violência.

                  Cartaz do Filme

Mais um bom filme que concorre ao Oscar em nossas telonas. “Três Anúncios Para Um Crime” concorre a sete estatuetas (Melhor Filme, Melhor Atriz para Frances McDormand, Melhor Ator Coadjuvante para Sam Rockwell, Melhor Ator Coadjuvante para Woody Harrelson (!), Melhor Música para Filme, Melhor Roteiro Original, e Melhor Montagem). Ainda, o filme ganhou quatro Globos de Ouro (Melhor Filme de Drama, Melhor Atriz de Drama para Frances McDormand, Melhor Ator Coadjuvante para Sam RockWell e Melhor Roteiro de Filme). Pelas indicações e premiações, dá para perceber que é um filme que vem bem forte para a competição do Oscar. E, realmente depois de assisti-lo, vemos que todas as indicações e premiações foram bem justas.

                                    Uma mãe em busca de justiça…

Mas, do que consiste a história? Vemos aqui a saga de Mildred (interpretada magistralmente por McDornand), uma senhora separada que carrega uma grande mágoa em seu coração: sua filha foi violentamente estuprada e assassinada há sete meses e o crime não foi elucidado, com o culpado andando por aí. Mildred, então, decide tomar uma atitude drástica: ela junta suas economias e aluga, pelo espaço de tempo de um ano, três outdoors, onde ela cobra explicações da polícia e de seu chefe, Willoughby (interpretado por Harrelson). Isso provoca uma polvorosa na pequena cidade de interior onde a senhora vive, com a maioria das pessoas ao lado do chefe de polícia. Mas o clima de intolerância generalizado vai produzir as mais inusitadas situações. Porém, paremos aqui com os spoilers.

                               Conversando com o chefe de polícia…

A principal mensagem desse filme é a de que o ódio apenas gera mais ódio e todos que se deixam cair nessa torrente sofrem terríveis consequências. Isso acontece com Mildred, a nossa protagonista, mas também com outros personagens, como o policial Dixon (muito bem interpretado por Rockwell, a indicação ao Oscar faz jus). Ainda, apesar de estarmos num ambiente altamente provinciano, onde alguns preconceitos afloram com toda a força como o racismo, o filme opta por personagens que não sejam planos, quer dizer, não há o cara totalmente bom ou o cara totalmente ruim.

                                                Um policial odioso.,..

Vemos um desfile de seres humanos, cheios de virtudes ou de preconceitos, por mais rotulados que eles sejam. Mildred, por exemplo, banca a durona e não dá o braço a torcer, o que pode parecer uma virtude, mas isso acaba também fazendo com que ela magoe pessoas próximas a ela que a amam, como o anão James do filme, magistralmente interpretado por Peter Dinklage. Ele merecia até uma indicação, pois soube usar muito bem o pouquíssimo tempo de tela que teve. E ele já se mostrou um ator competente no filme “X-Men, Dias de um Futuro Esquecido”. Mas as interpretações de Rockwell e de Harrelson renderam duas indicações para ator coadjuvante num mesmo filme, algo difícil de acontecer. E, falando nos dois, fica bem claro aqui que McDormand não é a única estrela desse filme que teve uma atuação simplesmente impecável, sendo dura e emotiva nas horas certas. Harrelson ganhou um personagem sensacional que, apesar sofrer uma antipatia inicial por parte do público, já que é denunciado como negligente pela protagonista, consegue virar o jogo maravilhosamente bem, ficando cada vez mais humanizado. A gente realmente passa a gostar do cara (o filme tem esse poder de fazer o espectador reavaliar a conduta e caráter dos personagens) A própria relação entre Mildred e Willoughby passa por momentos onde a senhora se preocupa com o homem que acusa, por esse passar por uma grave doença. Fica bem claro aqui a separação entre público e privado no filme. Mildred tem uma atitude ríspida para com Willoughby como representante de uma instituição pública que não cumpriu com seu dever.

                 Uma trama cheia de conflitos. Mas será só isso???

Mas do ponto de vista privado, ele ainda é um conhecido de longa data que deve ser tratado com solidariedade quando passa por um momento difícil. Já Dixon é um caso ainda mais emblemático de reviravolta do gosto do público pelo personagem, pois ele é taxado como odioso, pois tortura negros e é um bocó agarrado à saia da mãe. Só que o filme cria um lento processo de redenção do personagem que enche nossos olhos. Poucas vezes a gente vê um personagem tão bem construído nas películas por aí. Somente isso já mostra quão primoroso é o roteiro. Portanto, se alguém me perguntar se a estatueta de coadjuvante deve ir para Harrelson ou para Rockwell, eu devo confessar que vou torcer para Rockwell, mas com uma pequena dor no coração, pois o trabalho de Harrelson também foi ótimo.

                               Pessoas magoadas que podem magoar…

Assim, “Três Anúncios Para Um Crime” chega como um grande concorrente ao Oscar, sendo um filme capaz de fazer frente à “A Forma da Água”. Esse é um filme humano que nos dá a principal lição de que não devemos guardar rancor das pessoas, pois todos nós somos humanos que temos virtudes, defeitos, podemos fazer rir ou chorar, nos alegramos, mas também sofremos. E, no fim das contas, temos apenas a nós mesmos para nos ajudarmos. Um filmaço. Um programa imperdível que tem um desfecho perfeito, por botar uma pulga atrás da orelha do espectador. Quer saber? Dê uma chegadinha ao cinema! Você não vai se arrepender…

 

Batata Movies (Especial Oscar 2018) – Sem Amor. Uma Violenta Tragédia Travestida De Real.

              Cartaz do Filme

Mais um filme que concorre ao Oscar. Temos aqui o russo “Sem Amor”, que concorre à estatueta de Melhor Filme Estrangeiro. Confesso que nem gosto muito do enredo da película: um casal em crise, com violentas brigas, fruto de uma decisão mal tomada de viverem juntos, tratam o filho como um verdadeiro empecilho às suas vidas, o que deixa a criança num mato sem cachorro, obrigando-a a tomar uma atitude drástica, onde somente aí os pais farão alguma coisa com relação ao menino.

                         Um menino perdido…

Infelizmente, a gente vê muito disso por aí, com crianças praticamente jogadas ao mundo sem qualquer base ou apoio de pais que são completamente irresponsáveis e pensam apenas em si próprios. Creio aqui que o diretor Andrey Zvyagintsev optou pelo cinema como arma de denúncia das injustiças que vemos por aí pelo mundo. Nesse ponto, o filme é uma obra-prima, pois ele é extremamente perturbador, optando pelo trágico, mas, principalmente com a noção de que a lição não foi aprendida e que os mesmos erros continuarão, tudo isso em virtude da falta de amor e compaixão entre as pessoas. Vemos aqui uma história extremamente tensa, onde o espectador frequentemente sai de sua zona de conforto, se é que há alguma. A gente também se revolta um pouco com os próprios personagens em sua falta de compaixão e com a preocupação com apenas seus próprios umbigos, fugindo de suas responsabilidades para quem os ama. “Sem Amor” pode então ser qualificado, também, como um filme extremamente revoltante, onde o espectador não desenvolve qualquer empatia com seus personagens, muito pelo contrário até.

                              Uma mãe perdida…

Pelo menos, o filme mostrou algo de muito interessante: como uma investigação policial se processa de forma muito eficiente em países que minimamente levam a segurança pública a sério. A gente se pergunta, ao assistir à película, se toda aquela competência aconteceria da mesma forma por aqui. E, geralmente, as conclusões sobre este questionamento não seriam muito boas, infelizmente. Mas não entrarei em maiores detalhes em virtude dos spoilers.

                            Um pai perdido…

Creio que, por despertar sentimentos tão fortes (definitivamente não dá para a gente ficar indiferente ao que vemos ao longo da projeção), essa é uma película que mereceria o Oscar, não fosse a forte concorrência com filmes como “O Insulto” e “Corpo e Alma”, mais digeríveis pelo público. Entretanto, a sua indicação já abriu espaço suficiente para a sua denúncia de um grave problema social que transcende fronteiras e culturas, ou seja, não estamos criando nossas crianças direito, parecendo ser esse um fenômeno mundial, principalmente quando vemos esse tipo de situação tanto aqui no Brasil quanto num país tão culturalmente diferente do nosso quanto à Rússia. Tem ficado por aí a dúvida de se a inserção cada vez maior da mulher no mercado de trabalho está tirando a referência de vida das crianças, pois elas não têm mais a companhia materna à sua disposição o dia inteiro para educá-las.

                               Uma avó perdida…

Ao mesmo tempo, se isso estiver acontecendo, ainda assim a solução não seria retirar a mulher do mercado de trabalho e confiná-la em casa com seus filhos. De qualquer forma, as consequências dessa falta de referência na educação das crianças em todo o mundo recairão sobre nós mesmos. Por essas e por outras, “Sem Amor”, apesar de profundamente odioso, é um filme fundamental, onde o cinema cumpre a sua função social de denúncia. É para se ir ao cinema, assistir, se indignar e, principalmente, refletir…

 

Batata Movies (Especial Oscar 2018) – Eu, Tonya. A Vida Que Imita O Surreal.

                              Cartaz do Filme

Em mais um dos filmes que estão indicados ao Oscar, falemos hoje de “Eu, Tonya”, que concorre a três estatuetas (Melhor Atriz para Margot Robbie, Melhor Atriz Coadjuvante para Allison Janney e Melhor Montagem). Esse filme fala da vida da patinadora no gelo Tonya Harding, que ficou marcada por ter sido acusada de mandar agredir sua adversária, Nancy Kerrigan, com um golpe de barra de ferro no joelho, com o objetivo de tirá-la do caminho numa competição olímpica. O caso ganhou muita repercussão na época (o ano era 1994) e todo o mundo ficou com os olhos grudados na TV durante a competição de patinação dos jogos olímpicos de inverno daquele ano. Ao fim das contas, nenhuma das duas ganhou a medalha de ouro.

Tonya Harding. Vida marcada pelo tragicômico…

Mas, e o filme? Bom, ao contar a vida de Tonya Harding, se escolheu a forma de mostrar isso em entrevistas. É dito no início do filme que ele se baseou em entrevistas e a gente via todo o desenrolar da história alternado com trechos em que os atores, travestidos de seus personagens, davam depoimentos diante das câmaras como se estivessem sendo entrevistados. Assim, tivemos aqui uma coisa muito curiosa: pudemos ver as versões de cada um sobre fatos ocorridos, onde isso foi mais explorado com Tonya Harding (magistralmente interpretada por Margot Robbie, nossa amada Arlequina do Esquadrão Suicida) e seu ex-marido, Jeff Gillooly (interpretado por Sebastian Stan, nosso Soldado Invernal; Marvel e DC em harmonia por aqui?). Cada um dava a sua versão sobre as muitas agressões físicas mútuas que aconteciam entre os dois, deixando o espectador um pouco confuso sobre o que acontecia (é, pelo visto a Marvel e a DC não estavam tão em harmonia, afinal). Parece que o filme quer que o espectador tire suas próprias conclusões sobre a vida extremamente turbulenta dos dois. Falando nisso, temos aqui uma história de vida cheia de percalços, com pessoas padecendo de violentos problemas emocionais e de relacionamento, com o filme querendo dar um tom de comédia em vidas, digamos, tão trágicas. Confesso que a comédia funciona em alguns momentos, mas em outros a gente tem uma situação completamente sem graça. O relacionamento entre Tonya e sua mãe, LaVona (interpretada de forma simplesmente sensacional por Allison Janney) era algo triste de se ver e não foi à toa que a moça ficou com aquele comportamento, digamos, um tanto agressivo. Eu devo dizer que não consigo ver muita graça nisso. De qualquer forma, alguns momentos de comédia vêm na chamada quebra da quarta parede, quando o personagem se dirige ao público da sala, às vezes de forma agressiva até. Isso acontece muito nas entrevistas, mas também no desenrolar da história em si. Esse é um filme que tem o claro objetivo de provocar o espectador.

                             Allison Janney em atuação magistral…

Se a história de vida da protagonista é encarada pela película como uma espécie de tragicomédia, podemos dizer também que essa história de vida tem lances para lá de surreais, sobretudo no caso da agressão a Nancy Kerrigan, onde optou-se por ouvir as versões de Tonya e de seu marido, e jogou-se a responsabilidade nos amigos para lá de idiotas do casal. Seria essa a versão verdadeira dos fatos? Bom, o filme teve que optar por uma versão. E aí…

Um casal altamente turbulento, cada um com sua versão dos fatos…

Esse é um filme que justifica em toda a sua plenitude as indicações às quais recebeu. A montagem do filme esteve espetacular, sobretudo nas sequências das competições de patinação de Tonya, onde era explicado, meio que de forma didática para os leigos, a importância de todas aquelas piruetas que ela dava. Mas esse é um filme de atuações. Margot Robbie fez jus à indicação de melhor atriz, pois conseguiu humanizar um personagem real que foi demonizado por todos, além de mostrar o seu lado badass. Agora, será uma injustiça tremenda se Allison Janney não ganhar a estatueta de atriz coadjuvante (e eu falo isso ainda sem ter visto o trabalho das demais candidatas). Sua atuação engoliu todas as demais do filme, e isso com uma personagem de uma característica só, extremamente odiosa, mas beirando o cômico em algumas ocasiões.  Sebastian Stan também esteve bem, mas a anos-luz de Robbie e Janney.

                      Boa caracterização da personagem principal…

Outra virtude do filme foi mostrar cenas reais de arquivo dos personagens principais nos créditos finais. Sempre acho isso muito legal em filmes baseados em histórias reais, principalmente nesse, que brinca com essa expressão em alguns momentos.

Reconstituindo o problema na apresentação de Tonya nos jogos olímpicos de 1994…

Assim, “Eu, Tonya” é mais um filmaço que está em circuito e que concorre ao Oscar este ano. Vale muito pelas atuações de suas atrizes e de como o real pode ser muito surreal às vezes. Programa imperdível.

Batata Movies (Especial Oscar 2018) – Victoria E Abdul, O Confidente Da Rainha. Estranhando O Colonizador.

                             Cartaz do Filme

Mais um bom filme passou em nossas telonas. “Victoria e Abdul, O Confidente da Rainha”, que foi nomeado para um Globo de Ouro (melhor atriz de comédia ou musical para Judi Dench), e foi indicado a dois Oscars esse ano (maquiagem e figurino). Ele vai abordar (parcialmente, como é dito no início do filme) uma relação que foi descoberta somente em 2010 entre a Rainha Vitória da Inglaterra e Abdul Karim, um indiano que, pelos caminhos da vida, ficou muito próximo da rainha, o que provocou um tremendo mal-estar entre os que a cortejavam. À medida em que Victoria e Abdul se aproximavam, a rainha ficava cada vez mais interessada pela cultura local indiana, o que provocava a fúria dos ingleses que achavam tudo aquilo um tanto primitivo.

                                             Uma grande amizade…

Entretanto, o filme não se reduz à um estranhamento do colonizador sobre o colonizado. O inverso também ocorre, e Abdul questiona a forma de vida inglesa e europeia, sendo que ele tem um amigo, Mohammed, que vê com total repúdio o colonizador inglês e tudo o que ele quer é voltar para a sua terra natal, algo que fica cada vez mais difícil, à medida que Victoria e Abdul se aproximam mais e mais.

      … que incomodava os petulantes ingleses…

Não é preciso dizer como a diva Judi Dench deu um show de interpretação. Ela é uma atriz simplesmente sensacional, sendo forte como uma rainha já muito idosa, sensível como uma senhora desiludida com a sua família, e muito terna com o seu confidente, sempre nos momentos certos. Ali Fazal foi uma gratíssima surpresa. Sua beleza não lhe deu uma pecha de arrogância, muito pelo contrário, pois vimos uma interpretação muito carismática e simpática, digna de contracenar com Dench.

                                     Os verdadeiros Victoria e Abdul…

O filme ainda se caracteriza por lançar mão de belas locações e figurinos, sendo a indicação ao Oscar nesse quesito mais do que justa e uma atração à parte na película.

Assim, “Victoria e Abdul” é mais um daqueles filmes que se amparam totalmente na interpretação de seus atores, aqui principalmente no casal protagonista. Suas virtudes estão na revelação de uma história até pouco tempo desconhecida, na química entre Dench e Fazal e nas belas locações e figurinos. Vale a pena dar uma conferida em DVD.