Batata Movies – Rogue One (Parte 1)

Cartaz do Filme

E finalmente chegou o filme mais aguardado do ano de 2016 para todos os fãs de “Guerra nas Estrelas”. “Rogue One, Uma História Guerra nas Estrelas” estreou no último dia 15 de dezembro e a galera do Conselho Jedi Rio de Janeiro chegou em peso ao Cinemark Botafogo 6, no Botafogo Praia Shopping, para assistir ao filme. Muitos vieram com seus cosplays, outros (como esse humilde articulista que vos fala), com uma camisa que lembrasse sua adoração por “Guerra nas Estrelas”. Veio o filme e, com ele, as reações extasiadas da plateia à medida que apareciam imagens de grande impacto para os fãs. E, ao final da película, já nos créditos, o mais legal foi ver a reação da galera. Tinha gente em pé, com a mão no peito, se escorando nas cadeiras, ou pessoas pulando e batendo os braços, ou ainda, cosplayers aos abraços, vertendo rios de lágrimas! Muitas diziam que tinham visto o melhor filme de “Guerra nas Estrelas” de todos os tempos, outras diziam que “Rogue One” foi melhor que o “Episódio VII”, etc.

Jyn Erso, a protagonista

Sim, meus amigos, a estreia bombou e emocionou bastante a todos. Mas, passada toda a euforia, podemos nos perguntar, agora que estamos num viés mais racional e que já vimos o filme mais vezes. “Rogue One” foi realmente tudo isso que disseram? Houve algum problema no filme? Poderia ter sido melhor? Quais são as vantagens e desvantagens da película?

Em primeiro lugar, vamos fazer uma pequena sinopse do filme, ainda que todos já estejam carecas de saber o que se passou na película, pois vai ajudar a gente a refletir um pouco sobre tudo. Ah, e um aviso: esse artigo estará coalhado de “spoilers”. Então, veja o filme antes de dar uma lidinha aqui.

Galen Erso

Bom, a história do primeiro “spin-off” de Guerra nas Estrelas se passa entre os episódios III e IV, e se trata do roubo dos planos da Estrela da Morte pela Aliança Rebelde. A personagem-protagonista é Jyn Erso (interpretada por Felicity Jones, que já trabalhou em filmes como “A Teoria de Tudo” e “Inferno”), uma prisioneira do Império que tem como pai Galen Erso (interpretado pelo lendário Mads Mikkelsen), um cientista do Império que fugiu, mas que foi recapturado para conceber e construir a famosa Estrela da Morte. Quando Galen Erso foi trazido de volta ao Império pelo Diretor Orson Krennic (interpretado por Ben Mendelsohn), sua mulher foi assassinada e Jyn fugiu. Anos depois, um piloto do Império, Bodhi Rook (interpretado por Riz Ahmed), deserta e procura Saw Gerrera (interpretado pelo também lendário Forest Whitaker), um antigo militante rebelde que se tornou ultrarradical e passou a agir por conta própria, para lhe entregar uma mensagem de Galen Erso sobre a arma de destruição em massa. Um membro da inteligência rebelde, Cassian Andor (interpretado por Diego Luna), descobre a missão do tal piloto desertor e a Aliança Rebelde, liderada por Mon Mothma (interpretada por Genevieve O’Reilly), decide sequestrar Jyn da prisão e, juntamente com Andor e o androide K-2SO (interpretado por Alan Tudyk), procurar Saw Gerrera em Jedah, onde ficava o antigo templo Jedi, para averiguar se a informação sobre a Estrela da Morte procedia. Os rebeldes também queriam arrumar uma forma de encontrar Galen Erso e matá-lo, mas esse detalhe não fora contado a Jyn Erso. A partir daí, várias situações ocorreriam, culminando com o roubo dos planos da Estrela da Morte, numa operação inicialmente clandestina organizada pelo grupo Rogue One que, ao contrário da ideia na cabeça da maioria dos fãs de que fosse um esquadrão de X-Wings, era na verdade um grupo de assalto em ações por terra.

Diretor Krennic

Bom, dá para perceber por essa breve sinopse que havia uma boa história a ser contada. E ela realmente o foi. Eu já tive a oportunidade de comentar na minha resenha sobre “O Despertar da Força” que as histórias da franquia “Guerra nas Estrelas” passam por um processo de maturação. Quando tudo estava nas mãos de George Lucas, havia mais um tom infantil de Fantasia Espacial. Lucas teve o enorme mérito de criar todo o Universo de “Guerra nas Estrelas”, mas parecia não saber muito o que fazer com as histórias, o que provocou algumas críticas e desgastes. Os primeiros sinais de que a saga seria abordada de forma um pouco mais séria e madura vieram com os livros do Universo Expandido, sobretudo nas mãos de autores como Timothy Zahn e James Luceno, os maiores na minha modesta opinião. Anos mais tarde, o anúncio da venda da franquia à Disney deixou os fãs em polvorosa e um medo no ar de que Mickey Mouse estragasse tudo. Mas “O Despertar da Força” contrariou os pessimistas. Agora, com “Rogue One”, esse tom de seriedade e respeito a “Guerra nas Estrelas” avançou mais um degrau.

Estreia do filme. Sabres de luz em profusão!!!!

E como foi esse avanço? Isso é o que veremos no próximo artigo. Até lá!!! Por enquanto recorde do trailer vendo o vídeo abaixo.

https://youtu.be/KQvAr0OuEbg

Batata Movies – Invasão Zumbi. Na Coreia, O Papo É Outro.

Cartaz do Filme

Uma interessante produção da Coreia do Sul em nossas telonas. “Invasão Zumbi” (“Train to Busan”), escrito e dirigido por Sang-ho Yeon, é um filme de terror que, a princípio pode imitar o já batidíssimo gênero de terror com o subtema dos zumbis. Mas o filme vai além e ele revela na verdade alguns aspectos da condição humana.

Woo. Viagem insólita

O filme tem como protagonista Seok Woo (interpretado por Yoo Gong), um homem ligado ao mercado financeiro, de pensamento individualista e sem escrúpulos. Ele tem uma filhinha, Soo-an (interpretada por Soo-an Kim), que quer a atenção do pai e, ao mesmo tempo, quer fazer uma viagem de trem para rever a mãe. Depois de muito insistir, Soo-an consegue fazer o pai levá-la para a tal viagem. Mas essa viagem terminaria numa jornada de horror onde zumbis querem atacar as pessoas e infectá-las com sua doença.

Zumbis irados!!!

Até aí, nada de muito diferente. Então, o que diferencia esse filme dos demais filmes de zumbi? Em primeiro lugar, é um filme que aborda sérias questões sociais. Nosso protagonista é frio, calculista e pensa em si próprio. Mas a situação de ser perseguido por um monte de mortos-vivos vai fazer com que Woo comece a ver as coisas de outra maneira. Outros passageiros do trem vão manter essa visão individualista e irão até agir com preconceito contra outras pessoas que, acredita-se, estejam contaminadas. Ou seja, o filme levanta essa questão: numa situação de terror e pressão extremos, até onde vai a solidariedade humana? Essa é a grande questão da película. Outro tema trabalhado é o do tempo perdido. Woo nunca deu muita bola para a filha. E agora, parece que tudo vai cair por terra e ele não terá mais nenhum momento com ela. Fugir dos zumbis também será uma forma de recuperar um pouco do tempo perdido.

Interpretação convincente!!!!

É interessante perceber como parece que o filme bebeu de outras fontes. Apesar do gênero terror, a película também lembra filmes catástrofe americanos da década de 70, sobretudo a série “Aeroporto”, onde passageiros e tripulantes de aviões precisavam superar acidentes aéreos. Os filmes dessa época sempre tinham irmãs de caridade ou soldados entre os passageiros. Agora, a gente via um time de beisebol de uma escola de ensino médio. E, ao invés do avião, o filme se passava num trem que, a cada estação, uma surpresa estava por vir, fora os zumbis que já povoavam os vagões. Um terror recheado de suspense ao melhor estilão do cinema americano.

Porrada nos zumbis!!!

Um destaque especial deve ser dado aos nossos zumbis. A forma esquálida, rápida e poligonal de seus movimentos chamou muito a atenção e em alguns momentos, despertou muitos risos (como um bom filme de terror deve fazer, diga-se de passagem). Tal coreografia aliada ao uso de lentes de contato de cor leitosa produziram um efeito muito interessante e os mortos-vivos ficaram bem convincentes. Se eles foram cômicos, não foram menos assustadores.

Assim, “Invasão Zumbi” é um filme que vale a pena ser assistido. Mesmo que o leitor não goste do gênero de terror (como eu não gosto), esse filme tem um algo a mais que se distancia dos filmes de terror americanos convencionais. As discussões de caráter social são um fator que chama muito a atenção. A forma como os coreanos conceberam os zumbis também é muito interessante. E o filme ainda se aproxima um pouco do gênero de cinema catástrofe, ao contextualizar tudo numa viagem de trem. Vale muito como curiosidade. E não deixem de ver o trailer abaixo

Batata Movies – BR 716. Uma Comédia De Tempos Que Se Repetem.

Cartaz do Filme

Domingos de Oliveira está de volta com sua nova película “BR 716”. O filme traz velhos elementos já vistos em outros filmes do diretor. Mas também traz algo de novo. O que mais importa é que foi um bom filme dessa vez, pois Oliveira consegue emplacar boas histórias contadas alternadas com algumas nem tão cativantes.

Felipe, o alter ego do diretor

Vemos aqui a história de Felipe (interpretado por Caio Blat), uma espécie de “bon vivant” que tem um gigantesco apartamento na rua Barata Ribeiro, 716 (daí o título do filme), que foi herdado do seu pai (interpretado por Daniel Dantas), um homem falido, mas com seu nome limpo na praça. O problema é que Felipe dá festas homéricas em seu suntuoso apartamento, regadas a muito álcool e porralouquices. Felipe, inclusive, tem o sonho de ser roteirista, mas sua natureza, que é emocionalmente instável (um verdadeiro alter ego de Oliveira), faz com que ele tenha sempre obstáculos para concluir seu projeto. Ao perder a namorada para o melhor amigo, o homem cai em depressão e só consegue se esquecer um pouco dela com as tradicionais noitadas em seu apartamento, que aumentam cada vez mais a conta pendurada no bar da rua do seu prédio. Mas a trama não gira somente em torno do protagonista. Os muitos frequentadores das festas do apartamento também são personagens inusitados, divertidos e tragicômicos. Temos o caso da psicóloga e sua paciente que têm um relacionamento homossexual altamente violento (por parte da paciente), uma ninfeta (maravilhosamente interpretada por Sophie Charlotte), que quer ser cantora ou atriz, e sabe lançar mão de sua beleza para conseguir o que quer, ou o escritor e jornalista que joga cantadas altamente inconvenientes para as mulheres da festa (muito bem interpretado por Pedro Cardoso, embora sua presença tenha sido pequena na tela). Personagens um tanto loucos em festanças insanas. Mas toda a farra terminaria de forma um tanto melancólica, onde a chegada da ditadura militar seria o anticlímax para o clima de euforia.

Sophie Charlotte, imponente

Qual seria o elemento antigo do filme, muito presente em outras películas de Oliveira? A tremenda cara de comédia de costumes dos filmes do diretor, retratando a vida de uma elite de Zona Sul, que pode se dar ao luxo de ter crises existenciais e produtivas. Devo confessar que incomoda um pouco o fato do bairro de Santa Cruz ser tratado como outra galáxia no filme. Tudo bem que ele seja muito longe da Zona Sul e a mobilidade entre essas duas partes da cidade na década de 60 fosse muito pior que hoje, mas o filme abordou essa questão com uma relativa segregação social, principalmente em algumas piadas sob a ótica de quem vive na Zona Sul. Por outro lado, o filme trouxe algo novo que foi a força de vários personagens carismáticos. Embora as outras películas de Oliveira tenham vários personagens interessantes, dessa vez a coisa foi diferente, pois o clima altamente festivo e explosivo fez com que cada personagem tivesse uma diversidade toda própria, sempre trazendo um elemento novo, regado com muito carisma. Não foi um filme de um protagonista com coadjuvantes. Todos eram protagonistas, pois eram personagens muito intensos, tal como a grande festa que era o BR 716 fosse o real personagem coletivo, formado pelas individualidades dos demais personagens. Claro que o personagem de Blat era o mais importante, mas o filme não girava totalmente em torno dele e isso tornou a película muito atraente.

Felipe, numa de suas muitas crises

Outro fator que chama a atenção é a situação de instabilidade política que tomou conta do filme com a proximidade do golpe militar de 1964, que é um tanto semelhante com a situação de instabilidade política de hoje, aliada a uma gama altamente autoritária que está no ar. As festas no BR 716 eram uma espécie de ilha de bom senso, paradoxalmente formada por festeiros bêbados, em meio ao clima de autoritarismo existente. O apartamento, inclusive, passou a ser visto como uma bolha protetora contra os dias do golpe militar e ninguém arredou o pé de lá por dias, com medo dos tempos sombrios que viriam. Tal situação de insegurança e medo com relação ao futuro está bem viva também nos dias de hoje.

Oliveira e Charlotte

Dessa forma, “BR 716” foi um bom filme de Domingos de Oliveira que, se de um lado ele se repetiu em sua comédia de costumes, por outro lado ele mostrou uma gama de personagens todos interessantes, onde não havia propriamente a figura do coadjuvante. Para que isso funcione, o diretor contou com um bom elenco de atores que cumpriram muito bem os seus papéis. Vale a pena dar uma conferida neste filme.

Homenagem a Debbie Reynolds

Pois é. O ano de 2016 termina realmente de forma avassaladora. Um dia depois da morte de Carrie Fisher, sua mãe, Debbie Reynolds, assolada pela perda da filha, também sucumbiu, devido a um AVC. Ela estava na casa do filho discutindo os detalhes do funeral de Fisher, quando se sentiu mal. Ela chegou a ser transferida ao hospital mas não resistiu e nos deixou aos 84 anos. Mais uma perda muito sentida.

Carrie Fisher e a mãe, Debbie Reynolds. Muito unidas.

Mãe e filha eram muito unidas. Depois da morte de Fisher, Reynolds dizia que queria estar com a filha. Torçamos muito para que isso tenha acontecido. Para nós, fica a dor e a saudade. Cabe fazer aqui mais uma homenagem, com o inesquecível número musical “Good Morning” em “Cantando na Chuva”, onde ela contracena com Gene Kelly e Donald O’Connor…

 

Batata Movies – Batman, A Piada Mortal. Psicose E Perdão.

Cartaz da Animação

Esse ano, houve um rebuliço entre os chamados DCnautas (ou fãs de quadrinhos da DC, para ser mais específico). É que foi feita uma exibição em sessão única da animação “Batman, A Piada Mortal” (“Batman, The Killing Joke”). As expectativas eram ótimas: a voz do Coringa seria feita por Mark Hamill, essa seria uma das animações mais  violentas e doentias de que se tinha notícia, etc. Confesso que não assisti a animação quando de sua exibição única no cinema. Algum tempo depois, fiquei sabendo que ela já estava disponível em DVD. E, nas minhas andanças pelas mega stores da vida, me deparei com “Batman, A Piada Mortal”. Decidi então comprar o DVD para ver se a animação era realmente tão boa assim. Para poder falar um pouco sobre ela, vou ter que lançar mão de “spoilers”, me desculpem.

Surtadaço!!!!

No que consiste a história? Ela é dividida basicamente em duas partes, a princípio muito distintas. Ao seu início, Batman e Batgirl caçam o perigoso sobrinho de um gângster muito importante de Gotham City. Batman quer Batgirl fora dessa caçada, pois o malfadado sobrinho sente uma forte atração sexual por ela e usa isso para enervar a heroína. Não pensando de forma racional, Batgirl pode facilmente cair nas armadilhas do bandido. Com um instinto protetor, Batman tenta dissuadir Batgirl do caso, mas as coisas acabam numa forte noite de amor. O tal bandido é preso, não sem antes Batgirl dar-lhe uma surra e quase matá-lo. Aí estava outro motivo para Batman querer Batgirl fora do caso, pois ele temia que ela perdesse as estribeiras e fizesse justiça com as próprias mãos, matando o bandido, sendo esse um abismo sem volta. Cansada de toda essa pressão psicológica, Batgirl aposenta a capa e volta a ser apenas Barbara Gordon.

Já a segunda história é bem mais barra pesada. Coringa escapa da prisão e quer provar a todo mundo uma teoria: basta um dia ruim em sua vida para você surtar e enlouquecer. Para isso, ele dá um tiro em Barbara, aleijando-a permanentemente, além de estuprá-la. Ainda, sequestra o comissário Gordon e o submete a toda uma série de torturas físicas e psicológicas, onde o policial é inclusive obrigado a ver a imagem de sua filha ferida e nua. Depois de ouvir do palhaço do crime que Batman também age fora das regras da lei, o comissário Gordon, ao ser resgatado das mãos de Coringa e dos seus criminosos por Batman, fala ao Homem Morcego que faz questão de que o vilão seja preso de acordo com as leis. Esse é o sinal de que a tese de Coringa está furada e a sanidade mental pode ser mantida. Há o duelo final entre o herói e o vilão e, então, ao se ver derrotado, Batman se nega a matar Coringa e age dentro das leis, dizendo que não quer matá-lo e sim ajudá-lo, chegando a estender a mão para o vilão, que declina do convite, pois alega que “já é muito tarde para aceitar isso”. A animação termina com o Homem Morcego e Coringa rindo de uma piada um tanto sem graça, que eu já até vi contada de uma forma diferente na Turma da Mônica.

Bom, o que podemos falar da animação? Ela tem um ponto positivo e um ponto negativo. Vamos começar pelo negativo, para que a antipatia dos fãs da DC à minha pessoa passe logo. A promessa de uma grande violência no filme para mim não foi muito cumprida. Sei lá, eu acho que o Rio de Janeiro real é muito mais violento que uma Gotham City fictícia. Aqui, o Coringa já teria tomado um teco de fuzil na cara, dado pela polícia, há muito tempo. E que se lasque se as leis não fossem cumpridas. O Coringa, por sua vez, não teria deixado Barbara Gordon viva e paralítica. Ele teria estuprado e matado a moça mesmo (isso se ainda não desossasse a finada e desse a carne para os cachorros comerem, como dizem por aí que aconteceu com a Eliza Samudio). Ou seja, o Rio de Janeiro é muito mais violento e desrespeita as leis há bem mais tempo. Eu acho que a DC podia pagar uma estadia para seus roteiristas para passarem umas duas semanas por aqui. Eles voltariam cheios de ideias para um Coringa bem mais cruel. E nem quero imaginar o que fariam com o Batman.

Até onde eles se aproximam e se distanciam????

Mas isso não quer dizer que a animação tenha apenas problemas. Contar a história pregressa do Coringa foi algo simplesmente sensacional. A gente realmente fica com pena do homem, que sofreu várias pressões, e teve vários dias ruins, ao invés de um só. Talvez a tese do palhaço do crime tenha mais coerência aí. E de como Batman foi determinante para o seu mergulho total na insanidade. Provavelmente foi por isso que Batman, ao final, oferece ajuda ao bandido para tentar recuperá-lo, ao invés de lhe desferir um golpe fatal. O relacionamento entre herói e vilão, mostrando até onde eles se assemelham e onde se diferenciam, é o grande lance dessa história, algo que poderia até ser examinado por especialistas em psicologia ou psicanálise, o que, definitivamente, não é o meu caso.

E qual é a relação entre as histórias da Batgirl e do Coringa? Ambas defendem a premissa de que somente se combate o crime se você age dentro da lei. Ou seja, aquela velha ideia de John Locke de que o respeito às leis é necessário, pois quando as pessoas vivem em sociedade, ninguém pode fazer o que bem entender, pois o ato de uma pessoa pode prejudicar outra. Daí a importância de se cumprir as leis, que devem representar a vontade da maioria das pessoas e ainda garantir os direitos e a vida dos cidadãos. Criminosos devem ser punidos por desrespeitar as leis. Mas os heróis também não devem desrespeitar as leis para punir os criminosos, algo que se torna muito notório quando se trata de Batman, que tem atrelada às suas costas a fama de justiceiro que nem está aí para o que as leis dizem.

Barbara passará por um sufoco…

Assim, “Batman, A Piada Mortal”, se não parece ser excessivamente violento como se apregoava, ainda tem a virtude de se analisar não somente a psique do vilão, mas indiretamente a do próprio Homem Morcego. A discussão do respeito às leis também tem forte destaque. Para o DCnauta, é obrigatório ter. Mas é altamente recomendável para quem gosta de uma boa história. Veja o trailer abaixo…

https://youtu.be/Gc5z3JFrJ7k

Carrie Fisher. Uma Homenagem.

A eterna Princesa de Alderaan.

Todo dia 26 de dezembro (meu dia de aniversário), vou ao Cemitério São João Batista para fazer uma pequena homenagem a algumas pessoas. Visito as sepulturas de Luís Carlos Prestes (considerado “O Cavaleiro da Esperança” por uns, um bandido comunista para outros), Tom Jobim (um músico que foi importante demais para nosso país e nem temos a ideia disso), Santos Dumont (que dispensa apresentações), o casal Vicente Celestino e Gilda de Abreu (um grande cantor antigo e uma grande atriz e diretora de cinema). Mas, principalmente, visito minhas duas Carmens, a Miranda e a Santos, que tentaram elevar o nome de nosso país e de nosso cinema. Carmen Miranda ainda teve um reconhecimento do público, embora tenha sido criticada pela imprensa brasileira por se “vender” aos Estados Unidos. Carmen Santos, essa ninguém fala mais, apesar de todos os sacrifícios feitos por ela para realizar bons filmes no Brasil, numa época em que nosso país ainda era assolado pelo complexo de vira-latas. Minhas visitas anuais ao cemitério são para diminuir um pouco o impacto da injustiça provocada pela falta de reconhecimento. Colocar rosas vermelhas em seus túmulos ajudam a minimizar um pouquinho tais dores. 

Postura desafiadora com os inimigos

Carmen Miranda faleceu em 1955, e Carmen Santos, em 1952. Essas mortes doem até tempos presentes. E o que não falar de uma morte que aconteceu hoje? Carrie Fisher, a eterna Princesa Leia, nos deixou. Filha da atriz americana Debbie Reynolds e do cantor e apresentador Ed Fisher, Carrie Fisher viveu desde cedo próxima ao showbiz. Em 1977 ela encantou o mundo, ao estrelar “Guerra nas Estrelas” como a Princesa Leia, com apenas 19 anos. Fez noventa filmes e era escritora. Ela nunca teve medo de expor sua vida pessoal na mídia e divulgou que sofria de transtorno bipolar. Outras fontes diziam que ela tinha problemas com drogas. Mas nenhuma dessas informações abalavam a adoração que os fãs de “Guerra nas Estrelas” tinham por Leia e por Fisher. A atriz e a personagem às vezes pareciam ser uma coisa só. Da mulher forte que peitava o grão moff Tarkin com tiradas cínicas e atrevidas, passando pelo tom debochado com os subalternos do Império (“Você não é pequeno demais para ser um stormtrooper?”, dizia para um Luke disfarçado), trocando rusgas com o “canalha” Han Solo, mostrando que não era mulher de entrar em qualquer conversa e que para ter seu coração, era preciso conquistá-la, chegando até a sua carinhosa afeição por Luke, uma afeição a princípio inexplicável por ela não saber que se tratava de seu irmão. A atriz Carrie Fisher deu essa natureza multifacetada à Princesa Leia de forma extremamente convincente. Se em Jornada nas Estrelas, havia a tríade Spock – Kirk – McCoy com o vulcano representando a razão, o médico representando a emoção e o capitão representando a conciliação entre pólos aparentemente tão antagônicos, em “Guerra nas Estrelas” também havia outra tríade. Han Solo é a impetuosidade masculina em pessoa, o aventureiro que age pelo impulso. Luke Skywalker é o jovem e ingênuo aprendiz que inicia timidamente seus passos no ofício da batalha. E no centro, cimentando e alicerçando esses dois pólos, estava Leia, com o espírito libertário feminino, que luta contra milênios de opressão machista (isso nessa galáxia aqui mesmo), botando o machismo do contrabandista em seu devido lugar e, ao mesmo tempo, tratando com extremo carinho o órfão padawan tardio, manifestando um amor que mais se aproxima dos ancestrais instintos maternos que ajudaram a preservar nossa espécie.

Leia e Han Solo. Um amor surgido depois de muitos conflitos

Um símbolo da mulher pós década de 60, que é dura ao lutar por seus direitos frente a uma cultura que a oprime, mas que não perde a ternura ao mostrar seu lado mãe. Mas uma mulher também que atua como a verdadeira fêmea fatal, ao reagir violentamente contra as investidas do pérfido Hutt, que queria transformá-la num objeto sexual e periodicamente a enforcava com uma coleira presa a uma corrente. Ao melhor estilo “olho por olho”, ela ceifa a vida do gângster estrangulando-o com a própria corrente que estava presa em seu pescoço. Ainda, uma mulher que consegue pensar racionalmente, mesmo em situações de extrema tensão, quando o contrabandista e o jovem agricultor tentam libertá-la da prisão, mas não têm um plano de fuga, e a herdeira do trono da destruída Alderaan toma as armas e improvisa um caminho para a calha de lixo, arrancando até uma admiração do machão Solo.

Leia e Luke. Relacionamento pautado na afeição

Essa é Carrie Fisher. Essa é a Princesa Leia. Essa jamais irá embora de nossas memórias. Mesmo que eu não possa visitar seu jazigo, como faço todos os anos com minhas Carmens, ela estará sempre presente em nossos pensamentos. Dizem que uma pessoa morre mais de uma vez. E a última vez em que uma pessoa morre é quando param de falar o nome dela. Se depender dos fãs, Carrie Fisher e Leia jamais terão essa morte derradeira. Mais do que uma princesa que luta contra um fictício Império Galáctico do Mal, Leia se tornou um símbolo das mulheres que lutam aqui em nosso planeta por mais direitos e igualdades. Luta que não necessariamente faz a mulher bruta e a afasta de suas doces características femininas. Leia, portanto, se tornou também um símbolo da afeição feminina, sabendo ser carinhosa e materna nos momentos certos. Agressiva, sem perder o racionalismo. Racional, sem perder a emoção. Agora ela realmente é a Força. Agora, ela nos envolve. E jamais ficaremos distantes dela. 

E, para uma pequena homenagem, fiquem com o inesquecível final do Episódio IV, que jamais sairá de nossos corações…

https://youtu.be/iH6a1iYQ0GA

Batata Movies – Sully, O Herói Do Rio Hudson. Um Herói Açoitado.

 

Cartaz do Filme

Clint Eastwood volta na direção com o bom “Sully, O Herói do Rio Hudson”. Embora não tenha sido um dos melhores filmes do diretor, é uma película que prende muito a atenção e conta com a magnífica presença de Tom Hanks. Opa, Eastwood dirigindo Hanks? Pronto, aí está o motivo principal para sair de casa numa noite chuvosa de sábado e dar uma chegadinha ao São Luiz 2.

Sully e Jeff. Situação paradoxal…

Do que se trata a história? Bom, o filme é baseado numa história real, onde um voo comercial comandado pelo piloto Chesley “Sully” Sullenberger (interpretado por Hanks) sofre uma acidente logo após a sua decolagem. Vários pássaros colidem contra o avião e destróem os dois motores. Sully, então, tenta fazer um pouso de emergência. Ele até tem duas opções de aeroportos para isso, com pistas abertas e tudo, mas o avião perde altitude rapidamente e ele decide fazer um pouso de emergência em pleno Rio Hudson. Em virtude de seus 42 anos de experiência e muita habilidade, ele consegue fazer o pouso e poupar as vidas de todos os 155 passageiros e tripulantes à bordo, tornando-se um herói nacional. Mas a comissão que investiga o acidente não pensa assim e, após ter feito várias simulações de computador, concluiu que o piloto poderia ter chegado a um dos aeroportos. Assim, Sully fica na paradoxal situação de ser, simultaneamente, um herói para o grande público e um réu que será julgado por uma comissão, que pode inclusive, demiti-lo e tirar sua aposentadoria, depois de uma vida inteira de serviço.

O verdadeiro Sully. Caracterização sensacional de Tom Hanks

O filme ficou um pouco maçante, pois se centrou em todo o compasso de espera e angústia de Sully enquanto a tal comissão não julgava o seu destino. Ou seja, creio que se preferiu aqui centrar a coisa mais na realidade, e o filme não foi muito espetacular ou pirotécnico, embora os pesadelos de Sully fossem um pouco nessa direção. O mais interessante foi a construção narrativa da película, onde os mencionados pesadelos se alternavam com a narração do tempo presente do filme e “flash-backs” que falavam do incidente, sendo que essas alternâncias em nenhum momento provocaram alguma sensação de confusão na história, e isso se mostrou um indício de que a montagem foi realizada de uma forma muito eficiente.

Clint Eastwood e Tom Hanks trabalhando juntos!!!

E os atores? Falar do talento de Tom Hanks é chover no molhado, mas desta vez, ele abusou da camaleonice. Tudo bem que um cabelo e bigode brancos ajudam a compor o personagem, mas a natureza serena e um pouco introspectiva de Sully, ah isso foi talento puro. E o que mais impressiona é ver Sully em pessoa nos pós-créditos (sim, leitor, não é filme da Marvel, mas tem pós-créditos), e aí constatamos como o trabalho de Hanks foi bom. Ao seu lado, estava o bom ator Aaron Eckhart, interpretando o copiloto Jeff Skiles. Eckhart conseguiu ser um coadjuvante a altura de Hanks, mostrando um talento maior que o bigodão que usava no filme. Jeff não se limitava a ficar ao lado de Sully nas investigações e tomava uma atitude até mais impetuosa ao rebater as acusações, sendo essa uma característica muito carismática que Ekhart deu ao seu personagem.

Assim, se “Sully, O Herói do Rio Hudson” não foi um dos filmes mais impactantes de Eastwood, ainda assim é uma boa película, pelo seu tom de realismo, pela sua montagem e por termos a oportunidade de vermos Hanks e Eastwood trabalharem juntos, com a boa atuação de Eckhart como brinde. Vale a pena dar uma chegadinha ao cinema para assistir. E não deixe de ver o trailer abaixo.

https://youtu.be/KI1aq91xZxo

 

Batata Movies – A Chegada. Linguagem E Visões De Mundo.

Cartaz do Filme

Um excelente filme de ficção científica em nossas telonas. “A Chegada” trata do já batidíssimo tema da invasão alienígena ao Planeta Terra, mas desta vez a coisa foi um pouco diferente, pois o filme abordou a questão de como a comunicação entre humanos e alienígenas pode não ser tão trivial assim, como vemos em alguns filmes por aí.

O filme tem como protagonista Louise Banks (interpretada por Amy Adams), uma linguista que já havia sido requisitada pelo exército americano para decifrar língua persa de grupos terroristas. A moça tem um grande trauma que foi a perda de sua filha. Só que sua vida de professora universitária seria transformada com a chegada de doze OVNIs ao planeta. Louise é procurada pelo Coronel Weber (interpretado por Forest Whitaker) para decifrar alguns sons alienígenas captados pelo exército. Louise aceita ajudar desde que ela possa se comunicar diretamente com os ETs. Ao chegar ao OVNI, ela se depara com seres que têm uma linguagem e forma de comunicação totalmente diferentes das que existem na Terra. Caberá a Louise, juntamente com Ian Donnelly (interpretado por Jeremy Renner) decifrar esse enigma. Mas o tempo é cada vez mais curto, pois a demora em se estabelecer uma comunicação mais efetiva faz com que aumente o medo de uma invasão e as pessoas no mundo inteiro exigem uma postura mais enérgica, o que pode levar até a uma guerra com os ETs.

Louise. Fazendo o difícil contato com os alienígenas

Os filmes de ficção científica mais simplórios não têm uma preocupação profunda com a questão da comunicação entre terráqueos e ETs. Alguns alienígenas falam até inglês às vezes. Mas os filmes mais sérios podem complexificar um pouco mais tal discussão. Em primeiro lugar, as condições em que a espécie humana se formou não são necessariamente um padrão para os demais planetas e isso influencia diretamente na forma como os humanos se comunicam. Ou seja, aqui a linguagem tem que estar totalmente adaptada aos nossos sentidos, caso contrário não há a comunicação. Mas, como uma espécie alienígena se comunicaria? As condições do planeta desses aliens desenvolveriam os mesmos sentidos que os terráqueos? Os ETs teriam visão, audição, olfato, tato e paladar? Ainda, a linguagem das duas espécies não teria o mesmo sistema de signos, pois foram forjadas em duas realidades diferentes. Mesmo que houvesse uma comunicação, sob quais parâmetros os signos alienígenas seriam decodificados para os nossos? Por incrível que possa parecer, todas essas questões são abordadas de uma forma ou de outra nesse filme, o que mostra que essa película optou por fazer uma ficção científica muito mais reflexiva, ao invés de um filme de ação ao estilo blockbuster.

Ian vai ajudar Louise…

Como se não bastasse essa discussão sobre comunicação pouco convencional em filmes de ficção científica (um filme que chegou um pouco mais perto disso, mas de forma até um tanto superficial foi “Jornada nas Estrelas IV, a Volta Para Casa”), a película ainda levanta outra questão: quando estudamos uma língua estrangeira, podemos sofrer alterações em nossas visões de mundo. Isso acontece quando passamos a entender rimas ou trocadilhos em outros idiomas. Agora, como seria essa alteração da visão de mundo se aprendêssemos uma língua alienígena? Paro por aqui, pois atrelada a essa reflexão vem um baita de um “spoiler” que, a meu ver, foi o que deu o toque de graça, fantasia e a cereja do bolo da história. Uma boa ficção científica com um toque especial de lúdico, mas um lúdico que muito nos intriga, pois tem o poder de subverter o nosso raciocínio linear.

O coronel Weber não aprovará algumas atitudes de Louise…

E os atores? O diretor Denis Villeneuve (de “Sicario”) fez basicamente um filme para a Amy Adams. A atriz cumpriu bem o seu papel e foi até legal que isso acontecesse, para apagar aquela impressão de coadjuvante de luxo em “Batman vs. Superman”. Só é de se lamentar que Jeremy Renner e, principalmente, Forest Whitaker, tenham sido pouco aproveitados. Poderiam ter aparecido mais, a meu ver. A relação entre os três poderia ter sido um pouco mais conflituosa. Havia espaço para isso.

De qualquer forma, “A Chegada” é um daqueles filmes que merecem uma chegadinha ao cinema, desde o fã de ficção científica até o cinéfilo mais tradicional. É uma boa história contada com um bom elenco, para agradar aos gostos mais conflitantes. Uma ficção científica com uma pitada de drama e mais com cara de cinema alternativo do que blockbuster. Não esperem tiros de laser. E não deixem de ver o trailer abaixo