Batata Antiqualhas – Spock e Leonard. Dualidade que se Completa (Parte 15)

                         Nimoy e Bennett…

Ao começar as filmagens, surgiria um problema. O elenco original da série não gostou muito da ideia de Nimoy na direção e não sabia das pretensões do diretor para com seus papéis. Assim, Nimoy começou uma estratégia de convencimento de seus antigos colegas. William Shatner fez uma reunião com Nimoy e Bennett acompanhado de seu advogado e apontou todas as objeções que tinha contra o roteiro, sendo prontamente atendido nas alterações. Quanto aos outros membros do elenco original, eles esperaram para ver o que ia acontecer. Mas, mais tarde, eles chegaram à conclusão de que Nimoy não seria um ditador e que faria o melhor por todos. Nimoy também sentiu que as responsabilidades de um diretor de um longa são muito maiores que as de um diretor de séries de tv. Ele tinha que se preocupar não só com as técnicas de filmagem em si e a quantidade de cenas a serem filmadas em cada dia, assim como com toda a logística envolvida: figurinos, dublês, nuvens de gelo seco, etc. Além disso, havia um clima de desconfiança dos executivos do estúdio quanto ao fato de um novato estar na direção e Bennett era o escalado para vigiar Nimoy quanto a isso, chegando a checar as tomadas feitas durante o dia de filmagem na sala de edição sem o conhecimento dele.

           Elenco inicialmente receoso com direção de Nimoy…

Durante as filmagens, George Takei ficou incomodado de ter seu personagem, Sulu, ser chamado de baixinho por um segurança. Na sequência, Sulu lhe dá um golpe, dizendo: “Não me chame de baixinho”. Depois de uma discussão com Bennett, essa cena foi filmada de duas formas: com e sem a expressão “baixinho”. Takei ficou chateado com o uso da expressão “baixinho” na edição final. Mas se acalmou depois de constatar a reação calorosa do público à cena.

                                         Conversa entre vulcanos…

Na cena da morte do filho de Kirk, Nimoy e Shatner se reuniram em separado para discutir a cena e encenaram uma briga para assustar a equipe de produção, que não engoliu a zoação, já que sabia que os dois velhos amigos faziam isso de vez em quando. Na verdade, Nimoy deu toda a liberdade a Shatner para fazer a cena, já que ele conhecia muito bem seu personagem. A cena ficou tão boa que um executivo da Paramount, Jeff Katzenberg,  ligou para Nimoy, felicitando-o por seu trabalho de diretor depois de vê-la. Nimoy deu todos os créditos a Shatner pela cena. A cena do Pon Farr entre Saavik  e o jovem Spock foi rechaçada por Katzenberg, achando que ia provocar risadas. Nimoy e Bennett apostaram um dólar como ela não ia provocar as tais risadas. E eles ganharam a aposta. Nimoy emoldurou seu dólar numa placa assinada por Katzenberg, que diz: “Apostei que a cena do Pon Farr ia causar risos”. Jeff Katzenberg, abril, 1984”. Nimoy realmente sabia das reações dos fãs de “Jornada nas Estrelas”.

                                               Velhas amizades…

A notícia da destruição da Enterprise vazou e causou indignação entre os fãs. Mas Nimoy já estava vacinado com a morte de Spock e tudo transcorreu sem problemas, ainda mais porque a cena foi feita pelo pessoal da Industrial Light and Magic, a produtora de efeitos especiais de George Lucas. Complicado mesmo foi o final das filmagens, onde Nimoy tinha que acumular à pesada rotina da direção o fato de ainda atuar e se maquiar como o vulcano. No início, ele interrompia a maquiagem para ver outros problemas, chegando a andar pelo set com apenas uma orelha pontuda ou sobrancelha vulcana. Mas depois viu que isso era muito mais complicado e passou a chegar às cinco da manhã ao estúdio para se maquiar para depois resolver os demais problemas do dia. Numa cena, Nimoy contracenava com Kelley e Spock estava inconsciente, não podendo ver que rumos a filmagem tomava. Kelley chegou a rir com a situação porque Nimoy tentava abrir os olhos um pouquinho para ver se a filmagem transcorria bem. Na cena final, Nimoy tinha que se concentrar em seu diálogo e na direção. Ele instruiu os atores a abraçar Spock, mas todos mantiveram uma distância respeitosa, com exceção de Uhura.

                  Uma aproximação solene…

Ficou bem claro que eles sabiam que Spock não gostaria disso. Um personagem consolidado depois de tantos anos. Foi decidido também que o nome de Nimoy só apareceria nos créditos como diretor e não no elenco, para não estragar a surpresa (para lá de anunciada) da ressurreição de Spock. Os executivos da Paramount viram o filme e adoraram. Decidiram que Nimoy dirigiria o quarto filme com sua visão pessoal de “Jornada nas Estrelas”, antes mesmo que “A Procura de Spock” estreasse nos cinemas.

E como foi a produção de “Jornada nas Estrelas 4, A Volta Para Casa”? Isso é o que veremos no próximo artigo. Até lá!

     Enterprise queimando na atmosfera de Gênese. Dor no coração…

Batata Movies (Especial Oscar 2018) – Três Anúncios Para Um Crime. Violência Gera Violência.

                  Cartaz do Filme

Mais um bom filme que concorre ao Oscar em nossas telonas. “Três Anúncios Para Um Crime” concorre a sete estatuetas (Melhor Filme, Melhor Atriz para Frances McDormand, Melhor Ator Coadjuvante para Sam Rockwell, Melhor Ator Coadjuvante para Woody Harrelson (!), Melhor Música para Filme, Melhor Roteiro Original, e Melhor Montagem). Ainda, o filme ganhou quatro Globos de Ouro (Melhor Filme de Drama, Melhor Atriz de Drama para Frances McDormand, Melhor Ator Coadjuvante para Sam RockWell e Melhor Roteiro de Filme). Pelas indicações e premiações, dá para perceber que é um filme que vem bem forte para a competição do Oscar. E, realmente depois de assisti-lo, vemos que todas as indicações e premiações foram bem justas.

                                    Uma mãe em busca de justiça…

Mas, do que consiste a história? Vemos aqui a saga de Mildred (interpretada magistralmente por McDornand), uma senhora separada que carrega uma grande mágoa em seu coração: sua filha foi violentamente estuprada e assassinada há sete meses e o crime não foi elucidado, com o culpado andando por aí. Mildred, então, decide tomar uma atitude drástica: ela junta suas economias e aluga, pelo espaço de tempo de um ano, três outdoors, onde ela cobra explicações da polícia e de seu chefe, Willoughby (interpretado por Harrelson). Isso provoca uma polvorosa na pequena cidade de interior onde a senhora vive, com a maioria das pessoas ao lado do chefe de polícia. Mas o clima de intolerância generalizado vai produzir as mais inusitadas situações. Porém, paremos aqui com os spoilers.

                               Conversando com o chefe de polícia…

A principal mensagem desse filme é a de que o ódio apenas gera mais ódio e todos que se deixam cair nessa torrente sofrem terríveis consequências. Isso acontece com Mildred, a nossa protagonista, mas também com outros personagens, como o policial Dixon (muito bem interpretado por Rockwell, a indicação ao Oscar faz jus). Ainda, apesar de estarmos num ambiente altamente provinciano, onde alguns preconceitos afloram com toda a força como o racismo, o filme opta por personagens que não sejam planos, quer dizer, não há o cara totalmente bom ou o cara totalmente ruim.

                                                Um policial odioso.,..

Vemos um desfile de seres humanos, cheios de virtudes ou de preconceitos, por mais rotulados que eles sejam. Mildred, por exemplo, banca a durona e não dá o braço a torcer, o que pode parecer uma virtude, mas isso acaba também fazendo com que ela magoe pessoas próximas a ela que a amam, como o anão James do filme, magistralmente interpretado por Peter Dinklage. Ele merecia até uma indicação, pois soube usar muito bem o pouquíssimo tempo de tela que teve. E ele já se mostrou um ator competente no filme “X-Men, Dias de um Futuro Esquecido”. Mas as interpretações de Rockwell e de Harrelson renderam duas indicações para ator coadjuvante num mesmo filme, algo difícil de acontecer. E, falando nos dois, fica bem claro aqui que McDormand não é a única estrela desse filme que teve uma atuação simplesmente impecável, sendo dura e emotiva nas horas certas. Harrelson ganhou um personagem sensacional que, apesar sofrer uma antipatia inicial por parte do público, já que é denunciado como negligente pela protagonista, consegue virar o jogo maravilhosamente bem, ficando cada vez mais humanizado. A gente realmente passa a gostar do cara (o filme tem esse poder de fazer o espectador reavaliar a conduta e caráter dos personagens) A própria relação entre Mildred e Willoughby passa por momentos onde a senhora se preocupa com o homem que acusa, por esse passar por uma grave doença. Fica bem claro aqui a separação entre público e privado no filme. Mildred tem uma atitude ríspida para com Willoughby como representante de uma instituição pública que não cumpriu com seu dever.

                 Uma trama cheia de conflitos. Mas será só isso???

Mas do ponto de vista privado, ele ainda é um conhecido de longa data que deve ser tratado com solidariedade quando passa por um momento difícil. Já Dixon é um caso ainda mais emblemático de reviravolta do gosto do público pelo personagem, pois ele é taxado como odioso, pois tortura negros e é um bocó agarrado à saia da mãe. Só que o filme cria um lento processo de redenção do personagem que enche nossos olhos. Poucas vezes a gente vê um personagem tão bem construído nas películas por aí. Somente isso já mostra quão primoroso é o roteiro. Portanto, se alguém me perguntar se a estatueta de coadjuvante deve ir para Harrelson ou para Rockwell, eu devo confessar que vou torcer para Rockwell, mas com uma pequena dor no coração, pois o trabalho de Harrelson também foi ótimo.

                               Pessoas magoadas que podem magoar…

Assim, “Três Anúncios Para Um Crime” chega como um grande concorrente ao Oscar, sendo um filme capaz de fazer frente à “A Forma da Água”. Esse é um filme humano que nos dá a principal lição de que não devemos guardar rancor das pessoas, pois todos nós somos humanos que temos virtudes, defeitos, podemos fazer rir ou chorar, nos alegramos, mas também sofremos. E, no fim das contas, temos apenas a nós mesmos para nos ajudarmos. Um filmaço. Um programa imperdível que tem um desfecho perfeito, por botar uma pulga atrás da orelha do espectador. Quer saber? Dê uma chegadinha ao cinema! Você não vai se arrepender…

 

Batata Movies (Especial Oscar 2018) – Sem Amor. Uma Violenta Tragédia Travestida De Real.

              Cartaz do Filme

Mais um filme que concorre ao Oscar. Temos aqui o russo “Sem Amor”, que concorre à estatueta de Melhor Filme Estrangeiro. Confesso que nem gosto muito do enredo da película: um casal em crise, com violentas brigas, fruto de uma decisão mal tomada de viverem juntos, tratam o filho como um verdadeiro empecilho às suas vidas, o que deixa a criança num mato sem cachorro, obrigando-a a tomar uma atitude drástica, onde somente aí os pais farão alguma coisa com relação ao menino.

                         Um menino perdido…

Infelizmente, a gente vê muito disso por aí, com crianças praticamente jogadas ao mundo sem qualquer base ou apoio de pais que são completamente irresponsáveis e pensam apenas em si próprios. Creio aqui que o diretor Andrey Zvyagintsev optou pelo cinema como arma de denúncia das injustiças que vemos por aí pelo mundo. Nesse ponto, o filme é uma obra-prima, pois ele é extremamente perturbador, optando pelo trágico, mas, principalmente com a noção de que a lição não foi aprendida e que os mesmos erros continuarão, tudo isso em virtude da falta de amor e compaixão entre as pessoas. Vemos aqui uma história extremamente tensa, onde o espectador frequentemente sai de sua zona de conforto, se é que há alguma. A gente também se revolta um pouco com os próprios personagens em sua falta de compaixão e com a preocupação com apenas seus próprios umbigos, fugindo de suas responsabilidades para quem os ama. “Sem Amor” pode então ser qualificado, também, como um filme extremamente revoltante, onde o espectador não desenvolve qualquer empatia com seus personagens, muito pelo contrário até.

                              Uma mãe perdida…

Pelo menos, o filme mostrou algo de muito interessante: como uma investigação policial se processa de forma muito eficiente em países que minimamente levam a segurança pública a sério. A gente se pergunta, ao assistir à película, se toda aquela competência aconteceria da mesma forma por aqui. E, geralmente, as conclusões sobre este questionamento não seriam muito boas, infelizmente. Mas não entrarei em maiores detalhes em virtude dos spoilers.

                            Um pai perdido…

Creio que, por despertar sentimentos tão fortes (definitivamente não dá para a gente ficar indiferente ao que vemos ao longo da projeção), essa é uma película que mereceria o Oscar, não fosse a forte concorrência com filmes como “O Insulto” e “Corpo e Alma”, mais digeríveis pelo público. Entretanto, a sua indicação já abriu espaço suficiente para a sua denúncia de um grave problema social que transcende fronteiras e culturas, ou seja, não estamos criando nossas crianças direito, parecendo ser esse um fenômeno mundial, principalmente quando vemos esse tipo de situação tanto aqui no Brasil quanto num país tão culturalmente diferente do nosso quanto à Rússia. Tem ficado por aí a dúvida de se a inserção cada vez maior da mulher no mercado de trabalho está tirando a referência de vida das crianças, pois elas não têm mais a companhia materna à sua disposição o dia inteiro para educá-las.

                               Uma avó perdida…

Ao mesmo tempo, se isso estiver acontecendo, ainda assim a solução não seria retirar a mulher do mercado de trabalho e confiná-la em casa com seus filhos. De qualquer forma, as consequências dessa falta de referência na educação das crianças em todo o mundo recairão sobre nós mesmos. Por essas e por outras, “Sem Amor”, apesar de profundamente odioso, é um filme fundamental, onde o cinema cumpre a sua função social de denúncia. É para se ir ao cinema, assistir, se indignar e, principalmente, refletir…

 

Batata Séries – Jornada Nas Estrelas Discovery (Temporada 1, Episódio 15) Você Pegará A Minha Mão? Desfecho Melancólico.

                              Deixa a Burnham para lá…

E finalmente a primeira temporada de “Jornada nas Estrelas Discovery” terminou. Infelizmente, isso ocorreu de uma forma simplesmente lamentável. Poucas vezes me senti tão desrespeitado como espectador. Não sei se quem escreveu esse episódio (os produtores que eu prefiro nem citar aqui) o fez por preguiça ou por fazer pouco caso da inteligência do público mesmo. Nunca tinha visto um final de temporada tão mal elaborado, com uma solução de guerra tão rápida e falsa. Fico imaginando a pessoa que gostava dos roteiros mais consistentes das séries de Jornada nas Estrelas do passado que teve que assinar o CBS All Acess nos Estados Unidos somente para ver a série. Dinheiro jogado fora? Talvez. Esperança de que a série vá melhorar a partir da segunda temporada como já aconteceu com outras séries de Jornada nas Estrelas? Talvez. Mas a sensação que essa primeira temporada nos dá é de derrota, de terra arrasada, com alguns lampejos de coisas boas.

Qual foi o problema do último episódio afinal? Ele até começou bem, com alguns arranca-rabos entre a Imperatriz, Saru e Burnham, mas o duelo de retórica parou ali no início. O diálogo em que Saru, com sarcasmo, se declarava “intragável” para a Imperatriz poderia ter sido mais bem explorado e desenvolvido. Agora, colocar o interior de Qo’nos como uma região de baixo meretrício para escravas (e escravos) de Órion foi um dos fan services mais tortos que vi na vida. Uma coisa totalmente fora de propósito, sem qualquer significado. Ou somente um pretexto para botar umas bundas verdes na tela? E o tão sonhado momento da batalha final entre Federação e klingons? Negativo, caro leitor. Nem uma mísera navezinha atirando em outra. A solução (para uma série mal escrita em formato de quinze episódios) foi… simplesmente usar uma bomba armada pela Imperatriz que destruiria todo o planeta, que a correta e valente Burnham não aceitou usar, pois não eram esses “os princípios da Federação”, ao que a Imperatriz respondeu “tá legal, toma o detonador aqui” e saiu pela porta dos fundos. Aí, dá-se o tal detonador para L’Rell e, sob a ameaça de destruir o planeta, ela consegue unificar todas as vinte e quatro casas, dominar o Império klingon e acabar com a guerra (ninguém pode tirar esse detonador da mão dela não???)… Pois é, se isso não estivesse registrado lá no streaming, o leitor poderia dizer que eu estava tirando uma com a cara dele. Mas essa foi a solução de uma guerra onde a Federação estava praticamente derrotada. A coisa beira ao deprimente e ridículo. E digo isso respeitando um padrão Discovery de qualidade, o que já não é lá grande coisa. Mas aqui o nível ficou mais abaixo ainda do que isso. A partir daí, o episódio ficou recheado dos monólogos de Burnham sobre o que é a Federação e seu espírito, algo que foi desrespeitado em toda a temporada, com influência de Lorca ou não. A tripulação da Discovery recebendo medalhinhas, que também deviam ser dadas ao público, que aguentou vários episódios mal escritos. A coisa já caminhava para o final com uma tremenda cara de anticlímax, quando alguém teve a brilhante ideia de fazer um fan service e colocar a Enterprise do capitão Pike somente para despistar as pessoas da droga do roteiro que foi escrito de forma lamentável. Ou seja, uma Entreprise CGI usada como um tremendo engana trouxa. Confesso que chega a ser ofensiva a forma como o espectador, trekker ou não, está sendo tratado aqui.

                                                Saru será capitão???

Ah sim, não podemos nos esquecer de Tyler, que se curou de sua dor de cotovelo rapidinho com relação à Burnham quando se animou a jogar umas partidinhas de cassino com os poucos klingons que habitam Qo’nos (uns três, ao todo). Logo, logo, Voq baixou nele e Burnham ficou com aquela cara de pastel da namorada que é trocada por uma partidinha de futebol com os amigos aos domingos. E depois, nosso Tyler ainda vai ajudar L’Rell a governar o Império klingon, sendo uma heroica ponte entre os klingons e a Federação… Tudo muito rapidinho, sem conflitos, resolvido em pouquíssimos diálogos e sem qualquer arrependimento por parte de Tyler, num contraste total com o que a gente viu no episódio anterior. Ou seja, Discovery não apresenta consistência nem entre seus próprios episódios. Uma tristeza.

Por incrível que pareça, uma das poucas coisas que funcionaram bem nesse último episódio foi justamente a Tilly, onde assumiu-se a personagem totalmente como alívio cômico, sendo esse talvez o melhor caminho para a personagem, ao invés de colocá-la para fazer aquelas falas constrangedoras sem qualquer sentido. Mas isso é muito pouco para compensar o desastre geral desse episódio.

Com o fim da temporada, fica a dúvida: tudo isso foi escrito previamente ou, com a gravação dos episódios, as histórias foram tomando rumos diferentes? Alguns produtores (como Ted Sullivan) juram de pés juntos que várias coisas foram pré-concebidas. Mas a gente também tem informações na internet de que as histórias sofreram alguns ajustes, à medida que a temporada ia sendo gravada. Bom, a gente chega à conclusão de que, se tudo foi escrito previamente, foi o clássico caso do “Pau que nasce torto, morre torto”. E, pelo contrário, se as histórias foram sofrendo ajustes, parece que a coisa foi feita tão nas coxas que perdeu-se meio que a mão. Definitivamente, o melhor arco foi o do Universo Espelho. Mas creio que esse formato de temporada mais curta e rápida não pode ser tão fragmentado em sub-arcos, o que provoca uma dispersão de todo o contexto. Que se houvesse sido feito um arco de quinze episódios, tipo novelão mesmo, somente sobre a guerra com os klingons, ou somente com o Universo Espelho, Mudd, tardígrado ou outro qualquer assunto.

                                                  CGI engana trouxa…

Pelo menos, muitas pontas ficaram soltas (aposta de que já haveria uma segunda temporada? Aposta muito arriscada, a meu ver). O que acontecerá com os malditos esporos? Lorca Prime aparecerá? Saru deixará de ser apenas o capitão interino e assumirá o comando da Discovery de vez? Burnham será menos chata e trouxa, tendo um protagonismo, digamos, um pouco mais digno? A Federação se comportará como Federação? Os personagens da ponte terão maior participação? A tripulação será menos neurótica? Stamets vai ter um novo namorado? Os klingons farão cirurgia plástica e sessões de fonoaudiologia? E, principalmente, qual será o arco principal da série? Exploração espacial? Guerra de novo? Só torço para o seguinte: que os roteiristas analisem o que produziram, vejam seus erros e acertos, e aprendam também com os erros e acertos de séries passadas. Deep Space Nine, por exemplo, por seu teor altamente distópico, era visto como inicialmente um tanto violador do cânone, teve as temporadas iniciais um tanto fracas, mas depois virou um sucesso, pois os roteiristas se empenharam em fazer uma história – a Guerra do Dominium – bem escrita e acabada. A primeira temporada de Nova Geração foi um saco, com um Capitão Picard rabugento toda a vida, mas depois a coisa melhorou. Enterprise foi cancelada, mas foi bem no arco Xindi (confesso que gosto) e melhor ainda na quarta e última temporada. Só a Voyager que eu considero mais fraquinha, mas mesmo assim não tinha histórias tão fracas quanto as que vimos em Discovery. A gente espera que a nova temporada se inspire nesses exemplos. Pois o verdadeiro trekker não quer ver Discovery naufragar, pelo contrário, pois seu sucesso garante a manutenção da franquia ao longo do tempo. Entretanto, a coisa tem que ter um mínimo de qualidade, pois caso contrário, não vale a pena ter uma série com o nome de Jornada nas Estrelas somente pelo seu nome. Que se use outro título então e se decrete que aquele espírito de séries passadas de Jornada nas Estrelas não é mais possível para o público de hoje.

Bom, é isso. Fica agora a esperança de que a segunda temporada seja feita por mentes, digamos, mais iluminadas. Vida longa e próspera a todos!!!

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Batata Movies (Especial Oscar 2018) – Eu, Tonya. A Vida Que Imita O Surreal.

                              Cartaz do Filme

Em mais um dos filmes que estão indicados ao Oscar, falemos hoje de “Eu, Tonya”, que concorre a três estatuetas (Melhor Atriz para Margot Robbie, Melhor Atriz Coadjuvante para Allison Janney e Melhor Montagem). Esse filme fala da vida da patinadora no gelo Tonya Harding, que ficou marcada por ter sido acusada de mandar agredir sua adversária, Nancy Kerrigan, com um golpe de barra de ferro no joelho, com o objetivo de tirá-la do caminho numa competição olímpica. O caso ganhou muita repercussão na época (o ano era 1994) e todo o mundo ficou com os olhos grudados na TV durante a competição de patinação dos jogos olímpicos de inverno daquele ano. Ao fim das contas, nenhuma das duas ganhou a medalha de ouro.

Tonya Harding. Vida marcada pelo tragicômico…

Mas, e o filme? Bom, ao contar a vida de Tonya Harding, se escolheu a forma de mostrar isso em entrevistas. É dito no início do filme que ele se baseou em entrevistas e a gente via todo o desenrolar da história alternado com trechos em que os atores, travestidos de seus personagens, davam depoimentos diante das câmaras como se estivessem sendo entrevistados. Assim, tivemos aqui uma coisa muito curiosa: pudemos ver as versões de cada um sobre fatos ocorridos, onde isso foi mais explorado com Tonya Harding (magistralmente interpretada por Margot Robbie, nossa amada Arlequina do Esquadrão Suicida) e seu ex-marido, Jeff Gillooly (interpretado por Sebastian Stan, nosso Soldado Invernal; Marvel e DC em harmonia por aqui?). Cada um dava a sua versão sobre as muitas agressões físicas mútuas que aconteciam entre os dois, deixando o espectador um pouco confuso sobre o que acontecia (é, pelo visto a Marvel e a DC não estavam tão em harmonia, afinal). Parece que o filme quer que o espectador tire suas próprias conclusões sobre a vida extremamente turbulenta dos dois. Falando nisso, temos aqui uma história de vida cheia de percalços, com pessoas padecendo de violentos problemas emocionais e de relacionamento, com o filme querendo dar um tom de comédia em vidas, digamos, tão trágicas. Confesso que a comédia funciona em alguns momentos, mas em outros a gente tem uma situação completamente sem graça. O relacionamento entre Tonya e sua mãe, LaVona (interpretada de forma simplesmente sensacional por Allison Janney) era algo triste de se ver e não foi à toa que a moça ficou com aquele comportamento, digamos, um tanto agressivo. Eu devo dizer que não consigo ver muita graça nisso. De qualquer forma, alguns momentos de comédia vêm na chamada quebra da quarta parede, quando o personagem se dirige ao público da sala, às vezes de forma agressiva até. Isso acontece muito nas entrevistas, mas também no desenrolar da história em si. Esse é um filme que tem o claro objetivo de provocar o espectador.

                             Allison Janney em atuação magistral…

Se a história de vida da protagonista é encarada pela película como uma espécie de tragicomédia, podemos dizer também que essa história de vida tem lances para lá de surreais, sobretudo no caso da agressão a Nancy Kerrigan, onde optou-se por ouvir as versões de Tonya e de seu marido, e jogou-se a responsabilidade nos amigos para lá de idiotas do casal. Seria essa a versão verdadeira dos fatos? Bom, o filme teve que optar por uma versão. E aí…

Um casal altamente turbulento, cada um com sua versão dos fatos…

Esse é um filme que justifica em toda a sua plenitude as indicações às quais recebeu. A montagem do filme esteve espetacular, sobretudo nas sequências das competições de patinação de Tonya, onde era explicado, meio que de forma didática para os leigos, a importância de todas aquelas piruetas que ela dava. Mas esse é um filme de atuações. Margot Robbie fez jus à indicação de melhor atriz, pois conseguiu humanizar um personagem real que foi demonizado por todos, além de mostrar o seu lado badass. Agora, será uma injustiça tremenda se Allison Janney não ganhar a estatueta de atriz coadjuvante (e eu falo isso ainda sem ter visto o trabalho das demais candidatas). Sua atuação engoliu todas as demais do filme, e isso com uma personagem de uma característica só, extremamente odiosa, mas beirando o cômico em algumas ocasiões.  Sebastian Stan também esteve bem, mas a anos-luz de Robbie e Janney.

                      Boa caracterização da personagem principal…

Outra virtude do filme foi mostrar cenas reais de arquivo dos personagens principais nos créditos finais. Sempre acho isso muito legal em filmes baseados em histórias reais, principalmente nesse, que brinca com essa expressão em alguns momentos.

Reconstituindo o problema na apresentação de Tonya nos jogos olímpicos de 1994…

Assim, “Eu, Tonya” é mais um filmaço que está em circuito e que concorre ao Oscar este ano. Vale muito pelas atuações de suas atrizes e de como o real pode ser muito surreal às vezes. Programa imperdível.

Batata Movies (Especial Oscar 2018) – Victoria E Abdul, O Confidente Da Rainha. Estranhando O Colonizador.

                             Cartaz do Filme

Mais um bom filme passou em nossas telonas. “Victoria e Abdul, O Confidente da Rainha”, que foi nomeado para um Globo de Ouro (melhor atriz de comédia ou musical para Judi Dench), e foi indicado a dois Oscars esse ano (maquiagem e figurino). Ele vai abordar (parcialmente, como é dito no início do filme) uma relação que foi descoberta somente em 2010 entre a Rainha Vitória da Inglaterra e Abdul Karim, um indiano que, pelos caminhos da vida, ficou muito próximo da rainha, o que provocou um tremendo mal-estar entre os que a cortejavam. À medida em que Victoria e Abdul se aproximavam, a rainha ficava cada vez mais interessada pela cultura local indiana, o que provocava a fúria dos ingleses que achavam tudo aquilo um tanto primitivo.

                                             Uma grande amizade…

Entretanto, o filme não se reduz à um estranhamento do colonizador sobre o colonizado. O inverso também ocorre, e Abdul questiona a forma de vida inglesa e europeia, sendo que ele tem um amigo, Mohammed, que vê com total repúdio o colonizador inglês e tudo o que ele quer é voltar para a sua terra natal, algo que fica cada vez mais difícil, à medida que Victoria e Abdul se aproximam mais e mais.

      … que incomodava os petulantes ingleses…

Não é preciso dizer como a diva Judi Dench deu um show de interpretação. Ela é uma atriz simplesmente sensacional, sendo forte como uma rainha já muito idosa, sensível como uma senhora desiludida com a sua família, e muito terna com o seu confidente, sempre nos momentos certos. Ali Fazal foi uma gratíssima surpresa. Sua beleza não lhe deu uma pecha de arrogância, muito pelo contrário, pois vimos uma interpretação muito carismática e simpática, digna de contracenar com Dench.

                                     Os verdadeiros Victoria e Abdul…

O filme ainda se caracteriza por lançar mão de belas locações e figurinos, sendo a indicação ao Oscar nesse quesito mais do que justa e uma atração à parte na película.

Assim, “Victoria e Abdul” é mais um daqueles filmes que se amparam totalmente na interpretação de seus atores, aqui principalmente no casal protagonista. Suas virtudes estão na revelação de uma história até pouco tempo desconhecida, na química entre Dench e Fazal e nas belas locações e figurinos. Vale a pena dar uma conferida em DVD.

Batata Movies – Sem Fôlego. Cumprindo O Que Promete.

Cartaz do Filme

Mais um bom filme esse ano. “Sem Fôlego”, dirigido por Todd Haynes (de “Carol”) é uma daquelas películas que tocam no fundo do coração da gente e que trabalha, de forma muito eficiente, uma boa combinação de ideias. Tudo isso com um roteiro bem elaborado e uma soberba montagem. Confesso que não tinha muitas informações sobre esse filme (não li qualquer sinopse ou crítica) e o trailer não dava muitas pistas do que ia acontecer. Talvez por isso o filme tenha superado qualquer expectativa da minha parte.

Duas crianças numa mesma viagem, separadas por cinquenta anos…

O filme se desenrola em duas histórias paralelas. Uma se passa no ano de 1927 e a outra se passa no ano de 1977. Ambas as histórias são protagonizadas por duas crianças que sofrem de surdez. E, em ambas as histórias, as crianças fogem de sua realidade em busca de algo. Em 1927, temos uma menina, Rose (interpretada pela fofíssima Millicent Simmonds) que é surda, mora numa rica casa protegida por uma redoma em função de seu problema físico, e quer ver a mãe, uma famosa atriz de cinema mudo, Lilian Mayhew (interpretada por Julianne Moore); Mayhew não é o nome do ator que interpreta Chewbacca? Bom, continuando a história, nossa pequenina Rose vai escapar da gaiola de ouro que é a sua casa para descobrir a vida em Nova York. O mesmo vai acontecer cinquenta anos depois com Ben (interpretado por Oakes Fingley), um menino que nunca soube o paradeiro do pai e que perdeu a mãe num acidente. Ele acaba ficando surdo depois que tomou uma descarga elétrica no ouvido ao falar no telefone durante uma tempestade. Ele também foge (nesse caso, do hospital) e vai parar em Nova York, mais especificamente no Queens, onde vai procurar o pai. Essas duas histórias, que têm um intervalo de tempo de cinquenta anos, vão se interligar numa hora, tendo como ponto nodal o Museu de História Natural de Nova York.

Chegando à Nova York…

A grande sacação do filme aqui foi transformar a película em alguns momentos num filme mudo, até porque os atores mirins protagonistas eram surdos. Assim, a história de Rose em 1927, rodada em preto e branco, era um autêntico filme mudo, com todas as características que esse tipo de película tem: a interpretação fortemente baseada no gestual (a verdadeira linguagem cinematográfica está, acima de tudo, nas imagens), o uso de um efeito sonoro de uma música executada paralelamente à ação, etc. O fato de Moore ser uma atriz de cinema mudo no filme acabou mostrando que essa foi uma boa escolha, pois como ela tem olhos grandes, seu rosto cumpria bem os requisitos da proporção dois para um entre olhos e boca. Talvez Moore seja hoje em dia a pessoa mais adequada para um papel de atriz de cinema mudo. Mas a história de Ben também teve seus lances silenciosos embora tenha sido mais aplicada a linguagem do cinema falado aqui.

Procurando o pai…

Confesso que essa homenagem ao cinema mudo foi o grande ponto positivo do filme, até porque sou suspeito para falar, já que sou um amante inveterado das películas silenciosas. De qualquer forma, outro grande mérito do filme é a genial reconstituição de época, tanto para 1927 quanto para 1977, organizada por Haynes, algo realmente de se tirar o fôlego. Ainda, devemos dar um destaque todo especial à parte musical, com direito a uma versão em coro infantil de “Space Oddity”, de David Bowie, e a versão do músico brasileiro Eumir Deodato para “Assim Falou Zarathustra”, de Richard. Strauss.

Conhecendo novas pessoas…

Assim, “Sem Fôlego” é um filme todo especial, com um quê todo lúdico, sendo uma bela homenagem ao cinema mudo. Vale muito a pena assistir a essa película e é muito lamentável que ela não tenha recebido qualquer indicação ao Oscar, sendo muito digna de ser prestigiada.