Batata Antiqualhas – Spock e Leonard. Dualidade que se Completa (Parte 11)

                 Como Theo Van Gogh no teatro…

Convencido de que “Jornada nas Estrelas” não voltaria mais, Nimoy partiu para outros projetos como palestras em universidades e teatro. Nessa época, ele encenou uma peça baseada nas cartas entre Vincent Van Gogh e seu irmão Theo. Interpretando o irmão do famoso pintor, mais uma vez um “outsider” (Van Gogh, estereotipado como artista louco, por ter cortado a orelha num momento de desespero) espreitava a vida de Nimoy. O amor de Theo pelo irmão e a convicção de que ele era um grande artista (era Theo quem financiava Vincent) seduziram Nimoy. A peça fez um enorme sucesso. Nesse ínterim, Harve Bennett havia sido chamado pela Paramount para trabalhar em outro filme de “Jornada nas Estrelas”. Bennett já havia trabalhado com Nimoy num filme em 1972, “The Alpha Caper”, onde nosso ator contracenou com Henry Fonda, que, anos mais tarde, o alertara sobre a fatídica propaganda de cerveja. Bennett ficava ciscando para lá e para cá, tentando convencer Nimoy a participar do filme. Pelas leituras de “Eu sou Spock”, dá para perceber que Nimoy negociava com pulso firme, pois sabia da importância de seu personagem, assim como queria preservar a integridade de Spock, algo que ele já fazia durante a série. Ao mesmo tempo em que era durão nas negociações, ele balançava bastante só de pensar que poderia interpretar o vulcano de novo. Foi nesse contexto que Bennett sugeriu se Nimoy queria fazer uma cena de morte. O ator pensou que poderia ser um desfecho primoroso para a série, se tivesse um bom roteiro. Além disso, ele queria ser aproveitado em outros projetos da Paramount. E foi convidado para um telefilme sobre a vida de Golda Meir, uma importante personagem política de História de Israel e que seria interpretada por ninguém mais que Ingrid Bergman. Nimoy interpretaria o papel do marido de Golda, Morris Meyerson. Mais tarde, as apresentações no teatro como Theo lhe renderam mais um convite para trabalhar numa minissérie sobre Marco Polo, que seria gravada na China e onde Nimoy faria um papel de vilão, que ele prontamente aceitou. Assim, de repente, nosso ator tinha três projetos em mãos, precisando filmar em Israel, na China e em Los Angeles. O agente de Nimoy, Merritt Blake, teve que quebrar a cabeça para acertar a agenda do ator, mas conseguiu. Primeiro, foram as filmagens de “Uma Mulher Chamada Golda”, em Israel. Depois, um mês na China para Marco Polo. E, finalmente, para Los Angeles, para filmar “Jornada nas Estrelas II, a Ira de Khan”. Em Israel, houve uma decepção. O diretor do filme, Alan Gibson, só conhecia Nimoy como Spock e era contra a presença do ator no “set” de filmagens. Certa vez, quando Nimoy perguntou ao diretor como devia fazer determinada cena, Gibson foi enfático: “Que diferença faz? Você não é a pessoa certa para o papel mesmo!”, o que deixou Nimoy muito chateado, como não poderia deixar de ser. O estigma do ator de um personagem só volta e meia rondava nosso ator, que procurou esquecer o incidente e focar no trabalho. Mas ele recebeu o roteiro de “Jornada nas Estrelas II” e ficou insatisfeito com a morte de Spock logo ao início do filme, ficando descolada do resto da trama. Com alguns dias de folga, ele foi a Los Angeles ter uma reunião com Bennett e Nicholas Meyer, que havia sido escalado para ser o diretor do filme. Meyer concordou com Nimoy com relação ao roteiro e o reescreveu, dando novas esperanças quanto ao futuro da morte de Spock. De volta a Israel, Nimoy terminou as filmagens com uma Bergman já muito doente em virtude do câncer, mas muito elegante e profissional, onde eles fizeram uma das cenas finais de mãos dadas.

                     Contracenando com uma Ingrid Bergman doente

Cabe dizer aqui que o casal já estava divorciado e não se via há alguns anos. Nimoy quis tirar a tensão do divórcio pegando nas mãos de Bergman, que prontamente aceitou fazer a cena assim. As filmagens finais ocorriam no dia em que o presidente do Egito, Anuar Sadat, foi assassinado por estabelecer uma política de paz com Israel, e havia medo de que o país fosse atacado. No dia seguinte, Nimoy partia para a China com o remorso de ter deixado a equipe de filmagem para trás naquela situação. Em Pequim, ele encontrou uma China ainda descobrindo o capitalismo, onde havia um choque claro entre os comunistas mais antigos e as pessoas mais novas, de tendências capitalistas. Houve também os problemas das barreiras linguísticas como o fato de seu motorista não saber uma palavra de inglês, ou um figurante chinês aprender a pronúncia correta em inglês com uma equipe de filmagem toda italiana (dá para imaginar o desastre que foi). O mais interessante é que nosso ator podia circular livremente pelas ruas sem ser conhecido. Ele chegou até a comer num restaurante popular, achando tudo maravilhoso. Através de uma versão asiática e em inglês do “The Wall Street Journal”, ele descobriu que a notícia da morte de Spock já havia vazado e os fãs estavam revoltados. Ele deu uma risada, pois percebeu que até na China a notícia da morte de Spock havia chegado.

No próximo artigo, falaremos das filmagens de “Jornada nas Estrelas II, a Ira de Khan”, considerado por muitos fãs um dos melhores longas da série. Até lá!

                                                       Vilão na China…

Batata Séries – Jornada nas Estrelas Discovery – Apesar de Você (Temporada 1, Episódio 10). O Tardígrado Agradece.

                 Jonathan Frakes na direção!!!

E “Jornada nas Estrelas, Discovery” está de volta, depois de um pequeno hiato. Teremos, agora, mais seis episódios até o fim da primeira temporada. E começamos com “Apesar de Você” (“Despite Yourself”), dirigido por Jonathan Frakes (já vimos uma pegada mais Jornada nas Estrelas) onde a história é retomada, ou seja, do momento em que a Discovery está numa região do espaço cercada por destroços de naves, com a tripulação sem saber muito bem onde está. E a coisa fica mais confusa quando um cruzador vulcano ataca a nave, que neutraliza rapidamente a ameaça. A tripulação da Discovery acaba recuperando um núcleo de dados klingon e descobre que eles estão, na verdade, no chamado Universo Espelho, onde o planeta Terra governa a galáxia através de um Império Terrestre que se comporta de forma fascista e com ódio a tudo o que é diferente. Assim, o Império precisa lutar contra uma rebelião organizada pelas civilizações alienígenas. Ainda, a estrutura de poder desse Império permite que um militar avance na hierarquia matando o seu superior e tomando seu posto. Como a tripulação da Discovery está presa nesse Universo alternativo, o capitão Lorca passou instruções à sua tripulação de que eles se comportem como se fossem do Universo Espelho, enquanto era procurada uma forma de retornar ao seu Universo. Ainda, Lorca, Burnham e Tyler iriam para I.S.S. Shenzhou com o objetivo de acessar dados sobre uma nave chamada Defiant, que teria vindo do Universo da Discovery do futuro e caído no passado do Universo Espelho. Ou seja, a Shenzhou ainda existia no Universo Espelho e a Burnham do Universo Espelho era a capitã. Já o Lorca do Universo Espelho era o capitão da Buran e teria se rebelado contra o Imperador, sendo caçado por Burnham. Mas esta acabou morrendo numa nave auxiliar alvejada a mando de Lorca. Em represália, o Imperador mandou destruir a Buran, com o Lorca do Universo Espelho fugindo.

          Uma Tilly mais aceitável

Paralela à história do Universo Espelho, está a odisseia de Tyler e seu relacionamento com L’Rell. Agora Tyler tem uma lembrança um pouco mais nítida do que aconteceu e L’Rell deu a entender que ele era um klingon que foi transformado em humano. Tyler irá pedir a Culber que o examine e esse constatou as alterações no corpo de Tyler. Num acesso de fúria e com uma dupla personalidade, com o seu lado klingon se manifestando, Tyler mata Culber.

        L’Rell e Tyler. E ele era klingon mesmo…

Vamos lá. O que podemos falar desse episódio? Em primeiro lugar, a ideia de se ter usado o Universo Espelho, uma fórmula que já deu certo em outras séries de Jornada nas Estrelas, a começar pela Clássica, passando por Deep Space Nine e chegando até a Enterprise. Muito se suspeitou que a própria história de Discovery estivesse no Universo Espelho, dada a forma neurastênica com a qual a tripulação se comportava. Agora, sabemos que a Discovery sim era do “nosso” Universo e ela chega a um Universo de Império Terrestre fascista. Confesso que fiquei um pouco surpreso com a cara de perplexidade da tripulação ao chegar a esse Universo Espelho. Pelo comportamento da tripulação e alguns procedimentos nos episódios anteriores (como torturar tardígrados), era mais para eles se sentirem em casa. De qualquer forma, usou-se algo do cânone que já havia dado certo e Discovery acabou bebendo da mesma fonte, até para se aproximar um pouquinho mais do cânone que, volta e meia, ela parece enxergar somente por um telescópio.

                      Culber é morto por Tyler

A forma como o Universo Espelho brinca com os personagens também foi positiva. Colocar a Tilly como capitã da Discovery no Universo Espelho foi uma boa ideia, onde a atriz ficou visualmente bem mais interessante do que aquela cadete bocó. Mas, como nem tudo é perfeito, a Tilly usou um linguajar com palavras de baixo calão para se passar pela capitã do Universo Espelho, algo que não foi usado em qualquer episódio de Universo Espelho de qualquer outra série. Outra coisa que se reclamou por aí (leia-se o podcast da Seção 31) foi a falta de sensualidade das roupas femininas do Universo Espelho, que cobriam demais o corpo das mulheres. Sei não, mas em tempos de empoderamento feminino e com tantas denúncias de assédio sexual por aí (que a gente nem sabe sempre se são muito ou pouco graves), creio que colocar as mulheres numa posição mais sensual com trajes mais diminutos iria provocar um rebu desgraçado e parece que os produtores não quiseram se arriscar. Sinal dos tempos… Mas a mexida mais efetiva nos personagens ficou nos casos de Burnham e, principalmente, Lorca. A gente se pergunta como seria o Lorca do Universo Espelho. Será um cara legal? Afinal de contas, ele tentou dar um golpe no Imperador. O próprio Lorca faz uma piada a certa altura do episódio dizendo que esperava encontrar uma versão melhor dele naquele Universo. E se o próprio Lorca da Discovery ser o Lorca do Universo Espelho, como algumas pessoas por aí acham? Creio que abriram-se mais possibilidades para esse personagem agora que a história tomou esse rumo, o que deixa ele cada vez mais interessante em detrimento de Burnham, que é a protagonista (ainda). Só para concluirmos a parte do Lorca, confesso que tive um prazer um pouco sádico de ver o capitão na cabine da agonia e de como senti, no nosso Universo, uma risada de tardígrado ecoando na imensidão do espaço.

    Stamets (fundo) e suas misteriosas profecias…

E o nosso Tyler? Eu disse em outros carnavais que seria muito óbvio se ele fosse um klingon. Infelizmente, parece mesmo que a série vai seguir por esse caminho, mas com a pitada de que Tyler seria uma versão alterada do klingon albino que ficou junto de L’Rell lá no início da temporada. Assim, Tyler tem uma espécie de dupla personalidade e está envolvido na missão de achar dados da Defiant junto com Lorca e com Burnham. A expectativa toda está agora em como Tyler vai domar o klingon dentro de si ou não. Outra coisa que a princípio irritou (e muito), foi o fato de Tyler ter matado Culber. Justamente quando Jornada nas Estrelas aborda a temática gay, um membro do casal morre, assim como já tinha acontecido com outros personagens principais da série. Pelo menos surgiu a informação no Facebook e do próprio Wilson Cruz (ator que interpreta Culber) no “Aftertrek” de que o médico ainda vai provavelmente voltar a aparecer na série. E, se a gente fala de Culber, não dá para não falar de Stamets, que está lá todo alteradão, com olhos lácteos, falando de estranhos palácios e de inimigos entre nós, com raros momentos de lucidez, quando seus olhos voltam a ficar escuros. Pelo menos, parece que o inimigo é Tyler. Mas, o que seria o palácio? Expectativas para os próximos episódios. Ainda mais porque não tem motor de esporos agora (e eu digo ufa, pois não aguentava mais ver a Discovery fazendo aquelas papagaiadas de rodopios…).

Assim, podemos dizer que o décimo episódio de Discovery foi relativamente bom, muito em virtude do dedo de Frakes, um cara que conhece o clima de Jornada nas Estrelas e de todas as suas nuances, mas principalmente porque uma fórmula de sucesso do cânone foi utilizada. A se exaltar as versões dos personagens no Universo Espelho e as novas possiblidades para eles. A se lamentar o fator óbvio de Tyler ter alguma coisa a ver com os klingons. Curiosidade total com os rumos futuros de Culber e as profecias de Stamets. Esperemos os próximos episódios.

Quer ver mais resenhas sobre “Jornada nas Estrelas, Discovery” ? Veja aqui

 

 

Batata Antiqualhas – Spock e Leonard. Dualidade que se Completa (Parte 10)

                  A tal propaganda de cerveja…

Em 1975, Nimoy estava de férias em Londres quando descobriu, através de Henry Fonda, que a figura do personagem de Spock estava sendo usada numa propaganda de cerveja e nosso ator não recebia um centavo por isto. Ao pedir que seu advogado procurasse saber o que estava acontecendo, Nimoy tomou um susto: ele recebia quantias irrisórias pelo uso de sua imagem e já não recebia qualquer dinheiro sobre ela há cinco anos. Nimoy parou de receber dinheiro por sua imagem justamente quando o sucesso de “Jornada nas Estrelas” aumentou com as reprises. E, para piorar a situação, a Paramount não tinha o direito de comercializar a imagem do ator já que a série havia sido cancelada. Mas, mesmo assim, a gigante do cinema o fez por quase dez anos. Assim, Nimoy teve que abrir uma ação judicial contra a Paramount.

                                           O diretor Robert Wise.

Com o sucesso de “Guerra nas Estrelas”, a Paramount começou a entrar em contato com Nimoy, com o objetivo de fazer um contrato para o longa-metragem de “Jornada nas Estrelas” para o cinema. Mas Nimoy saía pela tangente, alegando que não se sentia confortável em discutir um novo contrato com a Paramount enquanto a ação judicial estivesse em curso. Todo o elenco já havia assinado o contrato, o roteiro já estava pronto e Robert Wise (de “A Noviça Rebelde” e “O Dia em que a Terra Parou”) era o diretor. Wise ressaltou a importância de Spock a ponto de constar no contrato dele com a Paramount que o estúdio se esforçasse para resolver a ação judicial de Nimoy, o que acabou acontecendo. Mas Nimoy não gostou do roteiro, pois a história, segundo o ator, não era boa e, também, porque Spock aparecia pouco nela. Assim, Wise, Roddenberry e Jeffrey Katzenberg, da Paramount, foram à casa de Nimoy para aparar as arestas. O problema é que Spock, ao tentar purgar todas as suas emoções no ritual do Kolinahr, que levava à lógica total, teria ficado com uma espécie de “ataque de nervos”. Além de estar violando a integridade do personagem, Nimoy alegou que tal crise de nervos não teria qualquer relação com o núcleo central da história, ou seja, V’Ger, e assim, o personagem Spock se tornaria desnecessário. A conversa terminou com somente Nimoy e Wise, sendo o diretor muito admirado por nosso ator. Roddenberry e Katenberger se retiraram, pois eles haviam combinado que se a conversa não fosse produtiva, eles deixariam Nimoy e Wise a sós. Sem estar ainda muito convencido, Nimoy aceitou participar do filme, em parte porque ele confiou em Wise, em parte porque não queria ficar de fora depois de tanta confusão provocada por “Eu não sou Spock”. Na coletiva de imprensa que anunciava a produção do filme, foi perguntado a Nimoy por que ele havia sido o último a assinar o contrato. Ele já sabia que seria perguntado por isso e, na manhã daquele dia, bolou a resposta no chuveiro: “Estávamos tentando chegar a um acordo, mas o serviço postal entre a Terra e Vulcano é muito lento”, o que despertou gargalhadas gerais. O orçamento do filme, inicialmente estimado em quinze milhões de dólares, chegou a quarenta e cinco milhões de dólares, muito em virtude dos efeitos especiais. Os uniformes, embora agradassem a Nimoy, eram vistos por outras pessoas como “pijamas monocromáticos”. Os efeitos visuais do teletransporte foram mais elaborados, em vez da trucagem simples utilizada na série clássica. Uma cena curiosa é a que Kirk fala à sua tripulação sobre a ameaça que paira sobre a Terra. Os quatrocentos figurantes eram fãs da série, incluindo Bjo Trimble, a fã que liderou a campanha de cartas para salvar a série e que garantiu uma terceira temporada para “Jornada nas Estrelas”. Alguns atores da “Fase II” foram utilizados. Persis Khambatta, a ex-miss Índia, interpretava a navegadora Ilia e teve seus belos cabelos negros raspados para o papel. David Gautreaux, o vulcano Xon de “Fase II”, tinha um papel mais secundário no longa-metragem, sendo um tripulante de uma estação terrestre engolida pela nuvem.

                                      A velha tripulação de volta

Já a participação de Spock foi remodelada para que ela tivesse mais fundamento. Ao invés do tal ataque de nervos, Spock rejeitaria o Kolinahr, pois sentiu uma presença alienígena muito poderosa (ou seja, V’Ger) que tornava sua presença a bordo da Enterprise necessária, algo muito mais coerente, diga-se de passagem. Mesmo assim, o personagem Spock se comportou de uma forma muito fria e taciturna, em parte por causa do ritual do Kolinahr, em parte pelo distanciamento que houve com a tripulação de alguns anos. Nimoy não gostou do ritmo das filmagens, pois o trabalho foi muito tedioso, ao contrário do que ocorria na série. Nas filmagens do longa, houve uma espécie de reverência injustificada e parecia que o filme estava fora do controle do elenco. Nimoy e Shatner deram algumas sugestões, onde umas foram aceitas e outras não. Uma das sugestões aceitas foi a sequência onde a tripulação dá as costas para a sonda em formato de Ilia, que queria que a tripulação a obedecesse. Eles estariam tratando a sonda (e V’Ger) como uma criança mimada, ignorando-a, ao invés de Kirk e Spock travarem uma batalha verbal com Ilia, como no roteiro original, o que poderia ter tornado a história mais maçante. Uma outra improvisação, que ficou de fora da versão final, mas depois apareceu no lançamento em vídeo, foi uma lágrima de Spock ofertada a V’Ger, como se o vulcano se sentisse um alter ego da sonda, compartilhando sua dor em não encontrar as respostas que procurava para suas perguntas: Quem eu Sou? Qual é minha função? Quem me criou? Spock chorava por V’Ger como se chorava por um irmão.

                    Efeitos especiais excessivos, enfadonhos e caros…

Terminadas as filmagens, os efeitos especiais ficaram aquém do esperado e foram refeitos por outra empresa em cima da hora, o que acarretou problemas na edição. A pré-estreia teve uma recepção fria, em virtude do alto número de efeitos especiais, que se tornaram tediosos. Apesar da sequência final dar um gancho para uma continuação, Nimoy achou que “Jornada nas Estrelas” acabara ali.

Seria mesmo? Isso é o que veremos no próximo artigo. Até lá!

    O choro de Spock por V´ger

Batata Antiqualhas – Spock e Leonard. Dualidade que se Completa (Parte 9)

 

                                                   Nimoy no teatro…

Durante as filmagens de “Catlow” no sul da Espanha, Nimoy percebeu que a sombra de Spock ainda pairava no ar. Enquanto conversava com um jovem maquiador de Madri no “set” de filmagens, o rapaz mostrou a ele uma caixa de cigarros que tinham duas orelhas originais de Spock. O maquiador as conseguiu depois de fazer um curso com Freddy Philips, o maquiador de “Jornada nas Estrelas”. Só para sanar uma curiosidade aqui, Nimoy usou cerca de 150 pares de orelhas ao longo da série (cerca de dois pares por episódio), que duravam apenas uns poucos dias. Nimoy também esteve uma vez com um representante de vendas da Paramount em Londres e o filho desse representante tinha um uniforme original de Spock.

Nimoy continuou a sua experiência no teatro e uma das peças das quais ele tem boas recordações é “The Man in the Glass Booth”, que falava de um homem que havia sido acusado de crimes de guerra nazistas, sendo julgado em Israel, mas na verdade ele era um preso judeu do campo de concentração e era inocente. Entretanto, esse homem declarou falsamente sua culpa para ser condenado à morte e depois os acusadores descobrirem que haviam matado um homem inocente. Ele queria ajudar a mostrar o que a sede de vingança pode provocar. A peça chegou a ser considerada antissemita por alguns. Mas muitos judeus não pensaram assim, para alívio de Nimoy.

             Um Calígula vulcano…

Enquanto isso, “Jornada nas Estrelas” era reprisada diariamente em muitas estações locais de tv, tornando Spock mais vivo que nunca. As críticas das peças de Nimoy sempre faziam alusões ao vulcano e às suas orelhas. Isso provocava um certo desconforto em nosso ator, que ao interpretar Calígula numa peça, ficou muito nervoso, pois uma de suas falas era: “Resolvemos ser lógicos”. Nimoy sempre tinha a impressão de que os espectadores das primeiras filas dos teatros onde encenava falavam a ele: “Oi, sr. Spock!”.

Tal situação deixava Nimoy em conflito, pois, ao mesmo tempo que ele sentia falta do personagem vulcano, ele não queria ficar marcado como ator de um personagem só. Mas “Jornada nas Estrelas” não perdia sua força. Pelo contrário. Em 1972, foi feita em Nova York a primeira Convenção Nacional de “Jornada nas Estrelas”, onde os organizadores achavam que 500 fãs seriam um bom número. Apareceram três mil pessoas. Tais eventos davam grande emoção a Nimoy, pois não havia qualquer comércio ou produtoras hollywoodianas por trás. Apenas a paixão dos fãs. Nmoy associa tal sucesso de “Jornada nas Estrelas” a vários fatores. Um era a mensagem de um futuro otimista, onde a raça humana sobrevivera à ameaça da guerra nuclear que, naquela época, estava no auge (a crise dos mísseis com Cuba e a União Soviética tinha acontecido em 1962). As décadas de 1960 e 1970 também foram de efervescência cultural, onde a população questionava governos e líderes, em tempos de verdadeira incerteza. Em contrapartida, a tripulação da Enterprise era confiável e incorruptível.

                                    A série animada…

Logo, ficava evidente que a série voltaria. Ela deu seus sinais em 1973, em forma de desenho animado, produzido por Dorothy Fontana. Mais tarde, em 1975, a Paramount, que havia comprado os direitos de “Jornada nas Estrelas” da Desilu, quis retomar a série com o elenco original. Mas o entusiasmo dos fãs era tão grande que o projeto da série foi substituído por um filme para o cinema. Entretanto, os roteiros para isso foram rejeitados. Em 1978, surgiu um novo projeto para série: “Jornada nas Estrelas, Fase II”. Só que foram oferecidas a Nimoy apenas participações esporádicas. Nimoy recusou. Essa recusa, mais a publicação do livro “Eu não sou Spock” na época é que deram a Nimoy a fama de não gostar de Spock e da série. Ele foi o único ator do elenco original a não assinar contrato. Mas o projeto da série foi abandonado em virtude do estrondoso sucesso de “Guerra nas Estrelas” na época. Assim, o projeto do filme voltou a tomar força.

No próximo artigo, vamos falar do primeiro longa de “Jornada nas Estrelas” e a conturbada negociação de Nimoy para participar do filme. Até lá!

   A “Fase 2” não    vingou…

Batata Antiqualhas – Spock e Leonard. Dualidade que se Completa (Parte 8)

                             O Cérebro de Spock

O personagem de Spock ficou muito famoso e ele aceitava o máximo de aparições públicas que podia, para fazer dinheiro. Nimoy sabia que sua carreira não lhe dava a estabilidade necessária e ele devia aproveitar todas as oportunidades. Mas essas aparições passaram a ficar até perigosas, pois a quantidade do público querendo ver o vulcano em pessoa era muito grande e Nimoy precisou até de seguranças, algo que ele não gostava, pois em sua infância ele pediu um autógrafo para um ator de teatro de nome Danny Kaye, de quem muito gostava, sendo prontamente ignorado. Nimoy pensava com seus botões que, se um dia fosse famoso, daria autógrafos para todos que lhe pedissem. Mas a coisa fugiu ao controle, ao ponto de Nimoy precisar fugir de escada magirus do corpo de bombeiros de um prédio de uma loja de departamentos em Long Island (ele havia ficado encurralado no alto do prédio). Desnecessário dizer que ele precisou trocar o seu número de telefone e, além disso, ele precisava embarcar às escondidas nos aviões em aeroportos, não sem ser anunciada sua presença pelo comandante do voo depois de devidamente instalado no avião.

                                     Seduzindo uma romulana

As relações entre Nimoy e Roddenberry eram estritamente profissionais, pois Nimoy não gostava de certos comportamentos de Roddenberry. Certa vez, Nimoy encomendou a Roddenberry uma opala, pedra preciosa para o anel de sua esposa. Roddenberry e Barrett poliam e vendiam pedras preciosas. Inicialmente foi combinado um preço digamos, mais camarada. Mas, depois Roddenberry havia mudado de ideia e deu um preço bem mais caro. Só que tudo era uma brincadeira e as risadas de Roddenberry e Barrett deixavam Nimoy bem constrangido (como Spock ficaria!). As discussões entre Nimoy e Roddenberry sobre os rumos do personagem Spock só ajudaram a deteriorar ainda mais a relação entre os dois.

             Um mestre dos disfarces

As relações entre Nimoy e Shatner também sofreram desgastes, seja na distribuição das falas dos personagens, seja em incidentes mais isolados como o fato de que Shatner não aceitou que Nimoy fizesse uma sessão de fotos na sala de maquiagem logo pela manhã. Roddenberry chegou a consultar Isaac Asimov sobre essas briguinhas e o grande escritor de ficção científica sugeriu tornar Kirk e Spock amigos inseparáveis onde, na visão do público, um ficaria ligado ao outro.

                                     Spock Cuba Libre

No meio da 2ª temporada de “Jornada nas Estrelas”, a NBC deu sinais de que cancelaria a série, pois achava que, embora houvesse muitos fãs devotados, o número não era suficiente. Uma fã, Betty Jo, e seu marido, entretanto, fizeram uma campanha onde era pedido aos fãs que enviassem muitas cartas à emissora de TV contra o cancelamento da série, o que garantiu uma terceira temporada. Foi prometido o bom horário de 19h30min de segunda-feira para a exibição dos episódios. Mas depois o horário foi mudado para as sextas-feiras às 22h, justamente quando o público adolescente saía para se divertir. Roddenberry ficou furioso e disse que estaria fora se o horário não fosse mudado. A NBC ignorou o blefe e manteve o horário, restando a Gene abandonar “Jornada nas Estrelas”. O mesmo aconteceu com D. C. Fontana, que quis investir mais na carreira de escritora. A emissora, então, chamou Fred Freiberger para tomar as rédeas da série, um antigo amigo de Nimoy. Mas Freiberger queria que a série fosse menos cerebral e com mais ação, o que desvirtuou o espírito de “Jornada nas Estrelas” e azedou as relações com Nimoy. Os episódios também foram extremamente sofríveis como “O Cérebro de Spock”, onde mulheres alienígenas sequestram o cérebro do vulcano, obrigando McCoy a instalar um aparelho na cabeça de Spock e conduzi-lo para lá e para cá como um autômato (lamentável), numa história sem sentido e com fraco conteúdo, sem abordar questões mais profundas. Outros exemplos de episódios ruins foram “Todos os nossos ontens”, onde ele se apaixonou e comeu carne, e “Os Herdeiros de Platão”, onde Spock foi obrigado a dançar flamenco por uma raça alienígena avançada, mas muito prepotente e má (foi nesse episódio que também ocorreu o famoso beijo inter-racial entre Kirk e Uhura). Mas houve bons episódios como “O Incidente Enterprise”, onde Kirk e Spock tapeiam uma capitã de uma nave romulana para roubar seu dispositivo de camuflagem. Há excelentes cenas entre Spock e a capitã, que é seduzida pelo vulcano. Apesar de ter saído da série, o episódio tem a assinatura de D. C. Fontana, que fugia dos estereótipos machistas da época, que minimizavam as mulheres, e criava interessantíssimas personagens femininas.

             Com o elenco de “Missão Impossível”

A mudança de diretores e roteiristas com o correr dos episódios fazia com que se perdessem um pouco as características principais dos personagens. E aí Spock também entrava nisso. Nimoy, obviamente, assinalava esses problemas, o que causava atritos, principalmente com Fred Freiberger, o que ajudou a levar a situação para o cancelamento da série.

Logo depois do cancelamento, foi oferecido a Nimoy um papel na série “Missão Impossível”, onde ele faria um personagem mestre em disfarces, Paris, o Grande. Mas esse personagem era, segundo Nimoy, muito vazio, sem um passado, se comparado a Spock que ainda povoava a mente de nosso ator e lhe fazia muita falta. Nimoy pediu para sair de “Missão Impossível”, uma atitude que poucos tomariam na época. Nesse contexto (início da década de 1970) ele estreou na direção num episódio de “Galeria do Terror”. Em 1971, Nimoy foi chamado para participar de um filme chamado “Catlow”, com Yul Brinner (o Ramsés de “Os Dez Mandamentos de Cecil. B de Mille) e Richard Crenna (Trautman, o “amigo do Rambo”). Ele também passou a atuar em teatro, no musical “Um Violinista no Telhado”, sobre um judeu da comunidade russa. A peça foi sucesso de público e crítica, o que deu a Nimoy a chance de fazer mais algumas peças de teatro.

No próximo artigo, falaremos mais da carreira de Nimoy e sua volta a “Jornada nas Estrelas”. Até lá!

                   No filme “Catlow”

Batata Antiqualhas – Spock e Leonard. Dualidade que se Completa (Parte 7)

Saudação vulcana. Origem no judaísmo

Vamos hoje falar como surgiu a saudação vulcana. Ela vem da infância judia de Nimoy. É um símbolo do judaísmo ortodoxo. Nas palavras de Nimoy, durante o culto da Páscoa, os “Kohanim” (que são os sacerdotes) costumam abençoar os fiéis. Eles erguem as mãos mostrando as palmas para a congregação, com os polegares esticados e os dedos médio e anular separados de forma que cada mão forme dois “V”. Esse gesto simboliza a letra hebraica “shin”, que faz o som do “ch” no alfabeto judaico e é a primeira letra da palavra “Shaddai”, que significa “Senhor”. Na cabala judaica, “shin” também representa o Espírito Eterno. O ritual impressionou Nimoy bastante quando ele era menino e acompanhava sua família ao culto numa sinagoga ortodoxa. As mulheres sentavam-se num local separado e Nimoy sentava-se junto ao seu pai, avô e irmão mais velho. O momento em que os “Kohanim” abençoavam a congregação mexia profundamente com Nimoy, por causa do poder de magia e teatralidade. Em hebraico, eles cantavam: “Que o Senhor os abençoe e os proteja. Que o Senhor volte Sua face para vocês e lhes dê paz…”. De forma quase uníssona, as vozes de todos elevavam-se e abaixavam, em gritos penetrantes, fervorosos, apaixonados e extasiados. Nesse momento, todos cobriam os rostos ou com as mãos ou com xales, e o pai de Nimoy advertia que o garoto não podia olhar. Era o momento em que “Shekhinah”, a essência sagrada de Deus, num formato feminino, entrava no santuário. E essa essência era tão poderosa e bonita que o simples fato de olhá-la poderia matar uma pessoa. Mas Nimoy olhou entre os dedos. E viu os rabinos num êxtase religioso, com cabeças e faces ocultas por xales, com os braços estendidos para a congregação. Enquanto evocavam a essência de Deus, suas mãos continuavam exibindo a representação da letra “shin”. Todo esse ritual ficou gravado na memória de Nimoy, onde o símbolo da letra “shin” com as mãos foi usado depois para a saudação vulcana. Cabe dizer aqui também que, anos mais tarde, Nimoy faria um ensaio fotográfico de imagens femininas intitulado “Shekhinah”.

Os pais de Spock. Contato com os dedos…

“Jornada para Babel” é mais um episódio marcante para a figura de Spock, já que a Enterprise é designada para uma missão diplomática onde o pai do primeiro oficial, Sarek, tem um papel fundamental. Mark Lenard, que já havia interpretado um romulano em “O Equilíbrio do Terror”, foi chamado para ser o pai de Spock e tomou “aulas” de cultura vulcana com Nimoy. A mãe terráquea de Spock, Amanda (interpretada por Jane Wyatt) também aparece neste episódio, que foi escrito por quem? Ah, Dorothy Fontana. Nimoy enfatizou a Lenard a importância do tato na cultura vulcana e a afeição entre o casal ficou registrada por eles no toque da ponta dos dedos indicador e médio bem juntinhos, como se eles estivessem de mãos dadas. Nimoy diz que, numa convenção de “Jornada nas Estrelas”, alguém do público perguntou a Wyatt qual era o primeiro nome terráqueo de Spock e ela retrucou calma e sorridente: “Harold”.

Primeiro comando. Quando a lógica não funciona…

“O Primeiro Comando” fala da dualidade entre a lógica e a emoção. Spock se vê preso num planeta com alguns tripulantes dentro de uma nave auxiliar e cercados por uma espécie alienígena hostil. Ele comanda a nave e procura tomar todas as decisões de forma lógica. É quando ele percebe que nem sempre a lógica funciona e às vezes um pouco de intuição também ajuda as coisas. Obviamente, seu comportamento lógico fará com que a tripulação o veja com reservas, já que ele será considerado muito frio em algumas situações. A nave auxiliar consegue entrar em órbita, mas por pouco tempo, e irá cair na atmosfera. Sem comunicações com a Enterprise, os tripulantes da nave auxiliar torcem para que a Enterprise os veja antes que o combustível acabe. Mas a Enterprise precisa ir urgentemente para um outro planeta (isso sempre acontecia, geralmente a Enterprise carregava remédios para curar uma epidemia mortal e eles não tinham muito tempo) e já tomava seu caminho. Foi aí que Spock, num ato de desespero, queimou todo o combustível de uma vez, deixando um rastro incandescente pelo espaço, o que foi detectado pela Enterprise, salvando a tripulação. Ao que Spock disse depois para Kirk, e na maior cara de pau, que um ato de desespero naquela hora era a coisa mais lógica a fazer. Kirk então chama Spock de teimoso e, como vulcanos não mentem, Spock responde com um “Sim, Senhor”, provocando risadas gerais.

Sobre o fato de vulcanos não mentirem, há uma passagem engraçada no episódio “Nômade”, onde uma sonda terrestre de exploração de nome Nômade foi lançada ao espaço no passado por um cientista de nome Kirk. Com suas viagens e dados colhidos, ela conseguiu desenvolver inteligência própria e funcionava de forma totalmente lógica, devendo eliminar qualquer coisa que se comportasse ilogicamente, ou seja, humanos. Spock inclusive, faz um elo mental com a sonda, onde vemos Nimoy contracenando com uma caixa de papelão com uma antena de carro embutida. Como o criador da sonda também se chamava Kirk, a sonda confundiu o capitão da nave com seu criador. Para solucionar o problema da sonda não matar toda a tripulação, Kirk deu uma cartada arriscada e, com argumentos altamente lógicos (para orgulho de seu primeiro oficial), convenceu a sonda de que ela havia confundido o capitão com seu criador. E por funcionar de forma ilógica, ela devia provocar sua autodestruição, o que acabou ocorrendo. Finalizado o problema, Spock parabeniza o capitão: “Parabéns, capitão, sua lógica foi impecável”. Kirk, cheio de si, retruca: “E o senhor achava que eu não era capaz disso, senhor Spock?”, ao que o vulcano responde, “Não, Senhor”, jogando a cara de Kirk no chão.

Muitos episódios, muitas lembranças. Mas Nimoy e Spock merecem muito mais. Assim, nos vemos no próximo artigo. Até lá!

Nômade. Elo mental com a máquina, sob o olhar atento de Kirk…

Batata Antiqualhas – Spock e Leonard – Dualidade Que Se Completa (Parte 6)

     Dorothy Fontana, a grande roteirista de “Jornada nas Estrelas”

Mais outro episódio marcante para o personagem Spock foi “Deste Lado do Paraíso”, escrito pela grande Dorothy Fontana, uma secretária de Roddenberry que se tornou uma das melhores escritoras de “Jornada nas Estrelas”. Pelo machismo latente da época, ela encobria o seu nome com os créditos D. C. Fontana. A escritora chega a Nimoy e diz que quer escrever uma história de amor para Spock, algo que deixa o ator com as orelhas em pé. Mas Dorothy fez a coisa na medida certa, pois o amor entre Spock e uma moça que havia se apaixonado por ele no passado, Leila Kalomi, era provocado por esporos liberados por uma plantinha num planeta onde havia uma colônia terrestre. A coisa deu tão certo que esse hoje é um dos episódios mais cultuados de “Jornada nas Estrelas” e o mais adorado pelo público feminino. Jill Ireland, a atriz que interpretou Leila Kalomi, era esposa de Charles Bronson na época e, por ser muito bonita (era uma estonteante lourinha de olhos azuis), era acompanhada pelo ator que só fazia papéis durões, sendo muito ciumento e possessivo com relação à moça, não sem razão, segundo Nimoy, que se sentia muito desconfortável em ter que beijá-la nas gravações do episódio, na presença do maridão ciumento. Este episódio também é marcado pela “surra” que Spock dá em Kirk, pois as pessoas só se livravam dos esporos num ataque de raiva e o capitão realmente irritou o seu primeiro oficial para isso. O problema é que um vulcano é três vezes mais forte que um humano. Dá para imaginar como Kirk apanhou.

                  A deslumbrante Jill Ireland

Um dos episódios mais vulcanos foi “Tempo de Loucura”, escrito por Theodore Sturgeon, consagrado escritor de ficção científica. Foi ele que criou o termo “Vida Longa e Próspera”. A cada sete anos, os vulcanos devem acasalar, caso contrário morrem. O ritual de acasalamento se chama Koon-Ut-Kal- If-Fee, também conhecido como Pon Farr. Kirk leva o amigo para o planeta Vulcano e, por força das circunstâncias, é obrigado a fazer uma luta de morte com Spock, já que a prometida do primeiro oficial era apaixonada por outro vulcano e, de forma bem lógica, ela usou os meandros do ritual para meter o capitão e Spock numa tremenda sinuca de bico. McCoy conseguiu convencer a todos que iria injetar em Kirk uma espécie de estimulante para compensar a atmosfera rarefeita de Vulcano. Mas era uma espécie de tranquilizante que simulou a morte de Kirk. Convencido de ter matado seu capitão, Spock diz que vai entregar-se à corte marcial, mas encontra Kirk vivo na enfermaria, esboçando um largo sorriso na frente de McCoy e da enfermeira Christine Chapel (interpretada por uma Majel Barrett agora loura – no piloto “A Jaula” ela tinha longos cabelos negros –  sendo apaixonada por Spock). Nimoy não gostou muito disso, pois em sua intenção em proteger as características de seu personagem, achou que deveria haver um encontro reservado entre Spock e Kirk. Mas a plateia das convenções de “Jornada nas Estrelas” vai à loucura quando vê a explosão emocional de Spock perante McCoy e Chapel, vibrando ainda mais quando o vulcano se justifica dizendo que sente um alívio lógico pela frota estelar não ter perdido um de seus melhores oficiais.

Celia Lovsky tinha dificuldade em fazer a saudação vulcana

Foi também em “Tempo de Loucura” que apareceu a famosa saudação vulcana, sendo que poucas pessoas conseguiam fazê-la. Celia Lovsky, a sacerdotisa T’Pau do episódio, tinha que deixar a mão de prontidão antes de começar a rodar a cena e torcer para a mão não desfazer a saudação. Outro que tinha enorme dificuldade era Shatner (nas palavras de Nimoy, também pudera, pois ele não era vulcano!). Mas como a saudação vulcana apareceu? Isso é tema para nosso próximo artigo. Até lá!!!

Um sorridente Spock em “Tempo de Loucura”, que leva os fãs ao delírio!!!