Batata Movies – Histórias Que Nosso Cinema (Não) Contava. Uma Sólida Colcha De Retalhos.

Cartaz do Filme

Um bom documentário brasileiro. “Histórias Que Nosso Cinema (Não) Contava”, de Fernanda Pessoa, é mais um daqueles filmes que aborda o período da chamada “ditadura civil-militar”, de 1964 a 1985. Só que, dessa vez, a coisa é feita de uma forma bem peculiar. A gente sabe que a produção cinematográfica do período foi marcada pelas chamadas “pornochanchadas”, umas comédias bem chinfrins de conteúdo altamente erótico, embora não tivessem nada de pornográficas. Foi nessa época que o cinema brasileiro ficou estigmatizado com aquela fama de que os filmes eram ruins e somente mostravam sacanagem e palavrões. A pornochanchada foi o gênero cinematográfico mais visto no Brasil durante a década de 70.

Manifestações…

Pois bem. Fernanda Pessoa fez algo bem simples, depois da difícil garimpagem desses filmes, alguns deles perdidos para sempre. Ela fez uma montagem lançando mão desses filmes eróticos para buscar fazer uma película que analisasse a ditadura militar. E qual foi o resultado? De forma surpreendente, essas películas espelham de forma muito perfeita o Zeitgeist (espírito da época) do período. Filmes que eram vistos de forma depreciativa pelos mais intelectualizados abordam assuntos em voga na época, tais como: o desenvolvimento do capitalismo e da modernização nos anos de chumbo, a mentalidade conservadora a mil, a luta armada, a tortura, as ambições materiais de uma emergente classe média, que ansiava por automóveis ou televisões coloridas, um movimento grevista num puteiro, o assassinato de Werner Herzog, a abertura política e a redemocratização.

Sonhos eróticos com peões de obra…

É notável perceber ainda que as pornochanchadas morrem juntamente com o regime ditatorial. Essa correspondência entre esse gênero cinematográfico e o governo autoritário sempre deu à pornochanchada um ar alienante, despertando a libido dos incautos e desviando-lhes a atenção dos casos de corrupção do governo e da privação da liberdade. Porém, esse documentário desmente de forma arrebatadora essa visão e mostra de uma forma bem contundente como os diretores das pornochanchadas usaram esse aparente manto alienante para expressarem de forma muito eloquente suas ideias e opiniões sobre a repressão de um jeito bem crítico.

Saudades de Tereza Rachel…

Esse é um filme que também desperta memórias muito escondidas dentro de nossas cabeças, pois a gente sempre viu algum filme desses, com atores que também se consagraram posteriormente ou caíram num ostracismo total. Nomes como os de Nuno Leal Maia, Paulo Cesar Pereio, Martim Francisco, Costinha, Sandra Bréa, Matilde Mastrangi, Milton Carneiro, José Lewgoy, André de Biasi, Denise Dumont, Stefan Nercessian, Tereza Rachel, Jece Valadão, Rubens de Falco e muitos, muitos outros desfilam por nossas retinas matando nossas saudades, apresentando-nos outras realidades e outros contextos, alguns deles assustadoramente atuais, como o preconceito contra as esquerdas e a forma tendenciosa como a imprensa analisava os fatos, tudo isso denunciado nas… pornochanchadas (!).

A diretora Fernanda Pessoa…

Assim, “Histórias Que Nosso Cinema (Não) Contava” é um documentário essencial, pois ele desmistifica todo o preconceito em cima das pornochanchadas e mostra de uma forma bem marcante como esse gênero cinematográfico genuinamente nacional resistiu contra a opressão do regime, pontuando que esses filmes devem ser estudados com maior profundidade, e abrindo possibilidades para um campo bem vasto de pesquisas em História do Cinema.

Inspiração revolucionária???

É só uma pena que um filme dessa magnitude esteja presente em pouquíssimas salas com horários nem sempre muito acessíveis. Aliás, para que pensar mesmo, não é? De qualquer forma, vale a pena correr atrás e dar uma garimpada por aí, sendo um daqueles filmes para se ver, ter e guardar.