Batata Movies – Festival Do Rio 2017. Sexy Durga. Road Movie À Madrugada.

                                                Cartazes do Filme

Mais um filme que passou no Festival do Rio deste ano. A bola da vez é “Sexy Durga”, uma produção indiana de 2016. Podemos dizer aqui que esse é um filme em duas camadas. A primeira mostra um ritual de adoração a uma deusa local, onde vemos pessoas em transe penduradas por ganchos enfiados em sua própria carne. Tudo muito característico daquela região e bem exótico aos olhos ocidentais, não sem dar um nervoso muito grande ao ver as pessoas tendo os seus corpos furados por ganchos de metal e pendurados neles. Mas essa camada serve apenas como uma espécie de pano de fundo para a história principal. E que história é essa? Vemos aqui um casal, Kaber e Durga, que sofrem a discriminação do sistema de castas indiano. Durga, a moça, é do norte do país e eles parecem estar no sul, onde a relação do casal parece não ser aceita (infelizmente o filme não deixa claro o porquê dessas coisas). Os dois, então, traçam um plano de fuga, onde eles pegarão uma espécie de van clandestina para a estação de trem, onde rumarão para o norte do país.

                      Um casal amedrontado

O problema é que os homens da van são muito esquisitos e mal encarados, começando a fazer perguntas muito estranhas para o casal, que fica totalmente amedrontado e quer descer da van o tempo todo. O mais curioso é que os sujeitos da van garantem que não vão fazer mal aos dois, mesmo colocando o homem e a mulher sem querer nas situações mais escabrosas. O casal também foge da van e anda pela estrada escura (já são altas horas da noite) várias vezes, mas os perigos são muitos e os dois sempre acabam voltando à van original e nunca chegam à redentora estação de trem para sacramentar a tão esperada fuga.

                        Uma van cheia de doidões

O que podemos falar desse road movie à madrugada? Ele é uma verdadeira ópera do absurdo, pois o casal anda num território perigoso durante toda a noite, seja dentro de uma van de malucões, seja a pé, e nunca consegue chegar ao seu destino. E o mais inusitado é que o destino está ali ao seu lado, pois a estrada beira a linha do trem em boa parte do filme. Assim, fica o desespero do casal em andar, andar e andar, com os trens passando bem ali ao lado. Mas o problema também era que o próprio casal não se decidia, pois ele sempre voltava a van depois de sair dela e tomar a estrada no breu que mergulhava a noite. Prisioneiros do próprio medo, o homem e a mulher jamais tomavam uma decisão efetiva e a encaravam de frente, caindo numa armadilha armada por eles mesmos, produto de duas mentes angustiadas que acabavam angustiando também o espectador.

As filmagens devem ter dado muito trabalho por terem sido realizadas à noite. As longas caminhadas na estrada no escuro obrigavam a equipe de filmagem a colocar sempre a câmara em movimento. Igualmente complicadas devem ter sido as tomadas na van, onde víamos o carro parando e andando, com as filmagens se desenrolando. Filmar em tais condições adversas deve ter sido um desafio e tanto e a gente já bate palmas para esse detalhe do qual nem sempre o espectador se dá conta.

                    Andando pela madrugada

Assim, “Sexy Durga” é um filme onde nós podemos dizer que foi de difícil realização, nos contou uma história absurda, onde o preconceito do sistema de castas indiano foi o combustível para o inusitado e o climão de road movie regado a muito heavy metal foi uma curiosidade a mais nas tomadas claustrofóbicas de lugares ermos na escuridão da madrugada. Vale a pena procurar na internet por este, caso não dê o ar de sua graça nos cinemas daqui em circuito comercial.

Batata Movies – Festival do Rio 2017. Matar Jesus. Até Onde Vale A Pena A Vingança?

                                        Cartaz do Filme

Ainda dentro do Festival do Rio 2017, foi exibida a co-produção Argentina-Colômbia “Matar Jesus”. Essa excelente película lança uma questão mais do que ancestral: até onde vale a pena a vingança? Você só se sentirá verdadeiramente saciado se você retribuir todo o mal que sofreu de alguém ou é melhor esperar que a própria pessoa que te fez o mal se estrepe totalmente e assistir a tudo de camarote sem qualquer sensação de culpa ou de arrependimento? Muitos filmes já trabalharam essa questão, uns pendendo para uma resposta, outros pendendo para outra resposta. Agora, essa película revisita o tema, tomando como cenário o ambiente violento da Colômbia.

                   Paula. Vida feliz com o pai

Vemos aqui a história de Paula (interpretada por Natascha Jaramillo), uma bela estudante universitária, filha de um professor que leciona na mesma universidade a disciplina de ciência política. Preocupado com as questões sociais, esse professor fala de resistência dos menos favorecidos às injustiças. Um belo dia, Natascha volta com seu pai para casa de carro, mas a viagem termina numa emboscada onde dois homens numa moto assassinam seu pai. Natascha conseguiu ver o assassino do pai na garupa da moto. Mas percebeu na delegacia que a polícia agiria com morosidade nas investigações. Num desses acasos da vida, Natascha encontra o assassino numa danceteria, e ele não a reconhece. A moça aproveita a oportunidade para se aproximar do bandido, que atende pelo nome de Jesus. Mas essa aproximação em busca de uma vingança não será feita sem percalços, onde Paula passará por muitas situações altamente espinhosas, descortinando um submundo totalmente alheio à sua realidade de classe média.

   Mas sua vida toma um rumo muito perigoso

O filme mostra uma direção bem clara quando se refere à questão da vingança. Desde o início, os planos de Paula para matar Jesus são impedidos por vários obstáculos. O alto preço de uma arma ilegal, a dificuldade em manuseá-la, o ambiente altamente violento em que Paula se metia, parecendo uma ida a um caminho sem volta, o fato de Jesus andar permanentemente armado e ser amigo de policiais corruptos, etc., tudo contribuía para que os planos de vingança de Paula terminassem de forma extremamente trágica, bem ao estilo “A vingança é a arma do otário”. Chegava a ser doloroso ver Paula se enrolando cada vez mais naquelas situações escabrosas, onde sua vida passava por riscos cada vez maiores, e a moça não recuava, dando a impressão de que ela mergulhava de cabeça em uma autoimolação, indo a um matadouro. Entretanto, a alternativa a isso não era das melhores. A segurança de seu lar burguês vinha junto com um ar de tumba, pois a casa havia perdido toda a vida com a morte do pai e marido (quem já perdeu um ente querido de dentro de casa sabe muito bem do que estou falando). Uma das provas disso está na sequência em que Paula passa a noite de natal na casa da família de Jesus, onde há muita celebração e alegria, com as famosas luzinhas de natal piscando em todo o canto, enquanto que, na sua casa, a escuridão e o silêncio prevaleciam. Isso fez até que Paula, num ato de desespero, saísse à toda da casa de Jesus em pleno natal e adentrasse a sua casa em busca dos enfeites natalinos e das luzinhas que, mesmo que mal arrumadas, tiravam um pouco da morbidez de seu lar. Assim, só restava à Paula a sua busca cada vez mais insólita por vingança.

                           Aprendendo a atirar

O desfecho do filme, apesar de muito previsível, ainda assim nos deixa com uma sensação de indignação, pois ficou aquele sentimento de muito barulho por nada. Mas também pareceu um castigo muito adequado a Jesus, e creio que esta foi a mesma conclusão que Paula tomou. Então, o filme termina com uma sensação de que a justiça será feita, mas também não deixa de ter uma certa ideia de vazio.

            Matar ou não matar, eis a questão…

Dessa forma, “Matar Jesus”, apesar do tema já batido da vingança, veio como uma interessante curiosidade do Festival. Esperamos que saia comercialmente por aqui, pois é um filme relativamente inquietante que merece a atenção do espectador.

Batata Movies – Festival Do Rio 2017. Brawl In The Cell Block 99. Camadas E Camadas De Violência Gratuita.

                                         Cartaz do Filme

Ainda recordando alguns dos filmes do Festival do Rio 2017, vamos hoje falar de uma película que retrata muito bem a violência da sociedade norte-americana estadunidense. “Brawl in the Cell Block 99” constrói seu protagonista em moldes altamente conservadores: skin head white power (só para começar) extremamente patriota e preconceituoso com imigrantes, homem muito violento mas bem resignado de si, que somente libera sua violência em momentos extremos. O grande problema é que o brucutu em questão é o mocinho da história, o que leva a entender que seus inimigos são muito piores que eles. E quem são seus inimigos? Isso mesmo, caro leitor! Traficantes mexicanos, a “escória imigrante”. Ou seja, dentro da visão estadunidense conservadora de direita, é o sujo falando do mais sujo ainda.

                    Bradley, uma vaca brava…

Mas, no que consiste a história? Bradley, nosso protagonista, (interpretado por Vince Vaughn) trabalha numa oficina, mas é demitido por conta da crise. Ao chegar à sua casa, encontra a mulher dentro do carro. Depois de uma rápida conversa com ela, descobre que a moça tem um amante. Bradley, então, manda a mulher ir para dentro de casa numa forma um tanto ríspida e depois destrói o carro dela com muita porrada. Mais calmo, ele conversa com a esposa e diz que pretende recomeçar o casamento e vai trabalhar temporariamente para Gil, um amigo traficante de drogas. O tempo passa, a esposa de Bradley engravida e ele passa a ter muito conforto. Mas Gil pede a ele para fazer um servicinho junto com traficantes mexicanos, Bradley toma uma posição até certo ponto hostil com os caras, mas aceita o trabalho depois do apelo de Gil.

      Tentando recomeçar a vida com a esposa

O problema é que, durante o tal trabalho, a polícia deu as caras e Bradley, meio que por raiva dos mexicanos, meio que por raiva de tudo dar errado, passa fogo nos próprios comparsas enquanto eles trocam tiros com a polícia. Isso resultou na prisão de todos, na morte de um dos mexicanos e num prejuízo de 3,2 milhões de dólares para o chefão mexicano do tráfico. Sentenciado a sete anos de prisão, Bradley vai para uma prisão de segurança média, mas recebe a visita de um capanga do traficante mexicano que diz que sua esposa foi sequestrada e ela e a filha somente serão libertadas se ele matar um detento que está numa prisão de segurança máxima. Assim, Bradley terá que fazer algo para se transferir de presídio, e a porradaria, com muitos lances de violência extrema, regada a fraturas expostas de braços e pernas, começa.

Fazendo o que não quer para ajudar o amigo Gil

Nessa via crucis de Bradley, é interessante perceber que, apesar dele construir todo o seu modo de ser pautado nessa sociedade conservadora de direita e preconceituosa, ele acaba se tornando uma vítima da mesma. Ao não denunciar seu amigo Gil para a polícia, sua pena, que poderia ser de cinco anos, aumenta para sete. Ao se transferir para a prisão de segurança máxima, é obrigado a se confrontar com um sistema prisional medieval, com direito até a torturas. Tal presídio é dirigido por um psicopata (interpretado magnificamente por Don Johnson, o Sonny de Miami Vice, o homem da Ferrari Branca) que deixa bem claro que tem poder de vida e morte sobre os detentos.

Don Johnson arrebenta como o diretor psicopata de presídio

Podemos dizer que o filme tem uma violência explícita dividida em várias camadas. A primeira, e mais interna, é a do protagonista que, contida no início, explode em direção às demais camadas de violência do filme, da metade da película para a frente. A segunda camada é a dos traficantes mexicanos, que ameaçam Bradley e sua esposa com um verdadeiro terrorismo psicológico. E a terceira camada é a violência do Estado, manifesta principalmente no presídio de segurança máxima e seu diretor. Se há um conflito entre as duas primeiras camadas e até uma disputa relativamente equilibrada entre elas, por sua vez a camada da violência de Estado é indestrutível e implacável, aplicando uma opressão extrema sobre as demais camadas. Assim, o filme não pode ser visto como uma violência homogênea, regada a muita porrada. O conservadorismo é latente na película, onde ele pode se virar justamente contra quem o cultiva, no caso Bradley. Essa é a principal mensagem do filme.

Festival do Rio 2017 – As Entrevistas de Putin. Descortinando um Líder.

                         A entrevista do século!!!

Vamos ainda falar dos filmes que pudemos ver no Festival do Rio 2017. Na última chance do Festival do Rio 2017, tive a oportunidade de ver aquela película que, na minha modesta opinião, foi uma das grandes atrações do evento. “As Entrevistas de Putin”. Dirigido por, ninguém mais, ninguém menos que Oliver Stone, é um filme notável em todos os sentidos. Organizado em quatro programas de cerca de uma hora, a exibição desta grande película, tanto em extensão quanto em magnificência, constituiu-se numa verdadeira maratona da qual você sai muito feliz, pois te dá a certeza de que você participou do Festival esse ano. Foram mais de uma dúzia de entrevistas, concedidas no período de dois anos (de 2015 a 2017)  e Stone teve carta branca para fazer qualquer pergunta (embora isso nem sempre significasse que Putin respondesse, pois alguns temas eram realmente de natureza altamente confidencial). O resultado foi um panorama de um dos líderes mais importantes do mundo, de postura muito controversa aos olhos do Ocidente, mas que se mostrou de forma muito límpida e clara em alguns pontos, não sem ser um pouco turvo em outros.

             Um clima de muita cordialidade

Vários temas foram enfocados na entrevista. Falou-se de sua infância, seus pais, da vida dos tempos de União Soviética, de sua entrada na KGB, o serviço secreto russo. De uma forma muito clara, Putin analisou toda a transição do socialismo para o capitalismo em seu país e apontou os erros e acertos, em sua opinião, de líderes chave nesse processo, ou seja, Mikhail Gorbachov e Boris Yeltsin.

Fazendo as vezes de anfitrião, mostrando o Kremlin…

Com uma franqueza marcante, falou dos problemas que o capitalismo totalmente livre introjetou em seu país e quais medidas ele tomou, já como presidente, para reparar isso. Putin também mencionou a turbulenta relação entre a Rússia e a OTAN, onde o avanço da aliança militar capitalista sobre o leste europeu depois do fim da Guerra Fria foi visto por Putin como algo extremamente desnecessário e beligerante pois, afinal de contas, a Rússia era então uma aliada do Ocidente e aproximar os armamentos da OTAN do território russo exigia uma resposta desse país. Putin ainda lembrou que a crise dos mísseis de Cuba, em pleno auge da Guerra Fria, tinha sido uma resposta a uma atitude semelhante dos Estados Unidos na Turquia, numa prova de uma beligerância antiga dos Estados Unidos.

     Um dedicado intérprete, sempre a postos…

Todas essas tensões entre as duas potências antes e depois da Guerra Fria trouxeram à tona outro ponto: como foi a relação entre Putin e quatro presidentes americanos: Clinton, Bush, Obama e, agora, Trump. E Putin foi muito sincero em dizer que houve momentos tranquilos, mas também momentos de grave turbulência na sua relação com os presidentes dos Estados Unidos. Ele deixou bem claro também que qualquer atitude hostil contra a Rússia terá uma resposta à altura. O mais interessante é que ele fazia tais afirmações levantando muito pouco a voz, num tom sempre muito sereno. Aliás, tocando nesse ponto, pudemos ver Putin sempre de forma contida, expressando alguns estados emocionais. Ele ria, bufava, se irritava levemente, sempre voltando a um estado sereno quando percebia que se excedia, passando uma sensação de muita segurança.

         Falando sobre Snowden ao volante…

Foi muito taxativo sobre a questão da Ucrânia e da Crimeia, onde disse claramente que, no primeiro caso, houve uma tentativa de golpe de estado de direita, e no segundo, que houve um referendo onde o povo desejava a anexação à Rússia. Expôs argumentos convincentes sobre o posicionamento da Rússia na Guerra da Síria (luta contra o terrorismo que tanto assolou a Rússia na Guerra da Chechênia) e foi também muito seguro ao afirmar que a Rússia não interferiu nas eleições americanas que escolheram Trump para a presidência. Fugindo um pouco do escopo da política, Putin afirmou que não há perseguições a homossexuais em seu país, embora se mostrasse um pouco conservador em suas opiniões.

                             Um esportista…

Stone tentava arrancar o máximo de respostas possíveis de Putin, mas o líder era muito esperto em suas afirmações. Foi muito interessante ver o diretor americano debatendo questões como a perpetuação de Putin no poder e até exibindo para ele uma cópia de “Dr. Fantástico”, de Kubrick. Apesar das reservas de Putin em abordar temas mais espinhosos em alguns poucos momentos, uma coisa é certa: esse é o relato mais completo que temos desse enigmático presidente russo e um enorme serviço de Stone ao cinema e a uma melhor compreensão da geopolítica internacional.

                       Firmeza nas palavras

Esse é o tipo de documentário que tem que ser lançado em DVD por aqui e que a gente tem que ver, ter e guardar, não somente pela polêmica do tema, mas, principalmente, pelo grau de sinceridade e de como o discurso do presidente russo pode ser incisivo em vários momentos. Vale muito a pena a experiência de assistir a essa série de entrevistas. E, não se esqueça: vá a São Petersburgo, recomendação do próprio Putin à esposa de Stone. Imperdível!

 

Batata Movies – Rio Fantastik Festival – Enfim Sós. Os Companheiros Sumiram / Animal Cordial. Cardápio De Sangue.

Cena de “Enfím Sós”

O Cine Joia, de Copacabana, e o Estação Net Rio 2 realizaram o Rio Fantastik Festival, onde doze longas e dez curtas de suspense e terror foram exibidos e seis longas e seis curtas concorreram ao troféu Cramulhão, em homenagem à mostra que acontece mensalmente no Cine Joia. Tive a oportunidade de assistir a um curta e a um longa do Festival lá no Cine Joia.

O primeiro filme foi o curta “Enfim Sós”, de Helvécio Parente. Trata-se da história de um casal que se hospeda num hotel e, enquanto a moça vai para o banho, o marido espera no quarto. Só que, misteriosamente, a moça desaparece e o marido a procura pelo hotel. Qual não é a surpresa de, depois de ter passado na recepção com a esposa, as câmaras do hotel mostram o marido entrando sozinho e o seu próprio celular mostra a selfie que ele fez com a esposa com ele sozinho no enquadramento? Atônito, é levado para o hospital depois de ter uma crise nervosa. Enquanto isso, a moça sai do banho e também se depara com o quarto vazio, também indo à recepção do hotel e também sendo comunicada que foi vista entrando sozinha ali, assim como foi dito anteriormente para o marido.

O diretor Helvécio Parente

Vórtex temporal? Ou apenas um grande mistério? Só é pena que essa instigante ideia não possa ter sido mais profundamente desenvolvida em virtude da duração do curta, de apenas oito minutos. De qualquer forma, abre-se grandes possiblidades para o caso de um média ou longa-metragem. Ah, sim, não podemos nos esquecer de que, no elenco, Fernando Caruso fazia o marido.

Cena de “O Animal Cordial”

O segundo filme, esse um longa, foi “O Animal Cordial”, de Gabriela Amaral Almeida, onde um dono de restaurante, Inácio (interpretado por Murilo Benício), tem uma relação doentia com seus empregados e clientes. Tudo vai piorar muito quando dois assaltantes entram no restaurante e Inácio consegue dominá-los. O que se vê a seguir é uma sucessão de eventos macabros que resultará em muitas mortes e sangue, pois Inácio pirou na batatinha e acredita que o assalto foi orquestrado pelo cozinheiro da casa, Djair (interpretado por Irandhir Santos).

Boa participação de Irandhir Santos…

É muito curioso notar que Inácio não é a única mente desajustada em todo o contexto. Sara (interpretada por Luciana Paes) faz um pacto com o patrão, por se apaixonar por ele, e tem violentos conflitos com Verônica (interpretada por Camila Morgado), uma das clientes do restaurante, justamente em virtude da diferenciação social e do preconceito. Vale a referência de que o título do filme é uma paródia ao texto “O Homem Cordial”, um dos capítulos do livro “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda, onde o autor defende a ideia de que o brasileiro, influenciado pelas relações pessoais e clientelistas do Antigo Regime, construiu uma visão pacífica e cordial de si mesmo, alimentando aquele mito de que o brasileiro é bonachão e tranquilo. O que vemos no filme é justamente o oposto: pessoas se tratando com uma agressividade e animosidade sem tamanho, destruindo umas as outras, onde até é citado o uso da carne humana como cardápio do restaurante, algo parecido com o que alguns serial killers da República de Weimar faziam, onde a carne de suas vítimas era comercializada, assim como os ossos dos corpos eram usados para se fazer pentes e botões que também seriam vendidos.

A diretora Gabriela Amaral Almeida

Assim, essas duas produções (o curta “Enfim Sós” e o longa “O Animal Cordial”) são a prova de que o cinema brasileiro pode fazer bons trabalhos nos gêneros de suspense e de terror. É uma pena que tais filmes não encontrem espaço no circuitão mais tradicional, sendo isso uma prova de que a mostra Rio Fantastik Festival se torna mais do que necessária para que essas obras tenham uma chance de dialogar com o grande público. Só para lembrar, “O Animal Cordial!” também passou no Festival do Rio 2017.

Batata Movies – Festival Do Rio 2017 – Antipornô. Uma Visão Da Mulher Na Sociedade Japonesa.

Cartaz do Filme

Ainda sobre o Festival do Rio 2017. Na  Última Chance, teve-se a oportunidade de assistir ao filme “Antipornô”. Escrito e dirigido por Sion Sono, esse é o tipo da película em que a gente precisa captar o que quer ser dito bem lá nas entrelinhas. Eivado de um conteúdo bem surreal, o filme quer falar de aspectos da função da mulher na sociedade japonesa, sociedade essa que, segundo as más línguas, vê a mulher de uma forma bem preconceituosa e possessiva.

Uma ninfeta impiedosa

Mas, no que consiste a história? Vemos aqui uma ninfetinha muito sensual, Kioko (interpretada por Ami Tomite) numa espécie de ritual de autocelebração. Em trajes mínimos, com uma nudez mal disfarçada, a moça recebe uma visita sendo cultuada por uma equipe de produção muito exótica, com direito até a dominatrixes. Para se sentir muito poderosa, ela lança mão da humilhação pública à sua secretária particular, Noriko (interpretada por Mariko Tsutsui), uma mulher de meia idade totalmente submissa à sua jovem patroa, que pinta e borda com a secretária, obrigando-a a andar de quatro e a estimular a jovem sexualmente, isso quando não é obrigada a se deixar estuprar pela tal equipe exótica. O circo de horrores das humilhações à secretária permanece, até que vem a palavra “Corta!” invertendo completamente o contexto. Na verdade, víamos uma filmagem e agora é Kioko quem é humilhada por todos, principalmente por Noriko, que é uma atriz consagrada enquanto que a ninfetinha somente começa a dar os seus primeiros passos, sendo, portanto, desprezada com veemência, onde até a agressão física é utilizada. Esse é mais ou menos o fio narrativo  condutor da película, que acaba passando por vários momentos surreais de pura transgressão, com o intuito de alfinetar qualquer paradigma mais tradicional. Há uma clara intenção de atacar a moral e os bons costumes com uma retórica do absurdo de forte apelo sexual. Pouco a pouco, a narrativa vai perdendo a coesão até ficar totalmente fragmentada, guardando ainda em seu interior a ideia principal, que é a de que a mulher japonesa, apesar de viver numa sociedade teoricamente livre, civilizada e tecnológica, ainda assim é tratada com desdém e com repressão por uma componente masculina altamente machista. E a única alternativa para essa mulher é repudiar totalmente essa suposta “liberdade” de uma forma extremamente violenta, onde a liberdade reside em ser dona do seu próprio corpo e buscar um prazer sem limites. Ou seja, a verdadeira liberdade reside em ser uma verdadeira puta, que não tem limites para a sua transgressão.

Uma secretária submissa. Mas será sempre assim?

Com tal afirmação de cunho bem extremo, o filme se transforma numa sucessão de imagens onde o sexo explícito, a nudez, o sadomasoquismo e as fortes cores ditam o tom. Devo confessar que esse espírito transgressor extremado chega em alguns momentos até a ficar maçante, mas por outro lado, é muito curioso que haja essa explosão num produto cultural japonês, que consegue conciliar com maestria tradição e modernidade. Em “Antipornô”, por sua vez, a tradição é totalmente rechaçada e até ridicularizada, nas cenas de sexo explícito do casal conservador perante a mocinha de sensualidade a la Sailor Moon, ou seja, aquela coisa inocente, mas nem tanto. Sabemos que existe todo um fetiche em cima das adolescentes estudantes com roupa de marinheiro lá no Japão, algo que o patrulhamento ideológico de certos países subdesenvolvidos gritaria como pedofilia pura. Parece que o Japão não vê as coisas da mesma forma e se abre um pouco mais a esses fetiches, justamente num país com baixas taxas de natalidade se comparadas com as do nosso. Perversão? Válvula de escape? Que cada um tire suas próprias conclusões.

Quilos e quilos de surrealismo

É curioso também notar como a troca de papéis entre as duas protagonistas busca espelhar esse papel submisso da mulher na sociedade japonesa. A submissão de Kioko no mundo real é muito maior que a submissão de Noriko no mundo da fantasia. Esse último é um mundo de mulheres, onde a humilhação desvirtua a tradição, ao passo que o mundo real é mais um mundo de homens, onde a mulher e sua sensualidade é que são desvirtuadas. Logo, a humilhação acaba sendo muito mais forte nesse mundo real, definindo um contraponto altamente desproporcional.

O diretor Sion Sono

Dessa forma, “Antipornô” tem o grande mérito de destrinchar o papel da mulher na sociedade japonesa contemporânea, lançando mão de uma linguagem agressiva, onde a mensagem reside mais nas entrelinhas do que em qualquer outra coisa. O filme é agressivo e tem a nítida intenção de incomodar. Se você sai ileso de toda essa torrente irracional, você conseguirá detectar um discurso bem racional em seu interior. E é isso que dá grandeza à película, ou seja, uma pílula de bom senso mergulhada em litros de nonsense. Vale a pena procurar essa película por aí nos Youtubes da vida. Mas não se choque, por favor.

Batata Movies – Festival Do Rio 2017. Dedo Na Ferida. Desmistificando A Falácia Capitalista.

                               Cartaz do Filme

A Batata Espacial esteve no Festival do Rio 2017 e prestigiou oito filmes por lá. Vamos começar a nossa cobertura falando de um filme do grande cineasta brasileiro Silvio Tendler, que está de volta com um documentário de importância fundamental para se entender os tempos turbulentos pelos quais nós temos passado. “Dedo Na Ferida” vai abordar os aspectos relativos à crise mundial, desmistificando o discurso capitalista de austeridade e Estado mínimo, mostrando que a verdadeira culpa de tudo o que tem ocorrido em termos de crise mundial reside nas atitudes e desmandos do capitalismo financeiro, que inclusive ameaça as democracias das nações.

O cineasta Costa Gavras é um dos entrevistados

Esse documentário é repleto de trechos de falas de especialistas, do Brasil e do exterior, que analisam de forma profunda o que tem quebrado nações inteiras como Portugal, Espanha e Grécia, além das amargas soluções propostas pelo capitalismo financeiro especulativo, que funciona sem qualquer regulação ou freio por parte dos governos. Isso porque há gente do próprio capitalismo financeiro ditando as regras nos governos ou obrigando tais governos a obedecerem tais regras, sob pena de um estrangulamento econômico ainda maior. O documentário mostra a diferença entre uma economia produtiva, onde o crescimento depende da produção industrial, das vendas e dos lucros que conseguem abrir mais postos de trabalho e salários, e a economia financeira especulativa, onde uma dívida interna com altas taxas de juros é paga pelo governo com o dinheiro dos impostos dos contribuintes, economia financeira essa onde o capital não circula para as populações nem para o processo produtivo, circulando somente entre o empresariado. O mais chocante nisso é que presenciamos o mesmo quadro que existia no capitalismo pré-crise de 1929, onde os governos garantiam liberdade total para os grandes empresários sem qualquer freio em atividades especulativas e de risco.

Essa liberdade total dada ao capitalismo financeiro provoca graves problemas de ordem social e dão origem a um ultranacionalismo de direita que coloca toda a culpa da crise nos setores menos favorecidos da sociedade, como os pobres e negros no Brasil e os imigrantes da Europa, além de ajudarem a convencer o grande público de que políticas de austeridade são necessárias para acabar com a crise, sendo que a população deve abrir mão de seus direitos democráticos. Ou seja, com a Guerra Fria, o Welfare State e a classe média eram necessários para manter o capitalismo como um sistema bem visto perante o socialismo (ironicamente eram características do socialismo no capitalismo que mantinham o capitalismo bem na fita). Mas com o fim da Guerra Fria, o capitalismo não precisa mais desse artifício e a exploração se tornou bem mais desumana, com o liberalismo econômico extremado dos grandes grupos financeiros ameaçando a democracia, a autonomia e a soberania das nações, grupos financeiros esses que são uma grande ameaça à liberdade de todos hoje, pois uma atividade especulativa qualquer (as chamadas profecias autorrealizáveis) são capazes de destruir economias e governos de nações inteiras da noite para o dia. E o quadro é altamente sombrio quando falamos em previsões de como se virar esse jogo.

o ex-ministro das finanças da Grécia dá um importante depoimento

Dá para perceber como esse documentário é de uma importância absurda e de como o cinema cumpre nele sua função social de denúncia com grande maestria. Além dos depoimentos de especialistas em economia, que nos apresentam todo esse contexto numa linguagem bem simples e compreensível, o documentário também lançou mão do recurso da animação, onde situações expostas pelos especialistas eram explicadas de forma bem gráfica e com a narração de Eduardo Tornaghi. Talvez todo esse cuidado em se tornar a coisa bem didática tenha origem no mito de como o “economês” é algo de difícil compreensão para o grande público. E esse mito não parece somente pairar aqui sobre o Brasil. O filme “A Grande Aposta”, lançado há poucos anos e que justamente conta a história da bolha do mercado imobiliário americano que detonou toda essa crise econômica mundial mais recente, também lançava mão de explicações bem didáticas sobre questões econômicas, dadas por pessoas que não eram do meio econômico, tais como uma prostituta ou a cantora latina Selena Gomez.

                   Silvio Tendler

Assim, “Dedo na Ferida” é um daqueles filmes que a gente deve ver, ter e guardar. Esperemos que ele entre em grande circuito após o Festival do Rio deste ano e que seja lançado em DVD. Ter um documentário deste quilate e divulgá-lo em tempos tão sombrios de ignorância e tolerância chega a ser um dever cívico a meu ver.