Batata Antiqualhas – Spock e Leonard. Dualidade que se Completa (Parte 11)

                 Como Theo Van Gogh no teatro…

Convencido de que “Jornada nas Estrelas” não voltaria mais, Nimoy partiu para outros projetos como palestras em universidades e teatro. Nessa época, ele encenou uma peça baseada nas cartas entre Vincent Van Gogh e seu irmão Theo. Interpretando o irmão do famoso pintor, mais uma vez um “outsider” (Van Gogh, estereotipado como artista louco, por ter cortado a orelha num momento de desespero) espreitava a vida de Nimoy. O amor de Theo pelo irmão e a convicção de que ele era um grande artista (era Theo quem financiava Vincent) seduziram Nimoy. A peça fez um enorme sucesso. Nesse ínterim, Harve Bennett havia sido chamado pela Paramount para trabalhar em outro filme de “Jornada nas Estrelas”. Bennett já havia trabalhado com Nimoy num filme em 1972, “The Alpha Caper”, onde nosso ator contracenou com Henry Fonda, que, anos mais tarde, o alertara sobre a fatídica propaganda de cerveja. Bennett ficava ciscando para lá e para cá, tentando convencer Nimoy a participar do filme. Pelas leituras de “Eu sou Spock”, dá para perceber que Nimoy negociava com pulso firme, pois sabia da importância de seu personagem, assim como queria preservar a integridade de Spock, algo que ele já fazia durante a série. Ao mesmo tempo em que era durão nas negociações, ele balançava bastante só de pensar que poderia interpretar o vulcano de novo. Foi nesse contexto que Bennett sugeriu se Nimoy queria fazer uma cena de morte. O ator pensou que poderia ser um desfecho primoroso para a série, se tivesse um bom roteiro. Além disso, ele queria ser aproveitado em outros projetos da Paramount. E foi convidado para um telefilme sobre a vida de Golda Meir, uma importante personagem política de História de Israel e que seria interpretada por ninguém mais que Ingrid Bergman. Nimoy interpretaria o papel do marido de Golda, Morris Meyerson. Mais tarde, as apresentações no teatro como Theo lhe renderam mais um convite para trabalhar numa minissérie sobre Marco Polo, que seria gravada na China e onde Nimoy faria um papel de vilão, que ele prontamente aceitou. Assim, de repente, nosso ator tinha três projetos em mãos, precisando filmar em Israel, na China e em Los Angeles. O agente de Nimoy, Merritt Blake, teve que quebrar a cabeça para acertar a agenda do ator, mas conseguiu. Primeiro, foram as filmagens de “Uma Mulher Chamada Golda”, em Israel. Depois, um mês na China para Marco Polo. E, finalmente, para Los Angeles, para filmar “Jornada nas Estrelas II, a Ira de Khan”. Em Israel, houve uma decepção. O diretor do filme, Alan Gibson, só conhecia Nimoy como Spock e era contra a presença do ator no “set” de filmagens. Certa vez, quando Nimoy perguntou ao diretor como devia fazer determinada cena, Gibson foi enfático: “Que diferença faz? Você não é a pessoa certa para o papel mesmo!”, o que deixou Nimoy muito chateado, como não poderia deixar de ser. O estigma do ator de um personagem só volta e meia rondava nosso ator, que procurou esquecer o incidente e focar no trabalho. Mas ele recebeu o roteiro de “Jornada nas Estrelas II” e ficou insatisfeito com a morte de Spock logo ao início do filme, ficando descolada do resto da trama. Com alguns dias de folga, ele foi a Los Angeles ter uma reunião com Bennett e Nicholas Meyer, que havia sido escalado para ser o diretor do filme. Meyer concordou com Nimoy com relação ao roteiro e o reescreveu, dando novas esperanças quanto ao futuro da morte de Spock. De volta a Israel, Nimoy terminou as filmagens com uma Bergman já muito doente em virtude do câncer, mas muito elegante e profissional, onde eles fizeram uma das cenas finais de mãos dadas.

                     Contracenando com uma Ingrid Bergman doente

Cabe dizer aqui que o casal já estava divorciado e não se via há alguns anos. Nimoy quis tirar a tensão do divórcio pegando nas mãos de Bergman, que prontamente aceitou fazer a cena assim. As filmagens finais ocorriam no dia em que o presidente do Egito, Anuar Sadat, foi assassinado por estabelecer uma política de paz com Israel, e havia medo de que o país fosse atacado. No dia seguinte, Nimoy partia para a China com o remorso de ter deixado a equipe de filmagem para trás naquela situação. Em Pequim, ele encontrou uma China ainda descobrindo o capitalismo, onde havia um choque claro entre os comunistas mais antigos e as pessoas mais novas, de tendências capitalistas. Houve também os problemas das barreiras linguísticas como o fato de seu motorista não saber uma palavra de inglês, ou um figurante chinês aprender a pronúncia correta em inglês com uma equipe de filmagem toda italiana (dá para imaginar o desastre que foi). O mais interessante é que nosso ator podia circular livremente pelas ruas sem ser conhecido. Ele chegou até a comer num restaurante popular, achando tudo maravilhoso. Através de uma versão asiática e em inglês do “The Wall Street Journal”, ele descobriu que a notícia da morte de Spock já havia vazado e os fãs estavam revoltados. Ele deu uma risada, pois percebeu que até na China a notícia da morte de Spock havia chegado.

No próximo artigo, falaremos das filmagens de “Jornada nas Estrelas II, a Ira de Khan”, considerado por muitos fãs um dos melhores longas da série. Até lá!

                                                       Vilão na China…

Batata Movies – Guerra nas Estrelas. Finalmente Podemos Falar do Episódio VIII (Parte 2)

               Canto Bight, onde está o Cassino

Vamos continuar com nossas impressões positivas do Episódio VIII. Outro momento que a gente pode falar aqui que foi relativamente bom, embora esse seja um pouco mais controverso, é a sequência do cassino. Algumas pessoas viram essa parte como uma barriga no filme, mas eu quero ver os aspectos positivos aqui. Uma coisa que, infelizmente decepcionou, era de que havia uma expectativa de que o tal decodificador seria Lando Calrissian, algo que já se reclamava no episódio anterior e que parece cada vez mais distante, já que o diretor (e roteirista, quero deixar isso bem frisado!) Rian Johnson disse Lando não teria qualquer utilidade na história como ela foi montada. Entretanto, creio que isso é um pouco papo furado e má vontade de aproveitar esse personagem, pois a história poderia ser modificada sim para colocar o velho contrabandista na trama. E, cá para nós, Johnson não colocou a Phasma somente para morrer no duelo com o Finn? Por que Lando não poderia ser encaixado de uma forma mais eficaz? Ele poderia ajudar e muito a Rey e Chewie na Millenium Falcon, por exemplo, até porque já foi dono da nave.

                                 Cadê o Lando????

Mas, voltemos aos pontos positivos. O grande lance da sequência do cassino foi que Rose (uma boa aquisição de personagem, muito andrógina a meu ver, o que só traz coisas positivas à franquia) chama a atenção a Finn, maravilhado com o mundo do cassino, de que tudo aquilo ali era uma espécie de fachada para mercadores de armas e senhores de escravos, bases de sustentação da Primeira Ordem. Destruir todo aquele mundo idílico era também um ato de resistência. E aqui “Guerra nas Estrelas” amadurece, se aproximando do mundo real, com situações semelhantes sendo vistas, sobretudo, nos processos imperialistas, onde grandes potências econômicas ocidentais se transformam, como a Primeira Ordem, em senhores de armas e de escravos (africanos que não pagavam os impostos exigidos pelos países europeus eram aprisionados com suas famílias e as antigas colônias, depois de independentes e em guerra civil compravam armas dos antigos países colonizadores).

               Rose e Finn, uma boa dupla…

Assim, se a sequência do cassino foi vista como barriga por uns, e como decepção pela ausência de Lando por outros, creio eu que transmitir uma mensagem dessa importância (a Primeira Ordem pode estar mais perto de você do que imagina) contribui para o engrandecimento do filme, pois franquias de massa como “Guerra nas Estrelas” são um bom veículo para se divulgar uma maior reflexão sobre as coisas. E a película deixa de ser somente um bom entretenimento. Um viva para os cavalinhos orelhudos libertados por Rose e Finn correndo nas pradarias.

No próximo artigo, vamos começar a falar dos problemas do Episódio VIII. Até lá!

                                    Viva aos cavalinhos orelhudos!!!

Batata Movies – Guerra nas Estrelas. Finalmente Podemos Falar Do Episódio VIII (Parte 1)

                                         Cartaz do Filme

E estreou o Episódio VIII de “Guerra nas Estrelas”. “O Último Jedi”, como não podia deixar de ser, era ansiosamente aguardado pelos fãs, pois havia a expectativa de que algumas questões levantadas pelo Episódio VII já começassem a ser esclarecidas. A noite de estreia do filme no Botafogo Praia Shopping, no último dia 14 de dezembro, foi concorrida como sempre e quem assistiu saiu com a impressão de que era um filmaço, como ocorreu nos outros anos. Entretanto, algumas críticas também surgiram pela internet, e houve até uma petição para que o filme fosse retirado do cânone, provocando debates muito acalorados. Como todo filme, é necessário que se assista a ele mais vezes para se ter uma opinião um pouco mais coesa e argumentada, livre de arroubos emocionais mais profundos. Passada toda a intensidade da estreia, creio eu que já dá para a gente conversar um pouquinho mais sobre o que foi “O Último Jedi”, agora com spoilers, obviamente. Vamos aqui fazer uma espécie de exercício imaginativo para analisar o filme.

                       Walkers. Alusão a “O Império Contra Ataca”

Em primeiro lugar: a película foi boa? Na minha modesta opinião, podemos dizer que tivemos um bom filme. Mas ficou aquela sensação de que a coisa poderia ter sido um pouco melhor. Eu pretendo dividir essa análise em duas partes. Inicialmente, vou dizer onde o filme teve virtudes e, depois, onde o filme teve problemas e o que poderia ter sido feito para melhorá-lo.

Se fizermos uma comparação com o Episódio VII, o Episódio VIII tem uma vantagem logo de cara, que foi um filme que tinha a sua própria história, não fazendo alusões excessivas a outros filmes, como foi no caso do “Despertar da Força”, onde foram apresentadas muitas referências a “Uma Nova Esperança”, o Episódio IV. Houve até um fan service no Episódio VIII, com momentos inspirados em “O Império Contra Ataca” e “O Retorno de Jedi”. No primeiro caso, a referência mais latente foi o combate na base rebelde, onde novamente tínhamos walkers, uma linha de atiradores e uma paisagem embranquecida (logo a neve de Hoth veio à cabeça). Mas aí o soldado rebelde passa a mão no chão e leva à língua, falando depois que aquele branco todo era sal, numa clara piada com o imaginário dos fãs. Quando temos esse tipo de referência sem muitos exageros e com uma piada que dialoga com o espectador, aí sim temos algo de bom e espontâneo, não sendo tão forçado quanto a overdose de Episódio IV no Episódio VII. Já as menções ao “Retorno de Jedi” aparecem, sobretudo, na ida de Rey com Ren à sala de Snoke. A mesma conversa que Rey teve com Ren, tentando dissuadi-lo do lado sombrio da Força, teve Luke com Vader em “O Retorno de Jedi”. Ainda, tanto Rey quanto Luke estavam algemados nesse momento. E Snoke também mostrava a Rey como a frota da Resistência era sumariamente atacada e destruída pela Primeira Ordem, tal como o Imperador mostrava a Luke como a Aliança Rebelde era destruída pela Frota Imperial no ataque à Segunda Estrela da Morte. Foram momentos pontuais do filme que chamaram bastante a atenção, fizeram as devidas homenagens e saíram de cena por cima, sem se tornarem enfadonhos.

                       Sala de Snoke. Alusão a “O Retorno de Jedi”

Outro ponto importante e bom do filme foi a interação telepática entre Rey e Ren. Inicialmente, ficou-se a impressão de que os dois são realmente irmãos, em vista de tal empatia. Posteriormente, os fãs começaram com uma história (um tanto ridícula, a meu ver) de uma intenção de relacionamento amoroso entre os dois. Mas, mais importante do que tudo isso, essa interação Rey-Ren serviu para mostrar que cada um tem um pezinho no outro lado. Ou seja, se Ren está mergulhado no lado sombrio, o remorso por ter matado Han Solo, seu pai, o deixa em conflito, dando indícios de que ele poderia ir para o lado da luz. Já Rey, por sua vez, ainda não está 100% antenada com a filosofia jedi e mostra muitos momentos de ódio (inclusive apontados pelo próprio Ren, desde a cena da floresta, no episódio anterior, até alguns momentos no presente episódio), o que poderia conduzir a moça para o lado sombrio. Esse foi um dos aspectos mais relevantes do filme, a meu ver e torço muito para que ele seja mais desenvolvido ainda (o que parece um caminho inevitável) no Episódio IX. Isso sem falar que a cena em que os dois lutam juntos na sala de Snoke após a sua morte foi algo inesperado e muito bem-vindo para o filme. Ainda mais porque os dois lutaram entre eles depois que Ren sugeriu a Rey governarem a galáxia juntos, assim como Anakin sugeriu à Padmé no Episódio III.

   Interação telepática Rey-Ren. Ponto positivo

No próximo artigo, vamos continuar a falar dos pontos positivos do Episódio VIII.  Até lá!

Batata Séries – Jornada nas Estrelas Discovery – Apesar de Você (Temporada 1, Episódio 10). O Tardígrado Agradece.

                 Jonathan Frakes na direção!!!

E “Jornada nas Estrelas, Discovery” está de volta, depois de um pequeno hiato. Teremos, agora, mais seis episódios até o fim da primeira temporada. E começamos com “Apesar de Você” (“Despite Yourself”), dirigido por Jonathan Frakes (já vimos uma pegada mais Jornada nas Estrelas) onde a história é retomada, ou seja, do momento em que a Discovery está numa região do espaço cercada por destroços de naves, com a tripulação sem saber muito bem onde está. E a coisa fica mais confusa quando um cruzador vulcano ataca a nave, que neutraliza rapidamente a ameaça. A tripulação da Discovery acaba recuperando um núcleo de dados klingon e descobre que eles estão, na verdade, no chamado Universo Espelho, onde o planeta Terra governa a galáxia através de um Império Terrestre que se comporta de forma fascista e com ódio a tudo o que é diferente. Assim, o Império precisa lutar contra uma rebelião organizada pelas civilizações alienígenas. Ainda, a estrutura de poder desse Império permite que um militar avance na hierarquia matando o seu superior e tomando seu posto. Como a tripulação da Discovery está presa nesse Universo alternativo, o capitão Lorca passou instruções à sua tripulação de que eles se comportem como se fossem do Universo Espelho, enquanto era procurada uma forma de retornar ao seu Universo. Ainda, Lorca, Burnham e Tyler iriam para I.S.S. Shenzhou com o objetivo de acessar dados sobre uma nave chamada Defiant, que teria vindo do Universo da Discovery do futuro e caído no passado do Universo Espelho. Ou seja, a Shenzhou ainda existia no Universo Espelho e a Burnham do Universo Espelho era a capitã. Já o Lorca do Universo Espelho era o capitão da Buran e teria se rebelado contra o Imperador, sendo caçado por Burnham. Mas esta acabou morrendo numa nave auxiliar alvejada a mando de Lorca. Em represália, o Imperador mandou destruir a Buran, com o Lorca do Universo Espelho fugindo.

          Uma Tilly mais aceitável

Paralela à história do Universo Espelho, está a odisseia de Tyler e seu relacionamento com L’Rell. Agora Tyler tem uma lembrança um pouco mais nítida do que aconteceu e L’Rell deu a entender que ele era um klingon que foi transformado em humano. Tyler irá pedir a Culber que o examine e esse constatou as alterações no corpo de Tyler. Num acesso de fúria e com uma dupla personalidade, com o seu lado klingon se manifestando, Tyler mata Culber.

        L’Rell e Tyler. E ele era klingon mesmo…

Vamos lá. O que podemos falar desse episódio? Em primeiro lugar, a ideia de se ter usado o Universo Espelho, uma fórmula que já deu certo em outras séries de Jornada nas Estrelas, a começar pela Clássica, passando por Deep Space Nine e chegando até a Enterprise. Muito se suspeitou que a própria história de Discovery estivesse no Universo Espelho, dada a forma neurastênica com a qual a tripulação se comportava. Agora, sabemos que a Discovery sim era do “nosso” Universo e ela chega a um Universo de Império Terrestre fascista. Confesso que fiquei um pouco surpreso com a cara de perplexidade da tripulação ao chegar a esse Universo Espelho. Pelo comportamento da tripulação e alguns procedimentos nos episódios anteriores (como torturar tardígrados), era mais para eles se sentirem em casa. De qualquer forma, usou-se algo do cânone que já havia dado certo e Discovery acabou bebendo da mesma fonte, até para se aproximar um pouquinho mais do cânone que, volta e meia, ela parece enxergar somente por um telescópio.

                      Culber é morto por Tyler

A forma como o Universo Espelho brinca com os personagens também foi positiva. Colocar a Tilly como capitã da Discovery no Universo Espelho foi uma boa ideia, onde a atriz ficou visualmente bem mais interessante do que aquela cadete bocó. Mas, como nem tudo é perfeito, a Tilly usou um linguajar com palavras de baixo calão para se passar pela capitã do Universo Espelho, algo que não foi usado em qualquer episódio de Universo Espelho de qualquer outra série. Outra coisa que se reclamou por aí (leia-se o podcast da Seção 31) foi a falta de sensualidade das roupas femininas do Universo Espelho, que cobriam demais o corpo das mulheres. Sei não, mas em tempos de empoderamento feminino e com tantas denúncias de assédio sexual por aí (que a gente nem sabe sempre se são muito ou pouco graves), creio que colocar as mulheres numa posição mais sensual com trajes mais diminutos iria provocar um rebu desgraçado e parece que os produtores não quiseram se arriscar. Sinal dos tempos… Mas a mexida mais efetiva nos personagens ficou nos casos de Burnham e, principalmente, Lorca. A gente se pergunta como seria o Lorca do Universo Espelho. Será um cara legal? Afinal de contas, ele tentou dar um golpe no Imperador. O próprio Lorca faz uma piada a certa altura do episódio dizendo que esperava encontrar uma versão melhor dele naquele Universo. E se o próprio Lorca da Discovery ser o Lorca do Universo Espelho, como algumas pessoas por aí acham? Creio que abriram-se mais possibilidades para esse personagem agora que a história tomou esse rumo, o que deixa ele cada vez mais interessante em detrimento de Burnham, que é a protagonista (ainda). Só para concluirmos a parte do Lorca, confesso que tive um prazer um pouco sádico de ver o capitão na cabine da agonia e de como senti, no nosso Universo, uma risada de tardígrado ecoando na imensidão do espaço.

    Stamets (fundo) e suas misteriosas profecias…

E o nosso Tyler? Eu disse em outros carnavais que seria muito óbvio se ele fosse um klingon. Infelizmente, parece mesmo que a série vai seguir por esse caminho, mas com a pitada de que Tyler seria uma versão alterada do klingon albino que ficou junto de L’Rell lá no início da temporada. Assim, Tyler tem uma espécie de dupla personalidade e está envolvido na missão de achar dados da Defiant junto com Lorca e com Burnham. A expectativa toda está agora em como Tyler vai domar o klingon dentro de si ou não. Outra coisa que a princípio irritou (e muito), foi o fato de Tyler ter matado Culber. Justamente quando Jornada nas Estrelas aborda a temática gay, um membro do casal morre, assim como já tinha acontecido com outros personagens principais da série. Pelo menos surgiu a informação no Facebook e do próprio Wilson Cruz (ator que interpreta Culber) no “Aftertrek” de que o médico ainda vai provavelmente voltar a aparecer na série. E, se a gente fala de Culber, não dá para não falar de Stamets, que está lá todo alteradão, com olhos lácteos, falando de estranhos palácios e de inimigos entre nós, com raros momentos de lucidez, quando seus olhos voltam a ficar escuros. Pelo menos, parece que o inimigo é Tyler. Mas, o que seria o palácio? Expectativas para os próximos episódios. Ainda mais porque não tem motor de esporos agora (e eu digo ufa, pois não aguentava mais ver a Discovery fazendo aquelas papagaiadas de rodopios…).

Assim, podemos dizer que o décimo episódio de Discovery foi relativamente bom, muito em virtude do dedo de Frakes, um cara que conhece o clima de Jornada nas Estrelas e de todas as suas nuances, mas principalmente porque uma fórmula de sucesso do cânone foi utilizada. A se exaltar as versões dos personagens no Universo Espelho e as novas possiblidades para eles. A se lamentar o fator óbvio de Tyler ter alguma coisa a ver com os klingons. Curiosidade total com os rumos futuros de Culber e as profecias de Stamets. Esperemos os próximos episódios.

Quer ver mais resenhas sobre “Jornada nas Estrelas, Discovery” ? Veja aqui

 

 

Batata Movies – The Square, A Arte Da Discórdia. O Que É Arte E Qual É O Seu Papel Na Sociedade?

                   Cartaz do Filme

E chegou o grande vencedor de Cannes do ano passado em nossas telonas. “Square, a Arte da Discórdia”, escrito e dirigido por Ruben Östlund, também recebeu uma nomeação para o Globo de Ouro deste ano (melhor filme em língua estrangeira). É uma película que, apesar de muito exótica e altamente inusitada, consegue manter um fio narrativo mais tradicional e, ao mesmo tempo, gera toda uma fábrica de reflexões. Um filme que justificou sua premiação com a Palma de Ouro. E um filme que trabalha uma série de pormenores muito bem amarrados.

                          Um diretor de museu…

Vemos aqui a história de Christian (interpretado por Claes Bang), um homem que é responsável por organizar exposições para um renomado Museu de Arte da Suécia. Um belo dia, o museu recebe a proposta de organizar uma exposição de uma artista argentina, onde ela imagina um quadrado de quatro metros quadrados, onde quem se coloca ali tem todos os direitos e deveres de um cidadão comum, sendo obrigado a ajudar a quem precisa.

                                    Um quadrado…

Para promover uma exposição de ideia tão simples, uma equipe de marketing é contratada e ela propõe uma campanha que transforme essa temática em um verdadeiro espetáculo midiático para chamar a atenção. A partir daí, o filme mostra todo um rosário de situações que questionam se realmente cumprimos ou não esse papel mais humanista na sociedade em que vivemos, assim como qual é o papel da arte numa sociedade.

                         O que é arte para você???

O filme consegue ser muito engraçado em alguns momentos e muito tenso em outros. Seu humor é altamente mordaz, sobretudo quando se refere ao significado de algumas peças de arte contemporâneas, qual é o papel de um curador de museu que tem muito poder, mas é obrigado muito mais a seguir parâmetros econômicos do que artísticos ou então momentos muito surreais, como o de manter um macaco (grande) dentro de casa, ato que espelha todo o inusitado dos valores da arte contemporânea. A tensão se manifesta nas performances altamente ousadas e iconoclastas que chegam a um momento extremo numa determinada passagem do filme. Mas a película, acima de tudo, mostra como as pessoas tratam a proposta da artista argentina como uma verdadeira falácia, já que ninguém assume uma postura mais solidária com os mais necessitados, principalmente os que estão mais envolvidos na montagem da exposição e convivem diariamente com essa ideia de solidariedade. O mais interessante é que quando alguém se propõe a ajudar, é mal visto pelo pedinte, ao bom estilo “quando pede a mão, quer o braço”, como se ser solidário levasse a uma punição nos dias de hoje. Muito curioso também é ver como a estratégia de marketing da exposição e seus desdobramentos podem ser encarados de diversas formas, indo desde o eticamente imoral com os mais pobres até o eticamente imoral com a liberdade de expressão, mas sempre eticamente imoral.

                      O filme conta com a fofíssima Elisabeth Moss

Assim, “The Square, a Arte da Discórdia”, é um filme que deve ser acompanhado com atenção, pois ele aborda dois temas muito caros: qual é o papel da arte contemporânea na sociedade e qual é o nosso papel na sociedade. Ao exibir situações muito variadas ao longo do filme, ele escapa de pólos muito extremos, embora tenha coragem também de analisar situações bem agudas. Pela sua riqueza, o filme chega a dar um pequeno nó na cabeça, mas vale muito a pena passar por essa experiência. Programa imperdível para esse início de ano.