Batata Movies (Especial Oscar 2018) – The Post: A Guerra Secreta. Ainda A Liberdade De Imprensa.

                Cartaz do Filme

Steven Spielberg e John Williams. Estes dois nomes estão atrelados a vários filmes de sucesso. Mas, e se adicionarmos Tom Hanks e Meryl Streep a esse conjunto? Teremos “The Post: A Guerra Secreta”, mais um filme que está na lista dos indicados ao Oscar e que concorre a duas estatuetas (Melhor Filme e Melhor Atriz para Meryl Streep, mais uma indicação; Streep é a recordista de indicações, vinte e duas ao total). Esse é um filme que fala sobre imprensa e a sua liberdade de publicar o que quiser, até documentos confidenciais do governo americano (como assim?).

                     Os cabeças de um jornal…

Bem, o Post em questão é o famoso jornal The Washington Post, da capital americana (ou estadunidense, como queiram). Temos Kay Graham (interpretada por Streep), a dona da empresa que administra o jornal, e Ben Bradlee (interpretado por Hanks), o principal editor. O filme começa de uma forma um tanto lenta e enfadonha, falando mais do dia-a-dia do jornal e de acordos comerciais empreendidos pela empresa. A coisa começa a esquentar quando o The New York Times, concorrente do The Washington Post, encontra trechos de um estudo encomendado pelo governo americano que indicava que a vitória americana na Guerra do Vietnã já era considerada algo inviável desde meados da década de 60 (o filme se passa no ano de 1971, em plena Guerra do Vietnã e durante o governo de Richard Nixon, ou seja, nas piores condições possíveis para a manutenção de um Estado democrático). Após a publicação da matéria, o The New York Times recebeu uma espécie de repressão do governo, sendo estritamente proibido de continuar a publicar sobre o assunto. O Post, então, toma as rédeas da investigação, e encontra uma versão do estudo que, se não é completa, tem mais páginas (cerca de quatro mil). Entretanto, publicar aquela história estava configurado pela justiça como desacato e poderia provocar as prisões de Graham e Bradlee, assim como praticamente pôr um fim à empresa do The Washington Post. Assim, fica o dilema: publica-se a matéria ou não? Como ficam o poder autoritário de Nixon e a liberdade de imprensa nesse processo?

                     Tocando uma empresa…

Podemos considerar esse como mais um dos filmes históricos de Spielberg que, como a grande maioria de todos os filmes históricos (inclusive os de Spielberg) é provavelmente apenas baseado em fatos reais, onde um molho especial pode ter sido colocado aqui e ali para tornar a história mais emocionante. De qualquer forma, a película presta um grande serviço em virtude do fato de mostrar como a democracia pode ser frágil no seio de um país que se diz o maior defensor da democracia e da liberdade, ou seja, os Estados Unidos. E isso ainda mais num período tão sombrio quanto o governo Nixon e a Guerra do Vietnã. Agora, realmente fica uma coisa um tanto difícil de engolir ver a imprensa, considerada o “Quarto Poder”, ser retratada como uma paladina da liberdade a serviço dos governados quando já tivemos tantos exemplos de justamente o contrário. Esse é um problema nos filmes históricos de Spielberg: em nome do espetáculo, ele acaba transformando a narrativa do filme em algo maniqueísta, com a imprensa representando o bem e o governo americano representando o mal. Talvez o filme ganhasse mais se tal discurso fosse um pouco mais relativizado. Por exemplo, no caso do estudo sobre a Guerra do Vietnã, até concordamos que esse documento confidencial fosse divulgado. Mas, e se o The Washington Post tivesse acesso a um outro documento cuja divulgação provocasse um grande prejuízo, por exemplo, para as pessoas simples do povo? Aí ficaria a questão: até onde o bom senso e a autocrítica dos jornalistas dialogariam com a liberdade de imprensa? Creio que o filme ficaria muito mais interessante se tal questão fosse levantada. Entretanto, como ele foi baseado numa história real e um outro documento secreto não apareceu…

    Analisando um estudo de quatro mil páginas…

Creio que não preciso dizer nada a respeito das interpretações dos atores. Mais uma indicação de Oscar de Melhor Atriz para Meryl Streep, que roubava a cena sempre que aparecia. Mas eu creio que Tom Hanks teve uma presença maior aqui, fazendo um firme editor de jornal de meia idade e com uns gestos um tanto rudes, não parecendo em nada com o ator que conhecemos (quando um ator fica muito diferente, até parecendo outra pessoa, ao interpretar um personagem, podemos atestar todo o seu talento e perceber como ele é bom). Ainda, tivemos uma boa história a ser contada, o que ajuda muito na aceitação do filme pelo espectador. Outro detalhe interessante, e que serve de curiosidade nos dias de hoje, é de como um jornal era produzido, sem qualquer tecnologia digital e com o uso de tipos de metal nas prensas. Essa foi uma parte bem legal do filme.

                Meryl Streep e Steven Spielberg

Assim, “The Post: A Guerra Secreta”, é mais um dos candidatos ao Oscar que está nas nossas telonas, coroado de medalhões como Spielberg, Streep, Hanks e Williams. É mais um filme histórico de Spielberg, que adequa um pouco o factual ao espetáculo, sendo um pouco maniqueísta, mas que traz um convite à reflexão, onde a gente se questiona se os chamados “defensores da democracia” são tão democráticos assim. Como todo candidato ao Oscar, é um programa imperdível.

 

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