Batata Movies – Festival Do Rio 2017. Brawl In The Cell Block 99. Camadas E Camadas De Violência Gratuita.

                                         Cartaz do Filme

Ainda recordando alguns dos filmes do Festival do Rio 2017, vamos hoje falar de uma película que retrata muito bem a violência da sociedade norte-americana estadunidense. “Brawl in the Cell Block 99” constrói seu protagonista em moldes altamente conservadores: skin head white power (só para começar) extremamente patriota e preconceituoso com imigrantes, homem muito violento mas bem resignado de si, que somente libera sua violência em momentos extremos. O grande problema é que o brucutu em questão é o mocinho da história, o que leva a entender que seus inimigos são muito piores que eles. E quem são seus inimigos? Isso mesmo, caro leitor! Traficantes mexicanos, a “escória imigrante”. Ou seja, dentro da visão estadunidense conservadora de direita, é o sujo falando do mais sujo ainda.

                    Bradley, uma vaca brava…

Mas, no que consiste a história? Bradley, nosso protagonista, (interpretado por Vince Vaughn) trabalha numa oficina, mas é demitido por conta da crise. Ao chegar à sua casa, encontra a mulher dentro do carro. Depois de uma rápida conversa com ela, descobre que a moça tem um amante. Bradley, então, manda a mulher ir para dentro de casa numa forma um tanto ríspida e depois destrói o carro dela com muita porrada. Mais calmo, ele conversa com a esposa e diz que pretende recomeçar o casamento e vai trabalhar temporariamente para Gil, um amigo traficante de drogas. O tempo passa, a esposa de Bradley engravida e ele passa a ter muito conforto. Mas Gil pede a ele para fazer um servicinho junto com traficantes mexicanos, Bradley toma uma posição até certo ponto hostil com os caras, mas aceita o trabalho depois do apelo de Gil.

      Tentando recomeçar a vida com a esposa

O problema é que, durante o tal trabalho, a polícia deu as caras e Bradley, meio que por raiva dos mexicanos, meio que por raiva de tudo dar errado, passa fogo nos próprios comparsas enquanto eles trocam tiros com a polícia. Isso resultou na prisão de todos, na morte de um dos mexicanos e num prejuízo de 3,2 milhões de dólares para o chefão mexicano do tráfico. Sentenciado a sete anos de prisão, Bradley vai para uma prisão de segurança média, mas recebe a visita de um capanga do traficante mexicano que diz que sua esposa foi sequestrada e ela e a filha somente serão libertadas se ele matar um detento que está numa prisão de segurança máxima. Assim, Bradley terá que fazer algo para se transferir de presídio, e a porradaria, com muitos lances de violência extrema, regada a fraturas expostas de braços e pernas, começa.

Fazendo o que não quer para ajudar o amigo Gil

Nessa via crucis de Bradley, é interessante perceber que, apesar dele construir todo o seu modo de ser pautado nessa sociedade conservadora de direita e preconceituosa, ele acaba se tornando uma vítima da mesma. Ao não denunciar seu amigo Gil para a polícia, sua pena, que poderia ser de cinco anos, aumenta para sete. Ao se transferir para a prisão de segurança máxima, é obrigado a se confrontar com um sistema prisional medieval, com direito até a torturas. Tal presídio é dirigido por um psicopata (interpretado magnificamente por Don Johnson, o Sonny de Miami Vice, o homem da Ferrari Branca) que deixa bem claro que tem poder de vida e morte sobre os detentos.

Don Johnson arrebenta como o diretor psicopata de presídio

Podemos dizer que o filme tem uma violência explícita dividida em várias camadas. A primeira, e mais interna, é a do protagonista que, contida no início, explode em direção às demais camadas de violência do filme, da metade da película para a frente. A segunda camada é a dos traficantes mexicanos, que ameaçam Bradley e sua esposa com um verdadeiro terrorismo psicológico. E a terceira camada é a violência do Estado, manifesta principalmente no presídio de segurança máxima e seu diretor. Se há um conflito entre as duas primeiras camadas e até uma disputa relativamente equilibrada entre elas, por sua vez a camada da violência de Estado é indestrutível e implacável, aplicando uma opressão extrema sobre as demais camadas. Assim, o filme não pode ser visto como uma violência homogênea, regada a muita porrada. O conservadorismo é latente na película, onde ele pode se virar justamente contra quem o cultiva, no caso Bradley. Essa é a principal mensagem do filme.

Batata Antiqualhas – Spock e Leonard. Dualidade Que Se Completa. (Parte 4)

Um Spock sob construção

Em “Onde Nenhum Homem Jamais Esteve” já há alguns traços mais vulcanos no personagem Spock, como algumas digressões sobre lógica, uso das expressões “afirmativo” e “negativo”, etc. Entretanto, muito chocou a sugestão de Spock de matar Gary Mitchell (interpretado por Gary Lockwood), por este hospedar uma entidade alienígena. Isso ia contra a visão antiviolenta do personagem alguns episódios mais tarde.

Com a aprovação da série, mais episódios foram gravados. Em “O Ardil Corbomite”, De Forest Kelley começa a interpretar o médico Dr. McCoy, dando início à famosa tríade de “Jornada nas Estrelas”, formada pelo médico, altamente emocional, o vulcano, altamente racional, e o capitão, uma espécie de mediador entre os conflitos lógicos e emocionais e o responsável pela ação, já que quem mandava era ele. Uma série de diálogos engraçados entre McCoy e Spock, onde o médico emotivo queria provar que o vulcano tinha emoções contidas em seu interior passaram a ser escritos, dando um tom de muito humor à série, contrariando o estereótipo de que os fãs de “Jornada nas Estrelas” são absolutamente sérios. Nesse episódio, mais uma etapa da construção do personagem Spock foi realizada, pois foi a primeira vez que ele disse a expressão “fascinante”, que seria uma de suas marcas registradas. Para quem não conhece o episódio, a Enterprise se depara com um enorme globo alienígena que a impede de seguir viagem adiante. O desafio está em contatar a espécie alienígena que não o faz de forma fácil. Inicialmente, Nimoy acrescentou um pouco de carga dramática à expressão “fascinante”. Mas o diretor Joseph Sargent o instruiu a repetir a expressão como um cientista faria, de forma fria, contida e cheia de curiosidade. A coisa caiu como uma luva para o personagem. A partir daí, Nimoy assumiu uma postura mais contida de interpretação, tomando muito cuidado com movimentos corporais, gestos e expressões faciais. Não podemos nos esquecer de mencionar também a forma como ele levanta uma das sobrancelhas quando está refletindo sobre determinado assunto.

O ambiente das gravações de “Jornada nas Estrelas” também era muito divertido, muito em virtude da presença de William Shatner que, como dizemos hoje, “tocava um terror”. Assim que a série começou a ganhar notoriedade, os atores recebiam muitos telefonemas com ofertas de aparições públicas. Nimoy aproveitava todas que podia, pois tinha em mente que seriados para tv eram coisas muito efêmeras e qualquer oportunidade de fazer um dinheirinho extra era válida. Ele chegou a instalar um telefone em seu carro e em seu camarim para isso. E, como sua maquiagem era algo mais complicada que a dos outros, ele chegou a comprar uma bicicleta vermelha só para circular com mais facilidade pelo estúdio, que encerrava suas atividades todo dia pontualmente às 18h18min. Dava para perceber como o tempo era escasso. Shatner, em seu espírito brincalhão (ele se vangloria de ter quatro vezes mais dopamina que um ser humano normal; a dopamina é um neurotransmissor responsável por controle de movimentos, aprendizado, humor, emoções, cognição, sono e memória), decidiu dar uns sumiços na bicicletinha de Nimoy. Num momento, ela estava acorrentada a um hidrante. Noutro, estava dentro do camarim de Shatner, guardada por seus dobermanns. Até no teto do estúdio a bicicleta foi amarrada. Quando Nimoy a prendeu em seu carro, Shatner mandou rebocar o carro. Apesar de tudo, e de algumas rusguinhas quando Spock ganhou um pouco mais de notoriedade, Shatner e Nimoy sempre foram grandes amigos e contavam muitas piadas enquanto eram maquiados de manhã cedo, para o desespero dos maquiadores.

Com a concentração exigida para interpretar Spock, Nimoy ficava “dentro do personagem” até fora das câmaras. Nosso ator até ficava aos risos com Shatner, mas chegava uma hora em que ele se segurava mais para não “perder o jeito de Spock” e só recuperá-lo durante a gravação. Por segurar tanto as emoções (vemos aqui como Spock “domina” Nimoy), Nimoy precisava extravasá-las em algum momento e fazia isso de forma reservada, sendo algo muito estressante. Mas, volta e meia, as emoções vinham como em momentos em que ele discutia com Roddenberry os rumos que a atuação do vulcano deveria tomar. Isso ajudou de certa forma a estremecer as relações entre Nimoy e Roddenberry, que ficaram mais profissionais do que pessoais. A presença de Spock em Nimoy foi tão forte que ele chegou a levar o vulcano para casa em alguns fins de semana. Certa vez, sua esposa perguntou se ele não queria ir ao cinema. Nimoy então perguntou qual o filme que ela queria ver. E ela disse que não tinha nenhum filme em que ela estivesse interessada em ver. Spock, quer dizer, Nimoy, disse então que era ilógico ir ao cinema. Ao que a esposa reclamou que ele bancava o Spock de novo…

No próximo artigo vamos falar do episódio “Tempo de Nudez”, que fez explodir a popularidade do vulcano. Até lá!

Kirk, Spock e McCoy. A famosa tríade

Batata Literária – A Agonia do Poeta Tímido

Hoje vou falar de um tema muito líquido

Que é a agonia do poeta tímido

O coitado usa o papel para expressar

Tudo aquilo que ele não consegue falar

Desde o sofrimento de uma paixão reprimida

Até o desconforto de não saber encarar a vida

Por isso, ele escreve sem parar

Mergulhando nas letras até se afogar

 

Esse poeta, além de não ter bom erário

Ainda vive todo solitário

Vaga pela cidade tal como um zumbi

Perambulando pelas ruas aqui e ali

Olha a beleza das moças por toda a parte

Mas não consegue usar sua arte

Para se aproximar delas

Só consegue viver com suas mazelas

 

Em meio a todo esse destempero

O pobre poeta entra em desespero

Ao constatar, de forma fatal

Que um dia a vida acabará, afinal

Ele não consegue aproveitá-la

E, no dia em que sua essência deixá-la

Virá a dor do arrependimento

Que ele levará para o além em novo tormento

 

Às vezes, o condenado se pergunta:

Por que tanto medo?

Por que você não se ajunta?

Por que tanto excesso de zelo?

Porém, não sabe as respostas

Só lamenta situações impostas

As situações da grandiosa timidez

Que vão ferrá-lo todo, de uma vez

 

Batata Movies – Liga Da Justiça. Mais Um Passo No Desenvolvimento Da DC.

                    Cartaz do Filme

A DC lançou mais uma de suas apostas para o upgrade de suas franquias e estreou o audacioso “Liga da Justiça”, onde foram apresentados novos super-heróis (leia-se Aquaman, Ciborgue e Flash). O negócio agora será fazer filmes solo para esse povo todo. Mas, por enquanto, esse filme mostra todo o rosário de super-heróis trabalhando em conjunto.

               Um Aquaman meio vaca brava

E qual foi o resultado de tudo isso? Creio eu que “Liga da Justiça” foi um bom filme, mesmo que tenha sido um pouco arrastado em alguns momentos (o mesmo aconteceu com o filme solo da Mulher Maravilha). Talvez isso aconteça, pois a pegada da DC é a de encarar o Universo de heróis com um pouco mais de seriedade e o clima fica mais pesado (me desculpem leitores, mas a comparação com a Marvel é inevitável). Tal clima atrapalha um pouco o processo de construção dos personagens. E eram vários personagens a serem apresentados, causando uma boa quantidade de micro-histórias que o espectador era obrigado a assistir, quando o público desse filme quer uma pegada maior de ação. Entretanto, não sejamos injustos. “Liga da Justiça” traz uma história instigante e é legal ver os heróis trabalhando em equipe ou se desentendendo, como aconteceu em alguns momentos. Cá para nós, as cenas de conflito foram muito mais interessantes que as cenas de trabalho em equipe, mas não dá para contar em detalhes aqui sem ser alvejado pelos caçadores de divulgadores de spoilers.

                          Um Flash engraçadinho

O que podemos falar dos novos heróis? Tivemos dois casos muito bons e um mediano. Aquaman foi uma grande surpresa, sendo um personagem muito carismático. Só me causaram estranheza (e grande curiosidade) dois fatores. Em primeiro lugar, por que um Aquaman de grandes cabelos e barba negra? A minha ignorância retumbante em quadrinhos me faz ver esse Aquaman mais com um visual de Deus Netuno. Cadê o louro de olhos azuis? Em segundo lugar, seu visual um tanto rústico me pareceu gerar também um Aquaman meio vaca brava, que salva os fracos e oprimidos e depois os arremessa contra o balcão de um bar e ainda toma uma branquinha (os mais maliciosos diriam que tem tudo a ver o Aquaman ser um pau d’água). Queria saber de onde vem esse visual e toda essa crueza.

                  Um Ciborgue mal aproveitado

Já o nosso Flash faz o papel do pós-adolescente deslumbrado com o meio dos super-heróis, uma fórmula que é repetida por aí (não vou falar o nome da Marv…, ops!). Mesmo não sendo algo muito original, esse Flash mais engraçadinho foi muito simpático e trouxe bons momentos de humor para a película, num ambiente pouco afeito a piadas. Assim, creio que o Flash foi uma ótima contribuição.

O mesmo não se pode falar do Ciborgue. Um homem atormentado por uma experiência um tanto frustrada, coordenada pelo próprio pai, tinha tudo para ser um ótimo personagem. Mas pareceu que a coisa ficou um tanto mal desenvolvida para ele, meio travada, mesmo que a Mulher Maravilha tenha descambado mais para seu lado mãezona com relação a ele. Esperemos que Ciborgue seja mais bem aproveitado e bem desenvolvido.

Num ponto podemos dizer que a DC acertou maravilhosamente. Ela deixou um lance totalmente escondido dos trailers e divulgações. Uma coisa que ficou guardada e que se revelou uma boa surpresa e um grande trunfo. Alguns podem até achar que essa carta na manga deveria ser usada num filme próximo, mas do jeito que ficou, creio que valeu a pena usar isso já nesse filme. Quem prestar um pouco mais de atenção nessas linhas deve entender do que estou falando. Só é pena que possa ter havido um furo de roteiro aí. Mas nada que atrapalhe muito.

Assim, “Liga da Justiça” é um bom filme que está mostrando a melhora progressiva das películas da DC. Se o filme solo da Mulher Maravilha já foi bom, “Liga da Justiça” traz algo a mais e a possibilidade de novas histórias e películas. Vá e, principalmente, não implique. E não deixe de desfrutar das duas cenas pós-créditos.